quarta-feira, 29 de abril de 2009

Simone de Beauvoir

 
 
PREFÁCIO DO LIVRO A BASTARDA, de Violette Leduc
Simone de Beauvoir | 1964
tradução de Vera Mourão

Quando, no início de 1945, comecei a ler o manuscrito de Violette Leduc — "Minha mãe nunca me deu a mão" — fiquei imediatamente arrebatada: um temperamento, um estilo. Camus logo acolheu L'Asphyxie (A Asfixia) em sua coleção "Espoir". Genet, Jouhandeau, Sartre saudaram o nascimento de uma escritora. Seu talento se confirmou nos livros que se seguiram. Críticos exigentes o reconheceram abertamente. O público não reagiu. Malgrado um considerável sucesso de crítica, Violette Leduc permaneceu desconhecida.
Dizem que não existe mais autor desconhecido. Qualquer um ou quase isso consegue editar. Pudera, a mediocridade pulula. A boa semente é abafada pelo joio. O êxito depende, na maior parte do tempo, de um golpe de sorte. Entretanto, a própria má sorte tem as suas razões. Violette Leduc não quer agradar. Não agrada e até assusta. Os títulos de seus livros — L' Asphyxie (A Asfixia), L'Affamée, (A Faminta), Ravages (Destroços) — não são divertidos. Ao folheá-los, entrevemos um mundo pleno de ruído e raiva, onde o amor muitas vezes traz o nome de ódio, onde a paixão de viver se expande em gritos de desespero. Um mundo devastado pela solidão e que de longe parece árido. Não o é, porém. "Sou um deserto que monologa", me escreveu um dia Violette Leduc. Nos desertos encontrei belezas incontáveis. Quem quer que nos fale do fundo de sua solidão fala de nós. O homem mais mundano ou o mais militante tem seus recônditos onde ninguém se aventura, nem mesmo ele, mas que lá estão: a noite da infância, os fracassos, as renúncias, a brusca emoção de uma nuvem no céu. Surpreender uma paisagem, um ser, tais como existem em nossa ausência: sonho impossível que todos nós acariciamos. Se lemos A Bastarda, o sonho se realiza, ou quase. Uma mulher desce ao mais secreto de si mesma e se revela com uma sinceridade intrépida, como se não houvesse ninguém para escutá-la.
"Meu caso não é único", diz Violette Leduc, começando esta narrativa. Não, mas é singular e significativo. Ele demonstra, com excepcional clareza, que uma vida é a retomada de um destino por uma liberdade.
Desde as primeiras páginas, a autora nos esmaga sob o peso das fatalidades que a talharam. Durante toda a infância, a mãe lhe insuflou um irremediável sentimento de culpa, culpa de ter nascido, de ter saúde frágil, de custar dinheiro, de ser mulher e fadada aos males da condição feminina. Viu seu reflexo nos dois olhos azuis e duros: um erro vivo. Sua avó, com ternura, preservou-a da destruição total. Graças a ela, Violette Leduc pôde salvaguardar uma vitalidade e um fundo de equilíbrio que, nos piores momentos de sua história, a impediram de soçobrar. Mas o papel do "anjo Fidéline" era apenas secundário, e ela morreu cedo. O outro se encarnava na mãe de olhar de aço. Esmagada por ela a criança quis se anular totalmente. Idolatrou-a, gravou em si mesma a sua lei: fugir dos homens. Votou-se a servi-la e lhe ofereceu o seu futuro. A mãe se casou. A menininha se abalou com essa traição. Daí em diante, teve medo de todas as consciências, porque detinham o poder de transformá-la em monstro, de todas as presenças porque arriscavam a se desmanchar em ausência. Refugiou-se em si mesma. Por angústia, por decepção, por rancor, escolheu o narcisismo, o egocentrismo, a solidão.
"Minha feiúra me conservará isolada até a morte", escreveu Violette Leduc. Essa interpretação não me satisfaz. A mulher que A Bastarda retrata interessa a modistas, grandes costureiros — Lelong, Fath — a tal ponto que eles se comprazem em lhe oferecer suas mais audaciosas criações. Inspira uma paixão em Isabelle. Em Hermine, um amor ardente que dura anos. Em Gabriel, sentimentos bastante violentos que o levam a se casar com ela. Em Maurice Sachs, uma firme simpatia. Seu "nariz grande" não desencoraja a camaradagem nem a amizade. Se algumas vezes ela faz rir, não é por causa dele. Em sua roupa, no penteado, em sua fisionomia, há qualquer coisa de provocante e insólito. A zombaria busca afirmação. Sua feiúra não comandou seu destino, mas o simbolizou. Ela procurou no espelho razões para ter pena de si própria.
Porque, ao sair da adolescência, achou-se presa em uma máquina infernal. Essa solidão da qual fez seu quinhão, ela a detesta, e porque a detesta, nela se chafurda. Nem eremita, nem exilada, sua desgraça é não conhecer com ninguém uma relação de reciprocidade: ou o outro é para ela um objeto, ou ela se faz objeto para ele. Nos diálogos que escreve transparece sua impossibilidade de se comunicar. Os interlocutores falam um junto ao outro e não conversam; cada qual tem uma linguagem própria, não se compreendem. Mesmo no amor, sobretudo no amor, a troca é impossível, pois Violette Leduc não aceita uma dualidade em que a ameaça da separação esteja latente. Toda ruptura ressuscita de maneira intolerável o drama de seus quatorze anos: o casamento de sua mãe. "Não quero que me deixem": é o leitmotiv de Ravages. É preciso, pois, que o casal seja um só ser. Em alguns momentos, Violette Leduc pretende se aniquilar, faz o jogo do masoquismo. Tem, entretanto, demasiado vigor e lucidez para não se manter nele por muito tempo. Ela é quem devorará o ser amado.
Ciumenta, exclusivista, agüenta com dificuldade a afeição de Hermine pela família, as relações de Gabriel com a mãe e a irmã, suas amizades de homem. Exige que sua amiga, terminado o dia de trabalho, lhe consagre todos os instantes. Hermine cozinha e costura para ela, escuta-lhe as lamentações, se afoga com ela no prazer e cede a todos os seus caprichos. Hermine nada reclama, salvo, à noite, o direito de dormir. Insone, Violette se insurge contra essa deserção. Mais tarde, também proíbe Gabriel de dormir. "Odeio os que dormem." Sacode-os, desperta-os e os obriga, através de lágrimas ou de carinhos, a manter os olhos abertos. Menos dócil que Hermine, Gabriel pretende exercer sua profissão e dispor do tempo a seu bel-prazer. Cada manhã, quando quer partir, Violette tenta por todos os meios reconduzi-lo ao leito. Ela atribui essa tirania a suas "insaciáveis entranhas". Na verdade, deseja bem outra coisa que a volúpia: a posse. Quando faz Gabriel gozar, quando o recebe nela, ele lhe pertence, a união se realiza. Quando ele sai de seus braços, é novamente este inimigo: um outro.
"Miragens idênticas da presença e da ausência". A ausência é um suplício: a angustiante espera de uma presença. A presença é um intermédio entre duas ausências, um martírio. Violette Leduc detesta seus carrascos. Eles têm — como todo mundo — uma convivência consigo mesmos que a exclui. E também certas qualidades de que ela é desprovida e por isso se sente lesada. Inveja a boa saúde de Hermine, seu equilíbrio, sua atividade, sua alegria. Sente inveja de Gabriel porque é homem. Não pode destruir seus privilégios a não ser destruindo completamente sua pessoa. Mesmo assim, ela tenta.
"Você quer me destruir", diz Gabriel. Sim. A fim de suprimir o que os diferencia e para se vingar. "Eu me vingava de sua presença perfeita demais", dizia a respeito de Hermine. Quando um, depois o outro, deixam-na para sempre, ela se desespera; entretanto atinge seu objetivo. Secretamente desejava quebrar essa ligação, esse casamento. Pelo prazer do fracasso. Porque visa a sua própria destruição. É "o louva-a-deus devorando a si mesmo". Mas tem bastante saúde, para trabalhar apenas para sua ruína. Na realidade, ela perde a fim de perder e ganhar ao mesmo tempo. Suas rupturas são reconquistas próprias.
Entre tempestades e bonanças, reserva sempre — esta é sua força — o cuidado de se preservar. Nunca se entrega totalmente. Após algumas semanas ardentes, foge logo da paixão de Isabelle. No início de sua vida em comum com Hermine, luta para continuar a trabalhar e prover suas necessidades. Vencida pelo médico, por sua mãe e Hermine, a dependência lhe pesa. Foge disso graças à camaradagem ambígua que entretém com Gabriel e que durante longo tempo permanece clandestina. Casando-se com ele, contesta esse laço consumindo-se de desejo por Maurice Sachs. Quando Sachs, tendo partido como trabalhador livre para Hamburgo, quer voltar à aldeia onde tinham passado alguns meses juntos, ela se recusa a ajudá-lo. Carregando com a força de seus pulsos malas cheias de manteiga e de pernis, amontoando dinheiro, exausta e vitoriosa, conhece a embriaguez de se superar. Sachs perturbaria o universo no qual ela reina, rígida e altiva como um cipreste.
O próximo sempre a frustra, fere, humilha. Quando luta com o mundo, sem socorro, quando trabalha e tem êxito, a alegria transporta-a. Essa choramingas é também a viajante que no Trésors à Prendre percorre a França, mochila às costas, inebriada por suas descobertas e pela própria energia. A mulher que se basta: é sob essa imagem que Violette Leduc se satisfaz. "Eu atingia o extremo de meus esforços, enfim, eu existia."
Mas ela precisa amar. Tem necessidade de alguém a quem dedicar seus enlevos, suas tristezas, seus entusiasmos. O ideal seria consagrar-se a um ser que não a embarace com sua presença, a quem possa dar tudo sem que ele lhe tire nada. Assim amou Fidéline — "Minha pequena rainha que não envelheceu" —, maravilhosamente embalsamada em sua memória. E Isabelle, que se transformou, no fundo do passado, em um ídolo fascinante. Invoca-as, acalenta-se com a imagem delas, prosterna-se a seus pés. Por Hermine ausente e já perdida, seu coração enlouquece. Sente uma paixão repentina por Maurice Sachs e, mais tarde, por dois outros homossexuais. O obstáculo que a separa deles é tão intransponível quanto um ano-luz. Na companhia deles "se inflama no braseiro do impossível". Há voluptuosidade em um desejo insatisfeito quando este não contém esperança alguma. A mulher que em L'Affamée Violette Leduc denomina Madame não deixa de ser menos inacessível. Em La vieille fille et le mort (A Solteirona e o Defunto), levou ao paroxismo o fantasma de um amor sem correspondência, onde o outro seria reduzido à passividade das coisas. A Srta. Clarisse, solteirona de cinqüenta anos — não por falta de interesse dos homens, mas porque os desdenhou — encontra uma tarde, em um café junto à sua mercearia, um desconhecido morto. Cobre-o de cuidados e ternura sem que ele atrapalhe suas expansões, fala-lhe e inventa suas respostas. A ilusão, porém, se dissipa, pois que ele nada recebeu, ela não deu nada. Não achou conforto nele e se reencontra só diante de um cadáver. Os amores a distância maltratam tanto Violette Leduc quanto os amores compartilhados.
"Jamais você estará satisfeita", lhe diz Hermine. Hermine mata-a esmagando-a de carinhos, e Gabriel, se recusando. A presença perturba-a, a ausência arrasa-a. A chave dessa maldição, ela nos entrega: "Vim ao mundo, fiz o juramento de possuir a paixão do impossível." Essa paixão possuiu-a no dia em que, traída pela mãe, refugiou-se junto ao fantasma do pai desconhecido. Esse pai tinha existido, e era um mito. Penetrando em seu universo, penetrou em uma lenda. Escolheu o imaginário, que é uma das faces do impossível. Ele tinha sido rico e refinado. Ela ressuscitou seus gostos, sem esperança de satisfazê-los. Entre os vinte e os trinta anos, cobiçou desvairadamente o luxo de Paris: móveis, vestidos, jóias, belos carros. Mas não esboçou o menor gesto para obtê-los: "O que eu queria? Não fazer nada e possuir tudo." O sonho da grandeza contava mais que a própria grandeza.
 
Ela se alimenta de símbolos. Transfigura os instantes com ritos: o aperitivo tomado no subsolo com Hermine, o champagne bebido com a mãe pertencem a uma vida fictícia. Ela se mascara quando enfia, ao som de tambores irreais, o costume colante de Schiaparelli, e seu passeio nos grandes bulevares é uma paródia.
Essas tapeações, entretanto, não a satisfazem, pois conservou de sua infância camponesa a necessidade de coisas sólidas nas mãos, de sentir a terra sob os pés, de realizar atos de verdade. Fabricar a realidade com o imaginário é apanágio dos artistas e dos escritores. Ela se encaminhará em direção a essa saída.
Em suas relações com o próximo assumia apenas seu destino. Mas inventa-lhe um sentido imprevisto quando se orienta para a literatura. Tudo começou no dia em que entrou em uma livraria e pediu um livro de Jules Romains. Em sua narrativa, não valoriza a importância desse fato de que, na hora, não suspeitou evidentemente das conseqüências. Um leitor desatento verá em sua história nada mais que uma série de acasos. Trata-se, na verdade, de uma escolha que se mantém e se renova durante cerca de quinze anos antes de chegar a uma obra.
Enquanto viveu à sombra de sua mãe, Violette Leduc desprezou os livros. Preferia roubar couve atrás de uma charrete, colher verduras para os coelhos, conversar, viver. No dia em que se voltou para o pai, os livros — que ele amara tanto — fascinaram-na. Sólidos, brilhantes, eles continham, sob a bela capa lustrosa, mundos onde o impossível se torna possível. Comprou e devorou Mort de quelqu' un (Morte de um alguém). Romains. Duhamel. Gide. Não mais os largará. Quando se decide a trabalhar, põe um anúncio na Bibliographie de la France. Entra numa editora, redige notas sociais. Não ousa ainda sonhar em escrever livros, mas se nutre de rostos e de nomes famosos. Após seu rompimento com Hermine, vai trabalhar com uma empresária de cinema. Lê as sinopses, propõe seus desenvolvimentos. Assim desviou o curso de sua existência e provocou a chance que a fez encontrar Maurice Sachs. Ele se interessa por ela, aprecia suas cartas, aconselha-a a escrever. Ela principia por novelas e reportagens que envia a uma revista feminina. Mais tarde, cansado com a repetição de suas recordações da infância, ele lhe dirá: escreva-as. Surgirá L'Asphyxie.
Súbito, ela compreendeu que a criação literária poderia ser-lhe uma salvação. "Escreverei, abrirei os braços, abraçarei as árvores frutíferas, vou dá-las à minha folha de papel." Falar a um morto, a surdos, a coisas, é um jogo duro. O leitor cumpre a síntese impossível da ausência e da presença. "O mês de agosto hoje, leitor, é uma rosácea de calor. Eu a ofereço a você, de presente." Ele recebe tal presente sem alterar a solidão do autor. Escuta seu monólogo, não o responde, mas o justifica.
É preciso entretanto ter qualquer coisa a lhe dizer. Enamorada do impossível, Violette Leduc não perdeu, contudo, o contato com o mundo. Ao contrário, abraça-o para preencher sua solidão. Sua situação singular protege-a contra as visões pré-fabricadas. Sacudida do fracasso à nostalgia, nada considera pronto. Incansavelmente, interroga e recria com palavras o que descobriu. Tinha tanto a dizer que seu ouvinte fatigado lhe pôs uma caneta nas mãos.
Obcecada por si mesma, todas as suas obras — salvo Les Boutons Dorés (Os Botões Dourados) — são mais ou menos autobiográficas: lembranças, diário de um amor, ou antes de uma ausência; diário de uma viagem; romance que transpõe um período de sua vida; longa novela que põe em cena seus fantasmas; enfim, A Bastarda, que retoma e ultrapassa seus livros anteriores.
A riqueza de suas narrativas provém mais da ardente intensidade de sua memória que das circunstâncias. A cada momento ela, toda inteira, lá está através da espessura dos anos. Cada mulher amada ressuscita Isabelle em quem ressuscitava uma jovem mãe idolatrada. O avental azul de Fidéline ilumina todos os céus de verão. Às vezes a autora pula para o presente, nos convida a sentar a seu lado sobre as folhas de pinheiro. Assim anula o tempo, o passado toma as cores da hora que está soando. Uma colegial de cinqüenta e cinco anos traça palavras em um caderno. Também nos arrasta em delírios quando suas lembranças não são bastantes para lhe aclarar as emoções; então conjura a ausência através de fantasmagorias líricas e violentas. A vida vivida envolve a vida sonhada que transparece em filigrana nas narrativas mais despojadas.
Sua principal heroína é ela. Mas seus protagonistas existem intensamente. "Pontilhismo atroz do sentimento." Uma entonação da voz, um franzir de sobrancelhas, um silêncio, um suspiro, tudo é promessa ou recusa exacerbada, tudo adquire um relevo dramático para aquela que é apaixonadamente engajada em sua relação com os outros. A "atroz" preocupação que tem por seus menores gestos é sua felicidade de escritora. Faz com que vivam para nós em sua opacidade inquietante e seus detalhes minuciosos. A mãe, provocante e violenta, imperiosa e cúmplice, Fidéline, Isabelle, Hermine, Gabriel, Sachs, tão espantosos como nos seus próprios livros. Impossível esquecê-los.
Porque "nunca está satisfeita", permanece disponível, todo encontro pode aplacar sua fome ou pelo menos distraí-la. A todos com quem cruza concede uma profunda atenção. Desmascara as tragédias, as farsas que se escondem sob aparências banais. Em algumas páginas, em algumas linhas, anima os personagens que atraíram sua curiosidade ou amizade: a velha costureira albigense, que vestiu a mãe de Toulouse-Lautrec; o eremita cego de um olho, de Beaumes-de-Venise; Fernand, o "abatedor", que sorrateiramente abate bois e carneiros, uma cartola à cabeça, uma rosa entre os dentes. Comoventes, extraordinários, eles nos prendem como a prenderam.
Interessa-se pelas pessoas. Gosta das coisas. Sartre narra em As Palavras que, embebido pelo Littré, estas lhe apareciam como precárias encarnações do nome. Para Violette Leduc, ao contrário, a linguagem está nelas, e o escritor é que corre o risco de traí-las. "Não assassine esse calor no alto de uma árvore. As coisas falam sem você, contenha-se, sua voz poderá abafá-las." "A roseira se verga sob a embriaguez das rosas: que deseja você, fazê-la cantar?" Entretanto, decide escrever e captar seus murmúrios: "Trarei o coração de cada coisa à superfície". Quando se sente arrasada pela ausência, refugia-se perto delas, elas são sólidas, reais, e têm uma voz. Enamora-se de objetos estranhos. Certa vez, trouxe do Midi cento e vinte quilos de pedras da cor da aurora, onde fósseis tinham deixado sua marca; outra vez, trouxe pedaços de madeira de cinzentos requintados, de formatos originais. Seus companheiros favoritos, porém, são os objetos familiares: uma caixa de fósforos, um fogareiro. Desfruta do calor, da doçura, de um sapato de criança. Em seu velho casaco de pele de coelho, respira ternamente o perfume de seu despojamento. Encontra proteção em uma cadeira de igreja, em um relógio: "Tomei em meus braços o encosto. Toquei a madeira encerada. Ela é gentil com minha face." "Os relógios me consolam. O pêndulo vai e vem, alheio à felicidade, alheio à desgraça." Na noite seguinte a seu aborto, pensou que morria e apertava amorosamente a pêra do comutador elétrico suspenso acima de seu leito. "Não me abandone, pequena e querida pêra. Você é bochechuda, estou me apagando com uma face na palma de minha mão, uma face envernizada que reanimo." Como sabe amá-los, ela faz com que os vejamos. Ninguém antes nos mostrou essas palhetas um pouco apagadas que cintilam incrustadas nos degraus do metrô.
Todos os livros de Violette Leduc poderiam se chamar L' Asphyxie. Ela se sente asfixiada junto a Hermine, no pavilhão do subúrbio, e mais tarde no reduto de Gabriel. Isso é o símbolo de um confinamento mais profundo, ela se estiola em sua própria pele. Mas, em certos momentos, sua saúde vigorosa explode e então ela rasga os anteparos, liberta o horizonte, escapa, se dá à natureza e as estradas se desenrolam a seus pés. Vadiar, fazer longas caminhadas. Nem o grandioso, nem o extraordinário a atraem. Compraz-se na Île-de-France, na Normandia: prados, sítios, lavouras, uma terra trabalhada pelo homem com suas chácaras, pomares, casas, animais. Muitas vezes, o vento, a tempestade, a noite, um céu de fogo dramatizam essa tranqüilidade. Violette Leduc pinta paisagens tormentosas que se assemelham às de Van Gogh. "As árvores têm suas crises de desespero." Mas sabe também descrever a paz dos outonos, a tímida primavera, o silêncio de um caminho de sulcos. Sua simplicidade, às vezes um tanto preciosa, lembra Jules Renard: "A porca é muito nua, a ovelha vestida demais." Entretanto, é com uma arte toda pessoal que colore os ruídos, ou torna visível "o grito brilhante da cotovia". O abstrato fica tangível para ela quando evoca "a jovialidade das umbelíferas... o perfume de desespero da serragem fresca... o vapor místico das lavandas em flor". Nada é forçado em suas anotações. Com espontaneidade, o campo fala dos homens que o cultivam e o habitam. Através dele, Violette Leduc se reconcilia com eles. Vai flanando à vontade pelas aldeias, abertas e cercadas, fechadas em si mesmas, mas onde cada habitante conhece o calor de uma relação com todos. Nos botequins, os camponeses, os carroceiros não a intimidam. Brinda com eles, mantém-se alegre e confiante, conquista-lhes a amizade. "O que amo de todo o coração? O campo, os bosques, as florestas... Meu lugar é nele, entre eles..."
Todo escritor que fala sobre si sonha com a sinceridade: cada um com a sua, que não é igual a nenhuma outra. Não conheço sinceridade mais íntegra que a de Violette Leduc. Culpada, culpada, culpada: a voz da mãe ainda ressoa nela. Um juiz misterioso encurrala-a. Apesar disso, graças a isso, ninguém é capaz de intimidá-la. Jamais os erros que lhe imputaremos serão tão graves quanto os que lhe atribuem invisíveis perseguidores. Mostra-nos todas as peças do processo a fim de que a livremos do mal que não cometeu.
Em seus livros, o erotismo ocupa grande espaço, mas não de modo gratuito nem como provocação. Ela não nasceu de um casal, mas de dois sexos. Diante das lengalengas da mãe, ficou se conhecendo de início como pertencente a um sexo maldito, ameaçado pelos machos. Adolescente enclausurada, estagnava-se em um narcisismo enfadonho, quando Isabelle lhe ensinou o prazer. Foi fulminada por essa transfiguração do seu corpo em delícias. Entregue a amores ditos anormais, ela os reivindicou. Outrossim, é solidamente materialista, mesmo usando algumas vezes o nome de Deus entre os nomes que dá à sua solidão. Não procura impor a outro suas idéias ou uma imagem sua. Sua relação com ele é carnal. A presença é o corpo, a comunicação se opera de corpo a corpo. Estimar Fidéline é se meter debaixo de sua saia. Ser rejeitada por Sachs é agüentar seus beijos "abstratos". O narcisismo se encerra no onanismo. As sensações são a verdade dos sentimentos. Violette Leduc chora, exulta, palpita com seus ovários. Não nos diria nada sobre si se não nos falasse deles. Enxerga os outros através de seus desejos: Hermine e seu ardor tranqüilo; o masoquismo irônico de Gabriel; a pederastia de Sachs.
 
Interessa-se, nos encontros casuais, por todas as pessoas que recriaram por conta própria a sexualidade, como Cataplame, no começo de A Bastarda. O erotismo nela não desemboca em nenhum mistério e não se constrange com banalidades, é contudo a chave privilegiada do mundo, é à sua luz que descobre a cidade e os campos, a espessura das noites, a fragilidade da aurora, a crueldade do badalar dos sinos. Para falar dele, forjou uma linguagem particular sem afetação nem vulgaridade que considero um notável achado. Entretanto, desagradou aos editores. Eles eliminaram de Ravages a descrição de suas noites com Isabelle. As reticências substituem aqui e ali passagens que foram suprimidas. De A Bastarda eles aceitaram tudo. O episódio mais ousado mostra Violette e Hermine deitadas juntas sob os olhos de um voyeur, tudo contado com tal simplicidade que desarma a censura. A audácia discreta de Violette Leduc é uma de suas mais impressionantes qualidades, mas que, sem dúvida, prejudicou-a: escandaliza os puritanos, e o machismo não a aprova.
Em nossos dias, as confissões sexuais são abundantes. Muito mais raro é ver-se um escritor falando francamente sobre o dinheiro. Violette Leduc não esconde a importância que este representa para ela, ele também materializa suas relações com o outro. Quando criança, sonha trabalhar a fim de dá-lo à mãe; rejeitada, zomba dele, furtando-o aqui e ali. Gabriel ergue-a num pedestal ao gastar seu dinheiro com ela, e a deprime quando economiza. Um dos traços que a fascinam em Sachs é a sua prodigalidade. Ela se diverte em pechinchar: é uma revanche sobre os que possuem. Acima de tudo, adora ganhar: assim se afirma, existe. Junta dinheiro apaixonadamente. Desde a infância foi tomada pelo medo de não ter. Mede sua importância pelo maço de notas que espeta sob a saia. Na fraternidade dos botequins da aldeia, chega a pagar, com alegria, as rodadas de bebidas. Mas não esconde que é avarenta: por prudência, por egocentrismo, por ressentimento. "Auxiliar o meu próximo. E me ajudavam quando eu morria de angústia?" Dureza, rapacidade convivem nela com surpreendente boa-fé.
Faz a confissão de outras mesquinharias que habitualmente escondemos com zelo. Numerosos foram os amargurados que furiosamente tiraram benefício da derrota. Seu primeiro cuidado foi, em seguida, esquecer. Violette admite tranqüilamente que a ocupação nazista lhe proporcionou suas chances, que as aproveitou. Não se aborreceu porque a desgraça caiu sobre outras cabeças e não a sua. Contratada por uma revista feminina e convencida de que era uma nulidade, temia o fim da guerra, que faria voltar os "valores" e resultaria na sua expulsão. Não se desculpa nem se acusa, assim era ela. Compreende o porquê e nos faz compreendê-lo.
Mas não minimiza coisa alguma. A maioria dos escritores, quando confessa maus sentimentos, tira os seus espinhos com a própria franqueza. Ela nos obriga a pegá-los, nela, em nós, em sua mordacidade ardente. Permanece cúmplice de suas invejas, de seus rancores, de suas mesquinharias. E com isso toma para si as nossas culpas e nos libera da vergonha: ninguém é monstruoso se todos nós o somos.
Essa audácia lhe provém de sua ingenuidade moral. Raramente se dirige uma reprovação ou delineia alguma defesa. Não se julga, não julga ninguém. Lamenta-se. Irrita-se contra a mãe, contra Hermine, Gabriel, Sachs, não os condena. Algumas vezes se enternece, algumas vezes admira, não se revolta jamais. Sua culpabilidade lhe veio de fora, sem que por isso fosse mais responsável que pela cor de seus cabelos. Tanto o bem quanto o mal são para ela palavras vazias. As coisas que a fizeram sofrer mais — seu rosto "imperdoável", o casamento de sua mãe — não estão catalogadas como erros. Indiferente se mostra diante do que não a atinge pessoalmente. Chama os alemães de "os inimigos" para demonstrar que essa noção emprestada lhe é exterior. Não é solidária a nenhum lado. Não possui o senso do universal nem do simultâneo. Está ali onde está, com o peso de seu passado sobre os ombros. Não trapaceia jamais, jamais cede às pretensões nem se curva ante as convenções. Sua escrupulosa honestidade tem o valor de um questionamento.

Neste mundo vazio de categorias morais, somente a sensibilidade a conduz. Curada do gosto pelo luxo e mundanismos, coloca-se com decisão do lado dos pobres, dos abandonados. Permanece assim fiel ao despojamento e às alegrias modestas de sua infância e também à sua vida presente, pois que, após os anos triunfantes do mercado negro, viu-se sem um vintém. Sente veneração pela pobreza de Van Gogh, pelo cura d'Ars. Todas as angústias encontram uma ressonância nela: a dos abandonados, dos desgarrados, das crianças sem lar, dos velhos sem filhos, dos vagabundos, dos párias, das lavadeiras de mãos gretadas, das empregadinhas de quinze anos. Desola-se quando — em Trésors à Prendre, antes da guerra da Argélia — assiste à dona de um restaurante se recusar a servir um argelino vendedor de tapetes. Diante da injustiça, toma logo o partido do oprimido, do explorado. São seus irmãos, se reconhece neles. Além do que, as pessoas situadas à margem da sociedade lhe parecem mais verdadeiras que os cidadãos bem colocados que se curvam a funções. Prefere um boteco do campo a um bar elegante. Ao conforto das primeiras classes, um compartimento de terceira que cheira a alho e lilás. Seus ambientes, seus personagens pertencem a esse mundo da gente humilde que a literatura atual, em geral, relega ao silêncio.
Malgrado "as lágrimas e os gritos", os livros de Violette Leduc são "revigorantes" — ela ama esta palavra — devido ao que chamaria de sua inocência no mal, e porque eles arrancam tantas riquezas da sombra. Quartos sufocantes, corações desolados, as pequenas frases ofegantes nos comprimem a garganta. De repente, uma ventania nos arrebata sob um céu sem fim e a alegria pulsa em nossas veias. O grito da cotovia fulgura acima da planície nua. No fundo do desespero tocamos a paixão de viver, e o ódio não passa de um dos nomes do amor.
A Bastarda acaba no momento em que a autora termina o relato dessa infância que também narra no início deste livro. Assim, o círculo se fecha. O fracasso da relação com o outro levou a essa forma privilegiada de comunicação: uma obra. Gostaria de ter convencido o leitor a nela penetrar: aí encontrará muito mais ainda do que lhe prometi.
Simone de Beauvoir

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Poema de Luís Guimarães Júnior

 

Visita à casa paterna

Luís Guimarães Júnior

Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos, - olhou-me, grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
minhas irmãs e minha mãe... O pranto

Jorrou-me em ondas... Resistir quem há de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.

Rio - 1876.

 

Poema de Julio Salusse

 

Os cisnes  

Júlio Salusse

 

A vida, manso lago azul algumas

Vezes, algumas vezes mar fremente,

Tem sido para nós constantemente

Um lago azul sem ondas, sem espumas,

 

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas

Matinais, rompe um sol vermelho e quente,

Nós dois vagamos indolentemente,

Como dois cisnes de alvacentas plumas.

 

Um dia um cisne morrerá, por certo:

Quando chegar esse momento incerto,

No lago, onde talvez a água se tisne,

 

Que o cisne vivo, cheio de saudade,

Nunca mais cante, nem sozinho nade,

Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

sábado, 25 de abril de 2009

Paulo Mendes Campos

O amor acaba
Por Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

Millôr

A Evidência
Millôr Fernandes



Ainda que pasmem os leitores, ainda que não acreditem e passem, doravante, a chamar este escritor de mentiroso e fátuo, a verdade é que, certo dia que não adianta precisar, entraram num restaurante de luxo, que não me interessa dizer qual seja, um ratinho gordo e catita e um enorme tigre de olhar estriado e grandes bigodes ferozes. Entraram e, como sucede nas histórias deste tipo, ninguém se espantou, muito menos o garçon do restaurante. Era apenas mais um par de fregueses. Entrados os dois, ratinho e tigre, escolheram uma mesa e se sentaram. O garçon andou de lá prá cá e de cá prá lá, como fazem todos os garçons durante meia hora, na preliminar de atender fregueses mas, afinal, atendeu-os, já que não lhe restava outra possibilidade, pois, por mais que faça um garçon, acaba mesmo tendo que atender seus fregueses. Chegou pois o garçon e perguntou ao ratinho o que desejava comer. Disse o ratinho, numa segurança de conhecedor - "Primeiro você me traga Roquefort au Blinnis. Depois Couer de Baratta filet roti à la broche pommes dauphine. Em seguida Medaillon Lagartiche Foie Gras de Strasbourg. E, como sobremesa, me traga um Parfait de biscuit Estraguèe avec Cerises Jubilée. Café. Beberei, durante o jantar, um Laffite Porcherrie Rotschild 1934.


— Muito bem - disse o garçon. E, dirigindo-se ao tigre — E o senhor, que vai querer?

— Ele não quer nada — disse o ratinho.

— Nada? — tornou o garçon — Não tem apetite?

— Apetite? Que apetite? — rosnou o ratinho enraivecido — Deixa de ser idiota, seu idiota! Então você acha que se ele estivesse com fome eu ia andar ao lado dele?

MORAL: É NECESSÁRIO MANTER A LÓGICA MESMO NA FANTASIA.

Crônica de Rachel de Queiroz

 
Talvez o último desejo

Rachel de Queiroz



Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?

Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana! Sim, te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.

Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!

Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!

Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade - que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.

Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.

Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.



Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.

Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz - o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.

E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.

E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.

E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.

E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.

E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.

E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.

Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?

O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!



Rachel de Queiroz, em "Um alpendre, uma rede, um açude". Rio de Janeiro: José Olímpio

Conto da Nélida Piñon

I love my husband
Nélida Piñon


Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre maldormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado.

Depois, arrumo-lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar-lhe unicamente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranqüilo, capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto.

Ele diz que sou exigente, fico em casa lavando a louça, fazendo compras, e por cima reclamo da vida. Enquanto ele constrói o seu mundo com pequenos tijolos, e ainda que alguns destes muros venham ao chão, os amigos o cumprimentam pelo esforço de criar olarias de barro, todas sólidas e visíveis.

A mim também me saúdam por alimentar um homem que sonha com casas-grandes, senzalas e mocambos, e assim faz o país progredir. E é por isto que sou a sombra do homem que todos dizem eu amar. Deixo que o sol entre pela casa, para dourar os objetos comprados com esforço comum. Embora ele não me cumprimente pelos objetos fluorescentes. Ao contrário, através da certeza do meu amor, proclama que não faço outra coisa senão consumir o dinheiro que ele arrecada no verão. Eu peço então que compreenda minha nostalgia por uma terra antigamente trabalhada pela mulher, ele franze o rosto como se eu lhe estivesse propondo uma teoria que envergonha a família e a escritura definitiva do nosso apartamento.

O que mais quer, mulher, não lhe basta termos casado em comunhão de bens? E dizendo que eu era parte do seu futuro, que só ele porém tinha o direito de construir, percebi que a generosidade do homem habilitava-me a ser apenas dona de um passado com regras ditadas no convívio comum.

Comecei a ambicionar que maravilha não seria viver apenas no passado, antes que este tempo pretérito nos tenha sido ditado pelo homem que dizemos amar. Ele aplaudiu o meu projeto. Dentro de casa, no forno que era o lar, seria fácil alimentar o passado com ervas e mingau de aveia, para que ele, tranqüilo, gerisse o futuro. Decididamente, não podia ele preocupar-se com a matriz do meu ventre, que devia pertencer-lhe de modo a não precisar cheirar o meu sexo para descobrir quem mais, além dele, ali estivera, batera-lhe à porta, arranhara suas paredes com inscrições e datas.

Filho meu tem que ser só meu, confessou aos amigos no sábado do mês que recebíamos. E mulher tem que ser só minha e nem mesmo dela. A idéia de que eu não podia pertencer-me, tocar no meu sexo para expurgar-lhe os excessos, provocou-me o primeiro sobressalto na fantasia do passado em que até então estivera imersa. Então o homem, além de me haver naufragado no passado, quando se sentia livre para viver a vida a que ele apenas tinha acesso, precisava também atar minhas mãos, para minhas mãos não sentirem a doçura da própria pele, pois talvez esta doçura me ditasse em voz baixa que havia outras peles igualmente doces e privadas, cobertas de pêlo felpudo, e com a ajuda da língua podia lamber-se o seu sal?

Olhei meus dedos revoltada com as unhas longas pintadas de roxo. Unhas de tigre que reforçavam a minha identidade, grunhiam quanto à verdade do meu sexo. Alisei meu corpo, pensei, acaso sou mulher unicamente pelas garras longas e por revesti-las de ouro, prata, o ímpeto do sangue de um animal abatido no bosque? Ou porque o homem adorna-me de modo a que quando tire estas tintas de guerreira do rosto surpreende-se com uma face que Ihe é estranha, que ele cobriu de mistério para não me ter inteira?

De repente, o espelho pareceu-me o símbolo de uma derrota que o homem trazia para casa e tornava-me bonita. Não é verdade que te amo, marido? perguntei-lhe enquanto lia os jornais, para instruir-se, e eu varria as letras de imprensa cuspidas no chão logo após ele assimilar a notícia. Pediu, deixe-me progredir, mulher. Como quer que eu fale de amor quando se discutem as alternativas econômicas de um país em que os homens para sustentarem as mulheres precisam desdobrar um trabalho de escravo.

Eu lhe disse então, se não quer discutir o amor, que afinal bem pode estar longe daqui, ou atrás dos móveis para onde às vezes escondo a poeira depois de varrer a casa, que tal se após tantos anos eu mencionasse o futuro como se fosse uma sobremesa?

Ele deixou o jornal de lado, insistiu que eu repetisse. Falei na palavra futuro com cautela, não queria feri-lo, mas já não mais desistia de uma aventura africana recém-iniciada naquele momento. Seguida por um cortejo untado de suor e ansiedade, eu abatia os javalis, mergulhava meus caninos nas suas jugulares aquecidas, enquanto Clark Gable, atraído pelo meu cheiro e do animal em convulsão, ia pedindo de joelhos o meu amor. Sôfrega pelo esforço, eu sorvia água do rio, quem sabe em busca da febre que estava em minhas entranhas e eu não sabia como despertar. A pele ardente, o delírio, e as palavras que manchavam os meus lábios pela primeira vez, eu ruborizada de prazer e pudor, enquanto o pajé salvava-me a vida com seu ritual e seus pêlos fartos no peito. Com a saúde nos dedos, da minha boca parecia sair o sopro da vida e eu deixava então o Clark Gable amarrado numa árvore, lentamente comido pelas formigas. Imitando a Nayoka, eu descia o rio que quase me assaltara as forças, evitando as quedas d'água, aos gritos proclamando liberdade, a mais antiga e miríade das heranças.

O marido, com a palavra futuro a boiar-lhe nos olhos e o jornal caído no chão, pedia-me, o que significa este repúdio a um ninho de amor, segurança, tranqüilidade, enfim a nossa maravilhosa paz conjugal? E acha você, marido, que a paz conjugal se deixa amarrar com os fios tecidos pelo anzol, só porque mencionei esta palavra que te entristece, tanto que você começa a chorar discreto, porque o teu orgulho não lhe permite o pranto convulso, este sim, reservado à minha condição de mulher? Ah, marido, se tal palavra tem a descarga de te cegar, sacrifico-me outra vez para não vê-lo sofrer. Será que apagando o futuro agora ainda há tempo de salvar-te?

Suas crateras brilhantes sorveram depressa as lágrimas, tragou a fumaça do cigarro com volúpia e retomou a leitura. Dificilmente se encontraria homem como ele no nosso edifício de dezoito andares e três portarias. Nas reuniões de condomínio, a que estive presente, era ele o único a superar os obstáculos e perdoar aos que o haviam magoado. Recriminei meu egoísmo, ter assim perturbado a noite de quem merecia recuperar-se para a jornada seguinte.

Para esconder minha vergonha, trouxe-lhe café fresco e bolo de chocolate. Ele aceitou que eu me redimisse. Falou-me das despesas mensais. Do balanço da firma ligeiramente descompensado, havia que cuidar dos gastos. Se contasse com a minha colaboração, dispensaria o sócio em menos de um ano. Senti-me feliz em participar de um ato que nos faria progredir em doze meses. Sem o meu empenho, jamais ele teria sonhado tão alto. Encarregava-me eu à distância da sua capacidade de sonhar. Cada sonho do meu marido era mantido por mim. E, por tal direito, eu pagava a vida com cheque que não se poderia contabilizar.

Ele não precisava agradecer. De tal modo atingira a perfeição dos sentimentos, que lhe bastava continuar em minha companhia para querer significar que me amava, eu era o mais delicado fruto da terra, uma árvore no centro do terreno de nossa sala, ele subia na árvore, ganhava-lhe os frutos, acariciava a casca, podando seus excessos.

Durante uma semana bati-lhe à porta do banheiro com apenas um toque matutino. Disposta a fazer-lhe novo café, se o primeiro esfriasse, se esquecido ficasse a olhar-se no espelho com a mesma vaidade que me foi instilada desde a infância, logo que se confirmou no nascimento tratar-se de mais uma mulher. Ser mulher é perder-se no tempo, foi a regra de minha mãe. Queria dizer, quem mais vence o tempo que a condição feminina? O pai a aplaudia completando, o tempo não é o envelhecimento da mulher, mas sim o seu mistério jamais revelado ao mundo.

Já viu, filha, que coisa mais bonita, uma vida nunca revelada, que ninguém colheu senão o marido, o pai dos seus filhos? Os ensinamentos paternos sempre foram graves, ele dava brilho de prata à palavra envelhecimento. Vinha-me a certeza de que ao não se cumprir a história da mulher, não lhe sendo permitida a sua própria biografia, era-lhe assegurada em troca a juventude.

Só envelhece quem vive, disse o pai no dia do meu casamento. E porque viverás a vida do teu marido, nós te garantimos, através deste ato, que serás jovem para sempre. Eu não sabia como contornar o júbilo que me envolvia com o peso de um escudo, e ir ao seu coração, surpreender-lhe a limpidez. Ou agradecer-lhe um estado que eu não ambicionara antes, por distração talvez. E todo este troféu logo na noite em que ia converter-me em mulher. Pois até então sussurravam-me que eu era uma bela expectativa. Diferente do irmão que já na pia batismal cravaram-lhe o glorioso estigma de homem, antes de ter dormido com mulher.

Sempre me disseram que a alma da mulher surgia unicamente no leito, ungido seu sexo pelo homem. Antes dele a mãe insinuou que o nosso sexo mais parecia uma ostra nutrida de água salgada, e por isso vago e escorregadio, longe da realidade cativa da terra. A mãe gostava de poesia, suas imagens sempre frescas e quentes.

Meu coração ardia na noite do casamento. Eu ansiava pelo corpo novo que me haviam prometido, abandonar a casca que me revestira no cotidiano acomodado. As mãos do marido me modelariam até os meus últimos dias e como agradecer-lhe tal generosidade? Por isso talvez sejamos tão felizes como podem ser duas criaturas em que uma delas é a única a transportar para o lar alimento, esperança, a fé, a história de uma família.

Ele é único a trazer-me a vida, ainda que às vezes eu a viva com uma semana de atraso. O que não faz diferença. Levo até vantagens, porque ele sempre a trouxe traduzida. Não preciso interpretar os fatos, incorrer em erros, apelar para as palavras inquietantes que terminam por amordaçar a liberdade. As palavras do homem são aquelas de que deverei precisar ao longo da vida. Não tenho que assimilar um vocabulário incompatível com o meu destino, capaz de arruinar meu casamento.

Assim fui aprendendo que a minha consciência que está a serviço da minha felicidade ao mesmo tempo está a serviço do meu marido. É seu encargo podar meus excessos, a natureza dotou-me com o desejo de naufragar às vezes, ir ao fundo do mar em busca das esponjas. E para que me serviriam elas senão para absorver meus sonhos, multiplicá-los no silêncio borbulhante dos seus labirintos cheios de água do mar? Quero um sonho que se alcance com a luva forte e que se transforme algumas vezes numa torta de chocolate, para ele comer com os olhos brilhantes, e sorriremos juntos.

Ah, quando me sinto guerreira, prestes a tomar das armas e ganhar um rosto que não é o meu, mergulho numa exaltação dourada, caminho pelas ruas sem endereço, como se a partir de mim, e através do meu esforço, eu devesse conquistar outra pátria, nova língua, um corpo que sugasse a vida sem medo e pudor. E tudo me treme dentro, olho os que passam com um apetite de que não me envergonharei mais tarde. Felizmente, é uma sensação fugaz, logo busco o socorro das calçadas familiares, nelas a minha vida está estampada. As vitrines, os objetos, os seres amigos, tudo enfim orgulho da minha casa.

Estes meus atos de pássaro são bem indignos, feririam a honra do meu marido. Contrita, peço-lhe desculpas em pensamento, prometo-lhe esquivar-me de tais tentações. Ele parece perdoar-me à distância, aplaude minha submissão ao cotidiano feliz, que nos obriga a prosperar a cada ano. Confesso que esta ânsia me envergonha, não sei como abrandá-la. Não a menciono senão para mim mesma. Nem os votos conjugais impedem que em escassos minutos eu naufrague no sonho. Estes votos que ruborizam o corpo mas não marcaram minha vida de modo a que eu possa indicar as rugas que me vieram através do seu arrebato.

Nunca mencionei ao marido estes galopes perigosos e breves. Ele não suportaria o peso dessa confissão. Ou que lhe dissesse que nessas tardes penso em trabalhar fora, pagar as miudezas com meu próprio dinheiro. Claro que estes desatinos me colhem justamente pelo tempo que me sobra. Sou uma princesa da casa, ele me disse algumas vezes e com razão. Nada pois deve afastar-me da felicidade em que estou para sempre mergulhada.

Não posso reclamar. Todos os dias o marido contraria a versão do espelho. Olho-me ali e ele exige que eu me enxergue errado. Não sou em verdade as sombras, as rugas com que me vejo. Como o pai, também ele responde pela minha eterna juventude. É gentil de sentimentos. Jamais comemorou ruidosamente meu aniversário, para eu esquecer de contabilizar os anos. Ele pensa que não percebo. Mas, a verdade é que no fim do dia já não sei quantos anos tenho.

E também evita falar do meu corpo, que se alargou com os anos, já não visto os modelos de antes. Tenho os vestidos guardados no armário, para serem discretamente apreciados. Às sete da noite, todos os dias, ele abre a porta sabendo que do outro lado estou à sua espera. E quando a televisão exibe uns corpos em floração, mergulha a cara no jornal, no mundo só nós existimos.

Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes, ou me perturbe algum rosto estranho, que não é o dele, de um desconhecido sim, cuja imagem nunca mais quero rever. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido.


Nélida Piñon
, jornalista, romancista, contista, professora, é carioca de Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ. Nasceu em 3 de maio de 1937. Eleita em 27 de julho de 1989 para a Cadeira n. 30, na sucessão de Aurélio Buarque de Holanda, foi recebida em 3 de maio de 1990, pelo acadêmico Lêdo Ivo.

Foi a primeira mulher, nos mais de 100 anos de existência da ABL, a integrar a Diretoria e ocupar a presidência da Casa de Machado de Assis, no ano do seu I Centenário.

Sua produção literária está traduzida para países como Alemanha, Itália, Espanha, União Soviética, Estados Unidos, Cuba e Nicarágua. Contos seus encontram-se publicados em centenas de revistas e fazem parte de antologias brasileiras e estrangeiras.

Recebeu vários prêmios literários: Prêmio Walmap, pelo romance Fundador (1970); Prêmio Mário de Andrade, pelo romance A casa da paixão (1973); Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e Prêmio Ficção Pen Clube pelo romance A República dos sonhos (1985); Prêmio José Geraldo Vieira, da União Brasileira de Escritores de São Paulo, pelo romance A doce canção de Caetana (1987); Prêmio Golfinho de Ouro, pelo Conjunto de Obras, conferido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro (1990); Prêmio Bienal Nestlé, pelo Conjunto de Obras (1991); Prêmio Internacional de Literatura Juan Rulfo, o mais importante da América Latina e do Caribe, concedido pela primeira vez a uma mulher e a um autor de língua portuguesa (1995); Prêmio Menéndez Pelayo, concedido pela universidade espanhola de mesmo nome, em 2003.

A escritora foi agraciada com o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras de 2005, concedido pela fundação de mesmo nome, da Espanha.

Obras:

Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, romance (1961)

Madeira feita de cruz, romance (1963)

Tempo das frutas, contos (1966)

Fundador, romance (1969)

A casa da paixão, romance (1977)

Sala de armas, contos (1973)

Tebas do meu coração, romance (1974)

A força do destino, romance (1977)

O calor das coisas, contos (1980)

A república dos sonhos, romance (1984)

A doce canção de Caetana, romance (1987)

O pão de cada dia: fragmentos, contos (1994)

A roda do vento, romance infanto-juvenil (1996)

Até amanhã, outra vez, romance (1999)

Cortejo do Divino e outros contos escolhidos, contos (2001)

O presumível coração da América, discursos (2002)

Vozes do deserto, romance (2004)

Coração andarilho (2009)

O ritual da arte, ensaio sobre a criação literária (inédito).


O texto acima foi publicado no livro "O Calor das Coisas", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, e extraído de "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 451, seleção de Italo Moriconi.