domingo, 31 de maio de 2009

HOMENAGEM AO POETA ANTONIO ROBERTO

OS PRATOS DA VOVÓ

A minha avó guardava, com alegria,
muitos pratos, lindíssimos, de louça
Que ganhou de presente, quando moça.
e que esperava usar quem sabe? um dia.

Mas a vida passando tão insossa
e nada de importante acontecia
e ninguém pra jantar aparecia
que compensasse abrir o guarda-louça.

Vovó morreu. Dos pratos coloridos
que hoje estão quebrados e perdidos
ela jamais usou sequer um só.

Assim também meus sonhos, tão guardados,
terão, por nunca serem realizados,
o mesmo fim dos pratos da vovó.

FELICIDADE

Quando "eu era feliz e não sabia",
- como diz o poeta, na canção –
aos meus desejos, sempre, com ironia,
o meu destino respondia: não.

E tudo o que eu sonhava, a cada dia,
sempre ficava além da minha mão.
Se era feliz quem tinha o que queria
eu nunca pude ser feliz, então.

Hoje, afogado na realidade,
relembro a minha infância, com saudade,
não por ter sido um tempo em que eu sonhei,

mas porque, ainda envolto em fantasia,
eu não era feliz e não sabia,
como hoje não sou...mas hoje eu sei.

Poeta e escritor – São Fidélis /RJ
Extraído do Livro os Pratos de Vovó

--(Postado em 11/20/2008 05:34:00 AM)

Fagundes Varela

NOTURNO
Fagundes Varela
Minh'alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!
Minh'alma é como a serpente
Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a doida que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro que rói-lhe o seio!
Minh'alma é como o rochedo
Donde o abutre e o corvo tredo
Motejam dos vendavais;
Coberto de atros matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!
Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!
Tombam as selvas frondosas,
Cantam as aves mimosas
As nênias da viuvez;
Tudo, tudo, vai finando,
Mas eu pergunto chorando:
Quando será minha vez?
No véu etéreo os planetas,
No casulo as borboletas
Gozam da calma final;
Porém meus olhos cansados
São, a mirar, condenados
Dos seres o funeral!
Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!
Quero morrer! Não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E, as asas brancas abrindo,
Perder-me pela amplidão!
Vem, oh! morte!
A turba imunda
Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!
Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?
Minh'alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Postado por Survivant às 16:56

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O Beijo da morte


O livro do Cony e Anna Lee se baseia nos fatos que levaram Carlos Lacerda, jango e JK à morte. Excelente!

Um romance-reportagem sobre a morte misteriosa de JK, Jango e Lacerda

Um homem obcecado pelo mistério das três mortes – teriam sido eles, os líderes da Frente Ampla, assassinados por uma conspiração política internacional? Para o Repórter, protagonista deste livro, é preciso desvendar a sucessão de casos obscuros da história. Em que circunstâncias morreram Juscelino Kubitschek , João Goulart e Carlos Lacerda ? Como as mortes ocorreram num espaço de tempo tão curto, quando os militares estavam no poder e os três políticos poderiam aglutinar as forças da oposição?

O Beijo da Morte é uma mistura de reportagem, depoimento e ficção – um livro em que a experiência real dos autores se funde com a trajetória do personagem inventado. O repórter deste romance-reportagem precisa esclarecer o mistério das três mortes – que de forma mais ou menos intensa, desde o final dos anos 70 e até hoje, sempre foram um enigma para os jornalistas que assinam este livro. Como explica Cony:

"Apesar das provas existentes, que dão como natural a morte dos três líderes, sempre duvidei das conclusões oficiais, e não apenas nesse assunto, mas na história em geral, que é uma sucessão de casos obscuros e mal resolvidos."

Um dos mais respeitados escritores brasileiros, eleito imortal da Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony é autor de 15 romances, além de inúmeras adaptações, ensaios biográficos e reportagens. Por duas vezes ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance e livro do ano, em 96 e 97. Por mais de um ano, dedicou-se a escrever O Beijo da Morte, com a jornalista Anna Lee.

Cony e Anna entrevistaram dezenas de pessoas, no Rio, em São Paulo, Brasília, Porto Alegre e Montevidéu. Examinaram habbeas-data e prontuários médicos. Como espinha dorsal do livro, usaram as primeiras matérias que o próprio Cony publicou sobre o assunto, a partir de 76.

O Beijo da Morte traz um caderno de anexos que destaca trechos de matérias como a da Justiça Argentina solicitando ao Governo brasileiro a exumação do corpo de Goulart; o depoimento de Júlio Vieira revelando que não notou nenhum tipo de indisposição do amigo e ex-presidente e o texto na íntegra do documento assinado por João Goulart e Carlos Lacerda em Montevidéo, em setembro de 1967, criando o movimento da Frente Ampla.



Operação Condor - Ditaduras se uniram para perseguir adversários



Vitor Amorim de Angelo*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Goulart, Lacerda e Kubitschek: vítimas da Operação Condor?

A Operação Condor foi uma aliança estabelecida formalmente, em 1975, entre as ditaduras militares da América Latina. O acordo consistiu no apoio político-militar entre os governos da região, visando perseguir os que se opunham aos regimes autoritários. Na prática, a aliança apagou as fronteiras nacionais entre seus signatários, que se articularam na repressão aos adversários políticos.

O nome do acordo era uma alusão ao condor, ave típica dos Andes e símbolo do Chile. Trata-se de uma ave extremamente sagaz na caça às suas presas. Nada mais simbólico, portanto, que batizar a aliança entre as ditaduras de Operação Condor. Não à toa, foi justamente o Chile, sob os auspícios do governo de Augusto Pinochet, quem assumiu a dianteira da operação.

Além do Chile, fizeram parte da aliança: Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Nos anos 1980, o Peru, já sob uma ditadura militar, também juntou-se ao grupo. Pode-se dizer que a operação teve três fases. A primeira consistiu na troca de informações entre os países-membros. A segunda caracterizou-se pelas trocas e execuções de opositores nos territórios dos países que formavam a aliança. A terceira fase ficou marcada pela perseguição e assassinato de inimigos políticos no exterior - muitas vezes no próprio exílio.

Calcula-se que, apenas nos anos 1970, o número de mortos e "desaparecidos" políticos tenha chegado a aproximadamente 290 no Uruguai, 360 no Brasil, 2 mil no Paraguai, 3.100 no Chile e impressionantes 30 mil na Argentina - a ditadura latino-americana que mais vítimas deixou em seu caminho. Estimativas menos conservadores dão conta de que a Operação Condor teria chegado ao saldo total de 50 mil mortos, 30 mil desaparecidos e 400 mil presos.


A participação do Brasil
O Brasil participou ativamente das duas primeiras fases da Operação Condor. Não há, contudo, evidências que comprovem seu envolvimento com o extermínio de adversários políticos fora da América Latina. O Brasil apoiou os golpes militares em pelo menos três países da região: Bolívia, em 1971; Uruguai, em 1973; e Chile, no mesmo ano. Já existiam, portanto, estreitas ligações entre as ditaduras latino-americanas.

A Operação Condor veio apenas reforçar os laços políticos e militares, reorientando a aliança entre os governos da região para a perseguição a seus opositores. Nesse sentido, um caso emblemático foi o episódio envolvendo o seqüestro de uruguaios em Porto Alegre, em 1978. Militares daquele país atravessaram a fronteira com o Brasil, com a anuência do governo brasileiro, para seqüestrar um casal de militantes de oposição ao governo uruguaio que estavam na capital gaúcha.

A operação teria sido um sucesso - como tantas outras - não fosse o fato de dois jornalistas brasileiros, após serem alertados por um telefonema anônimo, terem ido até o apartamento onde o casal morava. O envolvimento dos jornalistas acabou revelando a ação conjunta do Uruguai e do Brasil - e repercutindo internacionalmente o episódio. Em 1991, o governo gaúcho indenizou as vítimas daquela ação militar. No ano seguinte, o Uruguai também tomou a decisão de reparar os seqüestrados.


JK, Jango e Lacerda
Até hoje, uma das maiores controvérsias da Operação Condor em relação ao Brasil é a morte dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, e do ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Embora não existam provas que atestem o envolvimento do governo brasileiro na morte dos três políticos, os familiares de JK e Jango freqüentemente acusaram a participação da ditadura na morte dos ex-presidentes.

De tempos em tempos, parentes de Jango voltam aos jornais para acusar o governo militar de ter planejado e executado seu assassinato. Em 2008, o ex-agente do serviço de inteligência do governo uruguaio, Mario Neira Barreiro, disse em entrevista exclusiva à Folha de S.Paulo que espionou durante quatro anos João Goulart, e que ele foi morto por envenenamento a pedido do governo brasileiro.

Para investigar a morte dos dois ex-presidentes, o Legislativo chegou, inclusive, a instalar comissões especiais, que nunca conseguiram comprovar as teorias conspiratórias. Muito pelo contrário, os indícios, até agora, vão no sentido de comprovar que o Brasil não teve qualquer envolvimento com a morte de seus ex-presidentes, embora os dois episódios tenham ocorrido em circunstâncias estranhas na opinião de alguns observadores.

JK, Jango e Lacerda faleceram no espaço de menos de um ano. Em 1966, eles integraram a chamada "Frente Ampla", movimento de resistência à ditadura militar. Também por sua ativa participação no movimento oposicionista contra a ditadura, a morte dos três até hoje gera discussões quanto ao fato de terem ocorrido, ou não, sob as asas da Operação Condor.


*Vitor Amorim de Angelo é historiador, mestre e doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982)


Em Raízes do Brasil, de 1936, revelou o brasileiro cordial
Filipe Monteiro

Sérgio Buarque é um dos "Grandes intérpretes do Brasil", categoria especial cunhada por Antônio Candido que reflete bem a importância da vida e obra desse eminente historiador para o desenvolvimento do pensamento social brasileiro.
Desde cedo cultivou uma intensa colaboração com a imprensa. Foi editor da revista modernista "estética", escreveu para o Jornal do Brasil, foi correspondente dos Diários Associados na Europa. Mas nada disso o impediu de se tornar também uma referência no mundo acadêmico. Foi professor da USP e um dos responsáveis pela criação do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros). Organizou a obra clássica História Geral da Civilização Brasileira e escreveu diversos livros de grande repercussão como Caminhos e fronteiras (1957) e Visão do paraíso (1958).
Sua obra maior, Raízes do Brasil, foi publicada em 1936 e apresentou ao mundo pela primeira vez o "Homem Cordial". Apesar do nome, toda essa "cordialidade", inerente à formação do "tipo" brasileiro, segundo o autor, suscitou e suscita ainda hoje muitas discussões e debates dentro da academia. Intelectual engajado e polêmico, figura hoje como um dos grandes nomes de nossa historiografia.

As Raizes e seus frutos
Setenta anos depois de publicado, Raízes do Brasil mantém sua atualidade e revela o projeto maior de seu autor: examinar possibilidades, direções e limites da civilização no país
Fernando Novais

Atualmente, há uma tendência patente para desqualificar as grandes interpretações do Brasil, principalmente no que se refere aos três livros marcantes da "geração de 30" (Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda), os "Intérpretes do Brasil", como ficou registrado no ensaio clássico de Antonio Candido (prefácio à 5ª edição de Raízes do Brasil, 1969). Existem duas linhas que seguem esta tendência. Uma delas é a que aponta esses estudos como pouco importantes, pré-modernos e tradicionais, interpretações muito gerais, ultrapassados pela produção da universidade. A outra está ligada aos estudos sobre essas obras, muito em voga nestes dias, centralizados nas investigações sobre as inspirações teóricas presentes nos textos e afirmando a existência neles de ideologia – o que realmente existe – como demérito. Dessa forma, não avançamos muito na compreensão dessas obras e no aproveitamento de suas inspirações.
Ao tomarmos essas tendências dominantes, acabamos por perder certas características específicas da cultura brasileira. Uma delas é essa obsessão pela interpretação geral, presente em todos os momentos decisivos da História – na Independência, na República, na belle époque, na Semana de Arte, no Modernismo de 30. Neste sentido, há um bom exemplo, um intelectual paradigma da modernização: Florestan Fernandes, introdutor da sociologia moderna no Brasil. Depois de ter feito os trabalhos canônicos que fez na academia, ele produziu grandes livros, que culminam em A Revolução Burguesa no Brasil, cuja primeira edição foi publicada em 1975, e volta então à interpretação geral. A explicação que se dá não me convence. É de que ele foi perseguido, expulso, exilado, e voltou a fazer interpretação do Brasil por isso. É claro que isso teve importância – sofreu muito no exílio –, mas estou convencido de que, se tivesse continuado na universidade, também voltaria às interpretações globais.
O verdadeiro problema, o que fica escamoteado por essa rejeição, é pensar que a interpretação é tradicional e não extremamente moderna, como foram essas novas leituras do país a partir da segunda metade do século XX. Portanto, muitas vezes não se enxerga essa modernidade. O fato é que, no Brasil e em outros países, há essa obsessão pela interpretação, comum nos países latino-americanos, nos países periféricos de maneira geral. E tem sido uma tendência avassaladora da globalização dizer que essa prática não tem valor.
Pensando dessa maneira, estive tentando situar os três grandes autores e suas obras. Acredito que a peculiaridade, tanto em Gilberto Freyre quanto em Caio Prado Júnior, e sobretudo em Sérgio Buarque, é a idéia de definir o que é o Brasil, o que é o brasileiro; é a busca da identidade nacional. O que muda em 30, nesses três autores, é que o Brasil começa a ser visto a partir de dentro – e por dentro. Assinalamos isto, Maria Arminda do Nascimento Arruda e eu, na pequena introdução que fizemos ao "Dossiê Intérpretes do Brasil" (Revista da USP, nº 38, jun-ago., 1998).

Essa virada é clássica em Gilberto Freyre, e mesmo em Caio Prado – por isso ele é heterodoxo em seu marxismo. Por isso os marxistas ortodoxos achavam que ele não era bom marxista, porque realmente começa a ver o Brasil deste interior. E eu me lembro de uma entrevista que Caio Prado, pouco antes de morrer, deu à revista da Unesp, Transformação, em que um entrevistador perguntou por que ele, atuando em 1940, escrevia um marxismo não-ortodoxo, já que era membro do Partido Comunista, não ortodoxo. Ele deu a seguinte resposta: "O meu assunto sempre foi o Brasil. Eu adotei o marxismo porque acho que é um bom instrumento para entender o Brasil. Se eu chegasse à convicção de que não era, adotava outros instrumentos. O objeto vem antes do método para mim". É essa preeminência do Caio, e o que está presente em Gilberto Freyre; por isso ele também é um heterodoxo. No Sérgio Buarque, não. É diferente.

Raízes do Brasil explica o país de hoje?

Sérgio Buarque de Holanda ainda é atual? Raízes do Brasil pode ser usado para se entender o Brasil de hoje? A Revista de História foi à PUC-Rio, onde entrevistou quatro alunos do curso de graduação em História para saber o que eles acham de uma das principais obras da antropologia brasileira.

André Luis Campos Salles, 35 anos, considera deturpada a apropriação do conceito de "homem cordial" para explicar as relações pessoais na política nacional.

– Certa vez assisti a uma palestra em que uma professora fazia uso de Raízes do Brasil para falar da corrupção no governo do país. Mas o próprio Sérgio Buarque de Holanda restringia o conceito de "homem cordial" a determinados grupos sociais. Não vale a pena usar essa idéia para explicar o brasileiro em geral. No conceito de cordialidade, você suspende as leis para abrir espaço para uma negociata mais particular. Mas dizer que o brasileiro põe as leis em segundo plano é um equívoco.

Esta não é a opinião de Natália Peixoto, 23 anos. Ela conta que, uma vez, seu carro foi arranhado em um acidente de trânsito e o motorista culpado fugiu. Para dar queixa, ela precisaria de duas testemunhas que não conhecesse. O policial encarregado disse que por dez reais ele transformaria o namorado dela – que estava no carro – em uma testemunha anônima. Ela não aceitou.
{PAGINANOVA}

– Mas grande parte da população não faria o mesmo. O brasileiro reclama da corrupção na política, mas, diante de conflitos privados, acaba fazendo uso de pequenos subornos.

Maria Aparecida dos Santos, 21 anos, diz que Raízes do Brasil é mais que atual, "pois fala da fronteira tênue que existe entre o público e o privado no país".

– Não quero dizer que o Brasil dos anos 1930 seja igual ao Brasil de hoje, mas a idéia do livro ainda persiste. Já ouvimos falar de deputados que usam o carro oficial para levar o cachorro ao veterinário, ou de juízes que, ao cometerem uma infração no trânsito, dão uma "carteirada", fazendo uso do título para escapar ilesos. É o famoso "você sabe com quem está falando?", frase tipicamente brasileira. Nossas relações sociais são muito porosas.

Patrícia Costa Gregório, 32 anos, discorda e não vê o Brasil como um país tão maleável.

– O Sérgio Buarque dizia que a colonização espanhola foi mais racional que a portuguesa. Mas eu não acho que nossa expansão territorial tenha sido feita tão "ao Deus dará". Na ocupação da Amazônia, por exemplo, houve um forte planejamento do marquês de Pombal, que também tinha projetos claros de defesa. Acho que Raízes do Brasil nos ajuda a entender o início da formação da nossa sociedade, mas explica principalmente o período da colonização. Não serve para explicar a atualidade. Mergulhar no livro para encontrar o Brasil de hoje é exagerado.

Tropicus Germanicus
O radicalismo em Sérgio Buarque de Holanda


Tudo teve início com uma simples solicitação. Em 1929, quando Assis Chateaubriand convidou o articulista Sérgio Buarque de Holanda a fazer um roteiro profissional para O Jornal que incluía a Alemanha, a Rússia e a Polônia, não poderia prever como os estudos interpretativos sobre o Brasil ficariam gratos pelo convite.

A estada de Sérgio Buarque na Alemanha se converteu em uma experiência acadêmica que foi responsável pela interpretação progressista do Brasil que seu livro Raízes do Brasil inaugura em 1936. Estabelecido em Berlim, o autor desenvolveu aguçada leitura de autores alemães que influenciaram a maneira como seu país deveria ser examinado. Seja pela construção de "tipos sociais ambíguos", própria de Simmel, ou mesmo pela utilização de tipos ideais weberianos, como na construção conceitual que Sérgio Buarque traça entre o colonizador-semeador e o colonizador-ladrilhador, "Raízes do Brasil é o único (livro) que se pode dizer que é meio alemão", segundo Antonio Candido. O caráter sociológico e interpretativo que marcou a primeira grande obra de Sérgio Buarque foi aos poucos se convertendo em um esforço pela pesquisa documental que daria um teor mais histórico a suas obras posteriores, como Caminhos e Fronteiras e Visão do Paraíso.

Dentro dessa leitura interpretativa do Brasil ao modo alemão, Sérgio Buarque apresentava uma certa racionalidade crítica que sustentava uma proposta radical de transformação da realidade política brasileira. Esta proposta que Raízes do Brasil sustentava não poderia ser explicada apenas pela tradição intelectual alemã que embasa a obra. A maneira como o jovem Sérgio Buarque assistia à ascensão do nazismo na década de 1930 o fazia receptivo à esquerda política, o que pode ser percebido em seu livro de 1936 a partir da análise crítica de um passado oligárquico passível de denúncia. O teor revolucionário da obra se apresenta por meio de duas características percebidas por Antonio Candido: a posição democrático-popular da obra que colocava o autor no sentido oposto às interpretações da época e a quebra do fascínio pela tradição luso-brasileira como instrumento de avaliação de nosso passado e determinante de nosso desenvolvimento futuro.

Dessa maneira, o processo de amadurecimento das relações intelectuais de Sérgio Buarque se confunde com o florescer de suas ansiedades políticas cultivadas no fértil solo alemão da década de 1930. A ampliação de sua visão libertária do processo histórico garantiu que sua trajetória política fosse um desdobramento da crítica social que Raízes do Brasil apontava em 1936. Sérgio Buarque foi militante do Centro Brasil Democrático desde sua fundação, em 1978, e na década de 1980, fundador do Partido dos Trabalhadores, admitindo que suas experiências políticas contribuíssem para romper o caráter oligárquico da nação brasileira.

Cheiro de terra

Sérgio Buarque e Oliveira Vianna mostram a ligação entre a tradição rural escravista do Brasil e nossas formas de pensar e sentir social e politicamente
Angela de Castro Gomes

Sérgio Buarque de Holanda e Oliveira Vianna são dois clássicos do pensamento social brasileiro freqüentemente tratados como autores de características opostas. Contudo, os conceitos de "cordialidade", em Raízes do Brasil (publicado originalmente em 1936), e de "espírito do pré-capitalismo", em História social da economia capitalista no Brasil (último livro do autor, escrito no fim da década de 1940 e publicado somente em 1987) ocupam uma posição que se pode chamar de equivalência estrutural nos dois livros. Assim, não se trata de minimizar as distinções entre os autores nem de admitir uma equivalência substantiva entre os conceitos. O fato é que ambos são construídos a partir de um diagnóstico sobre o Brasil que trabalha com um mesmo conjunto de elementos básicos e desembocam numa apreciação sobre "o homem brasileiro" surpreendentemente convergente.

Uma das razões que fazem de Raízes do Brasil um livro particularmente estimulante é o fato de não ser um texto fechado. Toda a análise do autor conflui para um dilema muito nítido, para o qual não se dá solução acabada. Este impasse, entretanto, não chega a ser trágico, uma vez que a análise nos acena com a possibilidade de transformar nossa própria dificuldade em vantagem. Já que ela não é um mal estrutural nem uma fatalidade insuperável, torna-se viável pensar e tentar uma saída que emerge como algo original e positivo. Este dilema pode ser percebido através do conceito de "cordialidade", que não é tratado como uma essência própria, algo inato ao homem brasileiro, mas como uma "mentalidade", ou seja, um produto cultural construído ao longo de nossa história.

O "homem cordial" é o produto síntese da herança colonial portuguesa, responsável pela gestação de uma sociedade em que predominam relações sociais pessoalizadas, afetivas, particularistas e clientelistas. A cordialidade, que é nossa marca registrada, funciona ao mesmo tempo como um obstáculo e uma proteção.

Obstáculo por bloquear a instauração de um verdadeiro espaço público democrático onde devem dominar relações sociais impessoais. Mas também uma proteção, pois pode evitar os excessos de uma sociedade moderna ultra-racionalizada, burocratizada e impessoal. É justamente um dilema como este que caracteriza História social, de Oliveira Vianna, e está sintetizado no conceito de espírito do pré-capitalismo. Ele traduz a convicção de que a superação total de uma "mentalidade" é impossível e transfigura uma condição de "atraso e inferioridade" em uma virtualidade capaz de apontar ao país um caminho específico que é, por isso, o mais adequado e melhor.

Além disso, nos dois livros, ambos os conceitos são produzidos a partir de um diagnóstico histórico que tem como momento fundamental o processo de colonização. Tanto Sérgio como Oliveira Vianna (e muitos outros), ao realizarem um esforço para compreender a sociedade brasileira, partem da interrogação sobre a existência ou não de uma "mentalidade", de uma "cultura nacional". Se ela existe, suas características só poderão ser traçadas e compreendidas a partir da experiência da colonização portuguesa, o que os remete à ocupação territorial e às questões da grande propriedade e do trabalho escravo. O eixo básico de análise articula nossa tradição rural escravista com as nossas mais profundas formas de pensar e sentir social e politicamente. O tipo de "mentalidade", de "cultura brasileira" – cordial, pré-capitalista – tem cheiro de terra, não ama o trabalho, obedece ao pai de família e nasceu em Portugal.

http://www.revistadehistoria.com.br

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um conto fantástico

Cheiro de Morte

A jaqueta ainda estava pendurada na cadeira. Era de couro, preta, tinha teias de aranha, pois há tempo não se mexia nela. No ar, sentia-se um cheiro nostálgico e a voz da mulher parecia ecoar eternamente: "Não, não pode ser! Nunca irei aceitar, só pode ser um pesadelo!". Eu tinha uma certa empatia por tudo aquilo.
Creio que não havia passado dos 18 anos, era ainda novo, belo, de acordo com uma foto. Inexplicável! Quem diria que um dia... Não conheci nenhum dos dois, mas eles me passavam confiança. Aquele retrato era curioso, pareciam ter a mesma idade, mas num outro, não sei, talvez tivessem se passado muitos anos, pois o tempo foi carrasco com a mulher. Ela talvez não soubesse tratá-lo, não sei. Às vezes ele nos castiga por puro divertimento.
Cartas não-datadas, não destinadas, puramente confessionais. "Tome nota disso", disse meu companheiro. "Mas são anacrônicas", pensei, lendo-as. Uma dizia: "Após determinada idade, notamos que a vida nos reservou tristezas e alegrias, que devemos pesá-las para saber o que somos. Felizes ou infelizes? Ocorre à revelia, nunca mudaremos nada que nos foi legado, e a infelicidade é inerente ao humano, às mães..."
"Desde que ele se foi nada mudou de lugar. O seu quarto nunca foi limpo e nem suas roupas lavadas. Tenho esperança de que ele voltará para forrar a cama, pois estava com tanta pressa quando saiu... Te espero filho. Faz 5 anos hoje e você ainda não chegou para comemorar".
O que havia ocorrido? Era insólito. Os vizinhos especulavam, mas ela era uma pessoa retraída, o mundo era aquele filho e ela havia perdido o chão. Ninguém conhecia ao certo. Sabia-se que o filho foi-se há, pelo menos, 5 anos, mas não há um tempo definido entre as cartas e o dia de hoje. Hoje não, pelo menos 3 dias. Afinal, o que é o hoje? Se ela realmente houvesse morrido hoje, há algum tempo que ela já vivia de passado. Talvez, desde a perda, ela nunca houvesse se conscientizado de quando era seu tempo.
- Nunca saiu de casa desde que o filho desapareceu?
- Não. Rezava todos os dias por ele, queria encontrá-lo. Tanto envelheceu a coitada. Acreditava que ele ainda era corpo.
- Nem acreditei que fosse ela naquele quarto. Seu rosto, de tantas rugas, era uma sanfona, que tocava um fado, ou calava a alma.
- Perito, alguma evidência? – perguntou-me o delegado.
- Não. Somente o médico para constatar, pois não há indícios – respondi.
- Evacuar o local. O cheiro está muito forte e nada pode ser trocado de lugar aqui – ordenou o superior.
Bati a porta ouvindo o eco das lágrimas que por tempos regaram o infértil "solo" daquela casa. Faleceu ontem, hoje, quando? Desligou-se do corpo há mais ou menos 3 dias, mas rompeu com a vida desde o dia em que a cama não foi forrada.

 
Felipe Vigneron
Publicado no Recanto das Letras em 20/08/2007
Código do texto: T614962

O Mundo Ligeiro

O Mundo ligeiro

O semáforo está verde
Siga o caminho, há uma esperança
Latente, fugidia
O dia será proveitoso
Se não passar por nenhum
Sinal vermelho!
É sangue
Espere por algum momento
Ele irá te manchar
Com a demissão do trabalho
Atraso
Nos dias de Hoje
É imperdoável!

O tempo toma conta do cotidiano
No semáforo há um "time"
Mas somente quando ele está verde
Felicidade, alegria, sonhos...
São expostos aos nossos olhos
Fugazes...
4,3,2,1...
Avermelhou!
Quanto tempo dura
Não sabemos
Bons momentos passam rápido
São contados
Mas as aflições
Nunca sabemos quando acabam!
 
Felipe Vigneron
Publicado no Recanto das Letras em 06/10/2007
Código do texto: T682621

Um poema atual

ESSA PALAVRA.
 
QUE O SONHO ALIMENTA:
 
QUE NÃO HÁ NINGUÉM QUE EXPLIQUE,
 
E NINGUEM QUE NÃO ENTENDA!
 
Cecilia  Meirelles
in
 
ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA.