domingo, 30 de agosto de 2009

Medo Líquido

Confiança e medo na cidade


Entrevista com Zygmunt Bauman


Estamos em uma época em que as medidas de segurança que adotamos só geram mais insegurança. Somos diariamente perseguidos pelos mais diferentes tipos de medo. E, entre as ameaças, ainda está a de ficar para trás, ser substituído, não acompanhar o ritmo das mudanças. Estudar os medos contemporâneos é tocar num dos pontos centrais da modernidade líquida?

BAUMAN – Os medos agora são difusos, se espalharam. É difícil definir e localizar as raízes deles, já que sentimos e não vemos… Isto é o que faz com que os medos contemporâneos amedrontem tão terrivelmente e os seus efeitos sejam tão difíceis de amenizar. Eles emanam virtualmente em todos os lugares. Há os trabalhos instáveis, as constantes mudanças nos estágios da vida, as fragilidades das parcerias, o reconhecimento social só dado 'até segunda ordem' e sujeito a ser retirado sem avisos prévios, as ameaças tóxicas, a comida venenosa ou com possíveis elementos cancerígenos, a possibilidade de falhar num mercado competitivo por causa de um momento de fragilidade temporária ou por causa de uma falta de atenção momentânea, as ameaças que as pessoas sofrem nas ruas e a constante possibilidade de perda dos bens materiais...

Os medos são muitos e diferentes, mas eles alimentam uns aos outros e a combinação destes cria um estado na mente e nos sentimentos que só pode ser descrito como um ambiente de insegurança. Nos sentimos inseguros, ameaçados, não sabemos exatamente de onde vem esta ansiedade e como proceder. Os medos não têm raiz. Esta característica líquida do medo faz com que ele seja explorado política e comercialmente. Políticos e vendedores de bens de consumo acabam transformando esta característica em um mercado lucrativo. O comum é você tentar reagir, fazer alguma coisa, tentar desvendar as causas da ansiedade e lutar contra as (invisíveis) ameaças e isso é conveniente do ponto de vista político ou comercial. Tal atitude não vai curar a ansiedade, só alimenta esta indústria do medo. Adquirir bens em prol da segurança só alivia alguma tensão e por um breve tempo.

Para governos e mercado é interessante, portanto, manter aceso estes medos e, se possível, até estimular o aumento da insegurança. Como a fonte das ansiedades parece distante e indefinida é como se dependêssemos de especialistas, das pessoas que entendem do assunto, para mostrar onde estão as causas do sofrimento e como lutar contra ele. Não temos como testar a verdade que nos contam, só nos resta, então, acreditar no que dizem. Da mesma forma como quando nossos líderes políticos nos falaram que Saddam Hussein tinha armas de destruição de massa e estava pronto para detoná-las ou quando nos dizem que nossas preocupações e problemas acabarão quando os emigrantes forem enviados para casa. A natureza dos contemporâneos medos líquidos abre ainda um enorme espaço para decepções políticas e comerciais.

Tentar minimizar as diferenças entre as pessoas e estimular a mistura de classes seria uma forma de amenizar o sentimento de insegurança?

BAUMAN – Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas. Isto não significa, porém, que nós nos responsabilizamos por isto, que prestamos a devida atenção a este fato, quando agimos ou tomamos decisões.

Um estímulo evidente para nossa falta de responsabilidade em relação aos nossos atos é a ignorância desta teia complexa de conexões. A maioria dos efeitos de nossas ações ou negligências ou da ação ou negligência dos outros acaba aparecendo como conseqüências inesperadas, efeitos colaterais surpreendentes ou estragos não calculados. Nós podemos limitar os danos (embora talvez seja impossível eliminá-los completamente) se aprendermos mais sobre a importância do bem-estar das pessoas e o quanto elas podem sofrer com o resultado de nossas ações.

Mesmo se fizermos isso, em algum momento, surgirá algum outro obstáculo que precisará ser considerado. Este obstáculo está ligado à natureza puramente negativa da globalização. Só tais forças tendem a ignorar soberanias locais, leis locais e interesses da população de cada lugar. Nossos braços são muito curtos para alcançarmos a fonte dos problemas. Poder e política, que viviam unidos, estão separados e prontos para o divórcio. Nós somos deixados com políticas cada vez mais impotentes e poderes cada vez mais politicamente descontrolados...

No Brasil os seus livros venderam 100 mil exemplares. Acha que esse é um indício de que suas teorias estão tocando os pontos sensíveis da população nos dias de hoje?

BAUMAN – Sociologia é uma conversa em andamento, com troca de experiências humanas e que se espera resultar num aprendizado e esclarecimento mútuos. Isto é, pelo menos, o que eu acredito ser a forma como a sociologia deve ser utilizada para atender aos homens. Mas, no local de onde escrevo, e, acredito, também em outras partes, como o Brasil, a competição em nossa cada vez mais individualizada sociedade é guiada por uma preocupação crescente em relação à sobrevivência física – ou à satisfação das necessidades biológicas primárias, que os instintos de sobrevivência demandam. E também pelo poder de escolha individual, decidir quais são os seus objetivos e que tipo de vida cada um quer viver. Exercer estes direitos parece ser o 'dever' de cada um. Assim, tudo o que acontece ao indivíduo parece ser conseqüência deste direito e, tudo o que falha, uma recusa em botá-lo em prática. O que acontece ao indivíduo tende a ser visto como uma confirmação do poder de cada um.

Uma vez agindo como indivíduos, nos encorajam a buscar reconhecimento social para nossas escolhas. Reconhecimento social significa a aceitação dos outros, a confirmação de que o indivíduo optou por uma vida decente, que vale a pena e que merece todo o respeito das outras pessoas. O oposto do reconhecimento social significa a negação da dignidade, a humilhação.

Uma pessoa se sente humilhada quando recebe a mensagem, por palavras ou ações, de que não pode ser quem pensa que é. Esta humilhação gera preconceito e ressentimento. Numa sociedade individualista como a nossa, este é um tipo venenoso e implacável de ressentimento que a pessoa pode sentir, e uma das mais comuns causas de conflito, rebelião e revolta. Detona a auto-estima – nega reconhecimento, recusa respeito e aplica a exclusão – substitui a exploração e a discriminação como a explicação mais comumente usada para justificar o rancor do indivíduo em relação à sociedade.

Isto não significa que a humilhação é um fenômeno novo e característico deste estágio da história da sociedade moderna. Ao contrário, é tão antigo quanto a convivência humana. Na sociedade individualizada, porém, as queixas e as explicações para a dor saem do foco do grupo e se voltam para o indivíduo. Mas em vez de apontar para a injustiça e o mal-funcionamento do todo social, e buscar um remédio na reforma da sociedade, sofrimentos individuais tendem a ser percebidos como uma ofensa pessoal, uma agressão à dignidade pessoal e à auto-estima, e, sendo assim, pediriam uma resposta e uma vingança pessoais.

Parece haver uma tremenda desigualdade. É contra esta que a sociologia precisa carregar a sua mensagem. O mais importante passa a ser enviar e receber esta mensagem. Eu acho que este é o segredo para as pessoas terem mais interesse hoje pela informação que a sociologia pode proporcionar e acredito que isto ainda deve crescer por algum tempo.

Suas teorias, muitas vezes, são classificadas como pessimistas. Mas o próprio ato de escrever sobre esse assunto já seria uma medida otimista, não? Uma forma de dar um alerta e afirmar que os caminhos podiam ser diferentes?

BAUMAN - A vida parece estar se movendo muito rapidamente para a maioria de nós, para conseguirmos seguir suas curvas e antecipar acontecimentos. Planejar movimentos e continuar leal às metas traçadas parece ser um empreendimento cheio de riscos, assim como fazer planos a longo prazo está cada vez mais perigoso. É como se a vida fosse dividida em episódios. E a conexão entre estes só parece possível (isso se for) quando você faz uma leitura retrospectiva. As preocupações e apreensões em relação ao sentido e ao destino são abundantes (embora difíceis de suportar), assim como os muitos prazeres que um mundo cheio de surpresas e uma vida pontuada por novos começos pode proporcionar.

O nosso drama, quando somos obrigados a nos mover em determinado cenário, não é nem um pouco facilitado pelas redes conceituais. Nós aprendemos a agarrar as realidades fugazes e a usar o que nós achamos pelo caminho, que faça sentido para nós e para os outros. Tantas palavras e conceitos que deveriam servir a este propósito parecem agora inaptos. Precisamos urgentemente de novos, para acomodar e organizar nossas experiências de uma forma que nos permita perceber a sua lógica e ler as mensagens escondidas ou demasiado propensas a leituras errôneas. Este é um desafio que a sociologia precisa confrontar – e eu tento ajudar neste sentido, empregando a minha (modesta!) habilidade...

Não me considero um pessimista (concordo com você. Se eu fosse, porque escreveria?). Mas também não sou um otimista. Quem são os otimistas? As pessoas que acham que este nosso mundo é o melhor possível. E os pessimistas? Pessoas que suspeitam que os otimistas possam estar certos... Existe, porém, uma terceira atitude possível: a da esperança, da confiança na capacidade humana de ser sensato e digno. Acredito que o mundo que habitamos pode ser melhor do que é hoje, que podemos fazer com que seja mais "amigável", mais hospitaleiro para a dignidade humana. Franz Kafka expressou o que acredito, de uma forma muito melhor do que eu seria capaz de fazer: "Se você não achar nada nos corredores, abra as portas. Se você achar que não há nada além destas portas, há outros andares. E, se você não achar nada lá, não se preocupe, suba mais outro lance de escada. Enquanto você não parar de subir, as escadas não terminarão, embaixo de seus pés, elas continuarão crescendo para cima."
 

sábado, 29 de agosto de 2009

Ruanda 1994

 

Gostaríamos de Informá-lo de que Amanhã Seremos Mortos...

PHILIP GOUREVITCH   

Entre abril e julho de 1994 mais de um décimo da população de Ruanda foi exterminada, num genocídio comparável apenas ao Holocausto. Patrocinada pelo governo ruandês, a maioria hutu massacrou a minoria tutsi diante da indiferença da chamada "comunidade internacional". A tragédia, supostamente motivada pelo "ódio ancestral" entre as duas etnias, teve na verdade clara origem política e econômica. Durante três anos, o jornalista norte-americano Philip Gourevitch mergulhou na história e na realidade ruandesa para tentar desvendar os acontecimentos. Ouviu centenas de pessoas, reconstituindo o drama dos envolvidos na tragédia, fossem eles sobreviventes, assassinos ou cúmplices. Lúcido e pungente, o livro e ao mesmo tempo testemunho e reflexão sobre um dos mais terríveis de nosso tempo.

Philip Gourevitch é um repórter norte-americano que chegou a Ruanda em 1994, logo após o extermínio da minoria étnica tutsi, levado a cabo pela maioria hutu, com apoio do governo do país.

Gourevitch entrevistou diversos envolvidos, desde sobreviventes tutsis e familiares das vítimas, até proeminentes figuras hutus acusadas de terem tomado parte no genocídio.

É uma história real de terror e intolerância, de seres humanos que assassinaram vizinhos e até parentes, distinguindo os que mereciam viver dos que não mereciam pelos documentos de identidade. Hutus mereciam viver, os tutsis (e qualquer hutu que fosse contrário ao genocídio) não tinham esse direito.

Algumas cenas descritas por Gourevitch parecem impossíveis, e o grau da maldade e do absurdo do ocorrido em Ruanda faz a morte do menino João Hélio parecer brincadeira de crianças.

Recomendadíssimo. Em edição de bolso por vinte e poucos reais.

GENOCÍDIO EM RUANDA
Nelson Ascher

"'Gostaríamos de informá-lo...'", copyright Folha de S. Paulo, 6/01//01

"O livro do jornalista e escritor norte-americano Philip Gourevitch é, até onde sei, o primeiro publicado no Brasil sobre os acontecimentos de meados dos anos 90 em Ruanda.

Muitos são os nomes aplicáveis ao que lá ocorreu pouco mais de seis anos atrás, mas cada vez mais pessoas julgam que o nome adequado é uma palavra que, com seriedade, tem sido usada para designar no máximo três outros acontecimentos, todos do século 20: o extermínio dos judeus europeus pelos alemães e seus aliados na primeira metade da década de 40; a deportação e massacre dos armênios pelos turcos durante a Primeira Guerra; e a dizimação de parte da população do Camboja pelo seu próprio governo, o Khmer Vermelho, nos anos 70. A palavra é 'genocídio'.

Se o genocídio dos armênios ainda é negado pelo governo turco e não foi reconhecido por vários países; se, depois de um quarto de século, o cambojano segue mal estudado; se mesmo o dos judeus esperou ao menos uma década e meia pelas primeiras investigações aprofundadas; o de Ruanda começou a ser reconhecido antes mesmo de seu fim e já conta com um bibliografia respeitável, na qual 'Gostaríamos de Informá-lo de Que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias' ocupa um lugar privilegiado.

Ruanda é um país pequeno e pobre, na região dos grandes lagos, na África Centro-Oriental. Sua população se divide entre uma maioria hutu e uma minoria tutsi. Exatamente o que é que diferenciava entre si esses grupos, que falavam a mesma língua e se assemelhavam fisicamente um ao outro, nunca ficou muito claro.

Costumava se falar em etnias, raças ou talvez mesmo castas diversas. Esses conceitos, contudo, não estão entre os mais precisos. Tradicionalmente os hutus dedicavam-se à agricultura, enquanto os tutsis eram pastores e, na Ruanda pré-colonial, formavam a aristocracia. Essas diferenças (históricas, bem entendido) nunca foram absolutas: hutus podiam se tornar tutsis e vice-versa. No começo da década que acaba de passar, cerca de 85% dos ruandenses eram hutus e 14%, tutsis. O 1% restante era a população twa, ou seja, os pigmeus, habitantes originais da região; eles, porém, não fazem parte dessa história.

Em meados de 1994, incitada por seus políticos, jornalistas, militares, paramilitares etc., uma parcela substancial da população hutu se voltou contra seus compatriotas e vizinhos tutsis e os massacrou sistematicamente durante mais de três meses. Contavam-se também entre as vítimas muitos hutus moderados, que eram contra o massacre. O número total de mortos varia, de acordo com a fonte, entre 200 mil e 1 milhão, mas está provavelmente mais próximo da cifra maior -que, em Ruanda, equivalia a 10% da população.

O que interrompeu a matança antes que começassem a faltar vítimas foi uma virada espetacular: a Frente Patriótica Ruandense, um movimento guerrilheiro cujos membros eram sobretudo exilados tutsis que viviam em Uganda e outros países vizinhos, derrotou os hutus e obrigou o governo ruandense a abandonar o país.

Essas lideranças, por sua vez, se fizeram acompanhar em sua fuga (rumo principalmente à República Popular do Congo) de mais de 2 milhões de hutus, parte encorajada ao recuo estratégico que precede a revanche, parte aterrorizada pela perspectiva da vingança dos tutsis vitoriosos e boa parte forçada a acompanhar gente que argumentava com armas.

Uma narrativa esquemática assim não pode, é claro, dar nem sequer uma idéia vaga do que ocorreu. Fatos e atores relevantes ficam necessariamente de fora: os massacres precedentes, a propaganda assassina da rádio oficiosa, os dilemas do chefe de Estado, Juvenal Habyarimana, as conspirações de sua mulher, Agathe, o papel da ONU, dos EUA e, sobretudo, da França. Um mínimo de compreensão desses eventos requereria também uma visita ao passado colonial (os colonizadores foram os alemães nos anos 1890 e, a partir de 1916, os belgas).

Seria também o caso de esmiuçar as explicações raciais e racistas que os europeus, além de aplicar, exportaram para a África, extraídas não da observação direta, mas de leituras peculiares de histórias bíblicas. Foram, afinal, os europeus que postularam que os hutus eram um povo banto incapaz de criar cultura própria e, por isso, deviam o que tinham aos tutsis, (segundo eles) superiores, pois de origem nilótica. Foram igualmente os europeus que, emitindo carteiras de identidade com a 'etnia' do portador, congelaram definições anteriormente fluidas.

O mais difícil, porém, é humanizar uma tragédia cuja própria magnitude tende a assimilá-la às catástrofes naturais: um público que se comove com a morte de meia dúzia de pessoas num desastre rodoviário fica indiferente aos milhares de vítimas de um terremoto. Se os mortos são centenas de milhares, até a intencionalidade homicida corre o risco de, sendo demasiado grande, tornar-se paradoxalmente invisível.

Se há, portanto, um trabalho que consiste em averiguar cada fato, investigar as causas etc., existe um outro que é o de tornar visível e palpável os acontecimentos; e o livro de Gourevitch é um exemplo excelente desse segundo tipo de trabalho. Há nele bastante pesquisa, levantamento de fatos etc., mas seu forte é acompanhar as trajetórias de alguns poucos indivíduos por meio do evento maior. Essas trajetórias, bem escolhidas pelo autor e narradas com contundência, acabam de certa forma se transformando nas coordenadas de um mapa capaz de guiar o leitor pelos descaminhos de uma imensa e complexa história formada por milhares ou milhões de histórias menores que se entrecruzam e se emaranham. (Gostaríamos de Informá-lo de Que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias, Philip Gourevitch, Companhia das Letras)


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

UIVO

Uivo para Carl Solomon

Allen Ginsberg

 

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela
loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
em busca uma dose violenta de qualquer coisa
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo
contato celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram
fumando sentados na sobrenatural escuridão
dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando
sobre os tetos das cidades contemplando
jazz, que desnudaram seus Cérebros ao céu sob o
Elevados e viram anjos maometanos
cambaleando iluminados nos telhados das casas de
cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e
radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz
de William Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do
crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu
dinheiro em cestas de papel, escutando o Terror
através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por
Laredo com um cinturão de marijuana para
Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam
terebentina em Paradise Alley, morreram
ou flagelaram seus torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília,
álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e
clarão na mente pulando nos postes dos
pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o
mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de
quintal com verdes árvores de cemitério, porre
de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio
na luz cintilante de neon do tráfego na corrida
de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e
árvore no ronco de crepúsculo de inverno de
Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave
soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o
infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx
de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças
os trouxesse de volta, trêmulos, a boca
arrebentada e o despovoado deserto do cérebro
esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do
zoológico,
que afundaram a noite toda na luz submarina de
Bickford's, voltaram à tona e passaram a tarde de
cerveja choca no desolado Fuggazi's escutando o
matraquear da catástrofe na vitrola automática de
hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque
ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu
à Ponte de Brooklyn,
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando
dos gradis das escadas de emergência dos
parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e
lembranças e anedotas e viagens visuais e
choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total
com os olhos brilhando por sete dias e noites,
carne para a sinagoga jogada na rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum
deixando um rastro de cartões postais
ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas
nos ossos e enxaquecas da China por causa da
falta da droga no quarto pobremente mobiliado de
Newark,
que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da
estação ferroviária perguntando-se onde ir e
foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de
carga, vagões de carga que rumavam
ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro
da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz,
telepatia e bop-cabala pois o Cosmos
instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando
anjos índios e visionários que eram anjos
índios e visionários, que só acharam que estavam
loucos quando Baltimore apareceu em êxtase
sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no
impulso da chuva de inverno na luz das
ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando
jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol
brilhante para conversar sobre América e Eternidade,
inútil tarefa, e assim embarcaram num navio
para a África,
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando
além da sombra das suas calças
rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas na
lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de
barba e bermudas com grandes olhos
pacifistas e sensuais nas suas peles morenas,
distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços
protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco
do Capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas
em Union
Square
, chorando e despindo-se enquanto as
sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto
que eles e gemiam pela Wall Street e
também gemia a balsa de Staten Island,
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos,
nus e trêmulos diante da maquinaria de
outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer
nos carros de presos por não terem
cometido outro crime a não ser sua transação
pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do
telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas
santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins
humanos, os marinheiros, carícias de amor
atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em
roseirais, na grama de jardins públicos e
cemitérios, espalhando livremente seu sêmem para quem
quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas
acabaram choramingando atrás de um
tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio
atravessá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três megeras
do destino, a megera caolha do dólar
heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do
ventre e a megera caolha que só sabe ficar
plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios
intelectuais do tear do artesão,
que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de
cerveja, uma namorada, um maço de
cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram
pelo assoalho e pelo corredor e terminaram
desmaiando contra a parede com uma visão da buceta
final e acabaram sufocando um derradeiro
lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas
trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos
vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para
adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas
nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado numa miriade de carros
roubados à noite, N.C. herói secreto destes
poemas, garanhão e Adonis de Denver — prazer ao
lembrar das suas incontáveis trepadas com
garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de
restaurantes de beira de estrada, raquíticas
fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha,
cavernas ou com esquálidas garçonetes no
familiar levantar de saias solitário à beira da
estrada & especialmente secretos solipsismos de
mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram
transportados em sonho, acordaram num
Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma
impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror
dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam
até as agências de emprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de
sangue pelo cais coberto por montões de
neve, esperando que se abrisse uma porta no Bast River
dando num quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de
apartamentos do Hudson à luz de holofote
anti-aéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de
louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou
digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos
rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com seus
carrinhos de mão cheios de cebola e péssima
música,
que ficaram sentados em caixotes respirando a
escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir
clavicêmbalos nos seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de
chamas sob um céu tuberculoso rodeados
pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre
invocações sublimes que ao amanhecer
amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem
sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé
rabo borsht & tortillas sonhando com o
puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um
ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance
de aposta pela Eternidade fora do Tempo &
despertadores caíram nas suas cabeças por todos os
dias da década seguinte,
que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes
seguidas, desistiram e foram obrigados a
abrir lojas de antigüidades onde acharam que estavam
ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de
flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o contido estrondo dos
batalhões de ferro da moda & os guinchos de
nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás
mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram
atropelados pelos táxis bêbados da Realidade Absoluta,
que se jogaram da Ponte de Brooklyn, isto realmente
aconteceu e partiram esquecidos e
desconhecidos para dentro da espectral confusão das
ruelas de sopa & carros de bombeiros de
Chinatown, nem mesmo uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se pela
janela do metrô, saltaram no imundo rio
Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela
rua afora, dançaram sobre garrafas
quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos
discos de jazz europeu dos anos 30 na
Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no
toalete sangrento, lamentações nos
ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando
pela solidão da vigília de cadeia do
Golgota de carro envenenado de cada um ou então a
encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas
horas para saber se eu tinha tido uma visão
ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido
uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que
retornaram a Denver & esperaram em
vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando
& solitários em Denver e finalmente
partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está
saudosa dos seus heróis,
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando por sua salvação e luz e peito até que a
alma iluminasse seu cabelo por um segundo,

que se arrebentaram nas suas mentes na prisão
aguardando impossíveis criminosos de cabeça
dourada e o encanto da realidade nos seus corações que
entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou
as Montanhas Rochosas para o suave Buda
ou Tanger para os garotos ou Pacifico Sul para a
locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o
cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o
túmulo,

que exigiram exames de sanidade mental acusando o
rádio de hipnotismo & foram deixados com
sua loucura & suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova York sobre Dadaísmo e
em seguida se apresentaram nos degraus de granito do
manicômio com cabeças raspadas e fala de
arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrasol choque elétrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue &
amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa
simbólica de pingue-pongue, mergulhando
logo a seguir na catatonia,
voltando anos depois, realmente calvos exceto uma
peruca de sangue e lágrimas e dedos para a
visível condenação de louco nas celas das
cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores
fétidos, brigando com os ecos da alma,
agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão
à meia-noite dos domínios de mausoléu
druídico do amor, o sonho da vida um pesadelo, corpos
transformados em pedras tão pesadas
quanto a lua, com a mãe finalmente ****** e o último
livro fantástico atirado pela janela do cortiço e
a última porta fechada às 4 da madrugada e o último
telefone arremessado contra a parede em
resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a
última peça de mobília mental, uma rosa de
papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário
e até mesmo isso imaginário, nada mais
que um bocadinho esperançoso de alucinação —
ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não
estarei a salvo e agora você está inteiramente
mergulhado no caldo animal total do tempo —
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados
por um súbito clarão da alquimia do uso da
elipse do catálogo do metro & do plano vibratório
que sonharam e abriram brechas encamadas no Tempo &
Espaço através de imagens justapostas e
capturaram o arranjo da alma entre 2 imagens visuais e
reuniram os verbos elementares e juntaram
o substantivo e o choque de consciência saltando numa
sensação de Pater Omnipotens Aeterni
Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados
todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo
do pensamento na sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo,
desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que
houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem
fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada
da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente
nua da América pelo amor num grito de
saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com
que as cidades tremessem até seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado para
fora dos seus corpos bom para comer por
mais mil anos.

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Livro de Jean Delumeau ganha edição mais barata

Historia Do Medo No Ocidente
(1300-1800) - Uma Cidade Sitiada
- Ediçao De Bolso / Companhia dos Livros
 

"Não temos história do amor, da morte, da piedade, da crueldade, da alegria." A queixa de Lucien Fèbvre, em 1948, muito repetida desde então, tornou-se quase um manifesto da disciplina que se convencionou chamar a "história das mentalidades". Uma das lacunas que o fundador da escola dos Annales deplorava foi preenchida pela História do medo no Ocidente.

Ao tomar como objeto de estudo o medo, Jean Delumeau parte da idéia de que não apenas os indivíduos mas também as coletividades estão engajadas num diálogo permanente com a menos heróica das paixões humanas.

Revelando-nos os pesadelos mais íntimos da civilização ocidental do século XIV ao XVIII - o mar, os mortos, as trevas, a peste, a fome, a bruxaria, o Apocalipse, Satã e seu agentes (o judeu, a mulher, o muçulmano) -, o grande pensador francês realiza uma obra sem precedentes na historiografia do Ocidente. 

Pesadelos civilizados

Ivan Schmidt

Devemos quase tudo o que sabemos sobre o desenvolvimento da cultura ocidental ao incansável trabalho realizado por historiadores franceses, dentre os quais se destaca Jean Delumeau, nascido em Nantes em 1923 e, a partir de 1975, um dos mais queridos professores de história do Collège de France. A profundidade de suas pesquisas sobre o cristianismo o colocou, sem nenhum favor, entre os autores mais lidos e consultados sobre a matéria. Contudo, o campo de investigação desse mestre na acepção da palavra o levaria a enfrentar desafios historiográficos ainda pendentes de respostas que satisfizessem não apenas o anseio passageiro de simples curiosos, mas a necessidade profissional de antropólogos, sociólogos, professores e escritores, para citar algumas áreas interessadas.

A imensa trilha explorada por Delumeau resultou da advertência feita por Lucien Febvre, em 1948, quanto à falta de "história do amor, da morte, da piedade, da crueldade, da alegria", que por assim dizer escancarou a porta para a disciplina logo chamada de "história das mentalidades". Trinta anos depois da direção apontada pelo fundador da escola dos Annales, Delumeau entregava à publicação a alentada História do medo no ocidente, que, em l978, saiu pela Librairie Arthème Fayard, para ser lançado agora pela Companhia de Bolso (SP), com tradução de Maria Lúcia Machado, no âmbito do Ano da França no Brasil. O leitor se depara ao longo das quase 700 páginas da obra sem precedentes com um painel revelador dos pesadelos mais íntimos da civilização ocidental entre os anos de 1300 e 1800.

Delumeau confirma um dos medos cotidianos convertidos a intervalos mais ou menos próximos, em episódios de pânico coletivo, "especialmente quando uma epidemia se abatia sobre uma cidade ou uma região". A população brasileira vivencia atualmente a pandemia da influenza A causada pelo vírus H1N1 (gripe suína), uma situação que se ainda não pode ser caracterizada como pânico, por um ângulo que desnuda a crueldade de muitos, tornou-se um veio ubérrimo para a disseminação de boatos, alguns deles tão primários quanto extravagantes. Foi o caso da "peste negra" que assolou a Europa durante quatro séculos (1348 a 1720), além de surtos epidêmicos de contágio altamente letais de tifo, varíola, gripe pulmonar e varíola. Segundo Delumeau, durante grande parte do século XIV e ao menos até o começo do século XVI, "a peste reapareceu quase a cada ano em um lugar ou outro da Europa Ocidental".

Assim, era natural que as populações entrassem em estado de medo e nervosismo em face da peste, um "mal enraizado, implacavelmente recorrente". Na Itália do século XVII, "a peste é então uma "praga' comparável às que atingiram o Egito. É ao mesmo tempo identificada como uma nuvem devoradora que chega do estrangeiro e que se desloca de país em país, da costa para o interior e de uma extremidade à outra de uma cidade, semeando a morte à sua passagem. É ainda descrita como um dos cavaleiros do Apocalipse, como um novo "dilúvio', como "um inimigo formidável' e, sobretudo como um incêndio frequentemente anunciado no céu pelo rastro de fogo de um cometa".

O historiador francês também descobriu que todas as crônicas da peste insistem, como nos tempos modernos, "na interrupção do comércio e do artesanato, no fechamento das lojas, até das igrejas, na suspensão de qualquer divertimento, no vazio das ruas e das praças, no silêncio dos campanários". Com inteira razão, depõe Delumeau que por antonomásia a peste é chamada de "o mal", pois não há sobre a terra nenhum outro que se possa comparar a ela. As palavras seguintes se amoldam com perfeição à situação instalada entre o povo brasileiro: "Desde que se acende num reino ou numa república esse fogo violento e impetuoso, veem-se os magistrados atordoados, as populações apavoradas, o governo político desarticulado". Felizmente, ainda não chegamos ao caos absoluto descrito por Delumeau, mas não temos razão para discordar quando ratifica "que os homens temem até o ar que respiram".

Deixemos, porém, o medo da peste e passemos ao "inacreditável medo do diabo", que se espalhou nas civilizações desde a alvorada do século XIV, com A divina comédia (Dante morreu em 1321) marcando "simbolicamente a passagem de uma época a outra e o momento a partir do qual a consciência religiosa da elite ocidental deixa por um longo período de resistir à convulsão do satanismo". Delumeau diz que essa obsessão logo se refletiu na iconografia por meio de alucinante conjunto de imagens infernais "e a ideia fixa das incontáveis armadilhas e tentações que o grande sedutor não cessa de inventar para perder os humanos". Não foi por acaso que Lutero, diz o historiador, deixou-se possuir "ao mesmo tempo pelo medo do diabo e pela certeza de que o cataclismo final estava então no horizonte", sendo acompanhado nesse presságio pela Alemanha protestante do século XIV e do começo do XVII.

Os tormentos de Santo Antão eram assim estendidos à Alemanha inteira, constatou, acrescentando que "nesse país, onde se desenvolve então a lenda de Fausto, os habitantes têm a convicção de que Lúcifer é rei. Sem dúvida não teriam eles experimentado tanto esse sentimento se o teatro e, sobretudo, a imprensa não houvessem difundido amplamente o medo e, ao mesmo tempo, o deleite mórbido do satanismo".

Num país como o Brasil, onde há algum tempo os homens andam de cabeça para baixo e os bichos falam e, no qual o Senado é presidido por José Sarney, acolitado por Renan Calheiros, Fernando Collor, Romero Jucá, Epitácio Cafeteira, Wellington Salgado e Paulo Duque, ainda não apareceu abominação maior para causar tamanho espanto.

Ivan Schmidt é jornalista.

Novo livro: Dossiê Gabeira - o filme que nunca foi feito

Dossiê Gabeira - o filme que nunca foi feito
Geneton Moraes Neto

"Um livro-entrevista que se lê como um romance" – é assim que o escritor Ignácio de Loyola Brandão define Dossiê Gabeira – o filme que nunca foi feito, livro que traz a íntegra de uma super-entrevista gravada pelo repórter Geneton Moraes Neto com Fernando Gabeira, um dos mais ativos, originais e polêmicos personagens da cena política brasileira nas últimas décadas. Sem medo de controvérsia, Gabeira faz uma autocrítica rigorosa de uma trajetória marcada por lances dramáticos, como o seqüestro do embaixador americano em 1969, a prisão e o exílio. Depois, faz um grande balanço sobre o fim das utopias e traz a discussão para hoje. Gabeira faz provocações e mantém o tom polêmico ao tratar de temas atuais. pergunta, por exemplo, por que é tão difícil organizar, no Brasil, homenagens a policiais mortos em serviço – um tema-tabu para militantes das causas dos direitos humanos.

Gabeira revela diálogo com Tuma no Dops

"Essa gente só matando", teria dito o então delegado em encontro com preso político (por Daniel Bramatti)

Personagem símbolo de duas efemérides de 2009 - os 30 anos da anistia e os 40 anos do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick -, o deputado e ativista Fernando Gabeira fala de guerrilha, tortura, exílio e ecologia no recém-lançado Dossiê Gabeira, o filme que nunca foi feito, livro do jornalista Geneton Moraes Neto.

Praticamente todos os temas que emergem na obra já foram tratados por Gabeira em livros autobiográficos, principalmente em O que é isso, companheiro, lançado no começo dos anos 80. Mas há novidades sobre duas figuras públicas do País: o senador Romeu Tuma (PTB-SP) e o ator Carlos Vereza.

No livro, estruturado como entrevista, Gabeira, hoje deputado pelo Partido Verde, revela que foi o ator quem cortou e pintou seus cabelos quando se escondia da polícia e dos militares, em 1969, logo depois de participar do sequestro de Elbrick. O embaixador foi libertado em troca da soltura de 15 presos políticos, entre eles o então líder estudantil José Dirceu. "Antecipei, sem querer, o corte grunge. Quem era louro ficou moreno, quem era moreno ficou louro", disse Vereza, em depoimento para o livro. Ele alega que ajudou os envolvidos no sequestro sem saber quem eram.

Tuma é citado, pela primeira vez, como o delegado com quem Gabeira teve um breve diálogo quando estava preso no Departamento de Ordem Pública e Social (Dops) de São Paulo. "Tuma falou assim: ?Você se feriu? Levou um tiro?? Resopondi que sim. E ele: ?Você acertou alguém??. Eu disse: ?Não, estava desarmado?. Ele: ?Ah, então estava desarmado! Quer dizer que se estivesse armado reagiria?? A conversa foi rápida. Hoje somos amigos. Esquecemos completamente. A palavra ?amigos? pode ser forte: somos colegas de trabalho."

Em O Que é isso, companheiro?, Gabeira não cita o nome do então delegado, mas faz uma descrição um pouco mais detalhada do diálogo, que teria terminado com o seguinte comentário: "Essa gente só matando". Procurado, o hoje senador disse, por meio de sua assessoria, que não se manifestaria antes de ler o novo livro.

Sobre o sequestro que lhe trouxe notoriedade e que o levou à prisão e ao exílio de quase 10 anos, Gabeira manifesta arrepedimento. Ele cita o caso da senadora que passou seis anos em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). "Depois de ler relatos de Ingrid Betancourt, eu que participei do comitê para libertá-la, digo: hoje vejo o sequestro com os olhos da Ingrid Betancourt. (…) Passei para o outro lado. Você tem de estar com a vítima do sequestro, não com os sequestradores."

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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Conto de Simone de Beauvoir

A IDADE DA DISCRIÇÃO

Simone de Beauvoir

 

Meu relógio parou? Não. Mas os ponteiros parecem não andar. Não olhar para eles... Pensar em outra coisa, em qualquer coisa: nesse dia que passou, tranqüilo e rotineiro apesar da agitação da espera.

Enternecimento do acordar... André estava enrodilhado no leito, olhos vendados, mãos postas contra a parede num gesto infantil, como se no desamparo do sono tivesse necessita­do experimentar a solidez do mundo. Sentei-me à borda do lei­to, coloquei a mão sobre seu ombro. Tirou a venda dos olhos, um sorriso desenhou-se em seu rosto espantado.

— São oito horas!

Coloquei na biblioteca a bandeja da primeira refeição. Pe­guei um livro recebido na véspera e já folheado pela metade. Cacetes todas essas lengalengas sobre a não-comunicação! Bem ou mal conseguimos nos comunicar, se o queremos. Não com todo o mundo, é claro, mas com duas ou três pessoas. Às vezes, acontece-me não falar a André sobre estados de ânimo, peque­nos cuidados, tristezas. Sem dúvida, ele também tem seus segredinhos, mas grosso modo não ignoramos nada um do outro.

Derramei nas xícaras chá-da-China bem quente, bem escuro. Bebemos enquanto percorríamos a correspondência: o sol de ju­lho entrava em caudais no aposento. Quantas vezes ficamos sentados junto à mesinha, em frente um do outro e diante de xícaras de chá bem escuro e bem quente? Será assim, em seguida, em um ano, em dez anos?... Este instante possuía a doçura de uma lembrança e a alegria de uma promessa. Tería­mos trinta ou sessenta anos? Os cabelos de André branquearam cedo: antigamente, aquilo parecia faceirice de sua parte: a neve realçando a frescura de sua tez. É ainda faceirice. A pele endureceu e fendeu-se, gretada como couro velho, mas o sorriso da boca e dos olhos guardou sua luz. Apesar dos desmentidos do álbum de fotografias, sua jovem figura se curva ante seu ros­to de hoje: meu olhar não lhe reconhece idade. Uma longa vi­da com risos, lágrimas, cóleras, abraços, confissões, silêncios, impulsos, e parece, às vezes, que o tempo não passou. O futuro se esconde, ainda até o infinito. Levantou-se:

— Bom trabalho! — me disse.

— Para você também: bom trabalho.

Não respondeu. Nesse gênero de pesquisas, inevitavelmen­te, existem períodos em que se marca passo; ele se resigna menos facilmente que outrora.

Abri a janela. Paris cheirava a asfalto e a tempestade, esmagada pelo calor pesado do estio. Segui André com os olhos. É, talvez, nesses instantes em que o vejo distanciar-se que ele existe para mim com mais perturbadora evidência: a silhueta alta diminui, desenhando a cada passo o caminho de sua volta; ela desaparece, a rua semelha vazia mas, em verdade, é um cam­po imantado que o reconduzirá a mim como a seu lugar natural. Essa certeza me comove ainda mais que sua presença.

Fiquei bastante tempo no balcão. De meu sexto andar des­cubro um grande trecho de Paris, o vôo dos pombos sobre os tetos de ardósia, e esses falsos vasos de flores que são as chami­nés. Conto as gruas: cinco, nove, dez. Conto dez — barram o céu com seus braços de ferro vermelhos e amarelos.

À direita, meu olhar dá de encontro a uma alta muralha criva­da de pequeninos buracos: um edifício novo. Vejo também tor­res, arranha-céus construídos de pouco. Desde quando o terreno baldio do Bulevar Edgar-Quinet tornou-se estacionamento? O as­pecto jovem recente da paisagem salta-me aos olhos, todavia não me lembra tê-la visto diversa. Gostaria de olhar lado a lado para os dois clichês: antes e depois e me espantar com a diferen­ça. Mas não. O mundo se constrói sob meus olhos num eter­no presente. Habituo-me tão depressa às suas faces que ele não me parece mudar.

Em minha mesa, os fichários, o papel branco, me convidam ao trabalho, mas as palavras que me dançam na cabeça impe­dem-me a concentração: "Filipe estará aqui esta noite". Quase um mês de ausência. Entrei em seu quarto onde se espalham ainda livros, papéis, uma velha malha cinza, um pijama violeta — esse quarto que eu não me decido a reformar porque não tenho tempo, dinheiro, porque não quero acreditar que Filipe não é mais meu. Voltei para a biblioteca perfumada por um ra­mo de rosas frescas, ingênuas como alfaces. Espantei-me por este apartamento jamais ter-me parecido deserto. Nada lhe fal­tava. Acariciei com o olhar as cores ácidas e ternas das almofadas espalhando-se nos divas. As bonecas polonesas, os salteadores eslovenos, os galos portugueses ocupavam, ajuizadamente, seus lugares. "Filipe estará aqui..." Fiquei desamparada. Po­de-se chorar de tristeza mas não é fácil conjurar a impaciência da alegria.

Decidi ir respirar o odor do estio. Um negrão vestido com impermeável azul-elétrico e com chapéu de feltro cinza varria a calçada; antes era um argelino cor de terra. No Bulevar Edgar-Quinet misturei-me a confusão das mulheres. Como não saio nunca de manhã, a feira pareceu-me exótica (tantos mercados matinais sob tantos céus!). A velhinha manquitolava de uma banca a outra, suas madeixas bem puxadas para trás, apertando a alça de sua sacola vazia. Antigamente, eu não me incomodava com os velhos, tomava-os por mortos cujas pernas andassem ainda. Agora, eu os vejo: homens e mulheres apenas um pouco mais velhos que eu. Prestei atenção nesta no dia em que, no açougue, ela pediu restos de carne para o gato. — "Para seus gatos!" — disse o açougueiro quando a velha saiu. — Ela não tem gatos. Vai mas é aferventar-se um caldo!" O açougueiro acha­va graça nisso. Daqui a pouco ela recolherá detritos sob as bancas, antes que o negrão os varra para o lixo. Sobreviver com dezoito mil francos por mês! mais de um milhão deles estão nesse caso, e mais três milhões são um pouco menos desvalidos.

Comprei flores, frutos, caminhei a esmo. Ser aposentado e ser um rebotalho parece quase a mesma coisa. A palavra me congelava. Espantava-me a extensão de meus lazeres. Estava errada. O tempo, às vezes, parece custar a passar mas eu me arranjo. E que prazer viver sem obedecer ordens, sem constran­gimento! Há ocasiões em que me assombro. Lembro-me do pri­meiro posto, de minha primeira classe, as folhas mortas que ran­giam sob os passos no outono provinciano. Então, o dia da aposentadoria — distante de mim um lapso de tempo duas vezes mais longo ou quase, que minha vida anterior — me parecia irreal como a própria morte. E eis que há um ano ele chegou. Passei outras barreiras, porém fluidas. Esta tem a rigidez de uma cortina de aço.

Voltei e me sentei à minha mesa: sem trabalho, mesmo esta alegre manhã me pareceria insípida. Lá pelas 13 horas parei e fui pôr a mesa na cozinha: igualzinha à cozinha de minha avó em Milly — gostaria de rever Milly — com sua mesa de quinta, seus cobres, seus bancos, o teto com as vigas descobertas. Só que há um fogão a gás em lugar do grande fogão a lenha com forno, e uma geladeira elétrica. (Em que ano apareceram as pri­meiras frigidaires na França? Comprei a minha há dez anos, mas já era um artigo comum. Quando? Antes da guerra? Lo­go depois? Eis aí uma das coisas que não me lembro.)

André chegou tarde. Tinha-me prevenido que, ao sair do laboratório, tomaria parte numa reunião sobre a force de frappe. Perguntei:

— Foi bem?

— Acertamos um novo manifesto. Mas não tenho ilu­sões. Não terá mais repercussão que os outros. Os franceses estão pouco ligando. Para a force de frappe, para a bomba atô­mica, para tudo, em geral. Às vezes me dá vontade de chamar no pé. Ir para Cuba, ou Mali. Positivamente, eu sonho. Lá, poderíamos ser úteis.

— Você não poderia mais trabalhar.

— Não seria uma grande desgraça.

Coloquei sobre a mesa a salada, o presunto, o queijo, as frutas.

— Está assim tão desacorçoado? Não é a primeira vez que não contornam os acontecimentos...

— Não.

— Então?

— Você não quer compreender.

Com freqüência, ele me repete que, presentemente, todas as idéias novas vêm de seus colaboradores, que está muito velho para inventar: não o creio.

— Minha última descoberta foi há quinze anos.

Quinze anos. . . Nenhum período sáfaro atravessado du­rou tanto tempo. Mas no ponto em que chegou, sem dúvida, tem necessidade de uma pausa para encontrar nova inspiração. Penso nos versos de Valéry:

Cada átomo de silêncio

É oportuno ao fruto maduro 1

1Chaque atome de silence

Est la chance d'un fruit mûr.

 

Desta lenta gestação, vão nascer inesperados frutos. Não terminou a aventura da qual participei apaixonadamente: a dú­vida, os reveses, o aborrecimento, marcar passo, em seguida a luz entrevista, uma esperança, uma hipótese confirmada. Depois de semanas e de meses de ansiosa paciência, a embriaguez do êxito. Não compreendia bem os trabalhos de André mas minha confiança cabeçuda fortalecia a sua. Ela permanece intata. Mas por que não posso mais transmiti-la? Eu me recuso a crer que não verei jamais brilhar em seus olhos a alegria febril da des­coberta.

Disse:

— Nada prova que você não terá uma segunda inspiração.

— Não. Em minha idade temos hábitos que freiam a in­venção. Cada ano que passa fico mais ignorante. - -

— Tornaremos a tocar no assunto daqui a dez anos. Aos setenta anos, talvez, você fará a sua maior descoberta.

— Isso é bem o seu otimismo! Garanto-lhe que não.

— É bem o seu pessimismo!

Rimos. Entretanto, não há do que rir. O derrotismo de André não tem fundamento, desta feita ele carece de rigor. Sim, Freud escreveu em uma de suas cartas que numa certa idade não se inventa mais nada e isso é desolador. Mas ele era, então, mui­to mais velho que André. Não importa. Injustificada embora, essa melancolia não me entristece menos. Se André se entrega é que, de um modo geral, ele está em crise. Surpreendo-me, mas o fato é que ele não se resigna a varar os sessenta anos. A mim, mil coisas me divertem ainda, a ele não. Antigamente, tudo o interessava, agora é um problema levá-lo a ver um filme, a uma exposição, à casa de amigos.

— Que pena você não gostar mais de passear — disse. — Os dias andam tão bonitos! Pensava há pouquinho que gostaria muito de voltar a Milly e às florestas de Fontainebleau.

— Você é espantosa — disse-me sorrindo. — Conhece a Europa inteira e deseja rever os arrabaldes de Paris!

— Por que não? A colegial de Champeaux não é menos bela porque eu subi à Acrópole.

— Pois seja. Assim que o laboratório estiver fechado, em quatro ou cinco dias, eu lhe prometo uma longa vagabundagem de carro. ^

Teremos tempo de fazer mais de uma pois que ficaremos em Paris até o início de agosto. Mas terá ele vontade? Per­guntei:

— Amanhã é domingo. Você estará livre?

— Não, infelizmente! Você bem sabe da existência desse encontro com a imprensa sobre o apartheid. Eles me trouxeram uma porção de documentos que ainda não examinei.

Prisioneiros políticos espanhóis, detidos portugueses, ira­nianos perseguidos, rebeldes congoleses, guerrilheiros venezue­lanos, peruanos, colombianos, ele está sempre pronto a ajudá-los na medida de suas forças. Reuniões, manifestos, meetings, tra­tados, delegações, nada ele recusa.

— Você se dá demais!

— Por que demais? Que outra coisa fazer?

Que fazer, mesmo, quando o mundo se descoloriu? Só resta matar o tempo. Eu também atravessei um mau período há dez anos. Estava aborrecida com meu corpo, Filipe tornara-se adulto. Após o sucesso de meu livro sobre Rousseau sentia-me vazia. Envelhecer me agoniava. Depois, iniciei um estudo so­bre Montesquieu, consegui que Filipe passasse nos exames e co­meçasse sua tese. Confiaram-me cursos na Sorbonne que me interessaram mais que meus problemas. Resignei-me a meu cor­po. Pareceu-me que ressuscitava. E hoje, se André não tivesse uma consciência tão aguda de sua idade, eu esqueceria a minha.

Ele tornou a sair e eu fiquei bastante tempo no terraço. Vi voltear contra o fundo azul do céu uma grua cor de mínio. Segui com os olhos um inseto negro que fazia no ar um sulco espumoso e gelado. A perpétua juventude do mundo me deixa sem ar. Coisas que eu amei desapareceram. Muitas outras me foram dadas. Ontem à tarde, eu subia o Bulevar Raspail e o céu estava carmesim. Pareceu-me caminhar num planeta estrangeiro onde a relva fosse violeta, a terra azul. As árvores abri­gavam o avermelhar de um anúncio a néon. Andersen aos ses­senta anos maravilhava-se por atravessar a Suécia em menos de vinte e quatro horas quando em sua juventude a viagem durava uma semana. Conheci deslumbramentos semelhantes: Moscou a três horas e meia de Paris!

Um táxi levou-me ao Parque Montsouris onde tinha mar­cado encontro com Martine. Entrando no jardim senti profun­damente o odor da grama cortada: perfume das pastagens onde caminhava com André, mochila às costas, tão emocionada por ser o cheiro dos pratos de minha infância. Reflexos, ecos se encadean­do ao infinito. Descobri a doçura de ter atrás de mim um lon­go passado. , Não tenho o tempo de mo narrar, mas às vezes, de improviso, eu o vejo em transparência ao fundo do momen­to presente: ele lhe dá sua cor, sua luz, como as rochas e as areias se refletem na cintilação do mar. Antigamente, eu me embalava com projetos, com promessas. Agora, a sombra dos dias mortos aveluda-me emoções e prazeres.

— Bom dia.

No terraço do café-restaurante Martine bebia uma limonada. Espessos cabelos negros, olhos azuis, vestido curto com riscas laranja e amarelas, com toques violetas: uma bela e jovem mu­lher. Quarenta anos. Com trinta anos eu havia rido quando o pai de André tratara de bela mulher jovem uma quarentona. E as mesmas palavras me vinham aos lábios vendo Martine. No presente, quase todas as pessoas me parecem jovens. Ela sorriu:

— Você me trouxe seu livro?

— Claro.

Olhou a dedicatória:

— Obrigada — disse com voz comovida. Prosseguiu: — Tenho tanta pressa de lê-lo. Mas este fim de ano escolar está sobrecarregado. Terei que esperar o 14 de Julho.

— Gostaria bem de saber sua opinião.

Tenho muita confiança em seu julgamento: quer dizer que estamos sempre de acordo. Eu me sentiria completamente no mesmo plano que Martine se não conservasse a meu respeito um pouco da velha deferência de aluno a professor, se bem que ela própria seja professora, casada e mãe de família.

— É difícil ensinar literatura hoje. Não sei como me ar­ranjaria sem seus livros. — Perguntou-me timidamente: — Está contente com este?

Sorri-lhe:

— Sim. Francamente.

Uma interrogação persistia em seus olhos sem que ela a ousasse formular. Tomei a dianteira. Seus silêncios me encora­javam a falar melhor que perguntas estouvadas.

__ Você sabe o que eu quis fazer: a partir duma refle­xão sobre as obras de crítica escritas depois da guerra, propor método novo que permitiria penetrar no trabalho de um autor com exatidão que nunca se conseguiu. Espero ter tido êxito.

Era mais que uma esperança: uma convicção. Ela me aque­cia o peito. Belo dia! E eu amava essas árvores, esses grama­dos, essas aléias onde tantas vezes passeara com os camaradas, os amigos. Alguns morreram ou nossas vidas nos distanciaram. Felizmente, ao contrário de André que não vê mais ninguém, eu me liguei a alunos e a jovens colegas: eu os prefiro às mulheres de minha idade. Suas curiosidades avivam a minha, me arras­tam em seu futuro, para lá de meu túmulo.

Martine acariciou o volume com a palma da mão.

— Vou, apesar de tudo, dar uma olhadela esta noite mes­mo. Alguém o leu?

— Somente André. Mas a literatura não o apaixona. Nada o apaixona. E é tão derrotista para mim como para ele. Sem me dizer, está convencido no fundo, que tudo o que fizer para o futuro nada acrescentará à minha reputação. Isso não me perturba porque sei que ele se engana. Acabo de escre­ver meu melhor livro e o segundo volume irá mais longe.

— Seu filho?

— Eu lhe remeti um pacote de provas. Vai me falar a res­peito. Retornará esta noite.

Falamos de Filipe, de sua tese, de literatura. Como eu, ela gosta das palavras e das pessoas que sabem se servir delas. Ape­nas, ela se deixa devorar pelo ofício e pelo lar. Levou-me a minha casa em sua pequena Austin.

— Retornará logo a Paris?

— Não creio. De Nancy irei diretamente repousar em Yonne.

— Você trabalha um pouco durante as férias?

— Bem que gostaria. Mas estou sempre sem tempo. Não tenho a sua energia. \

Não é uma questão de energia, disse a mim mesma quando a deixei: eu não poderei viver sem escrever. Por quê? E por que me obstinei a fazer de Filipe um intelectual quando André o teria deixado empenhar-se em outros caminhos? Criança, ado­lescente, os livros me salvaram do desespero: isso me persua­diu que a cultura é o mais alto valor e eu não consigo encarar essa convicção com olho crítico.

Na cozinha, Marie-Jeanne se apressa em preparar o jantar: um cardápio com os pratos favoritos de Filipe. Verifiquei que tudo estava em ordem, li os jornais e fiz uma palavra cruzada di­fícil que me reteve três quartos de hora. Às vezes, me divirto em ficar muito tempo inclinada sobre um quadrado onde, virtualmente, as palavras estão presentes se bem que invisíveis. Para fazê-las aparecer uso meu cérebro como um revelador. Pa­rece-me arrancá-las da espessura do papel onde estariam escon­didas.

A última casa preenchida, escolhi em meus cabides o mais belo vestido de seda fina cinza e rosa. Com cinqüenta anos mi­nhas toilettes me pareciam ou muito tristes ou muito alegres, agora sei o que me é permitido ou vedado, visto-me sem proble­mas. Sem alegria, tampouco. Essa relação íntima, quase terna que tivera outrora com minhas roupas, desapareceu. Apesar de tudo, ainda considerei com satisfação, minha silhueta. Foi Filipe quem me disse um dia: "Olha lá, você está engordando!" (Ele não parece haver notado que eu recuperei minha linha.) Pus-me no regime, comprei uma balança. Nunca imaginei outrora que me incomodaria com meu peso. Veja só! Menos eu me reconhe­ço em meu corpo, mais me sinto obrigada a me ocupar com ele. Está a meus cuidados e eu o trato com um devotamento aborre­cido, como a um velho amigo meio desgracioso, meio diminuído, que tivesse necessidade de meus préstimos.

André trouxe uma garrafa de Mumm que pus para gelar, nós conversamos um pouco e ele telefonou para sua mãe. Ele o faz freqüentemente. Ela tem ainda boas pernas, boa vista, milita braviamente nas fileiras do PC. Apesar de tudo tem oiten­ta e quatro anos, vive sozinha em sua casa de Villeneuve-lès-Avignon e o filho se inquieta por sua causa. Ria ao telefone. Ouvia suas reclamações, seus protestos, mas parou depressa. Manette é volúvel quando pega jeito.

— O que ela contou?

— Está cada vez mais convencida que, de um dia para outro, cinqüenta milhões de chineses vão transpor a fronteira russa. Ou então vão balançar uma bomba em qualquer lugar pe­lo simples prazer de fazer estourar uma guerra mundial. Acusa-me de ficar do lado deles: impossível convencê-la do contrário.

— Ela vai bem? Não se aborrece?

— Ficará muito contente em nos ver, mas aborrecimento, não sabe o que seja isto!

Professora, três filhos, a aposentadoria foi para ela uma felicidade que ainda não esgotou. Conversamos sobre ela e sobre os chineses a respeito dos quais, como todo mundo, estamos tão mal informados. André abriu uma revista. E eis-me a olhar meu relógio cujos ponteiros não parecem andar.

 

Súbito, ele apareceu; cada vez fico surpresa ao encontrar sobre seu rosto, harmoniosamente fundidos, os traços tão dessemelhantes de minha mãe e de André. Abraçou-me com muita força dizendo palavras alegres e eu me abandonei à ternura do paletó de flanela contra meu rosto... Soltei-me para abraçar Irene; ela me sorria, com um sorriso tão gelado que eu me es­pantei de sentir sobre os lábios uma face doce e quente. Irene. Sempre a esqueço: sempre está presente. Loira, os olhos azuis-cinza, a boca mole, o queixo agudo, e em sua testa muito gran­de qualquer coisa a um tempo vaga e premeditada. Logo a anu­lei. Estava eu sozinha com Filipe como nos tempos em que o acordava cada manhã, com uma carícia sobre a fronte.

— Nem mesmo uma gota de uísque? — perguntou André.

— Obrigada. Prefiro um suco de frutas.

Como é bem comportada! Vestida, penteada, com uma bem composta elegância, o cabelo liso, uma franja escondendo sua testa grande, maquilagem ingênua, taierzinho rígido. Acontece-me com freqüência, ao folhear uma revista feminina, exclamar: "Olha, é Irene"! Acontece-me também vê-la e mal reconhecê-la. "Ela é bonita" — afirma André. Certos dias estou de acordo: deli­cadeza das orelhas e das narinas, ternura nacarada da tez grifada pelo azul sombrio dos cílios. Mas se ela mexe um pouco a cabeça, o rosto desliza, só se vê aquela boca e o queixo. Irene. Por quê? Por que Filipe sempre se ligou a esse gênero de mu­lheres elegantes, distantes, esnobes? Sem dúvida para provar-se que as podia seduzir. Não se apegava a elas. Cuidava que jamais se apegaria e, uma tarde ele me disse: "Vou lhe dar uma grande novidade, com o ar um pouco sobreexcitado de uma criança que em dia feriado brincou muito, riu muito, gritou muito. Houve aquela pancada de gongo em meu peito, o sangue em minhas fa­ces, todos os meus nervos alertas para reprimir o tremor de meus lábios. Uma tarde de inverno, as cortinas cerradas, a luz das lâmpadas sobre o arco-irisado das almofadas e esse abismo de ausência cavado de súbito. "Ela lhe agradará; é uma mulher que trabalha." Trabalha de vez em quando como script-girl. Co­nheço esse gênero de mulheres avoadas. Tem-se uma profissão vaga, pretende cultivar-se, fazer um pouco de esporte, vestir-se bem, cuidar impecàvelmente da casa, educar perfeitamente os filhos, levar vida mundana, breve: ter sucesso em todos os pla­nos. E em verdade, não se prendem a nada. Elas me revoltam.

Eles partiram para a Sardenha no dia em que a Faculdade fechou suas portas, ao início de junho. Enquanto jantávamos nesta mesa onde, com tanta freqüência, fiz Filipe comer (vamos, acaba sua sopa; come mais um pedaço de carne, engole qualquer coisa antes de ir para a aula), nós falamos da viagem — belo presente de núpcias, oferta dos pais de Irene. São pessoas de recursos. Ela ficava muito tempo quieta, como mulher inteli­gente que sabe esperar o momento de fazer uma observação fe­liz ou surpreendente; de vez em quando, largava uma frasezinha, surpreendente — em minha opinião, pelo menos — pela bobagem ou banalidade.

Voltamos para a biblioteca. Filipe lançou um olhar sobre minha mesa.

— Você trabalhou bem?

— A coisa vai. Não teve tempo de ler minhas provas?

— Imagina que não. Estou desconsolado.

— Lera o livro. Tenho um exemplar para você.

Sua negligência me entristeceu um pouco mas nada demons­trei. Disse:

— E você vai retornar seriamente à sua tese?

Ele não respondeu e trocou um olhar engraçado com Irene.

— O que é que há? Voltam a viajar?

— Não. — De novo o silêncio e ele disse, meio humoris­ta: Ah! Você vai se zangar, vai me censurar, mas tomei uma decisão durante este mês. É muito pesado conciliar um lugar de assistente e uma tese. Ora, sem tese, a Universidade não me oferece futuro interessante. Vou deixá-la.

— Que é que está contando?

— Vou deixar a Universidade. Sou ainda bastante jovem para seguir uma orientação diversa.

— Mas não é possível! No ponto em que chegou, não vai largar mão! — disse indignada.

— Compreenda-me. Antes, o professorado era um negó­cio de ouro. Agora, não sou o único a achar impossível me ocupar com os estudantes e trabalhar para mim: eles são muito numerosos.

— Isso é verdade — disse André. Trinta alunos é trinta vezes um aluno. Cinqüenta, uma multidão. Mas pode-se arran­jar um expediente que lhe permita dispor de mais tempo e ter­minar sua tese.

— Não — disse Irene em tom decisivo. — O ensino, a pesquisa são em realidade, muito mal pagos. Tenho um primo que é químico. No C.N.R.S. ele ganhava oitenta mil francos por mês. Entrou numa fábrica de corantes e percebe trezentos mil.

— Não é somente uma questão de dinheiro — disse Filipe.

— Claro. O que conta também é estar por dentro.

Com frasezinhas medidas, Irene deu a entender o que pen­sava de nós. Oh! ela o fez com muito tato, esse tato que a gente sente vir de longe. (Eu não quero, sobretudo, magoá-los, não seria justo que tivessem raiva de mim, mas existem coisas que é preciso dizer, apesar de tudo o que... se eu não me con­tivesse, diria mais ainda.) É certo que André é um sábio e, eu própria, como mulher, fui bem sucedida. Mas nós vivemos fo­ra do mundo, em laboratórios e bibliotecas. A geração de jovens intelectuais quer estar em contato com a sociedade. Filipe, com seu dinamismo, não foi feito para nosso gênero de vida; existem outras carreiras que estão mais na sua medida.

— Enfim, uma tese é coisa superada — ela concluiu.

Não pode ser estúpida a esse ponto! Todavia é Irene que existe e que conta. Anulou a vitória que eu havia obtido para Filipe, contra ele próprio. Um combate tão longo, tão duro para mim, às vezes. "— Não consigo fazer esta dissertação. Tenho dor de cabeça, mande um recado dizendo que eu estou doente." — Não. O terno rosto de adolescente crispava-se, envelhecia, os olhos verdes me assassinavam. "Você não é boazinha!" An­dré intervinha: "Por uma vez só. . ." — Não. Minha angústia na Holanda, durante as férias da Páscoa, Filipe tendo ficado em parisI "— Não quero o seu diploma trancado!" Ele gritou com ódio: "Não me levem. Pouco me incomodo! Não escreverei uma linha!" E depois seus sucessos, nosso entendimento. Nosso en­tendimento que .Irene está no ponto de quebrar. Ela mo arre­bata pela segunda vez. Não queria explodir em sua frente. Con­trolei-me.

— Então, o que pretende fazer? Irene ia responder, Filipe atalhou-a:

— O pai de Irene tem diversas coisas em vista.

— De que ordem? Em negócios?

— Ainda está no ar.

— Falou com ele antes da viagem. Por que não nos disse nada?

— Queria refletir, antes.

Tive um sobressalto de cólera. Era incrível que ele não me houvesse consultado logo que a idéia de deixar a Universidade germinou em sua cabeça.

— Naturalmente, vocês me censuram — disse Filipe com ar irritado.

O verde de seus olhos tomava aquela cor tempestuosa que eu tão bem conhecia.

— Não — disse André. — Deve-se fazer o que se tem von­tade.

— E você? Você me censura?

— Ganhar dinheiro não me parece um ideal exaltante. Es­tou espantada.

— Disse que não se tratava, apenas, de dinheiro.

— Do que é que se trata? Seja preciso.

— Não posso. Necessito rever meu sogro. Mas só acei­tarei sua proposta se achar nela algum interesse.

Discuti ainda um pouco, o mais calmamente possível, ten­tando convencê-lo do valor de sua tese, lembrando-lhe antigos projetos, ensaios, estudos. Respondia polidamente mas minhas palavras escorriam sobre ele. Não, ele não me pertencia mais de modo algum. Mesmo seu aspecto físico tinha mudado: um ou­tro corte de cabelo, as roupas mais em dia no estilo do XVI arrondissement. 2 Fui eu que dei contorno a sua vida. Agora, assisto-a de fora, como testemunha distante. É o destino das mães, mas quem se resigna com o destino comum das mães?

2 A cidade de Paris é dividida em arrondissements (bairros) e o XVI é o bairro elegante (N. do T.)

 

André foi com eles até o elevador e eu me deixei cair no diva. Este vazio, de novo... O bem-estar deste dia, aquela plenitude no âmago da ausência vinham da certeza de ter Filipe aqui por algumas horas. Esperei-o como se ele viesse para não mais partir: ele partirá sempre. E nossa ruptura é muito mais definitiva do que eu havia suposto. Não participarei mais de seu trabalho, não teremos mais os mesmos interesses. O dinheiro conta a tal ponto para ele? Ou somente cede a Irene? Ama-a tanto? Seria necessário conhecer suas noites. Sem dúvida, ela sabe cumular ao mesmo tempo seu corpo e seu orgulho: sob sua aparência mundana, julgo-a capaz de desencadeamentos. Tenho tendência a subestimar a importância que cria num casal a felici­dade física. A sexualidade para mim não existe mais. Chamava serenidade a esta indiferença; súbito eu a compreendi de outra maneira: é uma doença, é a perda dos sentidos; ela me deixa ce­ga às necessidades, às dores, às alegrias daqueles que a possuem. Parece-me que nada mais sei sobre Filipe. Uma só coisa é certa: a falta que ele vai me fazer!

Talvez fosse graças a ele que eu me resignasse com minha idade. Ele me carregava para sua juventude. Levava-me às Vinte e Quatro Horas de Le Mans 3, às exposições de op-art, e mesmo uma noite a um happening. 4 Sua presença agitada, in­ventiva, enchia a casa. Acostumar-me-ei a este silêncio, à ajui­zada seqüência de dias que nenhum imprevisto quebrará?

3 Tradicionais corridas automobilísticas (N. do T.).

4 Acontecimento com características de moderna improvisação (N. do T.).

 

Indaguei de André:

— Por que você não me ajudou a convencer Filipe? Vo­cê cedeu logo. Nós dois juntos o teríamos persuadido, talvez.. .

— É preciso deixar as criaturas livres. Ele nunca teve tan­ta vontade de ser professor.

— Mas sua tese o interessava.

— Até determinado ponto bastante incerto. Eu com­preendo.

— Você compreende todo mundo.

— Antes André era tão intransigente para com os outros como para consigo mesmo. Agora, suas posições políticas não se alteraram, mas em sua vida particular somente reserva sua se­veridade. Ele discute, explica, desculpa, aceita as pessoas ao ponto de me exasperar. Prossegui:

— Acha que é uma finalidade satisfatória ganhar dinheiro?

— Já não sei mais ao certo quais foram nossas finalidades e se satisfatórias.

Pensava no que dizia ou se divertia em me provocar? Isto acontece quando me julga muito obstinada em minhas convic­ções e princípios. Geralmente, de boa vontade, deixo-o arreliar comigo, entro no jogo. Mas desta feita não tinha ânimo para brincadeiras. Minha voz elevou-se:

— Por que nós vivemos ao nosso modo se você considera igualmente bem viver de outro?

— Por que não teríamos podido.

— Não teríamos podido por ser o nosso o gênero de vida que nos parecia válido.

— Não. Para mim, conhecer, descobrir, era mania, uma paixão, ou mesmo uma espécie de neurose, sem nenhuma justifi­cativa moral. Nunca achei que todos tinham de me imitar.

Eu, no fundo, penso que todos devem nos imitar, mas não quis discutir. Disse:

— Não se trata de todo o mundo mas de Filipe. Vai virar um negocista e não foi para isso que eu o eduquei.

André refletia:

— É constrangedor para um jovem ter pais que foram muito bem sucedidos. Não ousa crer que os igualará se seguir a mesma trilha. Prefere ter outras perspectivas.

— Filipe estava se virando muito bem.

— Você o auxiliava, ele trabalhava à sua sombra. Fran­camente, sem você não teria ido longe, e é bastante perspicaz para ter compreendido isto.

Sempre existira entre nós esta surda oposição relativa a Fi­lipe. Talvez André se tivesse aborrecido por ele haver escolhido as letras e não a ciência. Era a clássica rivalidade pai-filho em jogo: sempre julgara Filipe um medíocre o que era um modo de o votar à mediocridade.

— Eu sei — disse — você jamais confiou nele. E se ele próprio duvida de si é que se vê com os seus olhos.

— Pode ser — ponderou André em tom conciliador.

— De qualquer modo a grande responsável é Irene. Ela o empurra. Deseja que seu marido ganhe a nota. Está por de­mais contente para afastá-lo de mim.

— Ah! não banque a sogra. Irene é igual a qualquer uma.

— Que qualquer uma? Ela disse despropósitos.

— Isto acontece. Às vezes ela é malévola. Isso é mais sintoma de um desequilíbrio emocional que de falta de inteligên­cia. Por outro lado, se o dinheiro a atraísse tanto não se casaria com Filipe que não é rico.

— Compreendeu que ele poderia tornar-se.

— Em todo o caso ela o preferiu a qualquer jovem esnobe.

— Se ela lhe agrada, melhor pra você.

— Quando se preza uma pessoa deve-se dar um crédito aos que ela ama.

— É verdade — disse. — Mas Irene me desnorteia.

— É preciso ver de que meio ela saiu.

— Apenas, ela não saiu. Infelizmente.

Esses burguesões cheios de si, influentes, importantes me parecem ainda mais detestáveis que o meio frívolo e mundano contra o qual minha juventude se insurgiu.

Durante um momento ficamos silenciosos. Atrás dos vi­dros o anúncio a néon saltou do vermelho para o verde, os olhos da grande muralha brilhavam. Uma bela noite. Teria descido com Filipe para tomar o último copo ao ar livre. . . Inútil sugerir a André uma volta, ele, visivelmente, começava a ter sono. Eu disse:

— Pergunto-me por que Filipe a desposou.

— Oh! você sabe: quem está de fora não entende dessas coisas.

Havia respondido com ar indiferente. Seu rosto estava abatido, apoiava o dedo contra a face na altura da gengiva: tique adquirido fazia algum tempo.

— Tem dor de dente?

— Não.

— Então por que esfrega a gengiva?

— Verifico se não dói.

O ano passado ele tomava o pulso cada dez minutos. Ver­dade que tinha sofrido de um pouco de hipertensão mas um tratamento a estabilizou em 17 o que é perfeito para nossa idade. Prosseguia premindo o dedo contra a bochecha, seus olhos estavam vazios, bancava o velho e acabaria por conven­cer-me de que o era de fato. Por um instante pensei, horrori­zada: "Filipe foi embora e eu vou terminar meus dias ao lado de um ancião!" Tive vontade de gritar: "Pare, eu não que­ro!" Como se me tivesse entendido, ele sorriu, voltou a ser ele próprio e fomos dormir.

Dorme ainda. Vou acordá-lo. Beberemos chá-da-China bem escuro, bem forte. Mas esta manhã não se parece com a de ontem. Preciso aprender de novo: perdi Filipe. Já deveria ter sabido. Ele me abandonou no instante em que me anunciou seu casamento, me abandonou quando nasceu: uma ama podia substituir-me. O que é que eu pensei? Porque ele era exi­gente julguei que me tornara indispensável. Porque se deixa facilmente influenciar acreditei que o criara à minha imagem. Este ano, quando o via com Irene ou na família do sogro, tão diferente do que era comigo, parecia que ele se prestava a uma brincadeira: era eu que detinha a sua verdade. E escolhe o afastamento, a quebra de nossas cumplicidades, recusa a vida que, com tanto sacrifício, eu lhe havia construído. Ele se tor­nará um estranho.

Vamos! Eu, quem André acusa freqüentemente de otimis­mo cego, talvez esteja a me atormentar por nada. Apesar de tudo não acredito que fora da Universidade não haja salvação, nem que fazer uma tese seja imperativo absoluto. Filipe disse que só aceitaria trabalho interessante.. . Desconfio de Filipe. Já lhe ocorreu, com freqüência, me esconder coisas, ou me mentir, conheço seus defeitos, já tomei partido e até eles me comovem como se fossem uma desgraça física. Mas desta feita ofende-me que não me tenha posto ao corrente de seus proje­tos. Estou indignada e aflita. Até agora, quando me decepcio­nava, ele próprio sabia sempre me consolar. No momento, não tenho certeza que o consiga.

 

Por que André está atrasado? Tinha trabalhado quatro horas a fio, minha cabeça pesava e me estendi sobre o diva. Em três dias Filipe não me deu sinal de vida; isto não está em seus hábitos. Seu silêncio me espanta porquanto ele multipli­ca os telefonemas e os recadinhos quando teme ter-me magoa­do. Não compreendia, meu coração pesava e minha tristeza fa­zia mancha de óleo: escurecia o mundo que, em contrapartida a alimentava. André. Ele se torna cada vez mais rabugento. Vatrin era o amigo único que ainda admitia ver e se zangou por­que o convidei para almoçar: "— Ele me aborrece'\ Todo o mundo o aborrece. E eu? Ele me tinha dito há muito, muito tempo: "Desde que a tenho não poderei jamais ser infeliz." E ele não está com ar muito feliz. Não me amaria mais como antes? O que é amar, para ele, hoje? Sou um velho hábito que não lhe dará mais nenhuma alegria. Pode ser que fosse in­justa mas eu lhe queria mal: ele consentia nessa indiferença e nela se instalava.

A chave deu volta na fechadura e ele me beijou. Tinha o ar preocupado.

— Estou atrasado.

— Um pouco.

— É que Filipe foi me buscar na Escola Normal. Bebe­mos um copo juntos.

— Por que não o trouxe?

— Queria me falar e reservadamente para que fosse eu que lhe explicasse o que tem a nos dizer.

— E o que é?

(Partia para o exterior, muito longe, durante muitos anos?)

— Não lhe dará prazer. Ele não ousou nos revelar a ou­tra noite mas é coisa decidida. Seu sogro lhe arranjou um posto. Foi admitido no Ministério da Cultura. Explicou que, na sua idade, é uma situação magnífica. Mas você vê o que isso implica.

— É impossível. Filipe!

Era impossível. Ele tinha as nossas idéias. Arriscou mui­to durante a guerra da Argélia — essa guerra que nos arrasara e que semelhava, agora, jamais ter existido; ele apanhara em manifestações antigaullistas; votou conosco nas últimas eleições. . .

— Disse que evoluiu. Compreendeu que o negativismo da esquerda francesa não o conduzira a nada, que ela estava liquidada, que ele queria estar na corrida, ter contato com o mundo, agir, construir.

— Parece-nos ouvir Irene.

— Mas era Filipe que falava —- disse André com voz dura. Bruscamente compreendi. A cólera me possuiu:

— Então quê? É um arrivista? Vira casaca por carreirismo? Espero que você o tenha feito engolir o que disse.

— Declarei que o desaprovava.

— Não tentou fazê-lo mudar de opinião?

— Claro que sim. Eu discuti.

— Discutir! Era necessário intimidá-lo, dizer que não o veríamos mais. Você foi muito mole, eu o conheço.

Súbito, aquilo caía sobre mim, uma avalancha de dúvidas, de inquietações que eu havia represado. Por que ele só possuí­ra mulheres bem vestidas demais, grã-finas, esnobes? Por que Irene e esse casamento em grande estilo na igreja? Por que parecia tão diligente, tão encantador com a família do sogro? Evoluía naquele meio como um peixe na água. Não quis ques­tionar e quando André arriscava uma crítica eu defendia Fili­pe. Toda essa confiança obstinada transformava-se em rancor. Filipe de um só golpe mudara de cara. Um arrivista, um in­trigante.

— Pois eu vou ter uma conversa.

Dirigi-me para o telefone. André me fez parar:

— Acalme-se antes. Uma cena não adiantaria nada.

— Mas me aliviaria.

— Faz favor!

— Deixe-me.

Disquei o número de Filipe.

— Seu pai acaba de me contar que você entra para o ga­binete do Ministério da Cultura. Felicitações!

— Ah! se me faz favor — disse ele — não tome esse tom.

— E que tom deverei tomar? Deverei regozijar-me quan­do você não ousa falar comigo cara a cara, tanto se envergonha de si próprio?

— Não tenho vergonha nenhuma. Tem-se o direito de mudar de opinião.

— Mudar! Há seis meses você condenava radicalmente a política cultural do regime.

— Pois bem, justamente! Vou procurar mudá-la.

— Vamos! Você não pesa em nada e bem o sabe. En­trará no jogo ajuizadinho, preparará uma bela carreira. É a ambição que o norteia, nada mais...

Não sei mais o que lhe disse, ele gritava: "Cale-se! Ca­le-se!" Eu prosseguia, ele me cortava a palavra, sua voz tor­nava-se raivosa, terminou por dizer com furor:

— Não somos uns sujos porque recusamos compartilhar suas obstinações senis!

— Isto basta. Eu não o verei nunca mais enquanto viva!

Desliguei, sentei-me suando, trêmula, as pernas bambas. Mais de uma vez tínhamos brigado de morte, mas este golpe era sério: jamais o tornaria a ver. Sua reviravolta me enojava e suas palavras me feriram porque ele quisera ferir.

— Ele nos insultou. Falou em nossas obstinações senis. Nunca mais o verei e não quero que você jamais o veja.

— Você também foi dura. Não deveria ter-se colocado num ponto de vista passional.

— E por que não? Ele não levou em conta nossos sen­timentos. Troca-nos por sua carreira. Paga-a ao preço de uma ruptura.

— Ele não pensa em ruptura, e depois ela não ocorrerá. Sou contra.

— No que me concerne já houve. Tudo acabou entre nós.

Calei-me. Continuava a tremer de cólera.

— Já há algum tempo que Filipe fazia um jogo estranho — disse André — você não queria admitir, mas eu entendi bem. Todavia, nunca supus que chegasse a tanto.

— É um ambiciosozinho sujo.

— Sim — disse André em tom perplexo. — Mas por quê?

— Como por quê?

— Aquela noite, nós dissemos: certamente temos nossa parte de responsabilidade. Ele hesitou: — A ambição, foi você quem lhe insuflou, ele próprio era indiferente. E, sem dúvida, fui eu quem desenvolveu seu antagonismo.

— Tudo é culpa de Irene — exclamei de modo explosi­vo. — Se não se tivesse casado com ela, se não tivesse entrado para aquele meio, jamais teria pactuado.

— Mas ele a desposou, em parte porque esse meio se lhe impunha. Eis que há muito tempo seus valores não são mais os nossos. Vejo aí algumas razões.. .

— Não vai defendê-lo.

— Tento explicar-mo.

— Nenhuma explicação me convencerá. Não o rever ei mais e não quero que o torne a ver.

— Não se engane. Eu o condeno. Condeno profunda­mente. Mas eu o reverei. E você também.

— Não. E se você me larga, depois do que ele me disse ao telefone, eu não o perdoarei. Não me fale mais disto.

Mas não podíamos falar de outra coisa. Jantamos quase em silêncio, rapidamente e, depois, cada um pegou em um li­vro. Eu tinha raiva de Irene, de André, do mundo inteiro. "Nós temos, com certeza, nossa parte de responsabilidade." Ah! era ocioso procurar razões, desculpas. "Suas obstinações senis", ele me gritara estas palavras. Estava tão certa de seu amor por nós, por mim. Em verdade, eu não pesava muito, não representava nada para ele: uma velharia a restaurar em loja de acessórios. Só me cabia pô-lo de lado, também. A noite inteira, a raiva me abafou. De manhã, depois que André saiu, entrei no quarto de Filipe, rasguei, joguei fora papéis ve­lhos, velhos jornais, enchi uma valise com seus livros, em uma outra empilhei o pulôver, o pijama, tudo o que restava nas ga­vetas. Diante das tábuas nuas, lágrimas vieram-me aos olhos.

Você sabe como Ofereça-lhe uma

Tantas lembranças emocionantes, perturbadoras, deliciosas, acor­davam em mim. Pois eu lhes torceria o pescoço. Ele me tinha deixado, traído, insultado, ridicularizado. Jamais o perdoaria. Dois dias se escoaram sem que falássemos de Filipe. Na terceira manhã, como examinássemos a correspondência, eu dis­se a André:

— Uma carta de Filipe.

— Suponho que se desculpa.

— Perde o seu tempo. Não a lerei.

— Oh! apesar de tudo dê uma olhada, isso lhe custa: fazer os primeiros passos, chance.

— Nem pensar.

Dobrei a carta em um envelope sobre o qual escrevi o en­dereço de Filipe.

— Deite-a numa caixa, faça o favor.

Cedera sempre, com muita facilidade diante de seus belos sorrisos e bonitas frases. Desta vez eu não cederia.

Dois dias depois, no início da tarde, Irene tocou a cam­painha.

— Desejaria falar-lhe cinco minutos.

Um vestidinho muito simples, os braços nus, os cabelos soltos: ela tinha o ar de uma menina, fresca e tímida. Nunca a vira desempenhando esse papel. Fiz com que entrasse. Cla­ro, ek vinha advogar a causa de Filipe. A devolução da carta o magoara. Ele se desculpava do que dissera ao telefone, não pensava uma palavra de tudo aquilo, eu conhecia o seu gênio. Quando se encolerizava dizia coisas a esmo, sem pensar. Fazia questão de explicar-se comigo.

— Por que não veio ele mesmo?

— Tinha medo que a senhora lhe batesse com a porta no nariz.

— É de fato o que eu faria. Não desejo revê-lo. Ponto. Ponto final.

Ela insistia. Ele não podia suportar a minha zanga, não imaginara que eu tomasse as coisas tão a sério.

— Então, quer dizer que ensandeceu. Que vá para o diabo!

— Mas a senhora não quer compreender: papai conseguiu para ele algo muito importante: na sua idade, tal posição é qualquer coisa excepcional. Não pode exigir que ele lhe sacri­fique o seu futuro.

— Ele tinha um futuro, natural, conforme às suas idéias.

— Desculpe-me: — às idéias suas. Ele evoluiu.

— Evoluirá, conhecemos a música: porá suas opiniões de acordo com seus interesses. No momento, chafurda na má-fé: só pensa em ter êxito. Ele sabe que é um renegado e é isso que é feio — eu disse com exaltação.

Irene me encarou:

— Suponho que sua vida decorreu sempre impecável e que isto a autoriza a julgar todos os outros de cima.

Tornei-me rígida:

— Tentei ser honesta e desejava que Filipe o fosse. Las­timo que o haja desviado.

Ela começou a rir:

— Parece até que ele virou arrombador ou que falsificou dinheiro.

— Dadas as suas convicções não acho a sua escolha honrosa. Irene levantou-se.

— De qualquer modo, é engraçada essa severidade — disse com uma voz lenta. — O pai que é politicamente mais engajado não rompeu com Filipe e a senhora. ..

Atalhei-a:

— Ele não rompeu.. . Você quis dizer que se tornaram a encontrar?

— Não sei — retrucou apressada. — O que sei é que não falou em romper quando Filipe o pôs ao corrente de sua decisão.

— Isto foi antes do telefonema. Mas depois?

— Eu não sei.

— Você não sabe quem Filipe vê ou não vê? Respondeu com ar emburrado:

— Não.

— Seja. Não tem importância — disse. Acompanhei-a até a porta. Repassei em minha cabeça nos­sas últimas réplicas. Parou de falar por perfídia ou inabilidade? Em todo o caso, minha convicção estava formada. Qua­se formada. Mas não tanto que me libertasse da cólera. Bas­tante para que a angústia me sufoque. Assim que André chegou, ataquei:

— Por que você não me contou que tornou a ver Felipe?

— Quem lhe falou nisso?

— Irene. Ela veio me perguntar por que não queria vê-lo pois que você o revira.

— Eu a preveni de que tornaria a vê-lo.

— Eu o preveni de que ficaria mortalmente ressentida. Foi você quem o persuadiu a me escrever.

— Mas não!

— Certo que sim. Você me gozou: "Você sabe como isso lhe custa: fazer os primeiros passos/' E você os fizera! Escondido!

— Em relação a sua pessoa ele fez os primeiros passos.

— Empurrado por você. Vocês conspiraram nas minhas costas, me trataram como uma criança, me trataram como uma doente. Você não tinha o direito.

Súbito, havia fumaça vermelha em minha cabeça, uma bru­ma vermelha diante de meus olhos, algo vermelho gritando em minha garganta. Minhas raivas contra Filipe são habituais, eu o reconheço. Mas com André, quando — raramente, muito rara­mente — eu me encolerizo por sua causa, é uma tormenta que me empolga e me arrasta milhões de quilômetros longe dele e de mim mesma, numa solidão ao mesmo tempo escaldante e gelada.

— Nunca você me mentiu! É a primeira vez.

— Ponhamos que eu errei.

— Errou em ver Filipe, errou sendo cúmplice de Irene e dele contra mim, errou em me enganar, em me mentir. São erros demais.

— Escute. . . Você quer me escutar, com calma...

— Não. Eu não quero lhe falar, eu não quero mais vê-lo, quero estar só, vou tomar ar.

— Vá tomar ar e trate de acalmar-se — disse-me seca­mente.

Saí para as ruas, caminhei como já fiz muitas vezes para apagar os terrores, as cóleras, para conjurar os fantasmas. Só que eu não tenho mais vinte anos, nem mesmo cinqüenta e a fa­diga me dominou depressa. Entrei em um café e bebi um copo de vinho, os olhos feridos pela cruel claridade do néon. Filipe, tinha acabado. Casado, bandeado. Eu só tinha André e, justa­mente, eu não o tinha. Acreditava-nos transparentes um para o outro, unidos, soldados como irmãos siameses. E ele se dissoldara e me mentira: e me encontrava sozinha naquele banco. A cada segundo, evocando seu rosto, sua voz, eu atiçava uma raiva devastadora. Como naquelas doenças em que se forja o próprio sofrimento, cada inspiração lhe despedaçando os pulmões, e con­tudo, você é obrigado a respirar.

Saí. Tornei a caminhar ainda. E então o quê? me pergun­tava embotada. Nós não íamos nos separar. Solitários, prosse­guiríamos vivendo lado a lado. Ocultaria meus agravos, esses agravos que eu não queria esquecer. A idéia de que um dia seria abandonada por minha cólera me exasperava.

Quando entrei, encontrei um recado sobre a mesa: "— Fui ao cinema". Empurrei a porta de nosso quarto. Em cima da ca­ma havia o pijama de André, no chão os mocassins que lhe ser­vem de chinelo, um cachimbo e um pacote de fumo e seus remé­dios contra a hipertensão sobre o criado-mudo. Por um instante ele existiu de maneira pungente, como se se tivesse afastado de mim por doença ou exílio e que eu o encontrasse nesses objetos abandonados. Lágrimas subiram-me aos olhos, engoli um soní­fero, e me deitei.

Ao acordar de manhã, ele dormia, torcido no leito, a mão apoiada contra a parede. Desviei os olhos. Nenhum impulso pa­ra ele. Meu coração estava gelado, melancólico tal uma capela abandonada onde não brilha mais nenhuma lamparina. Os chine­los, o cachimbo, não mais me emocionavam; não evocavam um querido ausente, eram o prolongamento desse estranho que habi­tava sob o mesmo teto que eu. Atroz contradição da cólera nas­cida do amor e que mata o amor.

Não lhe falei. Enquanto tomava chá na biblioteca, eu estava em meu quarto. Chamou-me antes de sair e indagou:

— Não quer que nos expliquemos?

— Não.

Não havia nada a explicar. Essa cólera, esta dureza de meu coração... As palavras se quebrariam contra.

Durante o dia todo pensei em André e, por momentos, qualquer coisa vacilava em minha cabeça. Como quando se rece­be um choque no crânio, que a visão fica turva e que o mundo aparece em duas imagens, com alturas diferentes, sem se poder situar a de cima e a debaixo. As duas imagens que eu tinha de André, a do passado e a do presente não se ajustavam. Algo estava errado. Este instante mentia: não era ele, não era eu, essa história se desenrolava em outro lugar. Ou então, o passa­do era miragem, eu me enganara sobre André. Nem uma coisa nem outra, eu me dizia quando via claro. A verdade é que ele tinha mudado. Envelhecido. Não dava mais muita importância às coisas. Se fosse antes, a conduta de Filipe o deixaria revolta­do: ele se contentava em reprová-lo. Antes, ele não teria mano­brado às minhas costas, não me teria mentido. Sua sensibilidade, sua moral, se embotaram. Vai prosseguir nessa descida? Cada vez mais indiferente.. . Eu não quero. Eles chamam indulgên­cia, sabedoria, a essa inércia do coração: é a morte que se instala. Não ainda, não já.

Nesse dia apareceu a primeira crítica sobre meu livro. O autor me acusava de repetição. É um velho imbecil, que me de­testa; não deveria ser sensível no caso. Mas como eu estava de humor irritável, irritei-me. Gostaria de ter falado com André, mas seria necessário que tivéssemos feito as pazes. E eu não quero.

— Fechei o laboratório — me disse à noite, com sorriso bondoso. — Podemos partir para Villeneuve e a Itália no dia que desejar.

— Tínhamos decidido passar este mês em Paris — respon­di secamente.

— Você poderia ter mudado de opinião.

— Não mudei.

O rosto de André se fechou.

— Vai continuar muito tempo de cara fechada?

— Temo que sim.

— Pois bem! Você está errada. Isto está fora de propor­ções com o que se passou.

— Cada um tem suas medidas.

— As suas são despropositadas. Você é sempre a mesma. Por otimismo, por ser muito voluntariosa, esconde de si própria a verdade e quando ela salta diante de seus olhos você desaba ou explode. O que a exaspera e vem recair sobre mim é ter você superestimado Filipe.

— Você sempre o subestimou.

— Não. Simplesmente, não me iludi muito com suas ca­pacidades e seu caráter. E depois das contas feitas vejo que ain­da me iludi um pouco.

— Não se constata uma criança como ,uma experiência de laboratório. Ela se torna o que seus pais a fazem. Você jogou pensando sempre perder e isso não o auxiliou.

— E você, ao contrário, sempre se achou boa ganhadora. É livre, mas à condição de saber ter espírito esportivo quando perde. Ora, você não sabe perder, procura subterfúgios, tem acessos de cóleras, acusa meio mundo. Tudo é bom se o fim é não reconhe­cer seus erros.

— Dar crédito a alguém não é um erro!

— Ah! Quero ver quando reconhece um erro!

Eu sei. Em minha juventude tanto me condenaram, ter ra­zão custou-me tanto que, hoje, me repugna a autocrítica. Mas não estava de humor para reconhecê-lo. Peguei a garrafa de uísque.

— É incrível! é você quem me acusa!

Enchi um copo que engoli de um trago. O rosto de André, sua voz; o mesmo e um outro, amado, odiado, essa contradição descia em meu corpo. Meus nervos, meus músculos se contraíam num espasmo de tétano.

— Desde o início você recusou discutir calmamente. Em lugar disso atirou-se em elucubrações... E agora vai embria­gar-se?

— Eu me embebedarei se quiser. Você não tem nada com isso. Não chateie.

Levei a garrafa para meu quarto. Me meti na cama com um romance de espionagem, mas impossível de ler. Filipe. Sua imagem empalidecera um pouco, tanto minha cólera contra An­dré me obsedava. Súbito, através dos vapores do álcool, ele me sorria com intolerável doçura. Superestimado? Não. Eu o havia amado em suas fraquezas: menos caprichoso, menos negligente, ele teria menos necessidade de mim. Não teria sido tão deliciosamente terno se não tivesse nada a se fazer perdoar. Nossas reconciliações, suas lágrimas, nossos beijos. Mas então, só se tratava de pecadilhos. Hoje, é outra coisa. Engoli uma grande golada de uísque, as paredes começaram a dançar e eu soçobrei.

A luz filtrou-se através de minhas pálpebras. Conservei-as fechadas. Tinha a cabeça pesada e uma tristeza de morte. Não me lembrava de meus sonhos. Naufragara em espessuras negras; era líquido e sufocante, uma espécie de piche, e esta manhã eu apenas emergira. Abri os olhos. André estava sentado numa pol­trona ao pé do leito e me olhava sorrindo:

— Minha pequena, nós não vamos continuar deste modo.

Era ele, no passado, no presente, o mesmo, eu o reconhecia. Mas ainda subsistia essa barra de ferro em meu peito. Meus lá­bios tremiam. Me obstinar mais, ir a pique, me afogar em espes­suras de solidão e de noite. Ou tentar segurar essa mão que se estendia. Ele falava com aquela voz igual, apaziguadora, que amo. Admitia seus erros. Mas era no meu interesse que falara a Filipe. Achara-nos tão tristes os dois que tinha decidido in­tervir logo, antes que nossa briga fosse consolidada.

— Você, que é tão alegre sempre, não faz idéia como me desolava vê-la a se arrasar! Eu compreendo que, no primeiro momento tenha me querido mal. Mas não esqueça o que somos um para o outro. Não vai ficar zangada indefinidamente.

Sorri fracamente, ele aproximou-se, passou um braço em torno de meus ombros, eu me agarrei a ele e chorei com doçura. Volúpia quente das lágrimas deslizando pela face! Que repouso! É tão fatigante detestar-se alguém que se ama!

— Eu sei por que lhe menti — disse um pouco mais tarde. — Porque envelheço. Sabia que dizer a verdade criaria um dra­ma; isso não me teria detido, antes. Agora, a idéia de uma dispu­ta me fadiga. Enveredei por um atalho.

— Isso quer dizer que você me mentirá cada vez mais?

— Não, eu lhe prometo. Depois não tornarei a ver Filipe com freqüência, nós não temos mais muita coisa a nos dizer.

— As brigas estão a cansá-lo. Entretanto, ontem, você bem que me insultou.

— Eu não a suporto de cara feia; então é melhor engalfi­nhar-se.

Eu lhe sorri:

— Decerto você tem razão. Era preciso sair desta. Tomou-me pelos ombros:

— Saímos de fato? você não está mais zangada comigo?

— Absolutamente não estou mais. Acabado. Fim, fim. Sim, estávamos reconciliados. Mas disséramos tudo um ao outro? Não eu, em todo o caso. Ainda havia algum resíduo dentro de mim: a maneira que tinha André de se abandonar à ve­lhice. Não queria falar-lhe, agora, era necessário antes que o céu serenasse completamente. E ele? Teria algum pensamento oculto? Reprovaria seriamente o que chamava de meu otimismo voluntarioso? A tempestade havia sido breve demais para nada mudar entre nós: mas não havia sido um sinal de que, depois de algum tempo — quando? — imperceptivelmente, algo se mo­dificara?

Alguma coisa mudou, eu me dizia, enquanto rolávamos a 140 por hora na auto-estrada. Estava sentada ao lado de André, nossos olhos viam o mesmo aterro, o mesmo céu, mas havia in­visível, impalpável, uma camada isolante entre nós. Teria ele consciência disto? Sim, sem dúvida. Se tinha proposto esse passeio era na esperança de que, ressuscitando aqueles de outrora, ele terminasse por nos aproximar. Mas o passeio não se pa­recia com os outros posto que não lhe conferia nenhum prazer. Deveria ser-lhe grata por sua gentileza, mas não, eu estava pena­lizada por sua indiferença. Sentira-a tão bem que chegara ao ponto de quase recusar, mas ele tomaria esta recusa como prova de má vontade. O que nos acontecia? Tinha havido brigas em nossas vidas, mas por razões sérias. Exemplo: a educação de Filipe. Tratava-se de verdadeiros conflitos que nós liquidáva­mos na violência, mas rápida e definitivamente. Desta vez, fora um turbilhão de fumaça, de fumaça sem fogo, e por sua incon­sistência mesmo, em dois dias, ele não se dissipara totalmente. É necessário dizer, também que, outrora, tínhamos na cama re­conciliações fogosas; no desejo,'na perturbação, no prazer, os agravos ociosos eram calcinados. Reencontrávamo-nos, um em frente do outro, novos e joviais. Agora, estávamos privados desse recurso.

Vi o cartaz, franzi os olhos.

— O quê? É Milly? Já? Faz vinte minutos que saímos.

— Rodei bem — disse André.

Milly. Quando mamãe nos levava a ver vovó, que expe­dição! Era o campo, imensa extensão cultivada de trigo dou­rado, às bordas da qual colhíamos papoulas. Essa cidadezinha distante estava mais próxima de Faris, agora, do que nos tem­pos de Balzac, Neuilly ou Auteuil.

André custou a encostar o carro, era dia de feira: um grunhir de carros e pedestres. Reconheci o velho Mercado, o Hotel do Leão de Ouro, as casas e suas telhas com matizes fanados. Mas as bancas erguidas na praça transformavam-na. Utensílios em plástico, brinquedos, quinquilharias, latas de conservas, perfumarias, jóias, não evocavam as antigas feiras de vilarejos: es­palhados ao ar livre, era o Monoprix, Inno. 5 Portas e paredes em vidro, uma grande livraria rebrilhava, cheia de livros e re­vistas com capas lustrosas. A casa de vovó, antes situada um pouco fora da cidadezinha, fora substituída por um edifício de cinco andares em redor do qual havia um aglomerado de gente.

5 Monoprix, Inno, cadeias de casas comerciais a preço único ou populares, padronizadas (N. do T.).

 

— Não quer um copo?

— Oh, não! — disse — Não é mais o meu Milly. Decididamente, nada mais era igual: nem Milly, nem Fili­pe, nem André. E eu?

— Vinte minutos para vir a Milly, é um milagre — disse quando subíamos no carro. — Somente, não é mais Milly.

— Aí está. Ver o mundo transformar-se é ao mesmo tempo milagroso e desolador.

— Você vai caçoar ainda de meu otimismo; para mim, é, sobretudo, milagroso.

— Mas para mim também. O desolador quando se envelhe­ce não está nas coisas, mas em nós mesmos.

— Eu não acho. Aí se perde mas também se ganha.

— Perde-se, mais do que se ganha. Verdadeiramente, não vejo o que se ganha. Você pode me dizer?

— É agradável ter atrás de si um longo passado.

— Acha que tem um? Para mim, não tenho o meu. . . Tente, pois, narrá-lo.

— Eu sei que ele está lá. Ele dá espessura ao presente.

— Seja. E quê, ainda?

— Intelectualmente, domina-se melhor as proposições. Es­tou de acordo que se esquece muito, mas mesmo o que é esque­cido fica a nossa disposição de um certo modo.

— Pode ser em seu ramo. Eu estou cada vez mais ignoran­te de tudo quanto o que não é minha especialização. Para me pôr ao corrente da física quântica, precisaria voltar para a Uni­versidade como simples aluno.

— Nada o impede.

— Pode ser que o faça.

— É engraçado — disse. — Nós estamos de acordo em to­dos os pontos, menos neste: não vejo o que se perde envelhe­cendo.

— A mocidade. Não é um bem em si.

— A mocidade é o que os italianos chamam de um nome tão bonito: Ia stamina. A seiva, o fogo, que permite amar e criar. Quando se perde isso, perde-se tudo.

Ele havia falado em tal tom que eu não ousava acusá-lo de complacência. Alguma coisa que eu ignorava o corroía. Que eu não desejava conhecer, que me assustava. Era talvez isto que nos separava.

— Jamais acreditarei que você não possa mais criar — disse.

— Bachelard escreveu: "Os grandes sábios são úteis à ciên­cia na primeira metade de suas vidas, nocivos na segunda." Sou tido como um sábio. Só o que posso fazer no presente é tentar não ser demasiado nocivo.

Nada respondi. Verdadeiro ou falso, ele acreditava no que dizia. Seria fútil protestar. Compreendia que meu otimismo o agastava freqüentemente: era um modo de sofismar seu proble­ma. Mas que fazer? Não podia contestá-lo nem pôr-me em seu lugar. O melhor era calar-me. Rodamos em silêncio até Champeaux.

— Esta nave é, em verdade, bela — comentou André quan­do entramos na igreja. Ela lembra muito a de Sens, mas as pro­porções são ainda mais felizes.

— Sim, ela é bela. Eu não me recordo da de Sens.

— É a mesma alternância de grandes colunas isoladas e de finas colunas geminadas.

— Que memória você tem!

Olhamos conscienciosamente a nave, o coro, o transepto. A colegial não era menos bonita porque eu subira à Acrópole, mas meu humor não era o mesmo do tempo em que num velho ca­lhambeque sacolejávamos sistematicamente pela Ile-de-France. Nenhum de nós dois estava por dentro. Não me interessava ver­dadeiramente pelos capitéis esculpidos, nem pelas cadeiras do coro.

Saindo da igreja, André me perguntou:

— Você acha que "A Truta de Ouro" existe ainda?

— Vamos ver.

Antigamente, era um dos nossos lugares favoritos, aquele pequeno albergue, à borda da água, onde se comiam pratos sim­ples e deliciosos. Nós lá festejamos as bodas de prata e, depois disso, não tínhamos voltado. Silencioso, pavimentado com peque­nas pedras, o lugarejo não havia mudado. Percorremos a rua principal nos dois sentidos: "A Truta de Ouro" tinha desapareci­do. O restaurante onde paramos, na floresta, nos desagradou: decerto por compará-lo às lembranças.

— E agora, que fazemos? — indaguei.

— Nós tínhamos falado do castelo de Vaux, das torres de Blandy.

— Mas tem você vontade de ir?

Ele estava pouco ligando e eu também, mas nenhum de nós ousava dizê-lo. Em que pensaria ao certo, enquanto rodáva­mos sobre estradazinhas cheirando a folhagem? No deserto de seu futuro? Eu não podia segui-lo. Sentia-o solitário ao meu lado. E eu estava também. Muitas vezes, Filipe havia tentado me te­lefonar. Eu desligava assim que lhe reconhecia a voz. Interroga­va-me. Tinha sido muito exigente com ele? André demasiado desdenhosamente indulgente? Era dessa discordância que ele fora vítima? Gostaria de discutir com André mas temia reavi­var uma briga.

O castelo de Vaux, as torres de Blandy: nós executamos nosso programa. Dizíamos: "Eu me lembrava bem, eu mal me lembrava, são soberbas estas torres..." Num sentido, é ocioso visitar coisas. É necessário que um projeto ou uma questão vos ligue a elas. Eu só percebia pedras empilhadas umas sobre as outras.

Este dia não nos havia aproximado, eu nos sentia decepcio­nados e muito longe um do outro enquanto voltávamos a Paris. Parecia-me que não podíamos mais nos falar. Seria ver­dadeiro, então, o que eles dizem sobre a não-comunicação? Co­mo eu tinha entrevisto na cólera, nós estávamos votados à soli­dão, ao silêncio? Teria sempre sido e fora por otimismo obsti­nado que eu pretendera o contrário? "É preciso fazer um es­forço" — disse-me, ao deitar. "Amanhã cedo conversaremos. Tentaremos chegar ao fundo das coisas." Se nossa querela não fora liquidada é que se tratava de um sistema. Era necessário chegar à raiz. Em particular, não ter medo de falar de Filipe. Um assunto proibido e todo nosso diálogo fica bloqueado.

Eu servia o chá e procurava palavras para atrair uma expli­cação quando André me disse:

— Sabe do que tenho vontade? É de ir já para Villeneuve. Repousarei mais que em Paris.

Eis aí a conclusão que ele tirara desse dia frustrado: em vez de procurar uma reaproximação, fugia! Acontece-lhe passar sem mim alguns dias em casa de sua mãe, por afeição a ela. Mas desta feita era um modo de escapar a um convívio mais a sós. Fiquei profundamente ofendida.

— Excelente idéia! — redargüi com secura. — Sua mãe ficará encantada. Vá.

Deixou cair dos lábios, contrafeito:

— Você não quer ir?

— Você sabe muito bem que não tenho nenhuma vontade de deixar Paris tão depressa. Irei na data prevista.

— Como queira.

De qualquer modo eu teria ficado. Queria trabalhar e tam­bém ver como meu livro seria acolhido, falar dele com amigos. Mas fiquei desconcertada que ele não insistisse mais. Indaguei com frieza:

— Quando pensa ir?

— Não sei. Logo. Não tenho nada a fazer aqui.

— Logo quer dizer o quê? Amanhã? Depois de amanhã?

— Por que não amanhã cedo?

Ficaríamos, então, separados quinze dias: nunca ele me dei­xava mais que três ou quatro, salvo para ir a congressos. Teria me mostrado desagradável? Ele deveria ter discutido comigo em lugar de fugir. No entanto, não era de seu estilo tirar o corpo. Só via uma explicação e sempre a mesma: ele envelhecia. Pen­sei com irritação: "Que vá chocar sua velhice longe!" Eu não iria, com certeza, levantar um dedo para retê-lo.

Concordamos que tomasse o carro. Ele passou o dia na ga­ragem, fazendo compras, dando telefonemas. Despediu-se de seus colaboradores. Quase não o vi. Quando subiu para o carro o dia seguinte, trocamos beijos e sorrisos. Encontrei-me na biblio­teca, aturdida. Tinha a impressão que, me deixando plantada ali, André me punia. Não. Ele apenas quisera livrar-se de mim.

Passado o primeiro espanto eu me senti leve. A vida a dois exige decisões. "A que hora a refeição? O que desejaria comer?" Os projetos se formulam. Na solidão, os atos se suce­dem sem premeditação, é repousante. Eu me levantava tarde, ficava enrodilhada na mornidão das cobertas, tentando apanhar em seu vôo fiapos de meus sonhos. Lia a correspondência beben­do chá e cantarolando: "Eu passo, eu passo... eu passo... mui­to bem sem você". Entre minhas horas de trabalho, vadiava.

Esse estado de graça durou três dias. Na tarde do quarto, soaram na porta pancadinhas precipitadas. Uma única pessoa bate assim. Meu coração palpitou com violência. Perguntei através da porta:

— Quem está aí?

— Abra — gritou Filipe. — Porei o dedo na campainha até que você abra.

Abri com rapidez e houve seus braços em torno a mim, sua cabeça inclinada sobre meu ombro.

— Minha pequena, minha querida, eu lhe peço, não me deteste! Não posso viver brigado com você. Eu a quero tanto!

Tantas vezes, essa voz suplicante fez dissolver-se a minha raiva! Deixei-o entrar na biblioteca. Ele me queria, eu não po­dia mais duvidar. Seria que outra coisa contava? As velhas palavras vinham-me aos lábios: "Meu menininho!", mas eu as contive. Não se tratava de um meninozinho.

— Não tente me enternecer. É muito tarde. Você estra­gou tudo.

— Escute, pode ser que eu tenha errado, que eu tenha agi­do mal, não sei mais, eu não consigo dormir. Mas eu não quero perdê-la, tenha piedade de mim, você me torna tão infeliz!

Lágrimas infantis brilhavam em seus olhos. Mas não era mais uma criança. Um homem, o marido de Irene, um pequeno senhor.

— Seria muito cômodo — eu disse. — Você dá o seu golpe com doçura, sabendo perfeitamente que cava um fosso entre nós. E você desejaria que eu aparasse o golpe muito alegre e que tudo volte a ser como antes. Não e não.

— Em verdade, você é muito dura, demasiado sectária. Existem pais e filhos que se querem sem ter as mesmas opiniões políticas.

— Não se trata de divergências de opinião. Você muda de campo por ambição, por arrivismo. É isto que é feio.

— Mas não. Minhas idéias mudaram! Pode ser que eu seja influenciável, mas o certo é que eu comecei a ver as coisas sob outro ângulo. Juro!

— Então, deveria ter-me prevenido antes. Não fazer as suas macaquices às minhas costas e depois me pôr diante do fato consumado. Não lhe perdoarei nunca isso!

— Não ousei. Você tem um modo de me olhar que me apavora.

— Sempre disse isso e isso nunca foi uma desculpa.

— Contudo, você me perdoava. Perdoe-me ainda esta vez. Eu lhe suplico. Não suporto ficar de mal com você.

— Não posso fazer nada. Você agiu de tal modo que não consigo mais prezá-lo.

A tempestade trovejou em seus olhos: preferia isto. Sua cólera sustentaria a minha.

— Você tem palavras que me matam. A mim, nunca me perguntei se a prezava ou não. Fizesse você bandalheiras e eu não a amaria menos. Para você, o amor, é preciso merecê-lo. Sim, eu me contive muito para não desmerecer aos seus olhos. Todos os meus desejos — ser aviador, ou corredor de automóvel, ou repórter, a ação, a aventura — você os tomava por caprichos.

Para lhe ser agradável eu me sacrifiquei. E a primeira vez que eu não cedo você rompe comigo.

Interrompi:

— Você chove no molhado. Não quero mais vê-lo porque desprezo sua conduta.

— Ela é desprezível porque contraria seus projetos. Não iria mesmo obedecê-la a vida toda. Você é por demais tirânica. No fundo, você não tem coração mas só vontade de poder. — Havia raiva e lágrimas em sua voz: — Pois bem, adeus! Despre­ze-me o quanto queira. Passarei muito bem sem você.

Ele caminhou para a porta e bateu-a atrás de si. Fiquei de pé no vestíbulo, pensando: Vai voltar. Ele volta sempre. Não teria mais coragem de resistir-lhe, teria chorado com ele. Ao fim de cinco minutos tornei à biblioteca, sentei-me, e chorei, sozinha.

"Meu meninozinho.. ." O que é um adulto? Uma criança engurgitada de idade. Eu o despojava de sua idade, reencontrava seus doze anos. Impossível querer-lhe mal. E entretanto, não. Tratava-se de um homem. Não havia razão para julgá-lo menos severamente que qualquer outro. Tenho o coração endurecido? Existem pessoas capazes de amar sem estima? Onde começa, onde termina a estima? E o amor? Se ele tivesse falhado em sua carreira universitária, se tivesse tido uma vida medíocre, ja­mais minha ternura lhe faltaria: porque ele teria necessidade dela. Se eu me tivesse tornado inútil, mas no orgulho prosse­guiria, alegremente, querendo-o. Mas no mesmo tempo que me escapa, eu o condeno. Que farei com ele?

A tristeza recaiu sobre mim e não mais me deixou. De agora em diante, se me atraso na cama, é que me custa acordar sem o auxílio de incentivo para a vida. Hesitava em mergulhar sozinha na monotonia do dia. Uma vez de pé, ficava tentada a tornar à cama e lá permanecer até a noite. Atirava-me ao tra­balho, ficava horas seguidas à mesa de escrever, nutrindo-me de suco de frutas. Quando parava, ao fim da tarde, tinha a testa escaldante e os ossos doloridos. Acontecia-me adormecer tão pe­sadamente sobre o diva que, ao acordar, experimentava um an­gustiante estupor: tal como se minha consciência, emergindo ano­nimamente da noite, hesitasse antes de se reencarnar. Ou era o

cenário familiar que eu contemplava com olhos incrédulos: avesso ilusório e cintilante do Nada onde mergulhara. Meu olhar detinha-se surpreendido sobre os objetos que eu trouxera dos qua­tro cantos da Europa. O espaço não conservou o rastro de mi­nhas viagens, minha memória negligencia evocá-las. E as bone­cas, os vasos, as bugigangas estão por aí. Um nada me fascinava e obsedava. O encontro de uma seda vermelha e de uma almofada roxa. Quando vi pela última vez brincos de princesa, sua ba­tina de bispo e cardeal, seu longo e frágil sexo? o volubilis lu­minoso? a simplória rosa selvagem? as madressilvas descabeladas? os narcisos abrindo em suas brancuras os grandes olhos es­pantados? quando? Eles podiam não mais existir no mundo e eu não o saberia. Nem os nenúfares nos açudes, nem o trigo mourisco nos campos. A terra está ao meu redor como uma vasta hipótese que jamais verifico.

Eu me arrancava a essas brumas, descia nas ruas, olhava o céu, as casas mal caiadas. Nada me tocava. Luares e crepúsculos, cheiro de primavera molhada, de alcatrão quente, claridade e es­tações .. . conheci momentos com puro brilho de diamantes, mas sempre sem o haver solicitado. Eles surgiam de surpresa, tré­gua inesperada, promessas insuspeitas, através dos trabalhos que me afligiam; eu os fruía fugidamente, saindo do liceu ou da boca do metrô, no meu terraço entre duas seções de trabalho, sobre o bulevar, quando me apressava para ir ao encontro de André. Agora, caminhava em Paris, disponível, atenta e gelada de indi­ferença. O excesso de meus lazeres, concedendo-me o mundo, impedia-me de vê-lo. De igual maneira pelas tardes quentes, o sol incidindo nas persianas cerradas faz brilhar para mim todo o esplendor do estio e ele me cega se eu o afronto em sua crue­za tórrida.

Voltava, telefonava para André, ou era ele quem me cha­mava. Sua mãe estava mais combativa do que nunca, e ele revia velhos camaradas, passeava e fazia jardinagem. Sua cordialidade folgazã me deprimia. E pensava que iríamos nos encontrar no mesmo ponto, com o muro de silêncio entre os dois. Isto não reaproxima: o telefonema confirma as distâncias. Não se é dois, como numa conversa, pois que não se vê um ao outro. E não se está sozinho como diante do papel de cartas que permite falar a si mesmo falando a outro, de procurar e encontrar a verdade.

Tive vontade de escrever-lhe: mas o quê? A meu aborrecimento se misturava inquietação. Os amigos a quem enviara meu ensaio deveriam ter-me escrito para falar a respeito. Nenhum o fi­zera, nem mesmo Martine. Na semana que se seguiu à partida de André, houve de um só golpe, um grande número de artigos sobre meu livro. Os de segunda-feira me decepcionaram, os de quarta me irritaram e os de quinta me aterrorizaram. Os mais severos falavam de repetição fastidiosa, os mais benévolos de in­teressante colocação de problema. A todos a originalidade de meu trabalho escapara. Não soubera destacá-la? Apelei para Martine. As críticas eram estúpidas, me disse. Não deveria le­vá-las em conta. Desejava terminar o livro para dar-me sua própria opinião. Ia terminar a leitura aquela noite e refletir sobre ele. Ao dia seguinte viria a Paris. Desligando o receptor, eu tinha a boca amarga. Martine não quisera falar pelo telefo­ne: seu julgamento seria, então, desfavorável. Eu não compreen­dia. De ordinário não me engano sobre o que faço.

Três semanas se tinham passado depois de nosso encontro no parque Montsouris — três semanas que figuravam entre as mais desagradáveis de minha vida. Normalmente, ficaria feliz com a idéia de ver Martine. Mas me sentia mais angustiada que ao esperar o resultado da defesa de tese. Após os rápidos cum­primentos ataquei:

— Então? O que pensa?

Ela me respondeu com frases ponderadas, que se percebia cuidadosamente escolhidas. Esse ensaio era uma excelente sín­tese, ele elucidava certos pontos obscuros, esclarecia o que minha obra trouxera de novo.

— Mas ele próprio trouxe algo novo?

— Não é seu escopo.

— Mas era o meu.

Ela se perturbou, eu insisti e a provoquei. Segundo seu pensamento, os métodos que eu propusera os havia aplicado em meus ensaios anteriores; em muitas passagens eu os tinha, mesmo, nitidamente tornado explícitos. Não, eu não inovara. Tratava-se, antes de mais nada, como havia dito Pélissier, de uma sólida equação.

— Quis fazer coisa completamente diversa.

Estava ao mesmo tempo aturdida e incrédula, como acon­tece freqüentemente quando má notícia se abate sobre nós. A unanimidade do veredito era acabrunhadora. Todavia, pensava: "Não posso ter-me enganado a este ponto!"

No jardim onde jantamos, às portas de Paris, fiz um gran­de esforço para dissimular minha contrariedade. Acabei por dizer:

— Eu me pergunto se, a partir de sessenta anos não esta­mos condenados a nos repetir.

— Que idéia!

— Pintores, músicos, mesmo filósofos que se ultrapassa­ram na velhice, existem muitos. Mas escritores, você pode me citar?

— Victor Hugo.

— Seja. Mas que outro? Montesquieu praticamente parou aos cinqüenta e nove anos com O Espírito das Leis que, entre­tanto, ele havia concebido há muito tempo.

— Deve haver casos.

— Mas nenhum lhe açode à idéia.

— Vamos! — você não vai desencorajar-se — disse Mar­tine repreensiva. — Todas as obras possuem altos e baixos. Desta feita não realizou completamente o que quis: terá sua desforra.

— Em geral todos os reveses me estimulam. Desta vez é diferente.

— Não vejo em quê.

— Pela idade. André afirma que os cientistas não desco­brem mais nada bem antes dos cinqüenta anos. Em literatura, sem dúvida, chega um momento em que só se marca passo.

— Em literatura estou certa que não — disse Martine.

— E quanto às ciências?

— Não sou competente.

Revi o rosto de André. Teria ele tido o mesmo gênero de decepção que eu? Uma vez? Em definitivo? ou seguidamente?

— Vocês têm cientistas entre os amigos. Que pensam eles de André?

— Que é um grande sábio.

— Mas como julgam o que faz agora?

— Ele tem uma excelente equipe. Seus trabalhos são mui­to importantes.

— Ele diz que todas as novidades vêm de seus colabora­dores.

— Isto é possível. Parece que é na força da idade que os cientistas descobrem. Nas ciências, quase todos os prêmios Nobel são homens jovens.

Suspirei.

— Então, André tem razão: ele não descobrirá mais nada.

— Não se temo direito de prejulgar o futuro — e Martine mudou bruscamente de tom. — Apesar de tudo, só existem casos particulares. As generalidades não provam nada.

— Gostaria de acreditar. E mudei a conversa. Ao me deixar, Martine declarou com ar hesitante:

— Vou retomar seu livro. Eu o li depressa demais.

— Você o leu muito bem e é um fracasso. Mas como disse muito bem, isso não é tão grave.

— De maneira nenhuma. Estou certa que escreverá ainda muitos livros bons.

Estava quase certa do contrário mas não quis contradizê-la.

— É de tal modo jovem! — argumentou ela. Dizem-me isso com freqüência e eu me sinto envaidecida.

Súbito, agastei-me com a palavra. É um elogio ambíguo, anunciador de penosos dias seguintes. Conservar a vitalidade, a ale­gria, a presença de espírito, é ser jovem. Então, o lote da ve­lhice é a rotina, a melancolia, a senilidade. Eu não sou jovem, eu sou bem conservada, é muito diferente. Bem conservada e talvez no fim. Tomei soníferos e me deitei.

Ao acordar, encontrei-me num estado curioso: mais febril do que ansiosa. Deixei o telefone aos assinantes ausentes, e en­cetei a leitura de meu Rousseau e meu Montesquieu. Li dez ho­ras seguidas, me interrompendo, apenas, para comer ovos cozi­dos e uma fatia de presunto. Curiosa experiência: reanimar esses textos nascidos de minha pena e esquecidos. Por instantes, eles me interessavam, me espantavam como se uma outra os houvesse escrito: e entretanto eu reconhecia esse vocabulário, esses cortes de frases, esses ataques, esses eclipses, esses tiques: aquelas pá­ginas estavam todas impregnadas de mim, era uma intimidade enjoativa como o cheiro de um quarto onde e esteve confinado muito tempo. Fui obrigada a tomar ar, a jantar no pequeno restaurante do lado. Uma vez em casa, engoli xícaras de café bem forte e abri meu último ensaio. Ele estava presente em meu es­pírito e eu sabia antecipadamente qual seria o resultado desse confronto. Tudo o que eu tinha a dizer já fora dito em minhas duas monografias. Eu me limitava a repetir de uma outra forma as idéias que lhes conferiram interesse. Enganara-me ao ima­ginar que progredira. E até mesmo, separados do conteúdo sin­gular, ao qual eu os havia aplicado, meus métodos perdiam sua sutileza, sua flexibilidade. Não trazia nada novo: absolutamen­te nada. E sabia que o segundo volume só fazia prolongar aque­le marcar passo. Eis que passara três anos escrevendo um livro inútil. Não somente falho como outros, onde, através de inabilidades e pesquisas, eu abria perspectivas. Inútil. De atirar ao fogo.

Não prejulgar o futuro. Fácil de dizer. Eu o via. Ele se estendia diante de mim, a perder de vista, plano e nu. Nenhum projeto, nenhum desejo. Não escreveria mais. Então o que fa­ria? Que vazio em mim, à minha volta. Inútil. Os gregos chamavam seus velhos de vespões. "Inútil vespão!", diz Hécuba nas Troianas. Era o meu caso. Estava aniquilada. Indagava-me como se consegue viver quando não se espera nada de si. Por amor-próprio, não quis adiantar minha partida e ao telefone não disse nada a André. Mas como me pareceram longos os três dias que se seguiram! Discos coloridos, em volumes nas tábuas da estante, nem a música, nem as frases, nada podiam por mim. Antes, esperava deles estímulo ou repouso. Via, ago­ra, um divertimento cuja gratuidade me desgostava. Ir a uma exposição? Voltar ao Louvre? Desejava tanto ter tempo para isto quando ele me faltava! Mas se dez dias antes eu só tinha visto em igrejas e castelos pedras empilhadas, seria pior agora. Do quadro ao meu olhar, nada viria. Sobre as telas só percebe­ria cores cuspidas por uma bisnaga e esparramadas com um pincel. Já havia constatado que passear me aborrecia. Meus amigos estavam de férias e depois eu não desejava ouvir suas sinceridades ou suas mentiras. Filipe... com que dor eu o de­plorava! Afastei sua imagem. Ela me fazia subir lágrimas aos olhos.

Permaneci, então, em casa, ruminando. Fazia muito calor. Mesmo afastando as cortinas estava abafado. O tempo estagnava. É terrível. Tenho vontade de dizer é injusto — que ele possa passar ao mesmo tempo tão veloz e tão lentamente. Transpu­nha a porta do liceu de Bourg, quase tão jovem como as pró­prias alunas, ou olhava apiedada os professores de cabelos grisa­lhos. E upa! Tornei-me velha professora e as portas do liceu se fecharam. Durante anos, minhas classes me deram a ilusão de não mudar de idade: a cada entrada eu os reencontrava igual­mente jovens, e esposava essa imobilidade. No oceano do tempo, eu era o rochedo batido pelas vagas que se renovavam e que não se move e não se gasta. E, súbito, o fluxo me arrasta e me arras­tará até que eu tombe na morte. Tragicamente, minha vida se precipita. E, entretanto, ela se escoa neste momento com que lentidão — hora por hora, minuto por minuto! É preciso sem­pre esperar que o açúcar derreta, que a lembrança se apague, que a ferida se cicatrize, que o sol se ponha, que o tédio se dissi­pe. Estranho corte entre esses dois ritmos. Meus dias me es­capavam aos galopes e em cada um deles eu enlanguescia.

Só me resta uma esperança: André. Mas poderá ele cumu­lar este vazio em mim? Onde estávamos? E em primeiro lu­gar, que fomos um para o outro, ao longo dessa vida chamada comum? Gostaria de saber sem chantagem. Para isso será ne­cessário recapitular nossa história. Sempre me prometi fazê-lo. Tento. Enfiada numa funda poltrona, olhos no teto, narro-me os primeiros encontros, nosso casamento, o nascimento de Fili­pe. Não aprendia nada que já não soubesse. Que pobreza! "O de­serto do passado", disse Chateaubriand. Ele tem razão, ai de mim! Tinha imaginado que minha vida, atrás de mim, era uma paisagem na qual eu pudesse passear a vontade, descobrindo pou­co a pouco seus meandros e voltas. Não. Eu sou capaz de reci­tar nomes e datas, como um aluno repete uma lição bem decora­da sobre um assunto que lhe é estranho. E de longe em longe ressuscitam imagens mutiladas, empalidecidas, tão abstratas co­mo aquelas de minha velha História da França. Recortam-se, arbitrariamente, sobre um fundo branco. O rosto de André não muda nunca através dessas evocações. Parei. O que era necessá­rio era refletir. Ele me amou como eu o amei? No início, creio eu, sim, ou por outra, o problema não se propunha a nenhum dos dois, tão bem nos entendíamos. Mas quando seu trabalho cessou de satisfazê-lo, teria percebido que nosso amor não lhe bastava?

Decepcionara-se? Creio que ele me considera como um inapelável cujo desaparecimento o desconcertaria, mas que não sabe­ria modificar seu destino em nada, a grande partida se travando em outro campo. Assim, mesmo a minha compreensão não lhe traria grande coisa. Uma outra mulher conseguiria dar-lhe mais? Quem levantara a barreira entre nós? Ele, eu ou nós dois? Haveria chance de destruí-la? Estava cansada de perguntas. As palavras de decompunham em minha cabeça: amor, entendimen­to, desacordo, eram ruídos despojados de sentido. Teriam ja­mais tido um? Quando tomei o Mistral, no início da tarde, eu não sabia, absolutamente o que me esperava.

Ele me aguardava na plataforma da estação. Depois de tan­tas imagens e "palavras, essa voz desencarnada e a evidência brus­ca de sua presença! Queimado de sol, afinado, os cabelos cor­tados de pouco, vestido com uma calça de linho e uma camisa es­porte de mangas curtas, era um pouco diverso do André que eu deixara, mas era ele próprio. Minha alegria não poderia ser falsa, e não se aniquilaria em alguns instantes. Ou sim? Ele teve gestos afetuosos para me instalar no carro, e sorrisos cheios de gentileza enquanto rodávamos em direção a Villeneuve. Mas nós estamos tão habituados a nos falar amàvelmente que nem os gestos nem os sorrisos significavam grande coisa. Es­taria verdadeiramente contente por me receber?

Manette pôs sua mão seca sobre meu ombro, um beijo rá­pido em minha testa: "Bom dia, minha criancinha!" Quando ela morrer ninguém me chamará mais "minha criancinha". É difícil imaginar que eu tenha quinze anos mais que ela em sua primei­ra aparição. Aos quarenta e cinco anos me parecia tão idosa quanto hoje.

Sentei-me no jardim com André. As rosas castigadas pelo calor exalavam um odor pungente como um queixume. Disse-lhe:

— Você remoçou.

— É a vida campestre! Como vai você?

— Fisicamente, bem. Mas você viu as minhas críticas?

— Algumas.

— Por que não me preveniu que meu livro não valia nada?

— Você exagera. Ele é menos diferente dos outros do que pensava. Mas está cheio de coisas interessantes.

— Mas não o interessou muito.

— Oh! eu... nada mais me prende. Não há pior leitor do que eu.

— A própria Martine julga-o severamente e, bem pensan­do, eu também.

— Você tentou algo muito difícil, procurou daqui a dali. Mas suponho que, agora, veja claro; você se realizará no segun­do volume.

— Não, infelizmente! É a própria concepção do livro que está errada. O segundo volume será tão mau como o primeiro. Ponho-o de lado.

— É uma decisão apressada. Deixe-me ler seus manus­critos.

— Não os trouxe. Eu sei que são ruins, creia-me.

Ele me encarou com perplexidade. Não me desencorajo facilmente e ele o sabe.

— O que vai fazer para substituir?

— Nada. Acreditava ter panos para mangas por dois anos. Bruscamente, é o vazio.

Pôs a mão sobre a minha:

— Compreendo que esteja aborrecida. Mas não se chateie demais. Agora, forçosamente é o vazio. E de repente, um dia, uma idéia virá.. .

— Veja como se é otimista quando se trata de outro.

Ele insistiu. Estava no seu papel. Citou autores dos quais seria interessante falar. Mas recomeçar meu Rousseau, meu Montesquieu, para quê? Gostaria de ter achado um ângulo novo: e eu não o encontrara. Lembrei-me de coisas que André me havia dito. Essas resistências de que me tinha falado, eu as encontrava em mim. Meu acesso aos problemas, meus hábitos de espírito, minhas perspectivas, meus pressupostos, eram eu própria e não imaginava mudar. Minha obra estava parada, aca­bada. Minha vaidade não estava atingida. Se eu morresse no dia seguinte, teria a idéia de que me realizara na vida. Mas estava assustada com esse deserto través do qual iria me arrastar até que a morte chegasse. Durante o jantar custou-me fazer boa figura. Felizmente, Manette e André entraram em apaixonada disputa a propósito das relações sino-soviéticas.

Subi para me deitar cedo. Meu quarto cheirava a lavanda, a tomilho e a pinheiro silvestre: parecia-me que o havia deixado na véspera. Um ano já! cada ano passa mais rápido que o prece-dente. Não terei de esperar tanto até adormecer para sempre. Todavia, sabia como as horas podem se arrastar lentamente. E eu amo ainda bastante a vida para que a idéia da morte me con­sole. No silêncio do campo, apesar de tudo, dormi um sono apaziguador.

— Você quer passear? — indagou André na manhã se­guinte.

— Claro.

— Vou mostrar-lhe um belo recanto que redescobri. À margem do Gard. Pegue uma roupa de banho.

— Eu não trouxe.

— Manette lhe emprestará. Você vai ver. Ficará tentada.

Seguimos de carro através de charnecas e depois, de estreitos caminhos poeirentos. André falava com volubilidade. Havia mui­to anos que não passava aqui uma tão longa temporada. Tinha tido lazer para explorar de novo a região, para rever seus cama­radas de infância: decididamente, parecia muito mais jovem e alegre que em Paris. Era visível que eu em absoluto não lhe fi­zera falta. Durante quanto tempo prescindiria ele, alegremente, de mim?

Parou o carro.

— Vê essa mancha verde embaixo? É o Gard. Ele forma uma espécie de bacia, é ideal para o banho e o lugar é encan­tador.

— Diga, é um bocado de caminho. Será necessário subir, depois.

— Não é muito fatigante, eu o fiz com freqüência.

Ele desceu a rampa, muito depressa, com passo seguro. Eu o seguia de longe estrebuchando um pouco: uma queda, uma fra­tura na minha idade não seria nada engraçado. Podia subir de­pressa, mas jamais fui boa para as descidas.

— Não é bonito?

— Muito bonito.

Sentei-me à sombra de uma rocha. Para me banhar, não. Eu nado mal. E mesmo diante de André, me repugna exibir-me em roupa de banho. Um corpo de velho, apesar de tudo, é me­nos feio que um corpo de velha, disse a mim mesma olhando-o patinhar na água. Água verde, céu azul, cheiro de brejo: ficaria melhor aqui que em Paris. Se apenas ele houvesse insistido, te­ria vindo antes: mas é justamente o que ele não desejou.

Sentou-se ao meu lado sobre o cascalho.

— Você fez mal. Estava formidável!

— Fiquei muito bem aqui.

— Como achou mamãe? Ela é extraordinária, hein?

— Extraordinária. Que é que ela faz o dia inteiro?

— Lê muito, escuta o rádio. Eu lhe propus comprar uma televisão mas ela recusou. Disse: "Eu não deixo entrar qualquer um em minha casa". Faz jardinagem. Vai às reuniões de sua célula. Como ela própria diz, jamais se aborrece.

— Em suma, é o melhor período de sua vida.

— Certamente. É um dos casos em que a velhice é uma idade feliz: quando se levou uma vida dura e mais ou menos devorada pelos outros.

Quando começamos a subir, fazia muito calor. O caminho era muito mais longo, muito mais árduo do que André tinha di­to. Ele caminhava em grandes passadas, e eu que subia tão alerta antigamente, me arrastava, longe atrás dele. Era vergo­nhoso. O sol me verrumava as temperas, a agonia estridente das cigarras amorosas me lancinava os ouvidos. Eu ofegava.

— Você anda muito depressa — disse.

— Não tenha pressa. Eu a espero em cima.

Parei, suando. Tornei a andar. Não era mais dona do meu coração, do meu fôlego. Minhas pernas quase não me obede­ciam; a luz me feriu os olhos; o canto de amor e de morte das cigarras, na monotonia obstinada, me fazia fremir os nervos. Che­guei ao carro, o rosto e a cabeça em fogo, parecia que no limite de uma congestão.

— Estou morta.

— Deveria ter subido mais lentamente.

— Eu os conheço, seus pequenos caminhos fáceis.

Voltamos em silêncio. Errava em me irritar por uma bo­bagem. Sempre fui zangada. Iria tornar-me rabugenta? Precisa­va prestar atenção. Mas não conseguia vencer meu despeito. E me sentia tão mal que cheguei a temer uma insolação. Comi dois tomates e fui repousar no quarto onde a sombra, a cerâmica, a brancura das cobertas davam uma falsa impressão de frescura. Fechei os olhos, escutei no silêncio o tique-taque de uma pêndula. Dissera a André: "Não vejo o que se perde envelhecendo'\ Pois bem! Agora, eu via. Recusara sempre encarar a vida à maneira de Fitzgerald como "um processo de degradação". Acreditava que minhas relações com André não se alterariam nunca, que mi­nha obra não pararia de se enriquecer, que Filipe pareceria cada dia mais com o homem que eu quisera fazer dele. Não me inquie­tava com meu corpo. E acreditava que mesmo o silêncio produ­zia seus frutos. Que ilusão! A palavra de Sainte-Beuve é mais verdadeira que a de Valéry: "Endurecemos em placas, apodrece­mos em outros lugares, não amadurecemos nunca". Meu corpo me abandonava. Não era mais capaz de escrever. Filipe traíra todas as minhas esperanças e o que me entristecia ainda mais é que entre mim e André as coisas estavam no ponto de se deteriorar. Que engano! este progresso, esta ascensão que me embriagara, pois que chega o momento da derrocada! Caíra no engodo. E agora seria muito rápido e muito lento: nós nos tornaríamos velhos, velhos.

Quando desci, o calor havia arrefecido. Manette lia, jun­to de uma janela que dava para o jardim. A idade não a tinha diminuído, mas o que se passava no fundo de si própria? Pen­saria na morte? Com resignação, com medo? Não ousava perguntar-lhe.

— André foi jogar pelota, ele vai voltar — disse-me ela.

Sentei-me à sua frente. De todo o jeito, se eu atingisse oitenta anos, não me pareceria com ela. Não me imaginava a chamar liberdade à minha solidão e aproveitando, tranqüila­mente, de cada instante. A mim, a vida iria tomando, pouco a pouco, tudo o que me havia dado: já começara.

— Então, Filipe deixou o ensino; não é bastante bom pa­ra ele; deseja tornar-se importante.

— Infelizmente, sim.

— Essa mocidade não crê em nada. É preciso dizer que, vocês dois tampouco, não acreditam em grande coisa. . .

— André e eu? Mas sim.

— André é contra tudo. Essa é a sua culpa. É por isso que Filipe deu no que deu. É necessário crer em alguma coisa.

Ela não se resignou com o fato de André não se ter ins­crito no Partido. Eu não tinha vontade de discutir. Contei o passeio da manhã e indaguei:

— Onde guardou os retratos?

É do ritual. Todos os anos eu olho o velho álbum. Mas ele não está nunca no mesmo lugar. Colocou-o sobre a mesa e também uma caixa de papelão. Existem poucas fotografias muito antigas. Manette no dia do casamento, dentro de um comprido e austero vestido. Um grupo: ela e seu marido, ir­mãos e irmãs, toda uma geração da qual é a única sobrevivente. André criança, o ar emburrado e decidido. Renée com vinte anos entre seus dois irmãos. Nós pensamos que não nos conso­laríamos nunca com sua morte: vinte e quatro anos e esperava tanto da vida! Que teria obtido? Como suportaria a idade chegando? Como chorei em meu primeiro encontro com a morte! Em seguida chorei cada vez menos: meus pais, meu cunhado, meu sogro, os amigos. É isso também, envelhecer.. Tantos mortos atrás de si deplorados, esquecidos. Súbito, quan­do leio o jornal, tomo conhecimento de uma nova morte: um escritor querido, uma colega, um antigo colaborador de André, um de nossos camaradas políticos, um amigo perdido de vista. Quando se fica tal Manette, única testemunha de um mundo abolido, deve-se ter um bizarro sentimento.

— Você olha as fotos?

André se inclinava sobre meu ombro. Ele folheou o ál­bum e me mostrou um retrato seu aos onze anos, com colegas de classe.

— Mais da metade estão mortos — disse. — Aquele lá, Pedro, eu o revi. O outro também. E Paulo que não está na foto. Fazia bem uns vinte anos que não nos encontrá­vamos. Quase não os reconheci. Não se pensaria que têm a minha idade: tornaram-se verdadeiros anciãos. Bem menos conservados que Manette. Foi um golpe.

— Pela vida que levaram?

— Sim. Ser camponês por estas bandas gasta um ho­mem.

— Você se sentiu jovem, por comparação?

— Não jovem. Mas sòrdidamente privilegiado. Cerrou o álbum:

— Levo-a para tomar o aperitivo em Villeneuve.

— De acordo.

No carro, falou-me das partidas de pelota que acabara de ganhar. Tinha feito grandes progressos depois de sua chega­da. Seu humor parecia excelente, meus aborrecimentos não o haviam alterado, constatei com um pouco de amargura. Parou o carro junto a um terreno baldio cheio de guarda-sóis azuis e laranja, sob os quais pessoas bebiam coquetéis. Um perfume de anis flutuava no ar. Ele encomendou para nós. Seguiu-se longo silêncio. Disse:

— É alegre este lugarejo.

— Muito alegre.

— Diz isto com ar lúgubre. Tem saudades de Paris?

— Oh, não! Pouco me incomodo neste momento, com os lugares.

— Com as pessoas também, tenho a impressão.

— Por que diz isto?

— Você não está nada falante.

— Desculpe-me. Não estou nada boa. Tomei sol demais esta manhã.

— De ordinário, você agüenta bem.

— Envelheço.

Minha voz não era amável. Que esperava de André? Com um golpe de varinha mágica deveria tornar meu livro bom, as críticas favoráveis? Ou perto dele meu fracasso se tornaria indiferente? Fizera para mim miúdos milagres. Ao tempo em que vivia voltado para o futuro, seu ardor me contagiava. Da­va-me segurança e confiança. Perdera esse poder. Mesmo que tivesse conservado a fé em seu próprio destino, isso não seria suficiente para me tranqüilizar quanto ao meu. Tirou do bolso uma carta:

— Filipe me escreveu.

— Como sabia onde você estava?

— Eu lhe telefonei no dia de minha partida para dizer--lhe até breve. Contou-me que você lhe bateu a porta na cara.

— Sim e não me arrependo. Não posso querer bem quem não prezo.

André me encarou:

— Eu não sei se você está de muito boa-fé.

— Como?

— Você se coloca num plano moral quando antes é no pla­no afetivo que se sente traída.

— É nos dois.

Traída, abandonada, sim; uma ferida ainda aberta para que eu suporte falar dela. Caímos no silêncio. Iria estabelecer-se definitivamente entre nós? Um casal que continuava porque tinha começado, sem outra razão: era nisso que estávamos no ponto de nos tornar? Passar ainda quinze, vinte anos sem quei­xas maiores, sem animosidade, mas cada um para seu lado, ati­rado em seu problema, ruminando seu fracasso pessoal, toda palavra tornada vã? Começávamos a viver despropositadamente. Em Paris eu estava alegre, ele sombrio. Agora, eu lhe queria mal por estar contente enquanto eu aborrecida. Fiz um esforço:

— Dentro de três dias estaremos na Itália. Isso lhe agrada?

— Se lhe agradar...

— Agrada-me o que lhe agradar.

— Por que você, na verdade, pouco se importa com os lugares?

— Freqüentemente, você não se importa, também.

Não respondeu nada. Alguma coisa soava mal em nosso diálogo: cada um entendia atravessado o outro. Sairíamos dis­so? Por que amanhã e não hoje, em Roma e não aqui?

— Pois bem! entremos — disse, depois de um momento.

Matamos o tempo de noite jogando cartas com Manette.

No dia seguinte recusei enfrentar o sol, e o rumor das ci­garras. Para quê? Sabia que diante do palácio dos papas, da ponte do Gard, ficaria tão indiferente como em Champeaux. Pretextei dor de cabeça para ficar em casa. André tinha trazido uma dúzia de livros novos, e mergulhou num deles. Eu que estou sempre ao corrente, conhecia-os todos. Examinei a biblioteca de Manette. Uns clássicos Garnier, alguns Plêiades, pre­sentes nossos. Alguns desses textos eu não tivera há muito tempo ocasião de reler, e os tinha esquecido. E contudo, sentia preguiça de voltar a eles. Numa releitura, vai se relembrando à medida que se prossegue, ou pelo menos tem-se a ilu­são. A frescura primeira se perde. O que poderiam me trazer, esses escritores que me haviam feito o que eu era e não deixaria mais de ser? Abri e folheei alguns volumes. Tinham todos um gosto quase tão enfadonho como o dos meus próprios li­vros: um gosto de pó.

Manette levantou os olhos de seu jornal:

— Começo a crer que verei com meus próprios olhos ho­mens na lua.

— Com os seus olhos? Você fará a viagem? — indagou André com voz risonha.

— Você me compreende muito bem. Saberei que eles estão lá. E -serão russos, meu pequeno. Os ianques e seu oxigênio puro foram passados para trás.

— Sim, mamãe, você verá os russos na lua — disse André com ternura.

— E pensar que se começou nas cavernas, tendo somente nossos dez dedos ao nosso serviço — retornou Manette, sonha­doramente. — E chegar onde chegamos!, confesse que é encorajador!

— Verdade é que a história da humanidade é bela — dis­se André — e é pena que a dos homens seja tão triste.

— Não será sempre. Se os chineses não fizerem saltar a terra, nossos netos conhecerão o socialismo. Viverei muito bem ainda cinqüenta anos para ver isso.

— Que saúde! — comentou André. — Você compreendeu? Ela se hipotecaria por cinqüenta anos.

— Você não, meu filho?

— Não, mamãe, francamente não. A história segue tão es­tranhos caminhos que eu tenho apenas a impressão que me con­cerne. Sinto-me no pelourinho. Então, em cinqüenta anos!. ..

— Eu sei. Você não acredita mais em nada — repreen­deu, Manette.

— Não é bem verdade.

— No que acredita?

— No sofrimento das criaturas, e que ele é abominável. É necessário fazer tudo para suprimi-lo. Para dizer a verdade, na­da mais me parece importante.

— Então — indaguei — porque não a bomba, por que não o Nada? Que tudo expluda e que se acabe.

— Às vezes fica-se tentado a desejá-lo. Mas prefiro so­nhar que poderia haver vida sem dor.

— Vida, para se fazer alguma coisa com ela — revelou Manette com ar combativo.

O tom de André me tocou. Ele não era tão despreocupado quanto parecia. "E é pena que a dos homens seja tão triste." Com que voz dissera isto! Olhei-o e tive um tal impulso para ele que, súbito, uma certeza me veio. Jamais seríamos dois es­tranhos. Um dia desses, talvez amanhã, nós nos reencontrare­mos, pois que o meu coração já o havia encontrado. Depois do jantar fui eu quem propôs sair. Subimos lentamente até o forte Santo André. Indaguei:

— Pensa verdadeiramente que nada mais conta senão su­primir o sofrimento?

— Que outra coisa?

— Não é muito alegre.

— Não. Sobretudo por que não se sabe como combatê-lo. Silenciou por instantes, depois: — Mamãe erra- em dizer que nós não cremos em nada. Mas praticamente, nenhuma causa é inteiramente a nossa: não somos pela U.R.S.S. e seus compro­missos; também não pela China; na França nem pelo regime nem por nenhum dos partidos da oposição.

— Não é uma situação confortadora — disse.

— Isso explica um pouco a atitude de Filipe: ser contra tudo aos trinta anos não tem nada de exultante.

— Aos sessenta também não. Mas não é motivo para re­negar suas idéias.

— Eram verdadeiramente suas idéias?

— O que quer dizer?

— Oh! Certamente, as grandes injustiças, as grandes ban­dalheiras, isso o revolta. Mas nunca foi de tal modo politizado. Adotou as nossas opiniões porque não podia fazer outra coisa: via o mundo pelos nossos olhos. Mas até que ponto estava con­vencido?

— E os riscos que correu durante a guerra da Argélia?

— Ela o revoltava sinceramente. E depois as valises, os manifestos eram ação e aventura. Isso não prova que ele tenha sido profundamente de esquerda.

— Estranha maneira de defender Filipe, demolindo-o!

— Não. Eu não estou demolindo. Quanto mais reflito, tanto mais encontro desculpas para ele. Eu calculo o peso que fizemos sobre ele. Tudo terminou com a necessidade de se afirmar contra nós a todo custo. Depois, você fala da Argélia: pois ele ficou profundamente decepcionado. Nenhum dos tipos pelos quais se arriscou lhe deram sinal de vida. E o grande ho­mem lá é de Gaulle.

Nós nos sentamos sobre o capim, perto do forte. Eu es­cutava a voz de André, calma e convencida. Novamente nos podía­mos falar e algo se desatou em mim. Pela primeira vez pen­sei em Filipe sem cólera. Sem alegria também, mas tranqüi­lamente. Talvez porque André estivesse súbito tão próximo que a imagem de Filipe se esfumava.

— Pesamos sobre ele, sim — disse com boa vontade. In­daguei: — Pensa que eu deva revê-lo?

— Ele ficaria muito triste se você continuasse brigada. De que serviria?

— Não quero causar-lhe tristeza. Sinto-me seca, eis tudo.

— Oh! claro, já não será mais igual entre ele e nós.

Olhei André: entre ele e eu, parecia-me que tudo se tor­nava igual. A lua brilhava assim como uma pequenina estrela que a escoltava fielmente, e uma grande paz desceu em mim:

Etoilette je te vois Que Ia lune trait à soi. 6

6 "Estrelinha eu te vejo — Que a luz da lua cuide de si."

 

Encontrava na ponta da língua as velhas palavras, tais como haviam sido escritas. Elas me ligavam aos antigos séculos onde os astros brilhavam exatamente como hoje. E este renascimen­to e esta permanência me davam uma impressão de eternidade. A terra parecia-me fresca tal nas primeiras idades e este instan­te se bastava. Eu estava ali, olhava a nossos pés os tetos com telhas, banhados de luar, sem motivo, pelo prazer de os ver. Esse desinteresse tinha um encanto pungente.

— Eis o privilégio da literatura — disse. — As figuras se deformam, empalidecem. As palavras, nós as levamos conosco.

— Por que está pensando nisso?

Eu citei os dois versos de Aucassin et Nicolette. Acres­centei com pesar:

— Como as noites são belas aqui!

— Sim. Foi pena que você não pudesse ter vindo antes.

Sobressaltei-me:

— Foi pena! Mas você não queria que eu viesse!

— Eu? Essa agora! Foi você quem recusou. Quando lhe disse: "Por que não partir já para Villeneuve?", você me respon­deu: "Boa idéia. Vá já".

— Não se passou assim. Você disse, eu me lembro, tex­tualmente: — "O que eu desejava era ir a Villeneuve". Es­tava cheio de mim, tudo o que desejava era me ver pelas costas.

— Está louca! Eu queria, evidentemente, dizer: tenho von­tade de irmos os dois juntos a Villeneuve. E você me respon­deu: vá já, com uma voz que me esfriou. Apesar de tudo, in­sisti.

— Oh! falou por falar. Esperava que eu recusasse.

— Não. Absolutamente!

Tinha o ar tão sincero que a dúvida me tomou. Pode­ria ter-me enganado? A cena estava extática em minha memó­ria, não a podia mudar. Mas estava certa que ele não mentia.

— Que bobagem! — disse. — Foi um tal choque quando vi que estava decidido a partir sem mim.

— É tolice. Eu me pergunto por que acreditou nisso!

Refleti:

— Eu desconfiava de você.

— Por que eu lhe tinha mentido?

— Há algum tempo que você me parecia mudado.

— No quê?

— Você representava de velho.

— Não é uma representação. Você própria ontem me disse: envelheço.

— Mas você ia à deriva. Sobre muitos planos.

— Por exemplo?

— Tinha tiques: essa mania de esfregar a gengiva.

— Ah! isso...

— O quê?

— Meu maxilar está infeccionado neste lugar, se se tornar sério, minha ponte cederá, teria necessidade de usar dentadura. Compreende bem?

Compreendo perfeitamente. Em pesadelos, às vezes, todos os meus dentes desfazem-se em minha boca e é a decrepitude que, de um golpe, me abate. Uma dentadura.. .

— Por que não me contou?

— Existem aborrecimentos que se esconde.

— Pode ser que sem razão. É assim que se chega aos mal--entendidos.

— Quem sabe. — Levantou: — Venha, nós vamos nos resfriar.

Levantei-me também. Descemos lentamente o declive ar­borizado.

— Apesar de tudo, você tinha um pouco de razão ao dizer que eu representava. Eu me conformava. Quando vi todos esses tipos tão mais decadentes que eu e tomando as coisas como elas vêm, sem fazer histórias, fiquei mais morigerado e decidi reagir.

— Ah! Então era isto? Pensei que fosse minha ausência que lhe devolvera o bom humor.

— Que idéia! Ao contrário, foi muito por sua causa que eu reagi. Não quero ser um velho chato. Velho, já basta, cha­to não.

Tomei-lhe o braço, apertei-o contra o meu. Encontrei An­dré que jamais eu perdera e jamais perderia. Entramos no jar­dim, sentamo-nos num banco, ao pé de um cipreste. A lua e sua estrela brilhavam acima da casa.

— Apesar de tudo é verdade que isso de velhice existe — confessei — e não é engraçado dizer que se está no fim.

Ele pôs a mão sobre a minha:

— Não me contradiga. Eu creio que sei por que você frus­trou seu ensaio. Partiu de uma ambição vazia: inovar, ultrapas­sar-se. Não teve perdão. Compreender e fazer compreender Rousseau, Montesquieu, isso era um projeto concreto, que a le­vou longe. Se de novo se apegar, pode fazer ainda um bom tra­balho.

— Dando balanço, minha obra ficará no que ela é: eu vi meus limites.

— De um ponto de vista narcisista, você não tem grande coisa e ganhar, é verdade. Mas poderá ainda interessar os lei­tores, enriquecê-los, fazê-los refletir.

— Esperemos.

— Eu tomei uma decisão. Ainda um ano e paro tudo. Remeto-me ao estudo, recupero meus atrasos, preencho minhas lacunas.

— Pensa que depois prosseguirá melhor o caminho?

— Não. Mas existem coisas que eu ignoro, que desejo saber. Apenas por saber.

— Isso lhe bastará?

— Durante algum tempo, em todo o caso. Não olhemos muito longe.

— Você tem razão.

Sempre olháramos longe. Seria necessário aprender a vi­ver o dia a dia? Estávamos sentados lado a lado sob as estrelas, tocados pelo aroma do cipreste, nossas mãos se encontravam; o tempo havia parado um instante. Iria continuar a escorrer. E então? Sim ou não, poderia ainda trabalhar? Minha raiva contra Filipe se esfumaria? A angústia de envelhecer me reto­maria? Não olhar muito longe. Longe seriam os horrores da morte e dos adeuses. Seria a dentadura, a ciática, as enfermida­des, a esterilidade mental, a solidão em um mundo estranho que não compreenderíamos mais e que prosseguiria seu curso sem nós. Conseguiria não levantar os olhos para esses horizontes? Quando aprenderia a percebê-los sem pavor? Nós estamos jun­tos, é a nossa sorte. Nós nos auxiliaremos a viver essa derradei­ra aventura da qual não retornaremos. Isso no-la tornará tole­rável? Não sei. Esperemos. Não temos escolha.