segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Literatura perde um de seus maiores expoentes

 
 
 
 
Morre José Saramago
(1922 - 2010) 
 
Aos 87 anos, falece o único escritor português a ganhar o prêmio Nobel de Literatura 
Monique Cardone    
 
 
Romancista, jornalista, dramaturgo e poeta, José Saramago morreu às 12h30 desta sexta-feira, em consequência de falência múltipla dos órgãos.
O escritor estava em sua casa, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Segundo o site oficial da Fundação José Saramago, o autor morreu estando
acompanhado pela família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila.
 
Luiz Schwarcz, editor e fundador da Companhia das Letras que publicava os livros de Saramago no Brasil, disse em seu blog como ficou sabendo
da morte do amigo.
 
"Acabo de ver o escritor José Saramago morto. Quando a notícia apareceu na internet, liguei pelo skype para Pilar (esposa do escritor), que sem
que eu pedisse me mostrou José deitado na cama, morto. Tenho falado com Pilar quase todos os dias. Sabia que não havia chance de recuperação,
o destino de José já estava traçado, os médicos não acreditavam mais na possibilidade de um novo milagre, como o do ano passado, quando
venceu, contra todas as expectativas, os problemas pulmonares que o acometiam", relatou Schwarcz.
 
José Saramago, além de ganhar o prêmio Nobel de Literatura (1998), é considerado responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em
língua portuguesa. Entre suas maiores conquistas também está o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em Portugal.
 
A ligação com o Brasil ficava evidente nas frequentes visitas ao país e nas amizades com o escritor Jorge amado, com o fotógrafo Sebastião
Salgado, com o músico Caetano Veloso e intelectuais, como Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras.
 
"Saramago era um amigo desde os anos 80. Uma boa e grande amizade que começou em 1981 quando nos conhecemos. Sempre acompanhei
o percurso literário dele, mesmo antes de conhecê-lo. Era um escritor excepcional," disse o historiador muito emocionado.
 
A admiração por uma das obras do escritor levou o cineasta brasileiro Fernando Meirelles a adaptar "Ensaio sobre a cegueira", que fala sobre
uma epidemia que torna cego os habitantes de uma cidade, para o cinema.
 
O Ministro da Cultura, Juca Ferreira, divulgou nota de pesar pelo falecimento do autor. "O escritor José Saramago mantinha relações privilegiadas
com o Brasil. Esteve presente em diversos eventos literários no país e se tornou muito popular antes mesmo de conquistar o Prêmio Nobel. Em
romances como "O Ano da Morte de Ricardo Reis", o Brasil faz parte das reflexões do grande escritor."
 
O autor português sempre teve muita ligação com a história, seja na vida pessoal, como em seus romancas. Em entrevista exclusiva à RBHN,
em 2008, o autor aconselhou aos historiadores: "A imaginação pode ajudar a aproximar do leitor matérias muitas vezes áridas".
 
A obra "A História do Cerco de Lisboa", publicado pela primeira vez em 1987, pode ser interpetrada como uma mistura de ficção e realidade.
No romance, Raimundo Silva, revisor de livros, introduz em um tratado de história (intitulado História do Cerco de Lisboa) um erro voluntário:
"os cruzados não ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa"; apenas inserindo a palavra "não".  Essa falha proposital muda os acontecimentos
do conto e, ao mesmo tempo, mostra a capacidade do escritor em modificar com facilidade o que estava consagrado historicamente. 
 
A história do cerco da capital de Portugal, que nos é ensinada na escola, acontece no ano de 1147 e envolve o processo de reconquista cristã
da península Ibérica quando os portugueses, com a ajuda das Cruzadas, tomaram a cidades dos mouros.
 
No decorrer do texto, os vários cercos vão caindo: tanto o histórico da cidade de Lisboa, como o vivido pelo personagem Raimundo. No romance,
Saramago escreve com habilidade e emoção entrelaçando literatura e história, como em "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo
Reis" e "Jangada de Pedra".
 
A história mundial também sempre teve interesse para Saramago e por causa de fatos históricos, como o fascismo e a censura em Portugal,
ele foi morar na ilha que fica no meio do Atlântico. A mudança foi motivada porque o livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991)
apresentava sua visão ortodoxa sobre o messias cristão e o livro foi proibido no país. Em 1992, o governo não inscreveu o romance no
Prêmio Literário Europeu porque considerou ofensivo aos católicos portugueses por comparar o nascimento de Jesus ao de qualquer
outro homem. E, assim, o escritor abandonou de vez a sua terra.
 
Os acontecimentos mais recentes também eram alvo das críticas do autor. E causou muitas polêmicas.  Em 2002, Saramago visitou a
Cisjordânia e no encontrou com Iasser Arafat comparou a ocupação israelense ao Holocausto de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra.
 
A última publicação de Saramago foi "Caim" (2009) que é um olhar irônico sobre o Velho Testamento e também foi alvejado pela Igreja.
Em sua passagem por Roma, em 2009, o autor chamou o Papa Bento XVI de "cínico" e disse que a "insolência reacionária" do catolicismo
precisa ser combatida com a "insolência da inteligência viva".
 
Além da saudade, o escritor deixa um legado importante para literários, históriadores e fãs de suas obras. Entre tantas relíquias estão os
romances "Terra do Pecado" (1947), "Manual de Pintura e Caligrafia" (1977), " Levantado do Chão" (1980), "Memorial do Convento" (1982),
"O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1986), "História do Cerco de Lisboa" (1989), "O evangelho Segundo Jesus
Cristo" (1991), "Ensaio Sobre a Cegueira" (1995), "Todos os Nomes" (1997), "A Caverna" (2000), "O Homem Duplicado" (2002),  Ensaio Sobre a
Lucidez (2004), "As Intermitências da Morte" (2005) e "A Viagem do Elefante" (2008) e "Caim" (2009).
 
 
http://rhbn.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=3119
 
Postado por Chez às 03:36, dia 18/06/2010

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Mais um dia ...

 
 

Pietra acordou e se deparou com uma manhã fria, mas em que estação estava? Há tempos não sabia exatamente que dia, mês e ano era o tempo presente, pois perdera também do sentido de sua existência. Acordar para quê? Era regida pela dor de uma existência marcada por perdas, traições, desconfiança, decepção, lutas inglórias.

Mas ela sabia que teria que se levantar, colocar, tal qual um palhaço, um sorriso artificial no rosto e seguir em frente. Mais um dia em que preferiria já ter morrido. E Deus sabia que estava viva não por falta de tentativa, mas todas em vão. Quem disse que morrer é fácil?

Olhava para o passado e via seus fantasmas, aqueles mesmos que a assombravam diariamente, numa busca incessante por um contato maior com os que realmente foram importantes em sua vida, mas se foram. E deixaram um rastro de dor, solidão e desesperança. Viver para quê? Por quê?

Olhava para os lados e via hipocrisia, mentiras, truculência, usurpação, farpas apontando em sua direção, além de muita tristeza. Sua vida se resumia em ocultar do mundo as feridas abertas em sua alma. Mas seguia ....

Levantou-se, brincou, riu, fez o que tinha que fazer. Mais um dia ...

Não tinha mesmo outra alternativa, se arrastaria por aquelas horas dolorosas ansiando pelo momento mágico de dormir. Ah, dormir! Palavra mágica que significava o grande anestésico de sua vida. Momentos de desligamento da realidade.

Ainda ouvia as palavras duras que à ela foram dirigidas durante toda a sua vida, ainda guardava a mágoa dos que a feriram e as dores das perdas. Perdas? Perdera tudo e todos. Estava só, aprisionada numa existência sem significado, sem alegrias, sem esperança.

Os livros! Ah, um bálsamo que sempre a acompanhou desde que, aos 5 anos, aprendera a ler. Já lera quase tudo: romances, clássicos, suspense, terror, contos, crônicas, biografias, política, História, ciências ocultas, psicologia, filosofias orientais e ocidentais. Mas tudo isso, mesmo sendo balsâmico, a fazia ser ainda mais introspectiva e adepta do pensamento, da análise e da certeza de que o existencialismo sartreano era a grande verdade, era a essência da vida. Camus, Sartre e outros mostravam que a vida é pura dor. E ainda havia aquela peste da Mildred, tão cruamente descrita em sua falta de amor e solidariedade, tão impregnada de interesses vis, por Somerset Maugham. É, não dá mesmo para ser diferente!

Mas algo havia mudado no mundo, e para muito pior. Pietra olhava para os lados e não mais via solidariedade, amizade verdadeira, companheirismo, segurança, respeito e amor. Ah, mais um dia ...

As horas passavam e ela continuava a fazer as coisas que normalmente tinha que fazer. Sim, tinha obrigação. Se não tivesse estaria numa cama, anestesiada por psicotrópicos, imersa num sono sem sonhos, numa morte temporária e, aí sim, com um sorriso sincero nos lábios.

Pronto, a noite chegou! Abençoada seja para sempre. Poderá silenciar os ouvidos, fechar os olhos, parar os pensamentos e penetrar na escuridão das trevas noturnas que a levaria para o único lugar no qual realmente quer estar: no NADA!

Era preciso aproveitar, pois o tempo voaria e logo estaria diante de mais um dia ....

 

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Mais um conto ...

 

Solidão

 

 Olá, meu caro.

             Anos, anos se passaram. Tempo bom aquele em que estávamos sempre juntos, compartilhando segredos, aventuras, paixões tão passageiras quanto um sopro do vento.

            E, hoje, estou aqui e me sinto tão sozinho como um grão de areia no oceano. Os anos me mudaram, me mostraram um lado da vida até então desconhecido, que, se eu tivesse escolha, eu continuaria sem saber que existia. Lembra aquela alegria, aquela felicidade só de saber que estava vivo? Pois é, o tempo tirou de mim da forma mais dolorosa possível. Ah! Como é doce a ilusão da juventude. Ilusão essa que não me acompanha há muito, meu caro.

            Bom, acho que, assim como eu, você também passou por diversas coisas, sejam elas boas ou ruins.

            Devo lhe dizer que conheci o inferno, no sentido mais terrível da palavra, com dores, perdas, desilusões. Ah! Tantos momentos de solidão, e o pior tipo de solidão que existe, aquela onde têm pessoas por perto, mas você se sente perdido, confuso e só.

            Bom, por enquanto, me resumirei a isso, mas, em breve, voltarei a lhe escrever, contando detalhes importantes de uma vida desimportante.

                                                                                 

                                                                                              Abraços.

                                                                                                             J.C

 

 

            Ao terminar de escrever sua carta, João Carlos levantou de sua escrivaninha e foi em direção à janela. Ao olhar para o céu, com um aperto no peito, lembrou-se de sua juventude, de sua família e amigos, todos a sua volta, sorrindo e felizes. "O que a vida era capaz de fazer a um homem?", pensava ele, em meio a seus devaneios.

            Depois de tudo que passara, João tornou-se muito sozinho, um pouco melancólico e uma pessoa bem desconfiada. Levava dentro de si todas as lembranças bem vivas, fossem elas boas ou ruins, e as vivia a cada instante: o sofrimento de perder seu pai, sua mãe e sua irmã em um acidente, a dor por ter sido abandonado e traído quando mais precisou de alguém e a tristeza infinita que nada nem ninguém conseguia tirar de dentro dele.

            Ele sempre se perguntava se alguma coisa valia a pena, se algo poderia compensar tudo aquilo, e sempre chegava a mesma conclusão: não, nada nunca irá amenizar a inquietude de sua alma.

            Pelo menos, ele ficava feliz por seu irmão não estar no mesmo acidente que lhe custou parte de sua família. Ele estava longe, viajando, quando tudo aconteceu, então não guarda as piores lembranças, como o desespero de todos no momento que viram o que ia acontecer, e leva uma vida mais feliz e isso, de certa forma, era reconfortante para João, e ele sabia que tinha alguém com quem poderia contar em todos os momentos, pois seu irmão sempre o apoiou., embora a distância entre eles prejudicasse um pouco.

            João saiu da janela e foi para a cozinha, bebeu um pouco de café e acendeu um cigarro. Há quanto tempo ele estava perdido? Há quanto tempo ele estava no escuro? Sentia-se tão só. Era sua própria companhia. Lágrimas brotavam em seus olhos enquanto esses pensamentos lhe vinham à cabeça.

            Há uns anos, ele se considerava um homem de sorte, satisfeito e completo. Ele tinha uma esposa por quem era apaixonado e ambos tinham uma vida boa. João sorria e era feliz ao lado dela. Ela lhe dava forças, e ele havia suportado a perda de sua família graças ao apoio dela. Porém, tudo desabou quando, há um ano, ele descobriu a farsa: ela tinha outro e o enganara durante muito tempo. Quando descobriu, seu mundo desabou, sua vida ficou vazia e ele se sentiu muito perdido. Nada do que ele fazia tinha sentido. Ele se sentia estranho em todos os lugares, sentia que não fazia parte de nada, até mesmo os lugares que sempre freqüentou. Eles se separaram e, com ela, havia ido toda a paz e alegria dele. Tudo que havia acontecido desmoronou sobre ele, e ele não tinha mais ajuda. Seus problemas caíram como uma bomba em sua cabeça, ele havia perdido os parentes há pouco tempo e agora, para completar, descobriu a traição da mulher. Como poderia ficar bem?

            Com esses problemas, João mudou de cidade. Embora soubesse que suas dores não seriam deixadas lá, achou que seria melhor tentar recomeçar.

            Sonhos, pensamentos, fotos, tudo o assombrava. João trabalhava em uma grande empresa, mas estava de férias, e tudo parecia cada vez pior. A intensidade de seus sentimentos confusos parecia aumentar a cada dia.

            Resolveu assistir televisão. Sentou no sofá e ligou. Passava por todos os canais e não encontrava nada: novela, desenho animado, programa de culinária, filme de terror. Desligou a TV. Sua vida já era um filme de terror, ele não precisava assistir para saber como era.

            Enquanto estava sentado, pensamentos invadiram sua cabeça: todos foram embora, todos os que estão vivos, estão longe, e eu estou aqui.

            Resolveu ligar para o irmão. Uma mulher atendeu, a esposa dele, e lhe disse que Roberto havia viajado e ela não sabia quando ele voltaria. Ele agradeceu e desligou o celular, mais triste.

            Caminhou para o seu quarto, deitou-se na cama e pegou o livro que tava lendo. Abriu e voltou sua atenção para a leitura, mas não conseguiu se concentrar. Pensamentos soltos surgiam em sua mente. "Será que estou enlouquecendo?", ele se perguntava enquanto palavras, frases, lembranças passavam em sua mente. João respirou fundo e foi até o banheiro. Ele estava com uma sensação estranha, como se alguém estivesse ali com ele. Ele sentia alguém perto, mas não havia ninguém. Olhou para o espelho e viu como havia envelhecido. A beleza de sua adolescência e a inocência de seu rosto na infância haviam sumido e dado lugar a um rosto maduro e triste. Lembrou-se de um poema de Cecília Meireles.

            Olhando para o espelho, João começou a ver sua infância e adolescência: o sorriso puro, um olhar amedrontado, um choro desesperado, seu crescimento extremamente prazeroso, o primeiro beijo, a primeira namorada, o sorriso de seu pai, de sua mãe e de sua irmã. De repente, sem nenhum aviso, sentiu uma dor cortante no estômago, sua cabeça rodou e a última coisa que viu foi algo ao seu lado. João caiu no chão. Havia acabado de morrer.

            Algum tempo depois, Roberto, irmão de João, estacionou seu carro na porta da casa do irmão, com um largo sorriso. Há muito tempo não se viam.

            Roberto desceu do carro e tocou a campainha, com o peito cheio de uma ansiedade misturada com felicidade. Ao perceber a demora do irmão, ele tocou mais uma vez a campainha. "Ele deve estar dormindo", pensou Roberto, sorrindo e pegou o seu celular para ligar para o irmão.

            Depois de chamar várias vezes, Roberto começou a ficar preocupado. Tocou a campainha, dessa vez com mais insistência e começou a gritar o nome do irmão, cada vez mais nervoso.

            Com medo de ter acontecido algo, ele resolveu chamar o corpo de bombeiros. O desespero começava a tomar conta dele.

            Depois de vinte minutos, eles chegaram. Roberto contou o que havia acontecido e acrescentou que o irmão não costumava sair de casa.

            Os bombeiros tocaram a campainha e chamaram João mais uma vez, mas logo decidiram arrombar a porta.

            Roberto foi o primeiro a entrar na casa. Correndo e gritando o nome do irmão por todos os lados, Roberto chegou ao banheiro. Ao entrar, um frio aterrorizante passou pelo seu corpo e ele deu um grito tão alto que parecia cortar a alma daqueles que ouviram. Os quatro bombeiros subiram e se depararam com Roberto chorando e chamando o irmão.

            Quando conseguiram retirar Roberto, começaram a examinar João e confirmaram que ele já estava morto desde antes da chegada deles ao local. Chamaram um perito.

            Enquanto o perito avaliava o corpo de seu irmão, Roberto sentou na escrivaninha, chorando como uma criança, com um desespero de dar agonia.

            Ao olhar para os papéis, Roberto reparou que havia algo escrito em uma folha, e viu que era uma carta. Ia pegar a folha quando um bombeiro entrou no quarto para informar que o corpo de seu irmão seria retirado do local naquele momento.

            Roberto acompanhou todos até a porta, mas apenas seu corpo estava ali. Seus pensamentos estavam na folha que tinha acabado de ver na escrivaninha de seu irmão.

            Ao voltar para o quarto, Roberto resolveu telefonar para sua mulher, com a intenção de informar o que acabara de acontecer. Com lágrimas caindo sem controle algum, ele contou tudo a ela, que disse que estava indo ao encontro do marido. Roberto agradeceu e desligou o telefone.

            Sentou-se novamente na escrivaninha de seu irmão e voltou sua atenção para a carta. Começou a ler. A cada palavra lida, Roberto se sentia muito mal. Foi um choque tão grande ler aquilo! Ele nunca soube como seu irmão se sentia. Ele era sempre tão misterioso, mas, aparentemente, feliz. Nunca ouvira queixas de João, nunca soubera o quão atormentado era ele. Não, ele nunca mostrara a ninguém.

            Aquilo deixou Roberto com uma sensação muito ruim, uma sensação de impotência, sensação de que ele fracassou com a única pessoa que restou para ele. A dor da perda se misturou ao sentimento de fracasso que ele sentia agora em relação a
João. Começou a chorar e a desejar sua vida como era antigamente, com toda a sua família por perto, com todos sempre juntos e unidos.

            Roberto respirou fundo e tentou se acalmar. De repente, começou a pensar na vida triste de seu solitário irmão, pensou no que acabara de descobrir sobre os verdadeiros sentimentos dele em relação à vida e começou a achar, embora isso não aliviasse em nada a sua dor, que o acontecido tinha sido o melhor para João, e, com um sentimento de conforto, imaginou João reencontrando seu pai, sua mãe e sua irmã, e desejou profundamente que isso estivesse acontecendo naquele momento.

            Roberto pensou no que viria pela frente e resolveu que era hora de sair dali e agir o que estava pendente.

            Fechou todas as janelas, organizou algumas coisas e saiu, trancando a porta.

            Entrou no carro e partiu, sabendo que deveria enfrentar tudo com força e coragem, mesmo que, por dentro, desejasse mesmo que alguém tivesse no seu lugar e resolvesse tudo por ele, e que ele estivesse longe daquilo, apenas sendo paparicado e amado, como em sua infância, durante os momentos difíceis.

 

Paula Vigneron Azevedo

 
 

domingo, 18 de abril de 2010

Um conto ...



Dor e luta

Ela estava parada ali há horas. Perdera a noção do tempo. Estava sozinha, isolada do mundo, imersa dentro de seus pensamentos e problemas. Ela queria fugir de tudo, fugir para algum lugar onde nunca ninguém a encontrasse. Ela queria correr, queria que alguém lhe desse colo e lhe dissesse que nada poderia atingi-la e ela seria sempre feliz, mas ela sabia que aquilo era apenas vontade e era impossível.

- Que horas são? – perguntou Alice a uma senhora que passava. Sua voz estava embargada, ela não sabia se era pelo choro ou pelo tempo que ficara sem falar.

- São sete e vinte, minha querida. – respondeu a senhora, com um sorriso simpático.

- Obrigada. – Ela tentou um sorriso, mas não conseguiu. A senhora ficou olhando um instante para seu rosto jovem e triste, e logo partiu, com uma alegria que parecia estranha, pois Alice não sabia como era mais sentir aquilo.

Ela respirou fundo e ficou olhando quem estava ali na praça, naquele momento. Havia muita gente: crianças, que brincavam, riam, andavam de bicicleta, que eram felizes; havia uns adolescentes andando de skate e conversando, um casal de namorados abraçado e outras pessoas, e ela estava ali há horas, alheia a tudo que acontecia a sua volta. Parecia ter estado sozinha durante aquele tempo todo, parecia que não fazia parte da vida que pulsava naquela praça.

Levantou e começou a caminhar. Sentiu suas pernas formigarem um pouco, mas não deu atenção a isso. Era tudo tão pequeno diante da vida, diante do que ela passava. Alice achava que a vida não passava de um jogo cruel, onde pessoas são tiradas de nós sem mais nem menos, sem que chegue alguém e diga: “Olha, hoje eu vou levá-la porque...”. Mas ela sabia que nada adiantaria, nenhum motivo tornaria aquilo mais leve, mais aceitável. Nada era aceitável.

Uma lágrima involuntária escapou de seus olhos e escorreu pela sua face. Alice a limpou, pois não queria que ninguém a visse chorando.

Enquanto caminhava, ela foi acometida por uma raiva tremenda, por um ódio anormal. Por que tinham feito isso com ela? Por que tinham levado a sua irmã, a sua companheira, para outro lugar?

- Ninguém pediu permissão, não podiam ter feito isso comigo. Maldito destino! – Alice chorava como uma criança e queria gritar, mas se controlava, falando baixo. Sabia que não adiantaria, que nada mudaria o que havia acontecido.

Caminhou por mais um tempo pelas ruas desertas, apenas com sua dor a acompanhando e a cortando por dentro.

Entrou na rua onde morava e avistou sua casa, mas não quis entrar. Naquele momento, queria ficar longe de tudo o que pudesse lembrar o que havia acontecido. Resolveu ir até um bar que havia ali perto e comprou uma lata de refrigerante. Avistou uma mesa vazia e se sentou ali, bebendo seu refrigerante.

Ana tinha 17 anos e morava com Alice. Desde pequenas, elas eram inseparáveis. Amigas para tudo, não havia um segredo de uma que a outra não soubesse.

Quando seus pais se separaram, elas se tornaram ainda mais amigas, mais unidas. Moravam com a mãe, mas, quando Alice tinha 14 anos e Ana tinha 7, sua mãe morreu e elas foram morar com o pai. Devido aos problemas que elas tinham com o pai, Alice e Ana foram embora de casa. Alice já havia se formado e trabalhava para manter a casa onde morava com a irmã. Elas eram tão felizes, tão amigas! Por que o destino havia pregado essa peça sem graça?

Uma lágrima caiu e Alice bebeu seu refrigerante.

Ana havia combinado de viajar com uns amigos, teria uma festa na casa de uma amiga, na praia. Ana foi com a aniversariante, Luísa, e seu pai, e iria ficar na casa dela. Ana estava muito feliz, pois havia ajudado a comprar tudo para a festa e ia um dia antes para ajudar nos preparativos.

Saiu de casa com um sorriso enorme, agitada e ansiosa para organizar tudo. Ela adorava preparar festas para os amigos, e aquela seria uma festa muito divertida, pois todos os amigos estariam lá.

Quando saíram, Alice lhe deu um abraço e desejou que a festa fosse boa. Ana entrou no carro, sorrindo, e deu um aceno para a irmã. Alice pegou suas coisas e saiu para o trabalho, feliz pela irmã.

Ao voltar do serviço, no final do dia, viu que tinham 20 ligações do celular da amiga de Ana, e entrou em desespero. Sabia que havia acontecido algo grave. Ligou para Luísa, tremendo.

- Luísa, o que aconteceu? – perguntou,desesperada.

- Ah, Alice... – Luísa começou a chorar e Alice ficou tonta, mas manteve a voz firme.

- O que houve? Fala agora! – ordenou, muito nervosa.

- Um acidente de carro. Estamos todos no hospital. Mas a Ana... – Luísa começou a chorar mais ainda. – A Ana está muito mal, Alice.

Alice sentiu suas pernas fraquejarem e puxou uma cadeira.

- Mal? Como assim? – perguntou, sem a menor vontade de ouvir a resposta. Luísa não conseguia falar, estava chorando muito. – Onde vocês estão? Eu vou encontrar vocês agora!

- Estamos na cidade, Alice, vem para cá. Estamos nesse hospital perto da casa de vocês, eu esqueci o nome dele...

- Estou indo.

Alice desligou o telefone, pegou a chave do carro e foi para o hospital.

Ao chegar lá, ligou do celular para o celular de Luísa, que lhe disse onde ela estava. Alice foi até o quarto e abriu a porta. Quando entrou, viu que um médico estava conversando com o pai de Luísa, que tinha apenas alguns cortes nos braços e no rosto. Viu que Luísa também estava machucada, com o braço esquerdo engessado.

- A outra menina... é sua filha também? – perguntou o médico, com uma expressão indecifrável.

- Não, é amiga da minha filha. – respondeu

- Onde está a família dela?

- Eu sou a irmã. – respondeu Alice, tremendo.

O médico olhou Alice, e respirou fundo. Ela estava cada vez mais apavorada, não sabia o que estava havendo, não sabia de nada. Os olhares direcionados a ela estavam fazendo com que ela ficasse cada vez mais desesperada.

- O que ta acontecendo, doutor? Pode me explicar? Cadê a Ana? Ela está bem? – ela disparou uma pergunta atrás da outra. Nem ela estava se entendendo mais.

- Olha, a sua irmã, no acidente, bateu a cabeça e sofreu um traumatismo craniano. Ela está em coma, não está bem.

Alice começou a chorar, desesperada. Mas como? Ela estava tão bem antes de sair, como havia acontecido aquilo? Não, não era possível... não pode, é impossível. “Ela está bem, não é, doutor? Isso não passa de um engano. Você se enganou. Ela está bem, está me esperando lá fora, não é? Eu sei, ela está louca para me contar as novidades da festa, ela adora isso, ela está me esperando...” Seus pensamentos ficaram cada vez mais confusos, e a última coisa que ela viu foi uma sombra negra que tomou conta do lugar.

- Alice, Alice? – chamava Luísa, nervosa.

- Mas o que...? – de repente, ela se lembrou de tudo o que estava acontecendo. Lembrou-se de tudo, enquanto, na verdade, queria mesmo esquecer tudo, queria que alguém lhe dissesse que tudo era mentira.

Levantou-se e olhou a sua volta. A mãe de Luísa também estava no quarto, olhando-a com uma piedade amedrontadora. Olhou mais uma vez e percebeu que o médico não estava mais lá.

- Onde está o médico?

- Ele foi ver a Ana... vieram chamá-lo aqui. – respondeu a mãe de Luísa, com lágrimas nos olhos.

Nesse momento, o médico entrou no quarto, mais uma vez com a expressão indecifrável, cada vez mais sombrio.

- Doutor, e a minha irmã?

- Bem, senhorita... – ele respirou fundo – Lamento, mas sua irmã não resistiu.

Alice perdeu o ar que lhe restava, e começou a chorar desesperadamente. “Lamento, mas sua irmã não resistiu”. Essas palavras latejavam em seus ouvidos, pareciam facas cortando a sua alma. “Como não? Ela tem que resistir, ela não pode ir embora, ninguém pode levá-la de mim. Não pode, não é pra ser assim, não é possível. Ninguém tem o direito de levá-la de mim. Sem minha permissão?” Em meio a pensamentos incontroláveis, Alice pegou sua bolsa e saiu andando pelas ruas.

Depois de organizar seus pensamentos, Alice voltou ao hospital para agir o que deveria e resolveu que não haveria cerimônia de nada. Não queria prolongar sofrimento, queria que ficasse a lembrando de uma Ana alegre, como ela sempre fora.

Havia uma semana que isso acontecera, e, desde então, Alice perdeu o chão. Trabalhava por trabalhar, nada mais a interessava, ninguém fazia diferença. Uma semana. Alice não sabia dizer se a semana passara rapidamente ou se tinha demorado. Sabia apenas que a dor crescia mais a cada dia e nada era capaz de curá-la.

Pagou a latinha de refrigerante que tinha bebido e foi para casa. Ao entrar, seu coração ficou apertado e lágrimas brotaram em seus olhos, mas ela sabia que não poderia mais fugir, que teria que enfrentar a dura realidade. “Se a vida vai ter que ser assim, de agora em diante, é melhor eu me acostumar a ser sozinha, a me ter como companhia.”.

Acendeu a luz da sala e foi direto para o banheiro. Tomou um banho lento, demorado, sentindo cada gota d’água atingir seu corpo. Percebendo cada sensação, tentando distrair sua cabeça com qualquer coisa, com qualquer bobeira ou sensação.

Ao terminar, foi para o seu quarto e mudou de roupa. Olhou pela janela, tomando consciência do mundo a sua volta, das pessoas que por ali andavam. Olhava para cada uma delas e não podia dizer absolutamente. Achou estranho olhar para elas e nem desconfiar o que cada um levava dentro de si, as dores de cada um, sem saber nada sobre ninguém. Olhou o relógio, eram nove horas. Apagou as luzes e deitou. Resolveu que iria tentar melhorar, resolveu que ia viver cada momento como se fosse o último, mesmo com toda a dor e toda a saudade que nunca abandonariam sua alma.

Paula Vigneron

sexta-feira, 19 de março de 2010




Perto do coração da linguagem

"Só nos diz a verdade quem não gosta da gente ou nos é indiferente", Clarice escreveu ao amigo Fernando, desolada, sozinha no apartamento vazio, rodeada de caixas como o deserto de uma ilha rodeada de mar. "E tudo o que ele disse é verdade." Estava na Suíça, de mudança com o marido para um novo apartamento em Berna. A visão dos aposentos nus e da imensidão de caixas fechadas lhe dava vertigens. Pegara então numa bolsa a correspondência, como quem se apóia na parede para não desequilibrar na própria náusea. O que encontrou numa das cartas, porém, não lhe deu nenhuma estabilidade, pelo contrário, aumentou a sensação de que afundava no vazio do apartamento e na profundeza das caixas.

Um amigo enviara do Brasil um ensaio chamado "A experiência incompleta", do crítico Álvaro Lins, sobre Perto do coração selvagem, o primeiro romance de Clarice Lispector, lançado em 1943, quando a escritora tinha 23 anos, e O lustre, o segundo, publicado em 1946. Antes de ler o ensaio, Clarice precisou se sentar sobre uma das caixas, já abatida pelo título. Naquela mesma manhã, havia pensado que gostaria de trabalhar sem parar, escrever árdua e constantemente, mas as coisas vinham para elas em retalhos, fragmentos de frases e imagens, situações nebulosas, sempre esparsas, sempre... incompletas.

"Um romance", afirmou Álvaro Lins, "não se faz somente com um personagem e pedaços de romance. Romances mutilados e incompletos são os dois livros publicados pela sra. Clarisse (sic) Lispector, transmitindo nas últimas páginas a sensação de que algo essencial deixou de ser captado ou dominado pela autora no processo da arte da ficção".

Clarice desviou os olhos do papel para a sala. A casa mutilada em caixas fechadas, as paredes brancas sem vestígios, o chão liso sem móveis que fazem da sala o lugar onde se come, do quarto o lugar onde se deita. Partes de um todo que caberia a ela organizar, dar formas e cores, luzes e sombras. Organização que lhe dava vertigens antecipadas. Se pudesse, deixaria as caixas fechadas, e o que havia dentro delas intacto, tesouros intocados, protegidos e vigiados sem descanso. Apenas o vestígio de ouro e prata na superfície. Mas não podia, ela sabia que a sua tarefa maior era trazer à luz o segredo mais guardado, revelar sem corromper o tesouro mais escondido.

Álvaro Lins, ao fazer a sua crítica, baseava-se no conceito tradicional do gênero do romance, fundamentado em uma sólida estrutura de lógica temporal, espacial e eventos seqüenciais, onde não se encaixava uma obra fragmentária sem unidade lógica, solução final e uma progressão dos fatos.

"Mas o que é que se torna fato?", Clarice escreveu a Fernando, "Devo interessar-me pelo acontecimento?". Para ela, os acontecimentos eram secundários, já que nasciam das pessoas, e não ao contrário. "Por que deveria encher as páginas com informações sobre os 'fatos'?" Não devia, Fernando afirmou. Apesar de pensar como o amigo, ela não conseguia esquecer as palavras do crítico sobre os seus romances, "mutilados", repetia olhando as caixas fechadas em seu apartamento, "incompletos". Nada a havia preparado, porém, para o que viria a seguir. Em certa parte do ensaio, Lins deixou o livro, para se concentrar em outro aspecto. "O leitor menos experiente confundirá com a obra criada aquilo que é apenas o esplendor de uma personalidade estranha, solitária e inadaptada, com uma visão particular inconfundível." Clarice levou um choque ao ver que o crítico se referia a ela. Era a nebulosidade da personalidade da escritora que impregnava o romance, ele disse. Tão sentada ela estava sobre uma caixa que nessa hora se levantou. A sensação de que o crítico tirava o dedo do livro e o virava com firmeza para o seu rosto.

Forma própria
"É um cretino!", Fernando vociferou por carta à amiga. E exigiu que Clarice não se abalasse, "Você avançou na frente de todos nós, passou pela janela, na frente de todos", disse, não como consolo, mas como constatação. Para o escritor Fernando Sabino, Clarice Lispector havia alcançado uma forma muito própria de escrever, na qual a linguagem nascia da experiência mais íntima da personagem. Em primeiro plano, não estavam os episódios, mas o fluxo palpitante da subjetividade. O que Álvaro Lins havia visto como excesso de introspecção e individualidade eram para Sabino originalidade e renovação na criação de um romance. Apesar das suas palavras, Clarice sentiu um desânimo profundo. Em pé, entre as caixas e o espanto, assumia a observação do crítico como uma fatalidade, "O que sou está acima da linguagem, mas como posso escrever sem mim?".

Para outro crítico, Antonio Candido, Perto do coração selvagem era uma tentativa impressionante de levar a "nossa língua canhestra a domínios pouco explorados, forçando-a a adaptar-se a um pensamento cheio de mistério, para o qual sentimos que a ficção não é um exercício ou uma aventura afetiva, mas um instrumento real do espírito, capaz de nos fazer penetrar em alguns dos labirintos mais retorcidos da mente".

"Escrever é tão perigoso", Clarice escreveria mais tarde, "o perigo de mexer no que está oculto ― e o mundo não está à tona. Está oculto em raízes submersas nas profundezas do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Nesse vazio é que existo intuitivamente, mas é um vazio terrivelmente perigoso, dele arranco sangue". Clarice sabia, o vazio era a sombra do seu próprio mistério que se realizava na escrita.

O escritor Guimarães Rosa disse, uma vez, "A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade, não vive". Naquele dia, em seu apartamento novo, que de tão novo nada tinha ainda de seu, Clarice reconhecia que o que Álvaro Lins criticara era a característica maior de sua literatura. O seu defeito era na verdade a raiz de sua natureza de escritora. E seria a fonte maior de toda a sua obra. "Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso", escreveu depois à irmã, Tania Kaufmann, entre caixas abertas, segredos e tesouros trazidos à tona cuidadosamente para não se partirem, "nunca se sabe qual deles que sustenta o nosso edifício inteiro".

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pela autora. Originalmente publicado no jornal Rascunho, na edição de novembro de 2008.

Claudia Lage
Niterói, 22/12/2008

http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=285

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Em busca do povo brasileiro: do CPC à era da TV


Brasilidade encarnada: artistas da revolução
Marcelo Ridenti


Este artigo vem apresentar meu livro Em busca do povo brasileiro: do CPC à era da TV (Rio de Janeiro: Record, 2000). O título decorre de uma hipótese que permeia todos os capítulos: nos anos 1960 e início dos 70, nos meios artísticos e intelectualizados de esquerda, era central o problema da identidade nacional e política do povo brasileiro, na busca da ruptura com o subdesenvolvimento, típico de uma espécie de desvio à esquerda do que se convencionou chamar ultimamente de "era Vargas", caracterizada pela aposta no desenvolvimento nacional com base na intervenção do Estado (1). Esse tema foi-se diluindo ao longo dos anos, especialmente após o fim da ditadura civil-militar. Com a mundialização da economia e da cultura, que atingiu diretamente a sociedade brasileira nos anos 90 - especialmente nos governos neoliberais de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, que se propuseram a enterrar a "era Vargas" -, voltaram à tona velhas questões mal-resolvidas sobre a identidade nacional do povo brasileiro. Nessa medida, o estudo de aspectos do passado recente talvez possa contribuir para lançar um pouco de luz nos debates do presente.

O livro trata sobretudo dos anos 60 e início dos 70, mas também arrisca sugerir alguns desdobramentos do engajamento de artistas e intelectuais daquele período nos anos seguintes. Por isso, um outro título possível poderia ser: Do CPC a FHC. Trata-se de um objeto que, além de fascinante e polêmico, é muito vasto e complexo, o que me anima a continuar pesquisas que dêem continuidade ao livro.

Seis capítulos compõem o livro: no primeiro, são expostos aspectos da constituição do romantismo revolucionário nos meios intelectualizados da sociedade brasileira nos anos 60 e início dos 70, marcados pela utopia da integração do intelectual com o homem simples do povo. Esse tipo de romantismo marcou as artes, as ciências sociais e a política no período.

O conceito de romantismo revolucionário foi adotado não para colocar uma espécie de camisa de força na diversidade dos problemas estudados, mas como fio condutor para compreender o movimento contraditório da diversificada ação política de artistas e intelectuais inseridos em partidos e movimentos de esquerda, enraizados socialmente sobretudo nas classes médias. Adoto o conceito no sentido proposto por Michael Löwy e Robert Sayre, para quem "o romantismo apresenta uma crítica da modernidade, isto é, da civilização capitalista moderna, em nome de valores e ideais do passado" (1995: p. 34). Dentre os diversos tipos de crítica romântica ao capitalismo, haveria um "romantismo revolucionário e/ou utópico", com o qual Löwy e Sayre estão identificados, particularmente na sua vertente marxista, que estaria presente também em autores como Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Henri Lefebvre, E. P. Thompson, Raymond Williams e outros, sem contar o forte componente romântico da obra de Marx e Engels, esquecido pelo marxismo oficial da II e da III Internacional (1995: p.125).

O segundo capítulo mostra aspectos do romantismo na tradição cultural do Partido Comunista, o mais significativo e influente da esquerda brasileira até 1964. A partir de meados dos anos 1950, sob a influência das denúncias de Krushev acerca dos crimes de Stálin no XX Congresso do Partido Comunista da URSS, da consolidação da "democracia populista" e do florescimento de movimentos populares no Brasil, foram ocorrendo mudanças de rumo no PCB, em particular na esfera cultural, com o abandono do zdanovismo e a proposição de uma arte nacional-popular. Essas mudanças permitem visualizar certos traços românticos nos setores culturais do Partido, raramente perceptíveis nos documentos políticos oficiais, mas evidentes na prática e nas formulações diferenciadas entre si de seus militantes do campo artístico e intelectual.

Havia também leituras apenas progressistas e modernizadoras do nacional-popular - sem referência ao resgate do passado -, as quais não podem ser caracterizadas como românticas. Entretanto, no conjunto das atividades culturais, intelectuais e também políticas do pré-1964, quase sempre a utopia do progresso revolucionário ligava-se à busca romântica das autênticas raízes nacionais do povo brasileiro - e isso vale para toda a esquerda, não só para o setor cultural do PCB, ao longo dos anos 60. Tratava-se de buscar no passado uma cultura popular autêntica para construir uma nova nação, com uma modernidade alternativa à capitalista.

O terceiro capítulo destaca grupos de esquerda, depois de 1964, como as dissidências do PCB e os trotskistas, sempre vinculando sua atuação com a ebulição cultural do período, com ênfase na participação de artistas em suas fileiras. Seria um equívoco qualificar esses grupos - e o próprio PCB - de passadistas. Ao contrário: para eles, retrógrada era a ditadura militar, apoiada por latifundiários, imperialistas e setores empresariais, a quem interessaria manter o subdesenvolvimento nacional. Tratava-se, portanto, de pontos de vista modernizantes, que só podem ser chamados de românticos na medida em que a alternativa de modernização passava por certa idealização nostálgica do povo brasileiro - que variava de grupo para grupo.

Para pensar o movimento cultural de esquerda a partir dos anos 60, foram tomados como referenciais os compositores mais conhecidos e influentes politicamente da recente música popular brasileira - quer pelo talento, quer pela presença freqüente nos meios de comunicação de massa e pela inserção privilegiada na chamada indústria cultural -, Chico Buarque e Caetano Veloso. Eles jamais foram militantes políticos; entretanto, suas trajetórias artísticas e políticas até os dias de hoje só podem ser compreendidas a partir das origens na cultura política brasileira dos anos 50 e 60, marcada pela luta contra o subdesenvolvimento nacional e pela constituição de uma identidade para o povo brasileiro.

Seria cabível tomar como parâmetro a obra e o pensamento de muitos outros artistas brasileiros, marcados pelo florescimento cultural dos anos 50 e 60, como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, José Celso Martinez Corrêa, Augusto Boal, Vianinha, Ferreira Gullar, Antonio Callado, Hélio Oiticica e dezenas de outros - inclusive alguns que tiveram militância direta em organizações de esquerda, como os artistas plásticos Sérgio Ferro e Carlos Zílio, além de outros tantos mencionados nos primeiros capítulos da tese -, talvez até melhores artistas que Chico Buarque e Caetano Veloso, que não obstante foram escolhidos por sua popularidade ímpar, geradora de ampla influência cultural e política, difusa socialmente desde os anos 60.
 
A obra de Chico Buarque é paradigmática do romantismo revolucionário presente em setores da esquerda intelectual, artística e político-partidária, ao passo que o tropicalismo e particularmente as intervenções de Caetano Veloso têm um forte componente crítico do romantismo comunista, embora talvez possam ser considerados românticos por outra via. Contudo, vale reafirmar, o universo em que se movem ambos os autores é o da geração intelectual politizada nos anos 50 e 60, comprometida com o desenvolvimento nacional e a constituição de um povo brasileiro autônomo.

O quarto capítulo toma como referencial uma leitura do romance de Chico Buarque, Benjamim (1995), para fazer um balanço da dimensão sócio-política no conjunto das obras do autor, produzidas entre os anos 60 e os 90, período revisitado em Benjamim. O romance recoloca e atualiza o "lirismo nostálgico" e a "crítica social", paralelamente ao esvaziamento da "variante utópica" da obra de Chico Buarque, expressando a perplexidade da intelectualidade de esquerda às portas do século XXI.

O quinto capítulo trata da brasilidade de Caetano Veloso, figura mais conhecida do movimento tropicalista em 1967 e 68, e seu herdeiro de maior destaque junto ao público até hoje. A hipótese sugerida vai na contracorrente das idéias dominantes sobre o tropicalismo: esse movimento traz as marcas da formação político-cultural dos anos 50 e 60; isto é, o tropicalismo não foi uma ruptura radical com a cultura política forjada naqueles anos, apenas um de seus frutos diferenciados, modernizador e crítico do romantismo nacional-popular, porém dentro da cultura política romântica da época, centrada na ruptura com o subdesenvolvimento nacional e na constituição de uma identidade do povo brasileiro, com o qual artistas e intelectuais deveriam estar intimamente ligados. Ao encerrar o ciclo participante, o tropicalismo já indicava os desdobramentos do império da indústria cultural na sociedade brasileira, que transformaria a promessa de socialização em massificação da cultura, inclusive incorporando desfiguradamente aspectos dos movimentos culturais contestadores dos anos 60, como o tropicalismo e o nacional-popular.

Por fim, procura-se apontar no sexto capítulo o refluxo e alguns desdobramentos da herança do romantismo revolucionário de artistas e intelectuais na sociedade brasileira a partir dos anos 70, até chegar a uma certa recuperação em nossos dias das antes quase esquecidas idéias de povo, Estado-nação e raízes culturais, até como reação ao ímpeto transnacionalizante neoliberal.

As fontes de análise foram várias: uso da farta bibliografia disponível, levantamento de material publicado em jornais e revistas (Estudos Sociais,Brasiliense, Civilização Brasileira, Vozes, Opinião, Movimento, Pasquim,Arte em Revista, Voz da Unidade, Em Tempo, Teoria & Debate, Veja,Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e outras), realização exclusiva para a pesquisa de inúmeras entrevistas com artistas e intelectuais - trinta delas foram transcritas e mais diretamente utilizadas -, depoimentos de intelectuais e artistas aos meios de comunicação e a outros autores (particularmente a Antonio Albino Canelas Rubim, que me cedeu algumas entrevistas inéditas de que dispunha), além de muitas obras produzidas no período, como discos, romances, poemas e filmes.

O livro não tem pretensões teóricas no campo da estética. Ele se insere no terreno da sociologia, mas dentro da tradição que vê uma unidade interdisciplinar nas ciências humanas. Ou seja, o objeto da análise é a inserção política dos artistas e intelectuais de esquerda na sociedade brasileira, pelas suas declarações à imprensa, participação em partidos e campanhas políticas, até mesmo pelo conteúdo e pela forma de suas obras, ainda que a análise não passe pelos critérios do que vem a ser a beleza estética. Nesse sentido, faço minhas as palavras de Janet Wollf: "não tentarei lidar com a questão do valor estético. Não sei a resposta para o problema da 'beleza' ou do 'mérito artístico', apenas afirmarei que não acredito que isso seja redutível a fatores políticos e sociais" (1993: p.7).

O centro da pesquisa é a atuação política dos artistas, a qual nem sempre tem correspondência imediata com suas produções - autores reacionários politicamente são por vezes autores de obras-primas que exprimem as contradições de uma época. Apesar disso - especialmente para a geração de artistas que se consideravam revolucionários nos anos 60, vinculando indissociavelmente sua vida e sua obra -, parece não ser fora de propósito analisar tanto os depoimentos, como as ações e as obras para melhor entender a inserção política e social de seus autores, ainda mais quando eles explicitamente fazem reflexões sobre a sociedade brasileira por intermédio de suas criações, mesmo que sem as reduzir a isso. Esse último aspecto, por certo controverso, merece ainda algumas observações.

Não se trata de fazer uma abordagem reducionista do campo estético, como se a obra de arte fosse imediatamente identificável com uma única mensagem política, que se veicularia pelas artes. Tampouco caberia o simplismo do marxismo vulgar, que em tudo vê o reflexo do "econômico", reduzindo as criações artísticas a elementos da "superestrutura" ideológica e política, determinada pela "infraestrutura" econômica.

Nos limites do trabalho proposto, não está em foco propriamente o valor intrínseco da obra de arte, mas sua temporalidade, vale dizer, a história de uma sociedade numa dada época pode ser contada também pela produção cultural.

Cientistas sociais identificados com o materialismo dialético - que pretendem analisar a sociedade historicamente, como totalidade contraditória em movimento - devem suspender o "dado para focalizar o modo de uma sociedade constitui-se como um dar-se", segundo Giannotti (1983: p.268). Aos que pretendem superar o dado, questionando-o pelas raízes, para captar o movimento da sociedade enquanto todo contraditório, cabe pensar a produção artística de uma época como indissociável de sua história social e política. Isso não significa recusar a especificidade das artes, nem reduzi-las a reflexo da economia política. Mas implica questioná-las como dado a-histórico.

Como o texto já vai deixando evidente, algumas proposições de fundo estão expressas ou latentes ao longo do livro:
1. Apesar das diferenças entre as várias ideologias e facções de esquerda a partir dos anos 60, surge ao menos uma permanência para artistas e intelectuais engajados: tem sido central para eles, ainda que diferenciadamente, a questão da identidade nacional do povo brasileiro, associada à ruptura do subdesenvolvimento.


2. O espírito revolucionário dos anos 60 e início dos 70 na sociedade brasileira - da luta da esquerda armada às manifestações político-culturais na música popular, no cinema, no teatro, nas artes plásticas e na literatura - pode ser caracterizado pelo conceito de romantismo, formulado por Löwy e Sayre, particularmente pelo que chamam de romantismo revolucionário.


3. A difusão pelo meio artístico de um diversificado ideário crítico da ordem estabelecida na sociedade brasileira, sobretudo a partir dos anos 60, explica-se não só pelo "traumatismo ético-cultural e político-moral" provocado em certos intelectuais pela realidade capitalista em determinadas conjunturas (na expressão de Löwy, 1979) - situação que Berman chamou de "cisão fáustica" de intelectuais de países subdesenvolvidos (1986) - mas também pela nova função das classes médias e de suaintelligentsia, na tradução e na articulação entre os interesses particulares e os públicos (Oliveira, 1988).


4. Pode-se acompanhar pelas declarações, pela atuação política e até mesmo pelas obras de diferentes artistas, os debates e as divergências no seio da esquerda brasileira a partir dos anos 60, inclusive a virada do eixo temático predominante no seu interior, que foi aos poucos deixando de ser o da revolução, para tornar-se o da democracia e cidadania.
Enfim, o livro retoma o florescimento cultural revolucionário dos anos 60, e posterior refluxo: CPC, Cadernos do Povo Brasileiro, Cinema Novo, Teatros Arena, Oficina e Opinião, Revista Civilização Brasileira e outras, literatura e MPB engajadas, mostras contestadoras de artes plásticas, tropicalismo, grupos teatrais alternativos, resistência à censura e à ditadura, exílios, mortes e prisões, concomitantes à incorporação do trabalho de artistas e intelectuais pela indústria cultural, especialmente a televisão - sempre mostrando as afinidades eletivas entre as organizações de esquerda e o mundo da cultura em sentido estrito.

Dito isso, convido os leitores para o debate que o livro enseja, sobre a revolução brasileira e o "ensaio geral de socialização da cultura".

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Marcelo Ridenti é professor do IFCH da Unicamp e autor de O fantasma da revolução brasileira (São Paulo: Unesp, 1993) e Em busca do povo brasileiro: do CPC à era da TV (Rio de Janeiro: Record, 2000).
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(1) O termo "esquerda" é usado aqui para designar, numa formulação sintética, as forças políticas críticas da ordem capitalista estabelecida, identificadas com as lutas dos trabalhadores pela transformação social. Trata-se de uma definição ampla, próxima da utilizada por Gorender, para quem "os diferentes graus, caminhos e formas dessa transformação social pluralizam a esquerda e fazem dela um espectro de cores e matizes" (1987: p.7). Também Marco Aurélio Garcia trabalha com um conceito amplo de "esquerda", próximo do empregado aqui (1986: p. 194-195).

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Referências bibliográficas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia das Letras, 1986.

BUARQUE, Chico. Benjamim. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

GARCIA, Marco Aurélio (org.). As esquerdas e a democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra/Cedec, 1986.

GORENDER, Jacob. Combate nas trevas - a esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo, Ática, 1987.

GIANNOTTI, José A. Trabalho e reflexão. São Paulo, Brasiliense, 1983.

LÖWY, Michael. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.

LÖWY, Michael, e SAYRE, Robert. Revolta e melancolia - o romantismo na contramão da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1995.

OLIVEIRA, Francisco de. Medusa ou as classes médias e a consolidação democrática. In: O'DONNEL, G. & REIS, F. W. (orgs.). Dilemas e perspectivas da democracia no Brasil. São Paulo: Vértice, p.282-295, 1988.

VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Cia das Letras, 1997.

WOLFF, Janet. The social production of art. 2a. ed. Londres: MacMillan, 1993.

Especial para
*Gramsci e o Brasil*

Benjamin ... Chico Buarque ..adapatação cinematográfica

 
O curioso caso da adaptação de Benjamin

A mudança da linguagem literária para a linguagem cinematográfica por si só exigiria uma série de modificações que compensassem as limitações de cada linguagem. Pois sabemos que, a narrativa literária acessa de forma mais ágil a subjetividade dos personagens, e tem mais facilidade em dissertar idéias e sublimar pensamentos e emoções, enquanto na narrativa fílmica os pensamentos, os fluxos de consciência só podem ser sugeridos por meio da "câmara subjetiva" que se aproxima ao máximo dos atores, na tentativa de capturar nuances de estados psicológicos por meio da interpretação. Outra forma que narrativa fílmica utiliza para expressar estados subjetivos é transformando pensamentos em diálogos, ou raramente o recurso do voice-over, isto é, uma fala narrando por cima das imagens. Além disso, a narrativa fílmica pode ainda se valer da montagem, manejos de câmara e de trilhas sonoras e efeitos especiais para expressar seu conteúdo. Assim, o adaptador dispõe de liberdade para tentar resolver essas diferenças, e encontrar a melhor forma de transpor determinado conteúdo, de uma linguagem à outra. Dito isto, tentaremos perceber na adaptação cinematográfica do romance Benjamin diferenças que em um primeiro momento são inerentes a mudança de linguagem, e outras que resultaram de concepções ideológicas e intenções mercadológicos. O romance Benjamin de Chico Buarque conserva uma complexidade narrativa, comprometida deliberadamente com o fim "da cronologia, da motivação causal, do enredo e da personalidade" (ROSENFELD, 1985, p.85). Algo condizente com o estado de seus personagens, que apresentam uma individualidade prejudicada, à deriva do fluxo involuntário da memória, conservando incertezas e lacunas motivacionais que não se esgotam depois que o romance termina. E são exatamente estas incertezas e lacunas, tão importantes para a coerência do romance, que a adaptação cinematográfica de Monique Gardenberg tenta esclarecer e preencher numa tentativa de enquadrar o seu filme a uma seqüencialidade dramática. Para isso, Gardenberg insere diálogos e cenas inexistentes no romance, e principalmente altera a ordem dos acontecimentos, combinando-os dentro de uma causalidade, que o livro se esforça em quebrar.Deste modo, é preciso dizer que o enquadramento dramático presente no filme já não é conseqüência da adaptação em si, pois temos inúmeros exemplos de filmes que rompem essa técnica[1]. O que nos faz acreditar ser uma preferência de Gardenberg. Mais a frente, tentaremos entender os motivos desta preferência. Por enquanto vejamos como isto se procede. Chico Buarque opta por iniciar o seu romance pela morte do protagonista, quebrando com isso qualquer expectativa quanto ao desfecho; e sabotando qualquer encadeamento dramático, além disso, o narrador se aproveita do senso-comum de que, momentos antes de nossa morte vemos o filme de nossas vidas projetado, para estruturar sua narrativa num único flashback desconexo, que se passa num tempo não-convencional, na qual presente e passado aparecem amalgamados e embaralhados.Pois bem, na adaptação de Gardenberg, "a verdadeira morte" de Benjamin vai estrategicamente para o final, com isso, conserva o desfecho dramático; e se insere em vez disso um sonho, na qual Benjamin se vê fuzilado ainda jovem. Sendo que, esta "morte onírica" do protagonista no inicio do filme funciona apenas como presságio. E se no romance passado e presente se confundem, na adaptação eles são didaticamente divisados, inclusive marcados na própria textura fílmica, por meio da mudança de fotografia. Além do mais, antes dos flashbacks, os personagens param, e usa-se a "câmara subjetiva", que os focaliza em close, e as cenas do passado se inicia com todos congelados, não havendo como confundir os dois tempos.A conversão do romance Benjamin ao encadeamento dramático aos poucos modifica o conteúdo ideológico do texto de Chico Buarque, e altera significativamente o caráter dos personagens. Por ex. no romance Ariela Masé é tal como Benjamin, alguém com uma personagem oblíqua, confusa e complexa. Mas no filme, com inserção de elementos motivacionais, esta adquire uma condição análoga a uma garota de programa. Vejamos isto no livro: O chofer dá a partida e freia logo adiante, quando Alyandro vislumbra as pernas compridas de Ariela Masé, que parece equilibrar-se no meio-fio. (...) Ariela tencionava atravessar a rua, quando os guarda-costas a desviaram para dentro do caro de Alyandro. Ela nunca se acomodara antes em automóvel tão climatizado, tão forrado de couro e tão equipado como aquele (...) Sente no entanto que não deveria ter abandonado o banco duro do ônibus 479. (BUARQUE, 2004, p.122) Como percebemos, Ariela não escolhe deliberadamente deixar de se encontrar com benjamim para se encontrar com Alyandro, como fica parecendo no filme, no romance ela chega a pegar o ônibus para ir se encontrar com Benjamin, porém, o ônibus quebra. E Ariela desce apenas com a intenção de comprar um presente para Benjamin quando, casualmente, se depara com o comício; além disso, no trecho acima notamos que Ariela esboça uma certa dúvida entre ficar no carro de Alyandro ou voltar para o ônibus; mas acaba ficando. Alem disso, na adaptação é Alyandro oferece Ariela o ensaio fotográfico, enquanto que no romance esta é sugestão de Gambolo. No filme Alyandro exibe o presente ao lado de uma Ariela sorridente e insinuante, e a câmara se alterna em mostrar o presente e o sorriso de gratidão dela, e logo seguida Alyandro a beija. O mesmo acontece com Zorza, com o qual num primeiro momento Ariela se mostra relutante, até a câmara foca Zorza dano a ela um estojo com jóia, mas uma vez ela sorrir, e já sem nenhuma resistência e depois de ambos confessarem já serem casados, vemos na cena seguinte Ariela se entregando a Zorza. Além desses exemplos, temos ainda mais dois que merecem ser mencionados. O primeiro é o do estupro, que no romance aparece quase no final, mas que no filme antecipado, por meio do recurso flashback para o momento em que ela vai apresentar o imóvel a Alyandro, na tentativa de criar uma situação de causa e efeito, entre a fuga dela repentina para o banheiro e o seu medo de ser estuprada novamente. O outro exemplo é a antecipação do momento em que Jeovan e Ariela se conhecem, mostrada numa só seqüência, a trajetória que vai do primeiro encontro, passando pela cena do casamento (que não aparece no livro) até a cena em que o Jeovam é baleado. Essa antecipação esforça a dependência sentimental de Ariela ao marido, que somado com inserções de cenas inexistentes no romance, como a de Cantagalo lendo as cartas de Ariela para Jeovam, ligam, numa relação direta de causalidade, as execuções no sobrado verde a questões meramente passionais. No romance isto não fica bem claro, e o sobrado assim como a figura de Cantagalo aparecem como elemento transição entre a ditadura militar e a abertura democrática, sendo que a presença do grupo de extermínio comprova que a polícia continua a lançar mãos das mesmas práticas escusas do período militar, aliás não por acaso que as chaves do sobrado permaneça com Cantagalo, um militar aposentado, mas que continua na ativa, no que tange ao serviços extras de nossa polícia. Assim, por mais que a adaptação delegue liberdades em relação ao texto fonte, achamos que a modificações feitas por Monique Gardenberg em cima da obra de Chico Buarque tem como propósito deixar o filme mais assimilável ao grande público, com isso, ela reorganiza a matéria do romance, alterando sua seqüência, com intuito de enquadrá-lo numa técnica narrativa dramática, que por sua se filia a uma visão de mundo individualista, que ainda acredita na autonomia do sujeito. Dessa forma, no romance de Chico Buarque ainda encontramos personagens que ainda vivem sob influência da ditadura militar; como o protagonista Benjamin, um sujeito que tem sua individualidade danificada, pela culpa e pela expiação; que ainda não assimilou experiências traumáticas do passado, e por isso, sua memória, sem a razão instrumental do indivíduo autodeterminado, torna-se problemática e involuntária, algo condizente com a opção formal de Chico Buarque. Já na adaptação cinematográfica, esse passado obscuro, e que ainda não é totalmente passado, não é explorado, ou vira apenas pano de fundo para uma típica "história de amor trágico[2]", criando com isso, um objeto estético novo e ideologicamente diferente do primeiro, pois, escolhas estéticas nunca se isentam de escolhas ideológicas. Gerciano Maciel [1] Os exemplos vão desde filmes mais "comerciais" como Magnólia, 21gramas, Babel até exemplos mais clássicos, como E nós que nos amávamos tanto do diretor italiano Ettore Scola, filme este que semelhante ao romance de Chico Buarque se inicia pelo final, e é narrado voice-ove; além disso, no filme há varias cenas de "estranhamento" em que os personagens olham para câmara e se dirige diretamente ao espectador, fazendo a quebra da "ilusão realista". [2] Monique Gadenberg declara no making off do filme, que sua intenção era que o filme " fosse acima de tudo uma linda história de amor, foi assim que eu fiz."

postado por litera & crítica as 12:54:23 #