segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Literatura perde um de seus maiores expoentes

 
 
 
 
Morre José Saramago
(1922 - 2010) 
 
Aos 87 anos, falece o único escritor português a ganhar o prêmio Nobel de Literatura 
Monique Cardone    
 
 
Romancista, jornalista, dramaturgo e poeta, José Saramago morreu às 12h30 desta sexta-feira, em consequência de falência múltipla dos órgãos.
O escritor estava em sua casa, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Segundo o site oficial da Fundação José Saramago, o autor morreu estando
acompanhado pela família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila.
 
Luiz Schwarcz, editor e fundador da Companhia das Letras que publicava os livros de Saramago no Brasil, disse em seu blog como ficou sabendo
da morte do amigo.
 
"Acabo de ver o escritor José Saramago morto. Quando a notícia apareceu na internet, liguei pelo skype para Pilar (esposa do escritor), que sem
que eu pedisse me mostrou José deitado na cama, morto. Tenho falado com Pilar quase todos os dias. Sabia que não havia chance de recuperação,
o destino de José já estava traçado, os médicos não acreditavam mais na possibilidade de um novo milagre, como o do ano passado, quando
venceu, contra todas as expectativas, os problemas pulmonares que o acometiam", relatou Schwarcz.
 
José Saramago, além de ganhar o prêmio Nobel de Literatura (1998), é considerado responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em
língua portuguesa. Entre suas maiores conquistas também está o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em Portugal.
 
A ligação com o Brasil ficava evidente nas frequentes visitas ao país e nas amizades com o escritor Jorge amado, com o fotógrafo Sebastião
Salgado, com o músico Caetano Veloso e intelectuais, como Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras.
 
"Saramago era um amigo desde os anos 80. Uma boa e grande amizade que começou em 1981 quando nos conhecemos. Sempre acompanhei
o percurso literário dele, mesmo antes de conhecê-lo. Era um escritor excepcional," disse o historiador muito emocionado.
 
A admiração por uma das obras do escritor levou o cineasta brasileiro Fernando Meirelles a adaptar "Ensaio sobre a cegueira", que fala sobre
uma epidemia que torna cego os habitantes de uma cidade, para o cinema.
 
O Ministro da Cultura, Juca Ferreira, divulgou nota de pesar pelo falecimento do autor. "O escritor José Saramago mantinha relações privilegiadas
com o Brasil. Esteve presente em diversos eventos literários no país e se tornou muito popular antes mesmo de conquistar o Prêmio Nobel. Em
romances como "O Ano da Morte de Ricardo Reis", o Brasil faz parte das reflexões do grande escritor."
 
O autor português sempre teve muita ligação com a história, seja na vida pessoal, como em seus romancas. Em entrevista exclusiva à RBHN,
em 2008, o autor aconselhou aos historiadores: "A imaginação pode ajudar a aproximar do leitor matérias muitas vezes áridas".
 
A obra "A História do Cerco de Lisboa", publicado pela primeira vez em 1987, pode ser interpetrada como uma mistura de ficção e realidade.
No romance, Raimundo Silva, revisor de livros, introduz em um tratado de história (intitulado História do Cerco de Lisboa) um erro voluntário:
"os cruzados não ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa"; apenas inserindo a palavra "não".  Essa falha proposital muda os acontecimentos
do conto e, ao mesmo tempo, mostra a capacidade do escritor em modificar com facilidade o que estava consagrado historicamente. 
 
A história do cerco da capital de Portugal, que nos é ensinada na escola, acontece no ano de 1147 e envolve o processo de reconquista cristã
da península Ibérica quando os portugueses, com a ajuda das Cruzadas, tomaram a cidades dos mouros.
 
No decorrer do texto, os vários cercos vão caindo: tanto o histórico da cidade de Lisboa, como o vivido pelo personagem Raimundo. No romance,
Saramago escreve com habilidade e emoção entrelaçando literatura e história, como em "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo
Reis" e "Jangada de Pedra".
 
A história mundial também sempre teve interesse para Saramago e por causa de fatos históricos, como o fascismo e a censura em Portugal,
ele foi morar na ilha que fica no meio do Atlântico. A mudança foi motivada porque o livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991)
apresentava sua visão ortodoxa sobre o messias cristão e o livro foi proibido no país. Em 1992, o governo não inscreveu o romance no
Prêmio Literário Europeu porque considerou ofensivo aos católicos portugueses por comparar o nascimento de Jesus ao de qualquer
outro homem. E, assim, o escritor abandonou de vez a sua terra.
 
Os acontecimentos mais recentes também eram alvo das críticas do autor. E causou muitas polêmicas.  Em 2002, Saramago visitou a
Cisjordânia e no encontrou com Iasser Arafat comparou a ocupação israelense ao Holocausto de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra.
 
A última publicação de Saramago foi "Caim" (2009) que é um olhar irônico sobre o Velho Testamento e também foi alvejado pela Igreja.
Em sua passagem por Roma, em 2009, o autor chamou o Papa Bento XVI de "cínico" e disse que a "insolência reacionária" do catolicismo
precisa ser combatida com a "insolência da inteligência viva".
 
Além da saudade, o escritor deixa um legado importante para literários, históriadores e fãs de suas obras. Entre tantas relíquias estão os
romances "Terra do Pecado" (1947), "Manual de Pintura e Caligrafia" (1977), " Levantado do Chão" (1980), "Memorial do Convento" (1982),
"O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1986), "História do Cerco de Lisboa" (1989), "O evangelho Segundo Jesus
Cristo" (1991), "Ensaio Sobre a Cegueira" (1995), "Todos os Nomes" (1997), "A Caverna" (2000), "O Homem Duplicado" (2002),  Ensaio Sobre a
Lucidez (2004), "As Intermitências da Morte" (2005) e "A Viagem do Elefante" (2008) e "Caim" (2009).
 
 
http://rhbn.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=3119
 
Postado por Chez às 03:36, dia 18/06/2010

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Mais um dia ...

 
 

Pietra acordou e se deparou com uma manhã fria, mas em que estação estava? Há tempos não sabia exatamente que dia, mês e ano era o tempo presente, pois perdera também do sentido de sua existência. Acordar para quê? Era regida pela dor de uma existência marcada por perdas, traições, desconfiança, decepção, lutas inglórias.

Mas ela sabia que teria que se levantar, colocar, tal qual um palhaço, um sorriso artificial no rosto e seguir em frente. Mais um dia em que preferiria já ter morrido. E Deus sabia que estava viva não por falta de tentativa, mas todas em vão. Quem disse que morrer é fácil?

Olhava para o passado e via seus fantasmas, aqueles mesmos que a assombravam diariamente, numa busca incessante por um contato maior com os que realmente foram importantes em sua vida, mas se foram. E deixaram um rastro de dor, solidão e desesperança. Viver para quê? Por quê?

Olhava para os lados e via hipocrisia, mentiras, truculência, usurpação, farpas apontando em sua direção, além de muita tristeza. Sua vida se resumia em ocultar do mundo as feridas abertas em sua alma. Mas seguia ....

Levantou-se, brincou, riu, fez o que tinha que fazer. Mais um dia ...

Não tinha mesmo outra alternativa, se arrastaria por aquelas horas dolorosas ansiando pelo momento mágico de dormir. Ah, dormir! Palavra mágica que significava o grande anestésico de sua vida. Momentos de desligamento da realidade.

Ainda ouvia as palavras duras que à ela foram dirigidas durante toda a sua vida, ainda guardava a mágoa dos que a feriram e as dores das perdas. Perdas? Perdera tudo e todos. Estava só, aprisionada numa existência sem significado, sem alegrias, sem esperança.

Os livros! Ah, um bálsamo que sempre a acompanhou desde que, aos 5 anos, aprendera a ler. Já lera quase tudo: romances, clássicos, suspense, terror, contos, crônicas, biografias, política, História, ciências ocultas, psicologia, filosofias orientais e ocidentais. Mas tudo isso, mesmo sendo balsâmico, a fazia ser ainda mais introspectiva e adepta do pensamento, da análise e da certeza de que o existencialismo sartreano era a grande verdade, era a essência da vida. Camus, Sartre e outros mostravam que a vida é pura dor. E ainda havia aquela peste da Mildred, tão cruamente descrita em sua falta de amor e solidariedade, tão impregnada de interesses vis, por Somerset Maugham. É, não dá mesmo para ser diferente!

Mas algo havia mudado no mundo, e para muito pior. Pietra olhava para os lados e não mais via solidariedade, amizade verdadeira, companheirismo, segurança, respeito e amor. Ah, mais um dia ...

As horas passavam e ela continuava a fazer as coisas que normalmente tinha que fazer. Sim, tinha obrigação. Se não tivesse estaria numa cama, anestesiada por psicotrópicos, imersa num sono sem sonhos, numa morte temporária e, aí sim, com um sorriso sincero nos lábios.

Pronto, a noite chegou! Abençoada seja para sempre. Poderá silenciar os ouvidos, fechar os olhos, parar os pensamentos e penetrar na escuridão das trevas noturnas que a levaria para o único lugar no qual realmente quer estar: no NADA!

Era preciso aproveitar, pois o tempo voaria e logo estaria diante de mais um dia ....

 

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Mais um conto ...

 

Solidão

 

 Olá, meu caro.

             Anos, anos se passaram. Tempo bom aquele em que estávamos sempre juntos, compartilhando segredos, aventuras, paixões tão passageiras quanto um sopro do vento.

            E, hoje, estou aqui e me sinto tão sozinho como um grão de areia no oceano. Os anos me mudaram, me mostraram um lado da vida até então desconhecido, que, se eu tivesse escolha, eu continuaria sem saber que existia. Lembra aquela alegria, aquela felicidade só de saber que estava vivo? Pois é, o tempo tirou de mim da forma mais dolorosa possível. Ah! Como é doce a ilusão da juventude. Ilusão essa que não me acompanha há muito, meu caro.

            Bom, acho que, assim como eu, você também passou por diversas coisas, sejam elas boas ou ruins.

            Devo lhe dizer que conheci o inferno, no sentido mais terrível da palavra, com dores, perdas, desilusões. Ah! Tantos momentos de solidão, e o pior tipo de solidão que existe, aquela onde têm pessoas por perto, mas você se sente perdido, confuso e só.

            Bom, por enquanto, me resumirei a isso, mas, em breve, voltarei a lhe escrever, contando detalhes importantes de uma vida desimportante.

                                                                                 

                                                                                              Abraços.

                                                                                                             J.C

 

 

            Ao terminar de escrever sua carta, João Carlos levantou de sua escrivaninha e foi em direção à janela. Ao olhar para o céu, com um aperto no peito, lembrou-se de sua juventude, de sua família e amigos, todos a sua volta, sorrindo e felizes. "O que a vida era capaz de fazer a um homem?", pensava ele, em meio a seus devaneios.

            Depois de tudo que passara, João tornou-se muito sozinho, um pouco melancólico e uma pessoa bem desconfiada. Levava dentro de si todas as lembranças bem vivas, fossem elas boas ou ruins, e as vivia a cada instante: o sofrimento de perder seu pai, sua mãe e sua irmã em um acidente, a dor por ter sido abandonado e traído quando mais precisou de alguém e a tristeza infinita que nada nem ninguém conseguia tirar de dentro dele.

            Ele sempre se perguntava se alguma coisa valia a pena, se algo poderia compensar tudo aquilo, e sempre chegava a mesma conclusão: não, nada nunca irá amenizar a inquietude de sua alma.

            Pelo menos, ele ficava feliz por seu irmão não estar no mesmo acidente que lhe custou parte de sua família. Ele estava longe, viajando, quando tudo aconteceu, então não guarda as piores lembranças, como o desespero de todos no momento que viram o que ia acontecer, e leva uma vida mais feliz e isso, de certa forma, era reconfortante para João, e ele sabia que tinha alguém com quem poderia contar em todos os momentos, pois seu irmão sempre o apoiou., embora a distância entre eles prejudicasse um pouco.

            João saiu da janela e foi para a cozinha, bebeu um pouco de café e acendeu um cigarro. Há quanto tempo ele estava perdido? Há quanto tempo ele estava no escuro? Sentia-se tão só. Era sua própria companhia. Lágrimas brotavam em seus olhos enquanto esses pensamentos lhe vinham à cabeça.

            Há uns anos, ele se considerava um homem de sorte, satisfeito e completo. Ele tinha uma esposa por quem era apaixonado e ambos tinham uma vida boa. João sorria e era feliz ao lado dela. Ela lhe dava forças, e ele havia suportado a perda de sua família graças ao apoio dela. Porém, tudo desabou quando, há um ano, ele descobriu a farsa: ela tinha outro e o enganara durante muito tempo. Quando descobriu, seu mundo desabou, sua vida ficou vazia e ele se sentiu muito perdido. Nada do que ele fazia tinha sentido. Ele se sentia estranho em todos os lugares, sentia que não fazia parte de nada, até mesmo os lugares que sempre freqüentou. Eles se separaram e, com ela, havia ido toda a paz e alegria dele. Tudo que havia acontecido desmoronou sobre ele, e ele não tinha mais ajuda. Seus problemas caíram como uma bomba em sua cabeça, ele havia perdido os parentes há pouco tempo e agora, para completar, descobriu a traição da mulher. Como poderia ficar bem?

            Com esses problemas, João mudou de cidade. Embora soubesse que suas dores não seriam deixadas lá, achou que seria melhor tentar recomeçar.

            Sonhos, pensamentos, fotos, tudo o assombrava. João trabalhava em uma grande empresa, mas estava de férias, e tudo parecia cada vez pior. A intensidade de seus sentimentos confusos parecia aumentar a cada dia.

            Resolveu assistir televisão. Sentou no sofá e ligou. Passava por todos os canais e não encontrava nada: novela, desenho animado, programa de culinária, filme de terror. Desligou a TV. Sua vida já era um filme de terror, ele não precisava assistir para saber como era.

            Enquanto estava sentado, pensamentos invadiram sua cabeça: todos foram embora, todos os que estão vivos, estão longe, e eu estou aqui.

            Resolveu ligar para o irmão. Uma mulher atendeu, a esposa dele, e lhe disse que Roberto havia viajado e ela não sabia quando ele voltaria. Ele agradeceu e desligou o celular, mais triste.

            Caminhou para o seu quarto, deitou-se na cama e pegou o livro que tava lendo. Abriu e voltou sua atenção para a leitura, mas não conseguiu se concentrar. Pensamentos soltos surgiam em sua mente. "Será que estou enlouquecendo?", ele se perguntava enquanto palavras, frases, lembranças passavam em sua mente. João respirou fundo e foi até o banheiro. Ele estava com uma sensação estranha, como se alguém estivesse ali com ele. Ele sentia alguém perto, mas não havia ninguém. Olhou para o espelho e viu como havia envelhecido. A beleza de sua adolescência e a inocência de seu rosto na infância haviam sumido e dado lugar a um rosto maduro e triste. Lembrou-se de um poema de Cecília Meireles.

            Olhando para o espelho, João começou a ver sua infância e adolescência: o sorriso puro, um olhar amedrontado, um choro desesperado, seu crescimento extremamente prazeroso, o primeiro beijo, a primeira namorada, o sorriso de seu pai, de sua mãe e de sua irmã. De repente, sem nenhum aviso, sentiu uma dor cortante no estômago, sua cabeça rodou e a última coisa que viu foi algo ao seu lado. João caiu no chão. Havia acabado de morrer.

            Algum tempo depois, Roberto, irmão de João, estacionou seu carro na porta da casa do irmão, com um largo sorriso. Há muito tempo não se viam.

            Roberto desceu do carro e tocou a campainha, com o peito cheio de uma ansiedade misturada com felicidade. Ao perceber a demora do irmão, ele tocou mais uma vez a campainha. "Ele deve estar dormindo", pensou Roberto, sorrindo e pegou o seu celular para ligar para o irmão.

            Depois de chamar várias vezes, Roberto começou a ficar preocupado. Tocou a campainha, dessa vez com mais insistência e começou a gritar o nome do irmão, cada vez mais nervoso.

            Com medo de ter acontecido algo, ele resolveu chamar o corpo de bombeiros. O desespero começava a tomar conta dele.

            Depois de vinte minutos, eles chegaram. Roberto contou o que havia acontecido e acrescentou que o irmão não costumava sair de casa.

            Os bombeiros tocaram a campainha e chamaram João mais uma vez, mas logo decidiram arrombar a porta.

            Roberto foi o primeiro a entrar na casa. Correndo e gritando o nome do irmão por todos os lados, Roberto chegou ao banheiro. Ao entrar, um frio aterrorizante passou pelo seu corpo e ele deu um grito tão alto que parecia cortar a alma daqueles que ouviram. Os quatro bombeiros subiram e se depararam com Roberto chorando e chamando o irmão.

            Quando conseguiram retirar Roberto, começaram a examinar João e confirmaram que ele já estava morto desde antes da chegada deles ao local. Chamaram um perito.

            Enquanto o perito avaliava o corpo de seu irmão, Roberto sentou na escrivaninha, chorando como uma criança, com um desespero de dar agonia.

            Ao olhar para os papéis, Roberto reparou que havia algo escrito em uma folha, e viu que era uma carta. Ia pegar a folha quando um bombeiro entrou no quarto para informar que o corpo de seu irmão seria retirado do local naquele momento.

            Roberto acompanhou todos até a porta, mas apenas seu corpo estava ali. Seus pensamentos estavam na folha que tinha acabado de ver na escrivaninha de seu irmão.

            Ao voltar para o quarto, Roberto resolveu telefonar para sua mulher, com a intenção de informar o que acabara de acontecer. Com lágrimas caindo sem controle algum, ele contou tudo a ela, que disse que estava indo ao encontro do marido. Roberto agradeceu e desligou o telefone.

            Sentou-se novamente na escrivaninha de seu irmão e voltou sua atenção para a carta. Começou a ler. A cada palavra lida, Roberto se sentia muito mal. Foi um choque tão grande ler aquilo! Ele nunca soube como seu irmão se sentia. Ele era sempre tão misterioso, mas, aparentemente, feliz. Nunca ouvira queixas de João, nunca soubera o quão atormentado era ele. Não, ele nunca mostrara a ninguém.

            Aquilo deixou Roberto com uma sensação muito ruim, uma sensação de impotência, sensação de que ele fracassou com a única pessoa que restou para ele. A dor da perda se misturou ao sentimento de fracasso que ele sentia agora em relação a
João. Começou a chorar e a desejar sua vida como era antigamente, com toda a sua família por perto, com todos sempre juntos e unidos.

            Roberto respirou fundo e tentou se acalmar. De repente, começou a pensar na vida triste de seu solitário irmão, pensou no que acabara de descobrir sobre os verdadeiros sentimentos dele em relação à vida e começou a achar, embora isso não aliviasse em nada a sua dor, que o acontecido tinha sido o melhor para João, e, com um sentimento de conforto, imaginou João reencontrando seu pai, sua mãe e sua irmã, e desejou profundamente que isso estivesse acontecendo naquele momento.

            Roberto pensou no que viria pela frente e resolveu que era hora de sair dali e agir o que estava pendente.

            Fechou todas as janelas, organizou algumas coisas e saiu, trancando a porta.

            Entrou no carro e partiu, sabendo que deveria enfrentar tudo com força e coragem, mesmo que, por dentro, desejasse mesmo que alguém tivesse no seu lugar e resolvesse tudo por ele, e que ele estivesse longe daquilo, apenas sendo paparicado e amado, como em sua infância, durante os momentos difíceis.

 

Paula Vigneron Azevedo