sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Em busca do povo brasileiro: do CPC à era da TV


Brasilidade encarnada: artistas da revolução
Marcelo Ridenti


Este artigo vem apresentar meu livro Em busca do povo brasileiro: do CPC à era da TV (Rio de Janeiro: Record, 2000). O título decorre de uma hipótese que permeia todos os capítulos: nos anos 1960 e início dos 70, nos meios artísticos e intelectualizados de esquerda, era central o problema da identidade nacional e política do povo brasileiro, na busca da ruptura com o subdesenvolvimento, típico de uma espécie de desvio à esquerda do que se convencionou chamar ultimamente de "era Vargas", caracterizada pela aposta no desenvolvimento nacional com base na intervenção do Estado (1). Esse tema foi-se diluindo ao longo dos anos, especialmente após o fim da ditadura civil-militar. Com a mundialização da economia e da cultura, que atingiu diretamente a sociedade brasileira nos anos 90 - especialmente nos governos neoliberais de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, que se propuseram a enterrar a "era Vargas" -, voltaram à tona velhas questões mal-resolvidas sobre a identidade nacional do povo brasileiro. Nessa medida, o estudo de aspectos do passado recente talvez possa contribuir para lançar um pouco de luz nos debates do presente.

O livro trata sobretudo dos anos 60 e início dos 70, mas também arrisca sugerir alguns desdobramentos do engajamento de artistas e intelectuais daquele período nos anos seguintes. Por isso, um outro título possível poderia ser: Do CPC a FHC. Trata-se de um objeto que, além de fascinante e polêmico, é muito vasto e complexo, o que me anima a continuar pesquisas que dêem continuidade ao livro.

Seis capítulos compõem o livro: no primeiro, são expostos aspectos da constituição do romantismo revolucionário nos meios intelectualizados da sociedade brasileira nos anos 60 e início dos 70, marcados pela utopia da integração do intelectual com o homem simples do povo. Esse tipo de romantismo marcou as artes, as ciências sociais e a política no período.

O conceito de romantismo revolucionário foi adotado não para colocar uma espécie de camisa de força na diversidade dos problemas estudados, mas como fio condutor para compreender o movimento contraditório da diversificada ação política de artistas e intelectuais inseridos em partidos e movimentos de esquerda, enraizados socialmente sobretudo nas classes médias. Adoto o conceito no sentido proposto por Michael Löwy e Robert Sayre, para quem "o romantismo apresenta uma crítica da modernidade, isto é, da civilização capitalista moderna, em nome de valores e ideais do passado" (1995: p. 34). Dentre os diversos tipos de crítica romântica ao capitalismo, haveria um "romantismo revolucionário e/ou utópico", com o qual Löwy e Sayre estão identificados, particularmente na sua vertente marxista, que estaria presente também em autores como Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Henri Lefebvre, E. P. Thompson, Raymond Williams e outros, sem contar o forte componente romântico da obra de Marx e Engels, esquecido pelo marxismo oficial da II e da III Internacional (1995: p.125).

O segundo capítulo mostra aspectos do romantismo na tradição cultural do Partido Comunista, o mais significativo e influente da esquerda brasileira até 1964. A partir de meados dos anos 1950, sob a influência das denúncias de Krushev acerca dos crimes de Stálin no XX Congresso do Partido Comunista da URSS, da consolidação da "democracia populista" e do florescimento de movimentos populares no Brasil, foram ocorrendo mudanças de rumo no PCB, em particular na esfera cultural, com o abandono do zdanovismo e a proposição de uma arte nacional-popular. Essas mudanças permitem visualizar certos traços românticos nos setores culturais do Partido, raramente perceptíveis nos documentos políticos oficiais, mas evidentes na prática e nas formulações diferenciadas entre si de seus militantes do campo artístico e intelectual.

Havia também leituras apenas progressistas e modernizadoras do nacional-popular - sem referência ao resgate do passado -, as quais não podem ser caracterizadas como românticas. Entretanto, no conjunto das atividades culturais, intelectuais e também políticas do pré-1964, quase sempre a utopia do progresso revolucionário ligava-se à busca romântica das autênticas raízes nacionais do povo brasileiro - e isso vale para toda a esquerda, não só para o setor cultural do PCB, ao longo dos anos 60. Tratava-se de buscar no passado uma cultura popular autêntica para construir uma nova nação, com uma modernidade alternativa à capitalista.

O terceiro capítulo destaca grupos de esquerda, depois de 1964, como as dissidências do PCB e os trotskistas, sempre vinculando sua atuação com a ebulição cultural do período, com ênfase na participação de artistas em suas fileiras. Seria um equívoco qualificar esses grupos - e o próprio PCB - de passadistas. Ao contrário: para eles, retrógrada era a ditadura militar, apoiada por latifundiários, imperialistas e setores empresariais, a quem interessaria manter o subdesenvolvimento nacional. Tratava-se, portanto, de pontos de vista modernizantes, que só podem ser chamados de românticos na medida em que a alternativa de modernização passava por certa idealização nostálgica do povo brasileiro - que variava de grupo para grupo.

Para pensar o movimento cultural de esquerda a partir dos anos 60, foram tomados como referenciais os compositores mais conhecidos e influentes politicamente da recente música popular brasileira - quer pelo talento, quer pela presença freqüente nos meios de comunicação de massa e pela inserção privilegiada na chamada indústria cultural -, Chico Buarque e Caetano Veloso. Eles jamais foram militantes políticos; entretanto, suas trajetórias artísticas e políticas até os dias de hoje só podem ser compreendidas a partir das origens na cultura política brasileira dos anos 50 e 60, marcada pela luta contra o subdesenvolvimento nacional e pela constituição de uma identidade para o povo brasileiro.

Seria cabível tomar como parâmetro a obra e o pensamento de muitos outros artistas brasileiros, marcados pelo florescimento cultural dos anos 50 e 60, como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, José Celso Martinez Corrêa, Augusto Boal, Vianinha, Ferreira Gullar, Antonio Callado, Hélio Oiticica e dezenas de outros - inclusive alguns que tiveram militância direta em organizações de esquerda, como os artistas plásticos Sérgio Ferro e Carlos Zílio, além de outros tantos mencionados nos primeiros capítulos da tese -, talvez até melhores artistas que Chico Buarque e Caetano Veloso, que não obstante foram escolhidos por sua popularidade ímpar, geradora de ampla influência cultural e política, difusa socialmente desde os anos 60.
 
A obra de Chico Buarque é paradigmática do romantismo revolucionário presente em setores da esquerda intelectual, artística e político-partidária, ao passo que o tropicalismo e particularmente as intervenções de Caetano Veloso têm um forte componente crítico do romantismo comunista, embora talvez possam ser considerados românticos por outra via. Contudo, vale reafirmar, o universo em que se movem ambos os autores é o da geração intelectual politizada nos anos 50 e 60, comprometida com o desenvolvimento nacional e a constituição de um povo brasileiro autônomo.

O quarto capítulo toma como referencial uma leitura do romance de Chico Buarque, Benjamim (1995), para fazer um balanço da dimensão sócio-política no conjunto das obras do autor, produzidas entre os anos 60 e os 90, período revisitado em Benjamim. O romance recoloca e atualiza o "lirismo nostálgico" e a "crítica social", paralelamente ao esvaziamento da "variante utópica" da obra de Chico Buarque, expressando a perplexidade da intelectualidade de esquerda às portas do século XXI.

O quinto capítulo trata da brasilidade de Caetano Veloso, figura mais conhecida do movimento tropicalista em 1967 e 68, e seu herdeiro de maior destaque junto ao público até hoje. A hipótese sugerida vai na contracorrente das idéias dominantes sobre o tropicalismo: esse movimento traz as marcas da formação político-cultural dos anos 50 e 60; isto é, o tropicalismo não foi uma ruptura radical com a cultura política forjada naqueles anos, apenas um de seus frutos diferenciados, modernizador e crítico do romantismo nacional-popular, porém dentro da cultura política romântica da época, centrada na ruptura com o subdesenvolvimento nacional e na constituição de uma identidade do povo brasileiro, com o qual artistas e intelectuais deveriam estar intimamente ligados. Ao encerrar o ciclo participante, o tropicalismo já indicava os desdobramentos do império da indústria cultural na sociedade brasileira, que transformaria a promessa de socialização em massificação da cultura, inclusive incorporando desfiguradamente aspectos dos movimentos culturais contestadores dos anos 60, como o tropicalismo e o nacional-popular.

Por fim, procura-se apontar no sexto capítulo o refluxo e alguns desdobramentos da herança do romantismo revolucionário de artistas e intelectuais na sociedade brasileira a partir dos anos 70, até chegar a uma certa recuperação em nossos dias das antes quase esquecidas idéias de povo, Estado-nação e raízes culturais, até como reação ao ímpeto transnacionalizante neoliberal.

As fontes de análise foram várias: uso da farta bibliografia disponível, levantamento de material publicado em jornais e revistas (Estudos Sociais,Brasiliense, Civilização Brasileira, Vozes, Opinião, Movimento, Pasquim,Arte em Revista, Voz da Unidade, Em Tempo, Teoria & Debate, Veja,Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e outras), realização exclusiva para a pesquisa de inúmeras entrevistas com artistas e intelectuais - trinta delas foram transcritas e mais diretamente utilizadas -, depoimentos de intelectuais e artistas aos meios de comunicação e a outros autores (particularmente a Antonio Albino Canelas Rubim, que me cedeu algumas entrevistas inéditas de que dispunha), além de muitas obras produzidas no período, como discos, romances, poemas e filmes.

O livro não tem pretensões teóricas no campo da estética. Ele se insere no terreno da sociologia, mas dentro da tradição que vê uma unidade interdisciplinar nas ciências humanas. Ou seja, o objeto da análise é a inserção política dos artistas e intelectuais de esquerda na sociedade brasileira, pelas suas declarações à imprensa, participação em partidos e campanhas políticas, até mesmo pelo conteúdo e pela forma de suas obras, ainda que a análise não passe pelos critérios do que vem a ser a beleza estética. Nesse sentido, faço minhas as palavras de Janet Wollf: "não tentarei lidar com a questão do valor estético. Não sei a resposta para o problema da 'beleza' ou do 'mérito artístico', apenas afirmarei que não acredito que isso seja redutível a fatores políticos e sociais" (1993: p.7).

O centro da pesquisa é a atuação política dos artistas, a qual nem sempre tem correspondência imediata com suas produções - autores reacionários politicamente são por vezes autores de obras-primas que exprimem as contradições de uma época. Apesar disso - especialmente para a geração de artistas que se consideravam revolucionários nos anos 60, vinculando indissociavelmente sua vida e sua obra -, parece não ser fora de propósito analisar tanto os depoimentos, como as ações e as obras para melhor entender a inserção política e social de seus autores, ainda mais quando eles explicitamente fazem reflexões sobre a sociedade brasileira por intermédio de suas criações, mesmo que sem as reduzir a isso. Esse último aspecto, por certo controverso, merece ainda algumas observações.

Não se trata de fazer uma abordagem reducionista do campo estético, como se a obra de arte fosse imediatamente identificável com uma única mensagem política, que se veicularia pelas artes. Tampouco caberia o simplismo do marxismo vulgar, que em tudo vê o reflexo do "econômico", reduzindo as criações artísticas a elementos da "superestrutura" ideológica e política, determinada pela "infraestrutura" econômica.

Nos limites do trabalho proposto, não está em foco propriamente o valor intrínseco da obra de arte, mas sua temporalidade, vale dizer, a história de uma sociedade numa dada época pode ser contada também pela produção cultural.

Cientistas sociais identificados com o materialismo dialético - que pretendem analisar a sociedade historicamente, como totalidade contraditória em movimento - devem suspender o "dado para focalizar o modo de uma sociedade constitui-se como um dar-se", segundo Giannotti (1983: p.268). Aos que pretendem superar o dado, questionando-o pelas raízes, para captar o movimento da sociedade enquanto todo contraditório, cabe pensar a produção artística de uma época como indissociável de sua história social e política. Isso não significa recusar a especificidade das artes, nem reduzi-las a reflexo da economia política. Mas implica questioná-las como dado a-histórico.

Como o texto já vai deixando evidente, algumas proposições de fundo estão expressas ou latentes ao longo do livro:
1. Apesar das diferenças entre as várias ideologias e facções de esquerda a partir dos anos 60, surge ao menos uma permanência para artistas e intelectuais engajados: tem sido central para eles, ainda que diferenciadamente, a questão da identidade nacional do povo brasileiro, associada à ruptura do subdesenvolvimento.


2. O espírito revolucionário dos anos 60 e início dos 70 na sociedade brasileira - da luta da esquerda armada às manifestações político-culturais na música popular, no cinema, no teatro, nas artes plásticas e na literatura - pode ser caracterizado pelo conceito de romantismo, formulado por Löwy e Sayre, particularmente pelo que chamam de romantismo revolucionário.


3. A difusão pelo meio artístico de um diversificado ideário crítico da ordem estabelecida na sociedade brasileira, sobretudo a partir dos anos 60, explica-se não só pelo "traumatismo ético-cultural e político-moral" provocado em certos intelectuais pela realidade capitalista em determinadas conjunturas (na expressão de Löwy, 1979) - situação que Berman chamou de "cisão fáustica" de intelectuais de países subdesenvolvidos (1986) - mas também pela nova função das classes médias e de suaintelligentsia, na tradução e na articulação entre os interesses particulares e os públicos (Oliveira, 1988).


4. Pode-se acompanhar pelas declarações, pela atuação política e até mesmo pelas obras de diferentes artistas, os debates e as divergências no seio da esquerda brasileira a partir dos anos 60, inclusive a virada do eixo temático predominante no seu interior, que foi aos poucos deixando de ser o da revolução, para tornar-se o da democracia e cidadania.
Enfim, o livro retoma o florescimento cultural revolucionário dos anos 60, e posterior refluxo: CPC, Cadernos do Povo Brasileiro, Cinema Novo, Teatros Arena, Oficina e Opinião, Revista Civilização Brasileira e outras, literatura e MPB engajadas, mostras contestadoras de artes plásticas, tropicalismo, grupos teatrais alternativos, resistência à censura e à ditadura, exílios, mortes e prisões, concomitantes à incorporação do trabalho de artistas e intelectuais pela indústria cultural, especialmente a televisão - sempre mostrando as afinidades eletivas entre as organizações de esquerda e o mundo da cultura em sentido estrito.

Dito isso, convido os leitores para o debate que o livro enseja, sobre a revolução brasileira e o "ensaio geral de socialização da cultura".

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Marcelo Ridenti é professor do IFCH da Unicamp e autor de O fantasma da revolução brasileira (São Paulo: Unesp, 1993) e Em busca do povo brasileiro: do CPC à era da TV (Rio de Janeiro: Record, 2000).
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(1) O termo "esquerda" é usado aqui para designar, numa formulação sintética, as forças políticas críticas da ordem capitalista estabelecida, identificadas com as lutas dos trabalhadores pela transformação social. Trata-se de uma definição ampla, próxima da utilizada por Gorender, para quem "os diferentes graus, caminhos e formas dessa transformação social pluralizam a esquerda e fazem dela um espectro de cores e matizes" (1987: p.7). Também Marco Aurélio Garcia trabalha com um conceito amplo de "esquerda", próximo do empregado aqui (1986: p. 194-195).

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Referências bibliográficas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia das Letras, 1986.

BUARQUE, Chico. Benjamim. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

GARCIA, Marco Aurélio (org.). As esquerdas e a democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra/Cedec, 1986.

GORENDER, Jacob. Combate nas trevas - a esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo, Ática, 1987.

GIANNOTTI, José A. Trabalho e reflexão. São Paulo, Brasiliense, 1983.

LÖWY, Michael. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.

LÖWY, Michael, e SAYRE, Robert. Revolta e melancolia - o romantismo na contramão da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1995.

OLIVEIRA, Francisco de. Medusa ou as classes médias e a consolidação democrática. In: O'DONNEL, G. & REIS, F. W. (orgs.). Dilemas e perspectivas da democracia no Brasil. São Paulo: Vértice, p.282-295, 1988.

VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Cia das Letras, 1997.

WOLFF, Janet. The social production of art. 2a. ed. Londres: MacMillan, 1993.

Especial para
*Gramsci e o Brasil*

Benjamin ... Chico Buarque ..adapatação cinematográfica

 
O curioso caso da adaptação de Benjamin

A mudança da linguagem literária para a linguagem cinematográfica por si só exigiria uma série de modificações que compensassem as limitações de cada linguagem. Pois sabemos que, a narrativa literária acessa de forma mais ágil a subjetividade dos personagens, e tem mais facilidade em dissertar idéias e sublimar pensamentos e emoções, enquanto na narrativa fílmica os pensamentos, os fluxos de consciência só podem ser sugeridos por meio da "câmara subjetiva" que se aproxima ao máximo dos atores, na tentativa de capturar nuances de estados psicológicos por meio da interpretação. Outra forma que narrativa fílmica utiliza para expressar estados subjetivos é transformando pensamentos em diálogos, ou raramente o recurso do voice-over, isto é, uma fala narrando por cima das imagens. Além disso, a narrativa fílmica pode ainda se valer da montagem, manejos de câmara e de trilhas sonoras e efeitos especiais para expressar seu conteúdo. Assim, o adaptador dispõe de liberdade para tentar resolver essas diferenças, e encontrar a melhor forma de transpor determinado conteúdo, de uma linguagem à outra. Dito isto, tentaremos perceber na adaptação cinematográfica do romance Benjamin diferenças que em um primeiro momento são inerentes a mudança de linguagem, e outras que resultaram de concepções ideológicas e intenções mercadológicos. O romance Benjamin de Chico Buarque conserva uma complexidade narrativa, comprometida deliberadamente com o fim "da cronologia, da motivação causal, do enredo e da personalidade" (ROSENFELD, 1985, p.85). Algo condizente com o estado de seus personagens, que apresentam uma individualidade prejudicada, à deriva do fluxo involuntário da memória, conservando incertezas e lacunas motivacionais que não se esgotam depois que o romance termina. E são exatamente estas incertezas e lacunas, tão importantes para a coerência do romance, que a adaptação cinematográfica de Monique Gardenberg tenta esclarecer e preencher numa tentativa de enquadrar o seu filme a uma seqüencialidade dramática. Para isso, Gardenberg insere diálogos e cenas inexistentes no romance, e principalmente altera a ordem dos acontecimentos, combinando-os dentro de uma causalidade, que o livro se esforça em quebrar.Deste modo, é preciso dizer que o enquadramento dramático presente no filme já não é conseqüência da adaptação em si, pois temos inúmeros exemplos de filmes que rompem essa técnica[1]. O que nos faz acreditar ser uma preferência de Gardenberg. Mais a frente, tentaremos entender os motivos desta preferência. Por enquanto vejamos como isto se procede. Chico Buarque opta por iniciar o seu romance pela morte do protagonista, quebrando com isso qualquer expectativa quanto ao desfecho; e sabotando qualquer encadeamento dramático, além disso, o narrador se aproveita do senso-comum de que, momentos antes de nossa morte vemos o filme de nossas vidas projetado, para estruturar sua narrativa num único flashback desconexo, que se passa num tempo não-convencional, na qual presente e passado aparecem amalgamados e embaralhados.Pois bem, na adaptação de Gardenberg, "a verdadeira morte" de Benjamin vai estrategicamente para o final, com isso, conserva o desfecho dramático; e se insere em vez disso um sonho, na qual Benjamin se vê fuzilado ainda jovem. Sendo que, esta "morte onírica" do protagonista no inicio do filme funciona apenas como presságio. E se no romance passado e presente se confundem, na adaptação eles são didaticamente divisados, inclusive marcados na própria textura fílmica, por meio da mudança de fotografia. Além do mais, antes dos flashbacks, os personagens param, e usa-se a "câmara subjetiva", que os focaliza em close, e as cenas do passado se inicia com todos congelados, não havendo como confundir os dois tempos.A conversão do romance Benjamin ao encadeamento dramático aos poucos modifica o conteúdo ideológico do texto de Chico Buarque, e altera significativamente o caráter dos personagens. Por ex. no romance Ariela Masé é tal como Benjamin, alguém com uma personagem oblíqua, confusa e complexa. Mas no filme, com inserção de elementos motivacionais, esta adquire uma condição análoga a uma garota de programa. Vejamos isto no livro: O chofer dá a partida e freia logo adiante, quando Alyandro vislumbra as pernas compridas de Ariela Masé, que parece equilibrar-se no meio-fio. (...) Ariela tencionava atravessar a rua, quando os guarda-costas a desviaram para dentro do caro de Alyandro. Ela nunca se acomodara antes em automóvel tão climatizado, tão forrado de couro e tão equipado como aquele (...) Sente no entanto que não deveria ter abandonado o banco duro do ônibus 479. (BUARQUE, 2004, p.122) Como percebemos, Ariela não escolhe deliberadamente deixar de se encontrar com benjamim para se encontrar com Alyandro, como fica parecendo no filme, no romance ela chega a pegar o ônibus para ir se encontrar com Benjamin, porém, o ônibus quebra. E Ariela desce apenas com a intenção de comprar um presente para Benjamin quando, casualmente, se depara com o comício; além disso, no trecho acima notamos que Ariela esboça uma certa dúvida entre ficar no carro de Alyandro ou voltar para o ônibus; mas acaba ficando. Alem disso, na adaptação é Alyandro oferece Ariela o ensaio fotográfico, enquanto que no romance esta é sugestão de Gambolo. No filme Alyandro exibe o presente ao lado de uma Ariela sorridente e insinuante, e a câmara se alterna em mostrar o presente e o sorriso de gratidão dela, e logo seguida Alyandro a beija. O mesmo acontece com Zorza, com o qual num primeiro momento Ariela se mostra relutante, até a câmara foca Zorza dano a ela um estojo com jóia, mas uma vez ela sorrir, e já sem nenhuma resistência e depois de ambos confessarem já serem casados, vemos na cena seguinte Ariela se entregando a Zorza. Além desses exemplos, temos ainda mais dois que merecem ser mencionados. O primeiro é o do estupro, que no romance aparece quase no final, mas que no filme antecipado, por meio do recurso flashback para o momento em que ela vai apresentar o imóvel a Alyandro, na tentativa de criar uma situação de causa e efeito, entre a fuga dela repentina para o banheiro e o seu medo de ser estuprada novamente. O outro exemplo é a antecipação do momento em que Jeovan e Ariela se conhecem, mostrada numa só seqüência, a trajetória que vai do primeiro encontro, passando pela cena do casamento (que não aparece no livro) até a cena em que o Jeovam é baleado. Essa antecipação esforça a dependência sentimental de Ariela ao marido, que somado com inserções de cenas inexistentes no romance, como a de Cantagalo lendo as cartas de Ariela para Jeovam, ligam, numa relação direta de causalidade, as execuções no sobrado verde a questões meramente passionais. No romance isto não fica bem claro, e o sobrado assim como a figura de Cantagalo aparecem como elemento transição entre a ditadura militar e a abertura democrática, sendo que a presença do grupo de extermínio comprova que a polícia continua a lançar mãos das mesmas práticas escusas do período militar, aliás não por acaso que as chaves do sobrado permaneça com Cantagalo, um militar aposentado, mas que continua na ativa, no que tange ao serviços extras de nossa polícia. Assim, por mais que a adaptação delegue liberdades em relação ao texto fonte, achamos que a modificações feitas por Monique Gardenberg em cima da obra de Chico Buarque tem como propósito deixar o filme mais assimilável ao grande público, com isso, ela reorganiza a matéria do romance, alterando sua seqüência, com intuito de enquadrá-lo numa técnica narrativa dramática, que por sua se filia a uma visão de mundo individualista, que ainda acredita na autonomia do sujeito. Dessa forma, no romance de Chico Buarque ainda encontramos personagens que ainda vivem sob influência da ditadura militar; como o protagonista Benjamin, um sujeito que tem sua individualidade danificada, pela culpa e pela expiação; que ainda não assimilou experiências traumáticas do passado, e por isso, sua memória, sem a razão instrumental do indivíduo autodeterminado, torna-se problemática e involuntária, algo condizente com a opção formal de Chico Buarque. Já na adaptação cinematográfica, esse passado obscuro, e que ainda não é totalmente passado, não é explorado, ou vira apenas pano de fundo para uma típica "história de amor trágico[2]", criando com isso, um objeto estético novo e ideologicamente diferente do primeiro, pois, escolhas estéticas nunca se isentam de escolhas ideológicas. Gerciano Maciel [1] Os exemplos vão desde filmes mais "comerciais" como Magnólia, 21gramas, Babel até exemplos mais clássicos, como E nós que nos amávamos tanto do diretor italiano Ettore Scola, filme este que semelhante ao romance de Chico Buarque se inicia pelo final, e é narrado voice-ove; além disso, no filme há varias cenas de "estranhamento" em que os personagens olham para câmara e se dirige diretamente ao espectador, fazendo a quebra da "ilusão realista". [2] Monique Gadenberg declara no making off do filme, que sua intenção era que o filme " fosse acima de tudo uma linda história de amor, foi assim que eu fiz."

postado por litera & crítica as 12:54:23 #