terça-feira, 2 de junho de 2009

Nos cárceres da ditadura militar brasileira - Frei Betto

Nos cárceres da ditadura militar brasileira - Frei Betto
      Escrito por Frei Beto
      sexta, 22 maio 2009
     
Eis um documento histórico, inédito, que esperou 36 anos para vir a público: trata-se do diário de prisão do frade dominicano Fernando de Brito, prisioneiro da ditadura militar brasileira, ao longo dos quatro anos (1969-1973) em que foi submetido a torturas e removido para diferentes cadeias. Fernando, em companhia de outros frades dominicanos, vivenciou algo inusitado em se tratando de presos políticos do Brasil: foi obrigado a conviver, durante quase dois anos, com presos comuns, em penitenciárias de São Paulo.

Assim como o "Diário de Anne Frank" nos revela a natureza cruel do nazismo, Diário de Fernando retrata o verdadeiro caráter do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Não se conhece similar entre as obras publicadas sobre o período.

Em papel de seda, em letras microscópicas, e sob risco de punição, Fernando anotava, dia a dia, o que via e vivia. Em seguida, desmontava uma caneta Bic opaca, cortava ao meio o canudinho da carga, ajustava ali o diário minuciosamente enrolado e remontava-a. No dia de visita, trocava a caneta portadora do diário com outra idêntica, levada por um dos frades do convento.
      O medo de ser flagrado pelos carcereiros e o risco permanente de revistas, fizeram com que Fernando muitas vezes se visse obrigado a destruir as memórias registradas em papel. No entanto, o que vivenciou jamais se esvaneceu, e ultrapassou os muros das prisões. Frei Betto, seu companheiro de cárcere, resgatou as anotações, deu-lhes tratamento literário e as reuniu neste livro que se constitui num documento de inestimável valor histórico.

Nos episódios relatados, a trajetória dos frades se mescla à de personagens que são, hoje, figura de destaque na história brasileira, como Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Caio Prado Jr., Apolônio de Carvalho, Paulo Vannuchi, Franklin Martins e Dilma Rousseff, para citar apenas alguns.
Para quem se interessa em conhecer a verdadeira face do regime militar e o Brasil dos "anos de chumbo", Diário de Fernando é um testemunho vivo, comovente, de uma de suas vítimas. Não se trata de investigação jornalística, nem resulta da pesquisa de historiador, mas sim de um sincero, emocionante e visceral relato de quem teve a ousadia de registrar, dia a dia, as entranhas de um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil.

Está tudo ali: as torturas, os desaparecimentos, o sequestro de diplomatas, as guerrilhas urbana e rural, a greve de fome de quase 40 dias, e também a convivência dos prisioneiros marcada por momentos de inusitada beleza: as festas de Natal, as noites de cantoria, a solidariedade inquebrantável entre eles.

Diário de Fernando traduz a saga de uma geração que não se dobrou à ditadura e a qual o Brasil deve, hoje, a sua redemocratização. Eis uma obra que enaltece a dignidade humana, a capacidade de resistência frente à opressão e a vivencia da fé cristã como nas antigas catacumbas do Império Romano.

      O autor:
      Frei Betto é considerado uma das vozes mais ativas na luta pela justiça social na América Latina. Escritor consagrado, vencedor de dois prêmios Jabuti, tem mais de 50 livros publicados no Brasil e no exterior, que refletem sua trajetória como militante político e talentoso ficcionista. Este é o quinto livro do autor publicado pela Rocco, que também editou Batismo de sangue, A mosca azul, Calendário do poder e A arte de semear estrelas.
     

FREI BETTO LANÇA LIVRO DIÁRIO DE FERNANDO - NOS CÁRCERES DA DITADURA MILITAR BRASILEIRA

Um grupo de frades dominicanos de São Paulo se engajou, na segunda metade da década de 60, na resistência à ditadura militar. Presos em novembro de 1969 por apoiarem movimentos de guerrilha urbana, em especial a Ação Libertadora Nacional (ALN), comandada por Carlos Marighella, os religiosos, após passarem pelo Deops (polícia política) de São Paulo e pelo Dops de Porto Alegre, transitaram, ao longo de quatro anos, por diferentes cárceres paulistas: Presídio Tiradentes, Operação Bandeirantes (Oban, futuro Doi-Codi), quartéis da Polícia Militar, Penitenciária do Estado, Carandiru (Casa de Detenção) e Penitenciária Regional de Presidente Venceslau. A tortura levou um deles, o Frei Tito de Alencar Lima, à morte. Os outros quatro, no entanto, nunca deixaram de denunciar as entranhas desse período. Mais um documento inédito e de inestimável valor histórico dessa via crucis vem a público agora, quatro décadas depois, com o livro Diário de Fernando - Nos cárceres da ditadura militar brasileira, relato do Frei Fernando de Brito sobre o período, que ganhou tratamento literário de Frei Betto.

A fé foi a arma de resistência de Frei Fernando de Brito em um ambiente hostil e desumano. Ao longo dos quatro anos em que passou por diversas prisões, o frei registrou o dia a dia no cárcere. Ele anotava em papel de seda, em letras microscópicas, o que via e vivia. Em seguida, desmontava uma caneta Bic opaca, cortava ao meio o canudinho da carga, ajustava ali o diário minuciosamente enrolado e remontava-a. No dia de visita, trocava a caneta portadora do diário com outra idêntica levada por um dos frades do convento.

O medo de ser flagrado pelos carcereiros e o risco permanente de revistas, fizeram com que Fernando destruísse muitas vezes suas memórias passadas para o papel. Daí, algumas imprecisões e lapsos narrativos podem ser notados ao longo da narrativa. As memórias que vivenciou, porém, jamais se esvaeceram, e ultrapassaram os muros das prisões. Frei Betto as resgatou e reuniu neste livro, dando aos relatos um tratamento literário.

Os frades prisioneiros sempre despertaram a desconfiança da repressão. Por isso, eles foram isolados dos demais prisioneiros políticos em meados de 1972, e transferidos para penitenciárias de presos comuns. Em muitos dos episódios relatados, a trajetória dos frades se mescla à de personagens que são, hoje, figura de destaque na história brasileira, como Caio Prado Jr., Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Apolônio de Carvalho, Franklin Martins e Dilma Rousseff, para citar apenas alguns.

Desde 2005, Frei Betto assumiu a tarefa de transformar os diminutos relatos de Fernando em livro. Livro este que não é resultado de uma investigação jornalística, nem de uma pesquisa de historiador, mas sim de um sincero, emocionante e visceral relato de uma das muitas vítimas da repressão da ditadura militar. Está tudo lá: as torturas de prisioneiros, colegas que desapareceram sem deixar vestígio, a desumanidade e monstruosidade dos algozes, as agruras físicas e psicológicas sofridas por Fernando de Brito e seus colegas de cárcere. A liberdade, depois de tanto sofrimento, mereceu apenas poucas linhas de seu diário, que desvenda ainda, de forma emocionante, a subjetividade desses jovens que não temeram sacrificar a própria vida pelo ideal de um Brasil mais justo, livre e democrático.

O autor: Frei Betto é considerado uma das vozes mais ativas na luta pela justiça social na América Latina. Escritor consagrado, vencedor de dois prêmios Jabuti, tem mais de 50 livros publicados no Brasil e no exterior que refletem sua trajetória como militante político e talentoso ficcionista. Este é o quinto livro do autor publicado pela Rocco, que também editou Batismo de sangue¸ A mosca azul, Calendário do poder e A arte de semear estrelas.

Editora Rocco