quarta-feira, 28 de abril de 2010

Mais um dia ...

 
 

Pietra acordou e se deparou com uma manhã fria, mas em que estação estava? Há tempos não sabia exatamente que dia, mês e ano era o tempo presente, pois perdera também do sentido de sua existência. Acordar para quê? Era regida pela dor de uma existência marcada por perdas, traições, desconfiança, decepção, lutas inglórias.

Mas ela sabia que teria que se levantar, colocar, tal qual um palhaço, um sorriso artificial no rosto e seguir em frente. Mais um dia em que preferiria já ter morrido. E Deus sabia que estava viva não por falta de tentativa, mas todas em vão. Quem disse que morrer é fácil?

Olhava para o passado e via seus fantasmas, aqueles mesmos que a assombravam diariamente, numa busca incessante por um contato maior com os que realmente foram importantes em sua vida, mas se foram. E deixaram um rastro de dor, solidão e desesperança. Viver para quê? Por quê?

Olhava para os lados e via hipocrisia, mentiras, truculência, usurpação, farpas apontando em sua direção, além de muita tristeza. Sua vida se resumia em ocultar do mundo as feridas abertas em sua alma. Mas seguia ....

Levantou-se, brincou, riu, fez o que tinha que fazer. Mais um dia ...

Não tinha mesmo outra alternativa, se arrastaria por aquelas horas dolorosas ansiando pelo momento mágico de dormir. Ah, dormir! Palavra mágica que significava o grande anestésico de sua vida. Momentos de desligamento da realidade.

Ainda ouvia as palavras duras que à ela foram dirigidas durante toda a sua vida, ainda guardava a mágoa dos que a feriram e as dores das perdas. Perdas? Perdera tudo e todos. Estava só, aprisionada numa existência sem significado, sem alegrias, sem esperança.

Os livros! Ah, um bálsamo que sempre a acompanhou desde que, aos 5 anos, aprendera a ler. Já lera quase tudo: romances, clássicos, suspense, terror, contos, crônicas, biografias, política, História, ciências ocultas, psicologia, filosofias orientais e ocidentais. Mas tudo isso, mesmo sendo balsâmico, a fazia ser ainda mais introspectiva e adepta do pensamento, da análise e da certeza de que o existencialismo sartreano era a grande verdade, era a essência da vida. Camus, Sartre e outros mostravam que a vida é pura dor. E ainda havia aquela peste da Mildred, tão cruamente descrita em sua falta de amor e solidariedade, tão impregnada de interesses vis, por Somerset Maugham. É, não dá mesmo para ser diferente!

Mas algo havia mudado no mundo, e para muito pior. Pietra olhava para os lados e não mais via solidariedade, amizade verdadeira, companheirismo, segurança, respeito e amor. Ah, mais um dia ...

As horas passavam e ela continuava a fazer as coisas que normalmente tinha que fazer. Sim, tinha obrigação. Se não tivesse estaria numa cama, anestesiada por psicotrópicos, imersa num sono sem sonhos, numa morte temporária e, aí sim, com um sorriso sincero nos lábios.

Pronto, a noite chegou! Abençoada seja para sempre. Poderá silenciar os ouvidos, fechar os olhos, parar os pensamentos e penetrar na escuridão das trevas noturnas que a levaria para o único lugar no qual realmente quer estar: no NADA!

Era preciso aproveitar, pois o tempo voaria e logo estaria diante de mais um dia ....

 

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Mais um conto ...

 

Solidão

 

 Olá, meu caro.

             Anos, anos se passaram. Tempo bom aquele em que estávamos sempre juntos, compartilhando segredos, aventuras, paixões tão passageiras quanto um sopro do vento.

            E, hoje, estou aqui e me sinto tão sozinho como um grão de areia no oceano. Os anos me mudaram, me mostraram um lado da vida até então desconhecido, que, se eu tivesse escolha, eu continuaria sem saber que existia. Lembra aquela alegria, aquela felicidade só de saber que estava vivo? Pois é, o tempo tirou de mim da forma mais dolorosa possível. Ah! Como é doce a ilusão da juventude. Ilusão essa que não me acompanha há muito, meu caro.

            Bom, acho que, assim como eu, você também passou por diversas coisas, sejam elas boas ou ruins.

            Devo lhe dizer que conheci o inferno, no sentido mais terrível da palavra, com dores, perdas, desilusões. Ah! Tantos momentos de solidão, e o pior tipo de solidão que existe, aquela onde têm pessoas por perto, mas você se sente perdido, confuso e só.

            Bom, por enquanto, me resumirei a isso, mas, em breve, voltarei a lhe escrever, contando detalhes importantes de uma vida desimportante.

                                                                                 

                                                                                              Abraços.

                                                                                                             J.C

 

 

            Ao terminar de escrever sua carta, João Carlos levantou de sua escrivaninha e foi em direção à janela. Ao olhar para o céu, com um aperto no peito, lembrou-se de sua juventude, de sua família e amigos, todos a sua volta, sorrindo e felizes. "O que a vida era capaz de fazer a um homem?", pensava ele, em meio a seus devaneios.

            Depois de tudo que passara, João tornou-se muito sozinho, um pouco melancólico e uma pessoa bem desconfiada. Levava dentro de si todas as lembranças bem vivas, fossem elas boas ou ruins, e as vivia a cada instante: o sofrimento de perder seu pai, sua mãe e sua irmã em um acidente, a dor por ter sido abandonado e traído quando mais precisou de alguém e a tristeza infinita que nada nem ninguém conseguia tirar de dentro dele.

            Ele sempre se perguntava se alguma coisa valia a pena, se algo poderia compensar tudo aquilo, e sempre chegava a mesma conclusão: não, nada nunca irá amenizar a inquietude de sua alma.

            Pelo menos, ele ficava feliz por seu irmão não estar no mesmo acidente que lhe custou parte de sua família. Ele estava longe, viajando, quando tudo aconteceu, então não guarda as piores lembranças, como o desespero de todos no momento que viram o que ia acontecer, e leva uma vida mais feliz e isso, de certa forma, era reconfortante para João, e ele sabia que tinha alguém com quem poderia contar em todos os momentos, pois seu irmão sempre o apoiou., embora a distância entre eles prejudicasse um pouco.

            João saiu da janela e foi para a cozinha, bebeu um pouco de café e acendeu um cigarro. Há quanto tempo ele estava perdido? Há quanto tempo ele estava no escuro? Sentia-se tão só. Era sua própria companhia. Lágrimas brotavam em seus olhos enquanto esses pensamentos lhe vinham à cabeça.

            Há uns anos, ele se considerava um homem de sorte, satisfeito e completo. Ele tinha uma esposa por quem era apaixonado e ambos tinham uma vida boa. João sorria e era feliz ao lado dela. Ela lhe dava forças, e ele havia suportado a perda de sua família graças ao apoio dela. Porém, tudo desabou quando, há um ano, ele descobriu a farsa: ela tinha outro e o enganara durante muito tempo. Quando descobriu, seu mundo desabou, sua vida ficou vazia e ele se sentiu muito perdido. Nada do que ele fazia tinha sentido. Ele se sentia estranho em todos os lugares, sentia que não fazia parte de nada, até mesmo os lugares que sempre freqüentou. Eles se separaram e, com ela, havia ido toda a paz e alegria dele. Tudo que havia acontecido desmoronou sobre ele, e ele não tinha mais ajuda. Seus problemas caíram como uma bomba em sua cabeça, ele havia perdido os parentes há pouco tempo e agora, para completar, descobriu a traição da mulher. Como poderia ficar bem?

            Com esses problemas, João mudou de cidade. Embora soubesse que suas dores não seriam deixadas lá, achou que seria melhor tentar recomeçar.

            Sonhos, pensamentos, fotos, tudo o assombrava. João trabalhava em uma grande empresa, mas estava de férias, e tudo parecia cada vez pior. A intensidade de seus sentimentos confusos parecia aumentar a cada dia.

            Resolveu assistir televisão. Sentou no sofá e ligou. Passava por todos os canais e não encontrava nada: novela, desenho animado, programa de culinária, filme de terror. Desligou a TV. Sua vida já era um filme de terror, ele não precisava assistir para saber como era.

            Enquanto estava sentado, pensamentos invadiram sua cabeça: todos foram embora, todos os que estão vivos, estão longe, e eu estou aqui.

            Resolveu ligar para o irmão. Uma mulher atendeu, a esposa dele, e lhe disse que Roberto havia viajado e ela não sabia quando ele voltaria. Ele agradeceu e desligou o celular, mais triste.

            Caminhou para o seu quarto, deitou-se na cama e pegou o livro que tava lendo. Abriu e voltou sua atenção para a leitura, mas não conseguiu se concentrar. Pensamentos soltos surgiam em sua mente. "Será que estou enlouquecendo?", ele se perguntava enquanto palavras, frases, lembranças passavam em sua mente. João respirou fundo e foi até o banheiro. Ele estava com uma sensação estranha, como se alguém estivesse ali com ele. Ele sentia alguém perto, mas não havia ninguém. Olhou para o espelho e viu como havia envelhecido. A beleza de sua adolescência e a inocência de seu rosto na infância haviam sumido e dado lugar a um rosto maduro e triste. Lembrou-se de um poema de Cecília Meireles.

            Olhando para o espelho, João começou a ver sua infância e adolescência: o sorriso puro, um olhar amedrontado, um choro desesperado, seu crescimento extremamente prazeroso, o primeiro beijo, a primeira namorada, o sorriso de seu pai, de sua mãe e de sua irmã. De repente, sem nenhum aviso, sentiu uma dor cortante no estômago, sua cabeça rodou e a última coisa que viu foi algo ao seu lado. João caiu no chão. Havia acabado de morrer.

            Algum tempo depois, Roberto, irmão de João, estacionou seu carro na porta da casa do irmão, com um largo sorriso. Há muito tempo não se viam.

            Roberto desceu do carro e tocou a campainha, com o peito cheio de uma ansiedade misturada com felicidade. Ao perceber a demora do irmão, ele tocou mais uma vez a campainha. "Ele deve estar dormindo", pensou Roberto, sorrindo e pegou o seu celular para ligar para o irmão.

            Depois de chamar várias vezes, Roberto começou a ficar preocupado. Tocou a campainha, dessa vez com mais insistência e começou a gritar o nome do irmão, cada vez mais nervoso.

            Com medo de ter acontecido algo, ele resolveu chamar o corpo de bombeiros. O desespero começava a tomar conta dele.

            Depois de vinte minutos, eles chegaram. Roberto contou o que havia acontecido e acrescentou que o irmão não costumava sair de casa.

            Os bombeiros tocaram a campainha e chamaram João mais uma vez, mas logo decidiram arrombar a porta.

            Roberto foi o primeiro a entrar na casa. Correndo e gritando o nome do irmão por todos os lados, Roberto chegou ao banheiro. Ao entrar, um frio aterrorizante passou pelo seu corpo e ele deu um grito tão alto que parecia cortar a alma daqueles que ouviram. Os quatro bombeiros subiram e se depararam com Roberto chorando e chamando o irmão.

            Quando conseguiram retirar Roberto, começaram a examinar João e confirmaram que ele já estava morto desde antes da chegada deles ao local. Chamaram um perito.

            Enquanto o perito avaliava o corpo de seu irmão, Roberto sentou na escrivaninha, chorando como uma criança, com um desespero de dar agonia.

            Ao olhar para os papéis, Roberto reparou que havia algo escrito em uma folha, e viu que era uma carta. Ia pegar a folha quando um bombeiro entrou no quarto para informar que o corpo de seu irmão seria retirado do local naquele momento.

            Roberto acompanhou todos até a porta, mas apenas seu corpo estava ali. Seus pensamentos estavam na folha que tinha acabado de ver na escrivaninha de seu irmão.

            Ao voltar para o quarto, Roberto resolveu telefonar para sua mulher, com a intenção de informar o que acabara de acontecer. Com lágrimas caindo sem controle algum, ele contou tudo a ela, que disse que estava indo ao encontro do marido. Roberto agradeceu e desligou o telefone.

            Sentou-se novamente na escrivaninha de seu irmão e voltou sua atenção para a carta. Começou a ler. A cada palavra lida, Roberto se sentia muito mal. Foi um choque tão grande ler aquilo! Ele nunca soube como seu irmão se sentia. Ele era sempre tão misterioso, mas, aparentemente, feliz. Nunca ouvira queixas de João, nunca soubera o quão atormentado era ele. Não, ele nunca mostrara a ninguém.

            Aquilo deixou Roberto com uma sensação muito ruim, uma sensação de impotência, sensação de que ele fracassou com a única pessoa que restou para ele. A dor da perda se misturou ao sentimento de fracasso que ele sentia agora em relação a
João. Começou a chorar e a desejar sua vida como era antigamente, com toda a sua família por perto, com todos sempre juntos e unidos.

            Roberto respirou fundo e tentou se acalmar. De repente, começou a pensar na vida triste de seu solitário irmão, pensou no que acabara de descobrir sobre os verdadeiros sentimentos dele em relação à vida e começou a achar, embora isso não aliviasse em nada a sua dor, que o acontecido tinha sido o melhor para João, e, com um sentimento de conforto, imaginou João reencontrando seu pai, sua mãe e sua irmã, e desejou profundamente que isso estivesse acontecendo naquele momento.

            Roberto pensou no que viria pela frente e resolveu que era hora de sair dali e agir o que estava pendente.

            Fechou todas as janelas, organizou algumas coisas e saiu, trancando a porta.

            Entrou no carro e partiu, sabendo que deveria enfrentar tudo com força e coragem, mesmo que, por dentro, desejasse mesmo que alguém tivesse no seu lugar e resolvesse tudo por ele, e que ele estivesse longe daquilo, apenas sendo paparicado e amado, como em sua infância, durante os momentos difíceis.

 

Paula Vigneron Azevedo

 
 

domingo, 18 de abril de 2010

Um conto ...



Dor e luta

Ela estava parada ali há horas. Perdera a noção do tempo. Estava sozinha, isolada do mundo, imersa dentro de seus pensamentos e problemas. Ela queria fugir de tudo, fugir para algum lugar onde nunca ninguém a encontrasse. Ela queria correr, queria que alguém lhe desse colo e lhe dissesse que nada poderia atingi-la e ela seria sempre feliz, mas ela sabia que aquilo era apenas vontade e era impossível.

- Que horas são? – perguntou Alice a uma senhora que passava. Sua voz estava embargada, ela não sabia se era pelo choro ou pelo tempo que ficara sem falar.

- São sete e vinte, minha querida. – respondeu a senhora, com um sorriso simpático.

- Obrigada. – Ela tentou um sorriso, mas não conseguiu. A senhora ficou olhando um instante para seu rosto jovem e triste, e logo partiu, com uma alegria que parecia estranha, pois Alice não sabia como era mais sentir aquilo.

Ela respirou fundo e ficou olhando quem estava ali na praça, naquele momento. Havia muita gente: crianças, que brincavam, riam, andavam de bicicleta, que eram felizes; havia uns adolescentes andando de skate e conversando, um casal de namorados abraçado e outras pessoas, e ela estava ali há horas, alheia a tudo que acontecia a sua volta. Parecia ter estado sozinha durante aquele tempo todo, parecia que não fazia parte da vida que pulsava naquela praça.

Levantou e começou a caminhar. Sentiu suas pernas formigarem um pouco, mas não deu atenção a isso. Era tudo tão pequeno diante da vida, diante do que ela passava. Alice achava que a vida não passava de um jogo cruel, onde pessoas são tiradas de nós sem mais nem menos, sem que chegue alguém e diga: “Olha, hoje eu vou levá-la porque...”. Mas ela sabia que nada adiantaria, nenhum motivo tornaria aquilo mais leve, mais aceitável. Nada era aceitável.

Uma lágrima involuntária escapou de seus olhos e escorreu pela sua face. Alice a limpou, pois não queria que ninguém a visse chorando.

Enquanto caminhava, ela foi acometida por uma raiva tremenda, por um ódio anormal. Por que tinham feito isso com ela? Por que tinham levado a sua irmã, a sua companheira, para outro lugar?

- Ninguém pediu permissão, não podiam ter feito isso comigo. Maldito destino! – Alice chorava como uma criança e queria gritar, mas se controlava, falando baixo. Sabia que não adiantaria, que nada mudaria o que havia acontecido.

Caminhou por mais um tempo pelas ruas desertas, apenas com sua dor a acompanhando e a cortando por dentro.

Entrou na rua onde morava e avistou sua casa, mas não quis entrar. Naquele momento, queria ficar longe de tudo o que pudesse lembrar o que havia acontecido. Resolveu ir até um bar que havia ali perto e comprou uma lata de refrigerante. Avistou uma mesa vazia e se sentou ali, bebendo seu refrigerante.

Ana tinha 17 anos e morava com Alice. Desde pequenas, elas eram inseparáveis. Amigas para tudo, não havia um segredo de uma que a outra não soubesse.

Quando seus pais se separaram, elas se tornaram ainda mais amigas, mais unidas. Moravam com a mãe, mas, quando Alice tinha 14 anos e Ana tinha 7, sua mãe morreu e elas foram morar com o pai. Devido aos problemas que elas tinham com o pai, Alice e Ana foram embora de casa. Alice já havia se formado e trabalhava para manter a casa onde morava com a irmã. Elas eram tão felizes, tão amigas! Por que o destino havia pregado essa peça sem graça?

Uma lágrima caiu e Alice bebeu seu refrigerante.

Ana havia combinado de viajar com uns amigos, teria uma festa na casa de uma amiga, na praia. Ana foi com a aniversariante, Luísa, e seu pai, e iria ficar na casa dela. Ana estava muito feliz, pois havia ajudado a comprar tudo para a festa e ia um dia antes para ajudar nos preparativos.

Saiu de casa com um sorriso enorme, agitada e ansiosa para organizar tudo. Ela adorava preparar festas para os amigos, e aquela seria uma festa muito divertida, pois todos os amigos estariam lá.

Quando saíram, Alice lhe deu um abraço e desejou que a festa fosse boa. Ana entrou no carro, sorrindo, e deu um aceno para a irmã. Alice pegou suas coisas e saiu para o trabalho, feliz pela irmã.

Ao voltar do serviço, no final do dia, viu que tinham 20 ligações do celular da amiga de Ana, e entrou em desespero. Sabia que havia acontecido algo grave. Ligou para Luísa, tremendo.

- Luísa, o que aconteceu? – perguntou,desesperada.

- Ah, Alice... – Luísa começou a chorar e Alice ficou tonta, mas manteve a voz firme.

- O que houve? Fala agora! – ordenou, muito nervosa.

- Um acidente de carro. Estamos todos no hospital. Mas a Ana... – Luísa começou a chorar mais ainda. – A Ana está muito mal, Alice.

Alice sentiu suas pernas fraquejarem e puxou uma cadeira.

- Mal? Como assim? – perguntou, sem a menor vontade de ouvir a resposta. Luísa não conseguia falar, estava chorando muito. – Onde vocês estão? Eu vou encontrar vocês agora!

- Estamos na cidade, Alice, vem para cá. Estamos nesse hospital perto da casa de vocês, eu esqueci o nome dele...

- Estou indo.

Alice desligou o telefone, pegou a chave do carro e foi para o hospital.

Ao chegar lá, ligou do celular para o celular de Luísa, que lhe disse onde ela estava. Alice foi até o quarto e abriu a porta. Quando entrou, viu que um médico estava conversando com o pai de Luísa, que tinha apenas alguns cortes nos braços e no rosto. Viu que Luísa também estava machucada, com o braço esquerdo engessado.

- A outra menina... é sua filha também? – perguntou o médico, com uma expressão indecifrável.

- Não, é amiga da minha filha. – respondeu

- Onde está a família dela?

- Eu sou a irmã. – respondeu Alice, tremendo.

O médico olhou Alice, e respirou fundo. Ela estava cada vez mais apavorada, não sabia o que estava havendo, não sabia de nada. Os olhares direcionados a ela estavam fazendo com que ela ficasse cada vez mais desesperada.

- O que ta acontecendo, doutor? Pode me explicar? Cadê a Ana? Ela está bem? – ela disparou uma pergunta atrás da outra. Nem ela estava se entendendo mais.

- Olha, a sua irmã, no acidente, bateu a cabeça e sofreu um traumatismo craniano. Ela está em coma, não está bem.

Alice começou a chorar, desesperada. Mas como? Ela estava tão bem antes de sair, como havia acontecido aquilo? Não, não era possível... não pode, é impossível. “Ela está bem, não é, doutor? Isso não passa de um engano. Você se enganou. Ela está bem, está me esperando lá fora, não é? Eu sei, ela está louca para me contar as novidades da festa, ela adora isso, ela está me esperando...” Seus pensamentos ficaram cada vez mais confusos, e a última coisa que ela viu foi uma sombra negra que tomou conta do lugar.

- Alice, Alice? – chamava Luísa, nervosa.

- Mas o que...? – de repente, ela se lembrou de tudo o que estava acontecendo. Lembrou-se de tudo, enquanto, na verdade, queria mesmo esquecer tudo, queria que alguém lhe dissesse que tudo era mentira.

Levantou-se e olhou a sua volta. A mãe de Luísa também estava no quarto, olhando-a com uma piedade amedrontadora. Olhou mais uma vez e percebeu que o médico não estava mais lá.

- Onde está o médico?

- Ele foi ver a Ana... vieram chamá-lo aqui. – respondeu a mãe de Luísa, com lágrimas nos olhos.

Nesse momento, o médico entrou no quarto, mais uma vez com a expressão indecifrável, cada vez mais sombrio.

- Doutor, e a minha irmã?

- Bem, senhorita... – ele respirou fundo – Lamento, mas sua irmã não resistiu.

Alice perdeu o ar que lhe restava, e começou a chorar desesperadamente. “Lamento, mas sua irmã não resistiu”. Essas palavras latejavam em seus ouvidos, pareciam facas cortando a sua alma. “Como não? Ela tem que resistir, ela não pode ir embora, ninguém pode levá-la de mim. Não pode, não é pra ser assim, não é possível. Ninguém tem o direito de levá-la de mim. Sem minha permissão?” Em meio a pensamentos incontroláveis, Alice pegou sua bolsa e saiu andando pelas ruas.

Depois de organizar seus pensamentos, Alice voltou ao hospital para agir o que deveria e resolveu que não haveria cerimônia de nada. Não queria prolongar sofrimento, queria que ficasse a lembrando de uma Ana alegre, como ela sempre fora.

Havia uma semana que isso acontecera, e, desde então, Alice perdeu o chão. Trabalhava por trabalhar, nada mais a interessava, ninguém fazia diferença. Uma semana. Alice não sabia dizer se a semana passara rapidamente ou se tinha demorado. Sabia apenas que a dor crescia mais a cada dia e nada era capaz de curá-la.

Pagou a latinha de refrigerante que tinha bebido e foi para casa. Ao entrar, seu coração ficou apertado e lágrimas brotaram em seus olhos, mas ela sabia que não poderia mais fugir, que teria que enfrentar a dura realidade. “Se a vida vai ter que ser assim, de agora em diante, é melhor eu me acostumar a ser sozinha, a me ter como companhia.”.

Acendeu a luz da sala e foi direto para o banheiro. Tomou um banho lento, demorado, sentindo cada gota d’água atingir seu corpo. Percebendo cada sensação, tentando distrair sua cabeça com qualquer coisa, com qualquer bobeira ou sensação.

Ao terminar, foi para o seu quarto e mudou de roupa. Olhou pela janela, tomando consciência do mundo a sua volta, das pessoas que por ali andavam. Olhava para cada uma delas e não podia dizer absolutamente. Achou estranho olhar para elas e nem desconfiar o que cada um levava dentro de si, as dores de cada um, sem saber nada sobre ninguém. Olhou o relógio, eram nove horas. Apagou as luzes e deitou. Resolveu que iria tentar melhorar, resolveu que ia viver cada momento como se fosse o último, mesmo com toda a dor e toda a saudade que nunca abandonariam sua alma.

Paula Vigneron