quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Livro e leitura

Novidades no livro e na leitura

Por Deonísio da Silva em 29/9/2009

Galeno Amorim, diretor do Observatório do Livro e da Leitura, começa assim seu artigo em O Globo (28/9/2009, pág. 7:

"Já se sabe que a década atual não entrará para a história como aquela em que os problemas da baixa leitura foram sanados ou que o Brasil se aproximou dos índices dos países desenvolvidos".

O tom pessimista da abertura, porém, cede a algumas constatações animadoras. O índice de livros lidos, por ano, por leitor, passou de 1,8 para 4,7 – segundo a pesquisa "Retrato da Leitura no Brasil". Os programas sociais do livro alcançaram 30 milhões de alunos pobres.

Estou escrevendo este artigo na segunda-feira (28/9). No domingo (27), fui a uma grande livraria de São Paulo. Estava lotada, um verdadeiro formigueiro. Mas que livros estão sendo vendidos? A mídia, há muitos anos, nos diz que os livros mais vendidos são tais e quais. Todos sabem que essas listas, à semelhança dos dados animadores que volta e meia vêm à tona, demandam aferições adicionais. Se estão lendo mais, por que estão escrevendo tão mal?

É verdade que o efeito não é imediato, mas quem lê, escreve melhor, pois domina um código que para a fala chega a ser estranho, tendo em vista os contextos. O exemplo emblemático e caricatural era o do ex-presidente Jânio Quadros, que falava como escrevia e escrevia como falava. Todos os outros usuários da língua utilizam com discernimento os dois códigos, já que a língua semelha uma roupa. Os leitores não vão à praia em traje de gala ou passeio completo e não recebem o diploma de curso superior vestindo sunga ou biquíni.

Bom exemplo

O outro exemplo é o do presidente Lula e sua proclamada ojeriza a livros, revistas e jornais. Ele não fala como escreve porque não escreve, e não escreve como fala porque simplesmente não escreve. Ou, se escreve, guarda tão bem que jamais é lido. A excessiva indulgência de setores da mídia com o descaso que o maioral desses oito anos dedica à leitura e à escrita é prejudicial ao próprio presidente, pois cria uma má vontade, igualmente notória, de grande parte da mídia, para com os reconhecidos sucessos da era Lula no campo da cultura, do ensino, do livro, da leitura.

Depois de vacilações iniciais, o seu governo vem implementado medidas muito pertinentes em todos esses setores. Lula não lê, mas os brasileiros estão lendo mais em seu governo. Lula não vai às livrarias, mas em seu governo o índice de leitura per capita aumentar, cousa é que deve admirar e consternar o presidente. Por sorte, o povo não segue seus péssimos exemplos na questão do livro e da leitura.

Saí das livrarias em São Paulo, onde vou algumas vezes apenas, e voltei às do Rio, onde o movimento é igualmente intenso, o que de certa forma explica o relativo insucesso da Bienal do Livro, que está perdendo dois de seus grandes atrativos, sem que sejam tomadas providências para correção.

Um: livros antes encontráveis apenas na Bienal, podem ser adquiridos na internet com um cartão de crédito ou simplesmente baixados em arquivo, se já estiverem em domínio público. Ou simplesmente lidos na tela do computador, como os jornais e as revistas.

Dois: a Bienal e outros eventos literários precisam acordar. Os debates são frutos de discordâncias, sempre saudáveis, férteis, deslocadas de conhecidos axiomas tidos por irrevogáveis. E culpar o público é fácil, quero ver é resolver os problemas do público, como vem fazendo a internet sem queixa nenhuma. Está difícil ler na telinha? Melhora-se a definição. Está lenta? Dá-se banda larga por telefone, por rádio, sem fio nenhum e em breve também pelos fios da rede elétrica.

Salvo poucas exceções, as livrarias simplesmente não inventam nada. Mas aquelas que inventaram, estão se dando bem. Em várias livrarias, o leitor toma um café, faz um lanche ou almoça ou janta, conversa com amigos, realiza o convívio social, que costuma trazer surpresas agradáveis. Afinal, quem é amigo de livros tem perfil diferenciado. Bons profissionais de todos os ramos, incluindo atores e atrizes, são vistos comprando livros. Frequentar as livrarias já é um bom exemplo, pois a maioria visita apenas as outras lojas, aquelas que não têm livros. Mas e se os hotéis e restaurantes tivessem livros, não seria bom?

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=557AZL001

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Mascote do Pasquim

O pingente que deu certo
Sérgio Augusto

Foi o maior fenômeno editorial da imprensa brasileira. E não adianta discutir. O Cruzeiro? Tinha atrás de si uma poderosa empresa jornalística, os Diários Associados de Assis Chateaubriand. Veja? Ora, veja. Com a editora Abril bancando a aventura, modéstia à parte, até eu. Atrás de O Pasquim, só havia um punhado de porras-loucas.

Assumidamente nanico, moleque, paroquial e abusado, nasceu sob a suspeita de que duraria pouco tempo; menos até que os oito números da Pif-Paf, criada em 1964 por Millôr Fernandes e inviabilizada pela censura dos milicos que naquele ano haviam assumido o poder. Mas durou, afinal, 1072 números ― o equivalente a 22 anos de vida.

As suspeitas iniciais tinham sua razão de ser. Onde já se viu um jornal sem patrão, onde todos os colaboradores podiam escrever o que bem entendessem e como bem entendessem? Pois a velha utopia de dez em cada dez jornalistas revelou-se, mais do que factível, um sucesso ― fulminante e retumbante. A tal ponto que o cético Millôr, que no primeiro número previra menos de três meses de vida para o solerte hebdomadário, admitiu, já no quarto número, que se equivocara.

Claro que se tivesse surgido na Mooca, nem com a Abril de arrimo, o Pasquim (que, de uma hora pra outra, abriu mão do artigo definido) não teria dado certo. Não bastasse ser carioca, o Pasquim era uma cria ipanemense. "É Ipanema engarrafada", proclamou um diplomata brasileiro (não foi o Vinicius, não) ― isso numa época em que Ipanema, já internacionalmente famosa por obra de Tom & Vinicius, orgulhava-se de ser o bairro mais moderno, cosmopolita, liberado e charmoso do Brasil, o nosso Greenwich Village, a nossa Rive Gauche, um Xangri-lá à beira-mar, plantado para onde os olhares do resto do país, morrendo de inveja, convergiam.

(Curiosamente, só na metade de sua trajetória o Pasquim se instalaria em seu "bairro natal", num solar normando fake, bem no cocuruto da ladeira Saint Roman. Sua primeira redação foi na rua do Resende, no centro da cidade, numa sala da Distribuidora Imprensa, 50% dona do negócio; a segunda no Flamengo, na rua Clarisse Índio do Brasil, 32; a terceira no Jardim Botânico. Até em Copacabana a redação operou por um curto e ingrato período.)

Foi, sem dúvida, um risco; quase uma bravata. Entre setembro de 1968, quando a ideia do jornal não era mais que um brilho nos olhos de Jaguar e Tarso de Castro, e 26 de junho de 1969, quando o primeiro número chegou às bancas, os generais haviam "legalizado" a ditadura com o AI-5 e a censura apertara as cravelhas nas redações menos dóceis ao novo regime. O Pasquim não pagou barato pela audácia de nascer já do contra (sobretudo contra as babaquices da classe média) e "livre como um táxi", "equilibrado como um pingente", incômodo como "um folião num velório". E ainda que nos primeiros tempos fosse mais folgazão, gozador, festivo (a expressão "esquerda festiva" foi inventada por um de seus colaboradores, Carlos Leonam) e atento a questões de comportamento, aos poucos deixou-se contaminar pelo inevitável: a indignação política. Sem, contudo, abrir mão do velho preceito de Horácio (reciclado por Jean de Santeuil): o riso é a melhor arma contra todas as imposturas.

Em seus primeiros números, tratou muito de futebol, amenidades, música (naquela base que o Sérgio Cabral apreciava: samba & chorinho), cinema, teatro, do sucesso de Glauber Rocha no Festival da Cannes, do direito de as mulheres tomarem cafezinho no balcão sem ser molestadas (uma das bandeiras de Martha Alencar, a primeira diva da redação). O mercurial Tarso de Castro, dínamo do veículo, debochava de tudo, gozava amigos e desafetos, fazia o humor mais petulante e agressivo do grupo ― e também, que pena, o mais perecível. Luís Carlos Maciel encontrou de cara o seu nicho: a contracultura. Salvo engano, foi ele quem inventou (ou pelo menos popularizou) expressões condenadas à imortalidade como "barato", "curtir", "sarro" (no sentido de gozação), que ao lado de outras gírias, ressuscitadas ("balaco", "balacobaco"), liberadas ("bicha") ou eufemísticas ("duca", "paca", "mifu", "sifu", "nusfu"), fizeram o jornal cair na boca do povo e nos verbetes do Aurélio.

Ao núcleo fundador agregaram-se, paulatinamente, três cabeças privilegiadas: Henfil (que entrou no número 2), Paulo Francis (que debutou no número 6, com um texto sobre o Marquês de Sade) e Ivan Lessa (que vivia em Londres e só estreou no número 27). Entre os astros convidados, a fina flor da intelectualidade e da boemia carioca:

Vinicius de Moraes, Otto Maria Carpeaux, Ferreira Gullar, Glauber, Chico Buarque (autoexilado em Roma), Caetano Veloso (idem em Londres), Chico Anísio, Jô Soares, Marcos Vasconcellos, Flávio Rangel, Fernando Sabino, Antonio Callado, Sérgio Noronha, Daniel Más (o enfant terrible do colunismo social), Telmo Martino, Luís Fernando Verissimo, Carlos Heitor Cony, Rubem Fonseca, Ruy Castro, Fausto Wolff, Reynaldo Jardim, Newton Carlos, Luís Garcia (fugaz correspondente em Nova York), Angelo de Aquino, Alfredo Grieco. Sem contar os bambas de fora mesmo, do hemisfério norte, como Jules Feiffer, James Thurber, André François, Wolinski, Copi, Tomi Ungerer, o português Santos Fernando etc.

Quando o jornal estourou ("De tanto ver triunfar as nulidades, o Pasquim acabou dando certo", proclamava um de seus dísticos semanais), quem mais se surpreendeu com aquele imprevisto foram os seus próprios redatores e cartunistas. Mas já que os deuses, para frustração dos milicos, pareciam estar do lado da gente, o jeito foi relaxar e aproveitar o sucesso até a última gota de uísque e o último rabo-de-saia.

Tamanho era o prestígio do jornaleco, que se desse na telha de seus editores imprimir uma edição toda em latim ou grego, a vendagem seria a mesma e não faltaria quem achasse a ideia "duca" (ou seja, do cacete). Isso nunca aconteceu, mas é fato comprovado que um dia, com a página do Tarso em branco e seu deadline vencido, Jaguar fez valer sua autoridade e sua porra-louquice, enchendo todo o espaço com a palavra "blablablá", mantendo a assinatura do Tarso, que afinal levou a fama pela original ideia. Os leitores acharam o máximo, inventivo, o escambau ― especialmente aqueles que entenderam a brincadeira como uma dissimulada cutucada na Censura, não pelo que de fato era: um inconsequente sarro dadaísta.

O leitor padrão do jornal (70% do total) tinha entre 18 e 30 anos, o filé mignon do mercado. Em circunstâncias normais, vendendo (já no número 16) 80 mil exemplares e aumentando a tiragem, em dez semanas, para 200 mil, em sete meses teria se transformado numa mina de ouro. Mas, apesar de todos esses números, os anunciantes fugiam do jornal, a maioria por medo de uma prensa do governo, que muitos deles, aliás, levaram. A ditadura e seus apóstolos não achavam a menor graça no Pasquim e tentaram, por todos os meios, destruí-lo. Para eles, "aquilo" era um antro de comunistas, bêbados, pervertidos e drogados, empenhados em difundir ideologias exóticas e subversivas, desencaminhar a juventude e destruir a família brasileira. Um "panfleto fescenino", na ranzinza avaliação do dr. Gustavo Corção, colunista de O Globo e um dos judas favoritos da turma, ao lado de David Nasser, Roberto Campos e Nelson Rodrigues.

No fundo, o Pasquim não passava de um hebdô anarquista, misto de Harakiri e Village Voice. E, acima de tudo, anárquico ― em todas as suas instâncias, inclusive na vigilância aos que administravam a empresa, uma sucessão inesgotável de larápios e aldrabões. Enquanto estes agiam (demais ou de menos), a redação e agregados curtiam e regiam a boemia ipanemense, de preferência no Flag e no Antonio's, que, aliás, ficavam, respectivamente, em Copacabana e no Leblon.

Muitas outras gerações de jornalistas boêmios animaram o Rio, mas nenhuma delas pôde dar-se ao luxo de estender suas farras ao trabalho na redação como a turma do Pasquim. Suas reuniões de pauta, quando havia, eram uma festa ― ou, melhor, uma esbórnia. Ainda mais zoneadas eram as entrevistas, sempre coletivas e regadas a Buchanan's, e cujo inusitado clima de descontração outros tentaram em vão imitar. Várias fizeram história, como as de Leila Diniz, Madame Satã e a líder feminista Betty Friedan, que, diga-se, quase saiu no pau com o Millôr.

Cabia tudo no Pasquim. Até artigos sérios. Os de Paulo Francis só eram sérios nos temas, na aparência, e às vezes nem isso. Francis foi um dos fenômenos mais intrigantes do jornal: um intelectual cujo rompimento com a sisudez e a linguagem engomada do jornalismo político e cultural abriu-lhe as portas para a popularidade. Algumas expressões de sua autoria, como "raciocinando em bloco" e "inserido no contexto", sempre destacadas e gozadas pelo Jaguar, acabaram virando bordões do Chacrinha.

Outro fenômeno foi Ivan Lessa, cuja frenética inventividade invadia quase todas as páginas do jornal, a começar pela seção de cartas dos leitores, que a partir de uma época passou a responder, oculto pelo pseudônimo de Edélsio Tavares, um consumado cafajeste que tratava os leitores aos pontapés. Os iniciados e os masoquistas adoravam. Não menos agressiva e desbocada era dona Edelmar Barbosa (outra invenção de Ivan), que de gravador em punho fazia entrevistas imaginárias com personalidades internacionais.

Na contracapa Ivan também era absoluto, ora com suas fotonovelas debochadas e surrealistas, volta e meia estreladas por gente famosa (até Fernanda Montenegro protagonizou uma), ora com a coluna "Gip-Gip, Nheco-Nheco" (nome extraído de uma estrofe de "Trepa no Coqueiro"), um mosaico de desaforismos de fazer Groucho Marx e o Barão de Itararé babarem de inveja: "No Brasil morre-se muito de médico"; "Num país onde o futuro a Deus pertence, os agnósticos perguntam: 'E o passado? Quem vai se responsabilizar por ele?"; "Todo homem tem o sagrado direito de ser imbecil por conta própria"; "O brasileiro é um povo com os pés no chão ― e as mãos também"; "Todos os editoriais da imprensa brasileira têm dois dedos de testa e são escritos numa escola militar do Panamá". Um deles ("A cada 15 anos os brasileiros esquecem o que aconteceu nos últimos 15 anos") até virou epígrafe de um filme.

(Que ninguém estranhe a ausência de Edélsio, dona Edelmar e do Gip-Gip neste volume, pois ele cobre somente os primeiros 150 números do Pasquim e essas invenções geniais do Ivan só surgiram depois.)

Millôr gosta de dizer que nenhum humorista atira para matar. Os milicos da ditadura, incrédulos e paranoicos, não foram nessa e vigiaram com crescente rigor as gracinhas do jornal. Seu 39º número chegou às bancas, em março de 1970, com o seguinte aviso: "Este número foi submetido à censura e liberado." Com vários cortes. Mas disso o leitor não podia ser informado. Na capa, Sig fantasiado de Estátua da Liberdade, suando de medo e empunhando, à guisa de tocha, um Pasquim em chamas. Dias antes, uma bomba fora colocada na sede do jornal, na Clarisse Índio do Brasil, que só não explodiu por incompetência dos terroristas, gente da própria polícia.

Como se vê, a censura prévia não liberava o jornal de outros tipos de agressão. Algumas edições, não obstante "aprovadas" e "liberadas", foram inopinadamente recolhidas nas bancas por ordem de alguma "autoridade" que não se dera por satisfeita com os cortes executados por D. Marina, nosso primeiro Catão de saias. Primeiro e último. Depois dela, só deu gorila, com e sem pijama.

D. Marina trabalhava dentro da redação, modus operandi promíscuo e contraproducente para qualquer censor razoavelmente civilizado. Cordial, D. Marina acabou ficando amiga da patota do jornal e, como era chegada a uma birita, entre um gole e outro, aprovava muita coisa que não devia. Caiu em desgraça ao deixar passar um cartum, bolado por Ziraldo e feito em cima do famoso quadro de Pedro Américo sobre o Grito do Ipiranga, com D. Pedro I gritando "Eu quero é mocotó!", em vez de "Independência ou Morte!". No lugar dela entrou o general da reserva Juarez Paes Pinto, até então mais famoso por ser o pai de Helô Pinheiro (née Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto), a "Garota de Ipanema". Depois que o general foi derrubado por aprovar uma entrevista com uma antropóloga americana, que afirmava haver racismo no Brasil, sim senhor, o jornal passou a ser censurado em Brasília, no próprio covil da repressão, o Centro de Informações do Exército, por canetas Pilot anônimas, implacáveis e vingativas. E assim foi até 1975, quando a censura acabou.

Minha relação com o Pasquim começou na tribuna de imprensa do Maracanã, por volta de agosto de 1969. O jornal tinha poucas semanas de vida e de sua equipe original eu só não conhecia o Claudius, o Tarso e o Prósperi. Embora fosse amigo de Jaguar, Millôr, Ziraldo, Fortuna e conhecesse, ainda que mal, o Francis, quem me convidou "para escrever qualquer coisa" foi Sérgio Cabral, no intervalo de um Botafogo x Vasco. A primeira coisa acabou sendo um artigo, pretensamente engraçado, sobre a atriz Sharon Tate, que dois anos antes de ser assassinada por Charles Manson tivera o prazer de passar dez dias tomando banho de piscina comigo num cruzeiro entre Acapulco e Los Angeles.

(Não, não, desculpe, foi o contrário: eu é que tivera o prazer de passar dez dias tomando banho de piscina com ela, a bordo de um daqueles navios celebrizados pela telessérie Love Boat. Tenho fotos para provar.)

Acho que agradei ― ao Pasquim, bem entendido ― mas só voltei a ser convidado a colaborar quando a maior parte da redação foi curtir férias compulsórias no xadrez da Vila Militar e o jornal passou a ser feito por um mutirão de jornalistas, com Millôr, Henfil, Martha e Miguel Paiva na retaguarda.

No dia 1º de novembro de 1970, com o número 72 já na gráfica, Cabral e Fortuna estavam em Campos, no interior do Estado do Rio, quando foram avisados de que Ziraldo, Francis, Maciel, o fotógrafo Paulo Garcez (em plena lua-de-mel!) e Haroldo Zager Tinoco (na época, boy do jornal) haviam sido presos. Fortuna foi agregado ao grupo ao chegar de volta ao Rio, no dia 3. Na companhia de Jaguar, Cabral foi à polícia para depor e tentar libertar os companheiros. De lá saíram para juntar-se aos amigos nas celas da Vila Militar, para onde Tarso também foi levado. As duas semanas de prisão, inicialmente previstas, acabaram esticadas para dois meses. Por que motivo foram presos? Nunca souberam.

Do número 74 ao 80, o Pasquim se transfigurou. Para todos os efeitos, baixara um surto de gripe na redação, atingindo nove integrantes da patota. A metafórica gripe foi a maneira cifrada que Martha, Millôr e Henfil encontraram para informar aos leitores o que acontecera. Com a patota em liberdade e de volta à redação, ganhei um novo padrinho, Francis, e uma atribuição: produzir textos sobre cinema que fugissem ao ramerrão da grande imprensa. Por osmose, acabei caindo na galhofa. E quando me dei conta, já me tornara um arremedo de humorista, afeiçoado a paródias.

Entrei efetivamente para o jornal com o Tarso na porta de saída, em pé de guerra com Millôr e outros membros da equipe. Pouco depois, Paulo Francis mandou-se para Nova York. Pressionado pela Censura, cada vez mais perseguido por terroristas de direita (daí o slogan "Um jornal mais verde de susto que de esperança"), boicotado pelas agências de publicidade e imerso em dívidas, o Pasquim viu-se num beco sem saída e obrigado a experimentar novas formas de sobrevivência. Em janeiro de 1972, pressionado por Ziraldo e Jaguar, assumi a editoria geral. Por sorte, Ivan Lessa, em Londres havia quatro anos, estava voltando para o Brasil. Com Ivan na redação e Millôr empossado, meses depois, na direção do jornal, uma nova fase teve início.

Foi nesse período que surgiram algumas das seções e brincadeiras pelas quais até hoje o Pasquim costuma ser lembrado. Àquela altura, além de editar as dicas, ajudava Ivan a zorrar o jornal, cobrindo-o de minúsculos e zombeteiros grafites, perpetrados com a pena e o nanquim do Jaguar, e a produzir uma coluna de notas ("Os do Pasquim...") sobre filmes, livros, programas de TV e eventos culturais, sem assinatura e inspirada na seção "Talk of the Town" da revista The New Yorker, quando anonimamente redigida pelo inigualável E.B. White.

Na página mais nobre, a 3, Millôr inaugurou uma coluna fixa de notas sobre os mais variados assuntos, cujo título, "Isto É Isto", era uma homenagem a Shakespeare (ou, então, ao Lorenz Hart de The Lady is a Tramp). Sempre encimada por um pensamento alheio (ou pensamentão, como dizia Millôr), só baixou de qualidade nas três semanas em que foi escrita por mim. É nisso que dá permitir que o Millôr tire férias. Não satisfeito em deixar seus leitores na orfandade, ao voltar das férias, o mestre de todos nós sugeriu que eu assumisse de vez aquele espaço. E foi assim que, em abril de 1975, "Isto É Isto" transformou-se em "É Isso Aí", implicante página de tópicos basicamente sobre política e crítica ao comportamento da grande imprensa, que me deu muito trabalho, prazer, leitores e dissabores.

De todo modo, não obstante, apesar dos pesares, foi muito bom enquanto durou. Para mim durou até setembro de 1979. Se pudesse, começaria tudo outra vez. Mesmo sem saber se uma farsa, quando se repete, vira história.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente no primeiro volume da antoogia do Pasquim.


Sérgio Augusto
Rio de Janeiro, 31/8/2009

Zuenir

Não sou o único
Zuenir Ventura
 


 

Ilustra por Souza

Sempre acreditei que era o único a carregar esse meu improvável nome, o que aliás nunca foi motivo de orgulho. Muito ao contrário. Ele só me tem dado trabalho, e causado confusão nos outros. Não me lembro de alguém que o tivesse pronunciado certo pela primeira vez. Acho que já fui chamado por quase todas as combinações que essas seis letras permitem ― Zeunir, Zuneir, Zenir, Zineuir ― e outras tantas: Zoenir, Suenir, Suelir, Seunuir. Isso sem falar na troca de gênero. Já tenho até resposta pronta para o que acontece frequentemente quando toca o telefone na minha casa:

― Eu queria falar com dona Zuenir.

― É ela mesma que está falando ― respondo, emudecendo o outro lado.

Vocês podem imaginar minha surpresa com o que acaba de me suceder. Tudo começou quando recebi uma mensagem da leitora Kátia Krause cujo assunto era "invasão de privacidade". Ela dizia: "Você não me conhece, a não ser por e-mail, mas olha só o que qualquer um pode achar sobre você acessando o site www.helplistas.com.br". Em seguida, meu nome completo, rua, bairro, telefone e até um mapa para se chegar ao meu destino. Indignada, Kátia completava: "Ou seja, nossa queridíssima Telemar divulga todos os nossos dados pessoais pra serem expostos na internet, nessa 'Suíça' onde moramos".

Entrei então no tal site e constatei que de fato qualquer um poderia chegar à minha casa sem perguntar a ninguém. Mas isso não foi nada. O espanto veio quando descobri que havia ali um outro Zuenir. Não era possível! Ia ter que desmentir todas as entrevistas e palestras em que sempre respondi: "não, sou o único". Nas duas vezes em que se tentou criar um homônimo, consegui evitar. Eram pessoas que, por gostarem de mim, queriam me homenagear. Propus então que chamassem o filho de Carlos, que é meu segundo nome e decente.

Levei uns dois dias para discar o número que eu tinha copiado da tal telelista. Eu hesitava entre uma irresistível curiosidade e um inexplicável temor. Liguei um dia e ninguém atendeu, nem secretária eletrônica. Deixei passar mais um dia e finalmente telefonei. Atendeu uma senhora. Perguntei:

― É da casa de Zuenir da Silva Amaral?

― É, sim, senhor. Quem deseja falar?

― Zuenir Ventura.

Depois de um silêncio, um muxoxo: "é trote!".

― Não é trote não, por favor, não desligue. Sou... ― ia completar "uma pessoa séria, faço isso e aquilo", mas ela me interrompeu:

― Conheço Zuenir Ventura da televisão. Quero saber como é que o senhor conseguiu esse telefone?

Contei a história do site, li um trecho do e-mail da Kátia, não sabia mais o que dizer (depois, ela me pediu mil desculpas pela "grosseria", explicando que pensou que fosse um desses golpes por telefone muito comuns no Rio). Aos poucos ela foi se descontraindo, ganhando confiança, mas acho que ainda duvidando um pouco da coincidência. E nada de ir chamar o meu xará.

― Agora que a senhora sabe que sou um homem de bem, poderia chamar o sr. Zuenir?

Foi quando ela disse:

― Zuenir sou eu.

Uma sensação tão estranha. O que senti foi uma mistura de incredulidade, decepção, algo parecido com o que deve sentir alguém que descobrisse ter um irmão desconhecido e que, ainda por cima, esse irmão não era irmão, era irmã. Já então à vontade, dona Zuenir contou que tinha 65 anos, nascera em Campos e que o nome fora uma invenção do pai. "Ele sempre me disse que surgiu de repente, da cabeça dele". Quer dizer: nem o consolo de uma homenagem.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no extinto site NoMínimo.
Publicado no livro MINHA HISTÓRIA DOS OUTROS, Zuenir Ventura - Editora Planeta

Morre Vinícius

Morreu Vinicius de Moraes
Affonso Romano de Sant'Anna

Morreu Vinicius de Moraes. Às 10 horas da manhã me telefonam da Manchete pedindo um artigo de cinco laudas sobre o poeta/cantor. Penso, sem saber que ele morrera, que era mais uma dessas reportagens sobre Vinicius. Como me havia sentado pra escrever o livro sobre "carnavalização", argumentei que não era possível, por absoluta falta de tempo. A seguir me telefona Zuenir Ventura da Veja e me comunica a morte e pede um depoimento. Pasmo com a morte, comento-a com Marina. A seguir telefonam do Jornal do Brasil pedindo um artigo de três páginas para daí a quatro horas. Depois telefona de novo a Manchete insistindo. Eu me explico, que não aceitara porque não sabia da morte do poeta. Mas combinamos o artigo. Telefona a IstoÉ e eu me escuso. Vem O Globo e mais o Jornal Nacional para uma entrevista curta. Comento, autocriticamente, com Marina: "Pronto! O ser humano não tem jeito. Cá estou eu já usufruindo a morte do poeta. Ai, meu Deus!, não temos jeito".

Cancelo duas entrevistas, com o brasilianista Malcon Silverman e com o poeta cearense Adriano Spínola ― o qual levo ao enterro. Lá encontro Otto, Fernando, Hélio, Autran, Nelson Motta, Jomico Azulay, Jaguar, Sérgio Cabral, Sábato Magaldi, Edla van Steen e dezenas de outros. Drummond lá está com Dolores, ele abatido com a barba por fazer por causa da herpes que pegou há dias.

O enterro não é triste. Este poeta viveu a sua vida melhor que muita gente. Dizem que Drummond sempre diz que queria ser Vinicius (por causa da desrepressão existencial). Lá estão também Callado, Gullar, Moacyr Felix, Ênio e outros. Olho todos em volta, todos nós ensaiando a própria morte, imaginando seu enterro e as caras dos outros.

Não há tristeza exatamente. Hélio Pellegrino faz uma frase: "Com a morte de Vinicius abre-se uma vaga na Academia, mesmo que dela não faça parte". Converso com Hélio sobre a interpretação psicanalítica do poeta, lembrando o ensaio que tenho sobre ele e que sairá no livro O desejo e a interdição do desejo ― já atrasado 4 anos[1].

No sepultamento, algumas mulheres choram alto e falam frases nervosas, lamentando a morte do poeta. Uma implora que cantemos todos as músicas dele. Implora. Implora. Começamos timidamente a cantar.

No Jornal Nacional fazem uma bela reportagem, mas não dão minha entrevista. No entanto, usam minha frase: "V. M. era o último grande poeta romântico". Usam-na e não dão crédito. Ah, essa imprensa. Fico puto.

Vinicius era necessário. Vindo para casa com Jomico Azulay, comentamos como a geração de Vinicius, Fernando, Otto, Hélio, Millôr, Sérgio Porto foi importante para nossa geração. Lamento, no entanto, que não tivessem a visão e a consciência dos latino-americanos como Llosa, Fuentes, Cortázar etc. Mas de qualquer forma ajudaram a mundanizar a literatura e a popularizá-la.

Estive a primeira vez ao lado de Vinicius em Belo Horizonte, num bar de hotel. Ele, impaciente, precisava de uma presença feminina, acabou desencravando de mim o telefone de uma cantora ― Rosana Tapajós. Isto foi em 1961. Depois autografamos juntos na UNE, em 1963, numa imensa festa, o Violão de rua nº 1. Nós e mais dezenas de poetas. Eu, o mais jovem deles. Nos vimos acidentalmente várias vezes. A última foi em sua casa numa entrevista que seria publicada (e não foi) em livro. Estavam lá, Marina e eu, Sérgio Cabral, Teresa Cesário Alvim, que comandava a gravação, Max da Costa, editor da Graal, que morreu daí a meses, Jaime Lerner, antes de ser reconduzido à prefeitura de Curitiba, Moacyr Werneck e a mulher argentina do poeta, jovem e linda.

O poeta contou casos de sua vida e de como invejava Jorge Ben que, certa noite, ouviu baterem na sua porta após um show: era Brigitte Bardot que havia vindo para dar para ele. Contava também que Sérgio Buarque de Holanda, então estudante na Alemanha, num restaurante viu as calcinhas de Marlene Dietrich, que sentada em frente cruzara as pernas. Parecia um garoto adolescente falando do mistério e segredo "inalcançável" das mulheres.

É isto. Parece que foi um adolescente até morrer com 67 anos.

[1] O livro sairia em 1984 com o título O canibalismo amoroso (Ed. Brasiliense), depois reeditado pela Rocco.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Escrito em 9 de julho de 1980, faz parte da série "Quase-Diário", que vem sendo publicada na coluna que Affonso Romano de Sant'Anna mantém no jornal Rascunho. O texto acima foi publicado na edição de julho de 2009.


Affonso Romano de Sant'Anna
Rio de Janeiro, 3/8/2009

sábado, 19 de setembro de 2009

Teatro 1968

Teatro: cena de 1968

 

Flávio Deckes

 

(Extraído do livro Radiografia do Terrorismo no Brasil: 1966/1980. São Paulo, Ícone Editora, 1985, p. 63-67.)

 

A cultura foi o alvo preferido das organizações [de direita] CCC, MAC, GAC e FUR no final de 1968. São Paulo, em julho, era palco de acontecimentos que apresentariam um balanço violento ao final do ano. Nesse mês, a 18, o teatro Galpão era invadido e depredado pelo CCC [Comando de Caça aos Comunistas], cujos militantes espancaram atores e o público que assistia Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda. A atriz Marília Pera reconheceu duas pessoas entre os agressores: Claudinei Brás e Edgar, seu primo, mas ambos desapareciam como por encanto depois. No mesmo mês, se dava o atentado ao teatro Maison de France, no Rio, onde se representava O Burguês Fidalgo, de Molière, um equívoco provocado pelo clássico francês nas cabeças de terroristas ignorantes. Dia 22, os jornalistas recebiam a próxima agressão, com a explosão, pelo CCC, de bomba na ABI – Associação Brasileira de Imprensa – ainda na capital carioca. Em agosto, mais dois teatros sofrem ataques de bomba: a 2 o teatro Opinião, e três dias depois o teatro Glaucio Gil, com Os Inconfidentes em cartaz. Em setembro, os terroristas deixavam uma advertência no teatro João Caetano (RJ), após jogarem bomba que não explodiu (tinha um número e pertencia ao Ministério da Aeronáutica). Em cartaz, Feira Paulista de Opinião.

 

Roda Viva percorreria uma temporada cheia de incidentes. Em Porto Alegre, à véspera da estréia do espetáculo, a 5 de outubro, panfletos distribuídos pela cidade, diziam: "Hoje a integridade física e moral dos atores está garantida, mas amanhã. . . " No dia seguinte, os atores foram cercados e brutalmente espancados por cerca de 200 "desconhecidos". Elizabeth Gasper e seu marido Zelão foram seqüestrados por algumas horas. Contaram depois suas experiências.

 

– Não podíamos resistir – contou Zelão. – Por isso subimos num dos carros. Começaram a rodar com os faróis apagados e primeiro foram a um lugar longe que não reconhecemos. Em determinado momento, eles começaram a fazer guerra de nervos: paravam, desciam, entravam e saiam de novo. Um deles tirou um soco inglês do porta-luvas e recolocou-o no lugar. Fomos por uma estrada de terra com uma porção de desvios, até um lugar completamente desabitado. Então, um deles disse: Aqui está muito perto, alguém pode ouvir. Fomos mais adiante, onde nos convidaram a descer: Agora, vamos fazer a peça Roda Viva aqui, disse um deles. Elizabeth, então falou que só ela era a atriz, e que eu era seu marido. Puseram-nos num curral cercado de arame farpado e mandaram-na cantar a música da peça. Elizabeth não teve outro jeito e acabou cantando "Luar", e eles aplaudiram. O que me parecia o chefe veio me dando lições de moral e perguntando como eu deixava a minha mulher trabalhar nisso. Chamou-me de vários nomes e disse que nunca mais Roda Viva entraria em Porto Alegre. Em seguida, deu prazo até 16 horas para sairmos da cidade. Levamos duas horas para sair do mato e achar a estrada. Aí então, descobrimos que estávamos a 30 quilômetros de Porto Alegre.

 

Esses acontecimentos não foram menos dramáticos que aqueles vividos por Norma Benguel em São Paulo e no Rio de Janeiro. Norma participava da montagem de Cordélia Brasil, no Teatro de Arena de São Paulo. A atriz foi seqüestrada dia 8 de outubro em São Paulo e libertada no Rio de Janeiro por oficiais do Exército brasileiro. Dias antes, ela depôs na Polícia Federal acerca de declarações envolvendo as Forças Armadas. Livre, Norma só teve o consolo de narrar à imprensa a sua experiência amarga. Foi seqüestrada no hotel por três homens fortes e levada para o Rio em apenas quatro horas.

 

– Pensei que eram ladrões ou CCC. Reagi e eles me jogaram dentro do carro, enquanto Emílio Di Biasi ficou estirado no chão.

 

(Norma conta que já na estrada, um dos raptores pediu-lhe que não se preocupasse, pois eram da polícia, mostrando-lhe a carteira).

 

– Durante todo o tempo, disseram-me para desculpar a maneira, mas que eram ordens. Lá pela uma hora mais ou menos, eu chegava ao Rio: 1o Batalhão Policial. Fui encaminhada para uma sala com a sigla PIC na porta. Às 9 horas da manhã, chegou um comandante gritando que não gostava de mulher lá dentro, mas que era muito bonzinho com os seus sargentos. Às 9h30, chegou o coronel. Disse a ele que iria contar à imprensa tudo que me aconteceu e ele retrucou: "Nós estamos numa democracia, a senhora pode falar o que quiser". Era o coronel Helvécio Leite, do gabinete do Ministério do Exército, que me interrogou por cinco horas, dizendo que eu era acusada de colaborar com o Partido Comunista Brasileiro e levar panfletos para a passeata estudantil no dia em que fui raptada.

 

Conta Norma que o coronel fez muitas perguntas sobre peças em cartaz e a participação dos artistas na vida política do país. A atriz foi solta às 14h30 e conduzida à casa de uma amiga no Rio, sempre escoltada pelo coronel Helvécio Leite. À noite, era levada ao aeroporto do Galeão, onde o coronel comprou uma passagem e a colocou no avião que a traria de volta a São Paulo. Nesse instante, Norma Benguel já estava com o ator Walmor Chagas, que a encontrara por acaso no aeroporto. A ele, o coronel também disse: "Foi um lamentável engano político".

 

Um trabalhador da notícia

Os anos difíceis

 

Perseu Abramo

 

(Extraído do livro Um trabalhador da notícia: Textos de Perseu Abramo, organizado por Bia Abramo. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 1997, p. 112-13.)

 

No dia 31 de março de 1964 não aconteceu nada no campus da Universidade de Brasília. Professores e estudantes, bombardeados por notícias desencontradas e incoerentes, trataram de organizar o mínimo de sobrevivência: alguns víveres, um precário sistema de comunicação, a tentativa de entrar em contato com outros grupos, já a essa altura se liqüefazendo ao calor dos boatos radiofônicos. Nos dias seguintes, o campus foi varrido pelos rumores de que alguns professores seriam presos e pela notícia de que havia sido dissolvida a comissão diretora da Universidade. E eis que na manhã de 9 de abril, enquanto no Palácio do Planalto se editava o Ato Institucional nº 1, professores e estudantes que assistiam às Aulas Maiores na UnB (eram dadas das 7 às 9 horas) viram centenas de soldados armados aproximarem-se e cercarem o campus em toda a sua extensão. Era uma brigada da Polícia Militar de Minas Gerais realizando talvez uma das mais completas operações bélicas do movimento político-militar de 1964: não faltaram carros de assalto, caminhões de transportes de tropa, ônibus para condução de prisioneiros e ambulâncias; barracas, postos de comando e instalações de radiotelefonia; os soldados estavam armados com fuzis e metralhadoras, havia, também, metralhadoras pesadas assentadas sobre tripés que se fincavam no chão vermelho do planalto goiano; mapas e binóculos completavam a operação de cerco, invasão e conquista do campus da Universidade de Brasília. As tropas ocuparam os prédios da Reitoria, prenderam uma vintena de professores e estudantes, conduziram-nos ao Teatro Nacional, aí os entregaram ao Exército, que os levou depois para os quartéis; nas semanas seguintes, as tropas mineiras continuaram ocupando o campus em "estado de sítio". Fecharam a biblioteca, vasculharam dependências escolares e pessoais à procura de armas e material subversivo.

 

O que acontecera com a Universidade de Brasília era um símbolo premonitório que, estranhamente, muitos educadores e professores de outras universidades do país se recusaram a compreender no momento adequado e, quando mais tarde vieram a senti-lo, não mais como símbolo, mas como realidade na própria carne, já então era muito tarde.

 

Márcio Moreira Alves e o ano de 68

O pretexto

 

Márcio Moreira Alves

 

(Extraído do livro 68 mudou o mundo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993, p. 145-152.)

 

O pretexto usado para fechar o Congresso foram dois pronunciamentos que fiz, em 2 e 3 de setembro, na seqüência da brutal invasão da Universidade de Brasília por um comando misto da Polícia Militar, da polícia civil e do Exército.

 

O procurador-geral da República, Délio Miranda, pinçou trechos de ambos, na representação que fez ao Supremo Tribunal Federal, acusando-me de "abusar dos direitos individuais e políticos, praticando atentado contra a ordem democrática, vilipendiando as Forças Armadas, procurando contra elas criar sentimentos hostis da nação em que as mesmas se integram como instituições regulares e permanentes".

 

Do primeiro e longo discurso, pinçou o seguinte trecho: "Uma vez que no Brasil de hoje torturar presos inermes parece ser motivo de promoção na outrora honrada e gloriosa carreira militar, pergunto: quando pararão as tropas de metralhar na rua o povo? Quando uma bota, arrebentando uma porta de laboratório, deixará de ser a proposta de reforma universitária do governo? Quando teremos, como pais, ao ver os nossos filhos saírem para a escola, a certeza de que eles não voltarão em uma padiola, esbordoados ou metralhados? Quando poderemos ter confiança naqueles que devem executar e cumprir as leis? Quando não será a polícia um bando de facínoras? Quando não será o Exército um valhacouto de torturadores?"

 

Valhacouto quer dizer refúgio, abrigo, asilo, e o procurador sublinhou esse trecho.

 

O segundo discurso, o que afinal ficou famoso, foi pronunciado no "pinga-fogo", o horário das sessões reservado para pequenos pronunciamentos de, no máximo, cinco minutos. Ele teve o seguinte trecho pinçado: "Vem aí o 7 de setembro. As cúpulas militaristas procuram explorar o sentimento profundo de patriotismo do povo e pedirão aos colégios que desfilem junto com os algozes dos estudantes. Seria necessário que cada pai, cada mãe, se compenetrasse que a presença de seus filhos nesse desfile é um auxílio aos carrascos que os espancam e os metralham nas ruas. Portanto, que cada um boicotasse esse desfile. Esse boicote pode passar também – sempre falando de mulheres – às moças que dançam com os cadetes e namoram os jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje no Brasil com que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de suas casas àqueles que vilependiam a Nação, recusassem aqueles que silenciam e, portanto, se acumpliciam. Discordar em silêncio pouco adianta".

 

Eu não tinha os meios materiais de implementar essas recomendações de boicote, nem qualquer outro deputado os tinha. Portanto, eram recomendações vazias, puramente teóricas, que não ocorreria a ninguém de bom senso ou de boa-fé transformar em uma declaração de guerra de um poder da República contra o outro.

 

Um discurso inútil, poder-se-ia dizer, ou, para alguém irritado, poderia ser considerado um discurso bobo. No entanto, ele continha um elemento de fundamental valia para os que tramavam o golpe: o machismo. Recomendar que as moças não namorassem os tenentes era algo que até o pior aluno da Academia Militar entenderia como uma ameaça. Poderia, portanto, ser usado para desviar a raiva dos jovens oficiais, que estava voltada contra o governo, conforme se tornara público através da divulgação do manifesto dos capitães que cursavam a EsAO, em 1º de novembro. Esses capitães acusavam o governo de corrupto e de não se preocupar com o adestramento e o equipamento do Exército. Diziam-se cansados de ouvir falar de Corpo de Exército e de foguetes, quando lidavam no dia-a-dia com o mosquetão de 1908.

 

Um exército não se põe em marcha se os capitães não quiserem. São eles os oficiais mais numerosos e, comandantes de companhias, os que diretamente lidam com a tropa que vão entrar em ação. Foram, portanto, o alvo preferencial dos conspiradores. Como nenhum dos dois discursos havia sido registrado pela imprensa – o máximo de divulgação conseguido pelo segundo fora uma minúscula menção na Folha de S. Paulo – o general Emílio Garrastazu Médici, chefe do SNI, providenciou a sua distribuição na íntegra a todas as unidades do Exército.

 

Em 5 de setembro, portanto dois dias apenas após o discurso, o ministro do Exército, general Lyra Tavares, oficiava ao presidente da República citando os discursos e dizendo: "A coibição de tais violências e agressões verbais injustificáveis contra a Instituição Militar constitui medida de defesa do próprio regime, sobretudo quando parecem obedecer ao propósito de uma provocação que só poderia concorrer para comprometê-lo".

 

Afirmava que os pronunciamentos haviam tido grande ressonância no seio do Exército. Os ministros da Marinha e da Aeronáutica oficiariam em solidariedade ao do Exército somente duas semanas mais tarde, nos dias 19 e 20 de setembro, o que deixa claro ter a articulação do conflito partido de comandantes da força terrestre. Apesar disso, nem Lyra Tavares, nem o ministro da Aeronáutica, Márcio Mello, falavam em cassação de mandato. Limitavam-se a mencionar "providências legais". Somente o ministro da Marinha, Augusto Rademaker, o último a pronunciar-se, tratou desse assunto, ainda que por hipótese, escrevendo: "Parece ser o deputado Márcio Moreira AIves passível de enquadramento no artigo 151 da Constituição do Brasil." Quem escalou a ação para propor uma cassação de mandato avalizada pela Câmara, objetivo sabidamente difícil de ser alcançado, foi o ministro da Justiça [Gama e Silva].

 

[...]

 

Em novembro e dezembro de 68, quando a Câmara examinava o pedido dos ministros militares para que eu fosse processado por delito de opinião, Gama e Silva mudou-se para o Palácio do Congresso, instalou-se no gabinete da liderança da Arena, partido do governo, e praticamente assumiu o comando das manobras processuais. O líder do governo, deputado Ernani Sátiro, tinha infartado e fora substituído por um vice-líder, o mineiro Geraldo Freire, político de carreira e intelecto bastante modestos. A sua fraqueza permitiu que a condução do episódio passasse para as mão do ministro, cujo interesse era produzir o impasse entre o Executivo e o Legislativo e criar uma crise institucional a ser resolvida pela instauração da ditadura completa.

 

Na verdade, a estratégia dos adeptos da ditadura era uma espécie de jogo de perde-ganha. Se perdessem na Câmara, ganhariam nos quartéis, fazendo prevalecer a solução do arbítrio. Caso ganhassem na Câmara, perderiam momentaneamente a possibilidade de implantar a ditadura, mas quebrariam a resistência do Congresso a qualquer arbitrariedade. Após a cassação do meu mandato viriam outras. O pedido para processar o deputado Hermano Alves por artigos publicados no Correio da Manhã dera entrada no Superior Tribunal Federal em 29 de outubro, encaminhado pelo procurador da Justiça Militar, Nelson Sampaio. Chegou à mãos do presidente da Câmara, Zezinho Bonifácio, em 20 de novembro e teria encaminhamento semelhante ao do processo movido contra mim. Engatilhados estavam os pedidos de cassação de Hélio Navarro e David Lerer, deputados por São Paulo.

 

[...]

 

O presidente da Câmara dos Deputados, José Bonifácio de Andrada, mais apropriadamente conhecido como Zezinho, proclamou o resultado da votação que acabara de se encerrar às 15:00h do dia 12 de dezembro: 216 senhores deputados votaram contra a cassação do meu mandato; 141 senhores deputados votaram a favor; houve 12 votos em branco. A proposta foi recusada e seria arquivada.

 

Nas galerias apinhadas, alguém começou a entoar o hino nacional. Zezinho acionou as campainhas com energia, exigindo silêncio. Os versos do hino foram ganhando mais força. O som das campainhas foi coberto pelo canto, até que as campainhas deixaram de ser tocadas. Todos se puseram de pé e aderiram: "ó pátria amada, idolatrada, salve, salve!" As palavras eram entrecortadas por soluços, as lágrimas escorriam pelos rostos até de políticos calejados e cépticos, como se ainda surpresos pela temeridade do que acabavam de cometer, dizendo não aos três ministros militares, recusando-se a admitir as ameaças do presidente da República, mantendo incólume a mais antiga e mais importante proteção a um deputado no exercício do seu mandato: o direito de dizer o que bem entender da tribuna do Parlamento, sem que possa ser perseguido pelas opiniões que expressar.

 

Versões e ficções

O espírito da época no pós-1964

 

Marcelo Ridenti

 

(Extraído do texto "Que história é essa", publicado no livro Versões e ficções: o seqüestro da história. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 1997, p.11-25)

 

Um erro em que muitas vezes se incorre ao pensar as esquerdas nos anos 60 é tomá-las separadamente do contexto da época que as produziu e que tentaram transformar. De fato, fora daquelas circunstâncias específicas, parece um despropósito a opção de armar-se para iniciar a guerrilha, supostamente o primeiro passo para realizar a revolução brasileira.

Por isso, vale a pena recordar as circunstâncias históricas daquele tempo. Em termos internacionais, foram vitoriosas ou estavam em curso inúmeras revoluções de libertação nacional, por exemplo, a Revolução Cubana (1959), a independência da Argélia (1962) e a guerra antiimperialista em desenvolvimento no Vietnã. O êxito militar dessas revoluções é fundamental para se compreender as lutas e o ideário contestador nos anos 60: havia povos subdesenvolvidos que se rebelavam contra as grandes potências, para criar um sonhado mundo novo. Em especial, a Revolução Cubana era uma esperança para os revolucionários latino-americanos, inclusive no Brasil.

Ao mesmo tempo, questionava-se o modelo soviético de socialismo, considerado burocrático e acomodado à ordem internacional estabelecida pela Guerra Fria, incapaz de levar às transformações sociais, políticas e econômicas necessárias para se chegar ao comunismo. Esse modelo — que só ruiria de vez com a desagregação da União Soviética, em 1989 — era contestado na época, por exemplo, no interior do Partido Comunista da Checoslováquia, cuja chamada Primavera de Praga foi destruída pela invasão dos tanques de guerra soviéticos, em 1968. Também o processo de "revolução cultural proletária", em curso na China a partir de 1966 — que mais tarde viria a revelar seu lado trágico —, parecia a setores jovens do mundo todo uma resposta ao burocratismo de inspiração soviética.

Movimentos de protesto e mobilização política surgiram por toda parte, especialmente no ano de 1968: das manifestações nos Estados Unidos contra a guerra no Vietnã à Primavera de Praga; do maio libertário dos estudantes e trabalhadores franceses ao massacre de estudantes no México; da alternativa pacifista dos hippies, passando pelo desafio existencial da contracultura, até os grupos de luta armada, espalhados mundo afora. Os sentimentos e as práticas de rebeldia contra a ordem e de revolução por uma nova ordem fundiam-se criativamente.

Além dos fatores internacionais, foram principalmente aspectos da política nacional que marcaram as lutas das esquerdas brasileiras nos anos 60. O processo de democratização política e social, com a mobilização popular pelas chamadas "reformas de base" — agrária, educacional, tributária e outras que permitissem melhor distribuição da riqueza e de direitos —, foi interrompido pelo golpe de 1964. Ele deu fim às crescentes reivindicações de operários, camponeses, estudantes e militares de baixa patente, cuja politização ameaçava a ordem estabelecida.

A falta de resistência ao golpe gerou surpresa, justamente pela mobilização em busca das reformas estruturais no pré-64, com a presença marcante das esquerdas, notadamente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) — entidade ilegal, mas cuja atuação era consentida pelo governo Goulart. A derrota foi atribuída por muitos aos erros dos dirigentes dos partidos de esquerda, que não se prepararam para resistir, caso do hegemônico e pró-soviético PCB, da Ação Popular (AP), do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e da Política Operária (Polop), além de outros grupos menores. Sem contar a inação das lideranças trabalhistas e nacionalistas, como a do presidente deposto, João Goulart. Ia-se constituindo uma corrente de opinião difusa em vários segmentos da esquerda, que colocava a necessidade de criar uma vanguarda realmente revolucionária, que rompesse com o imobilismo e opusesse uma resistência armada à força bruta do governo, não só para restabelecer a democracia, mas especialmente para avançar em direção à superação do capitalismo.

A partir de outubro de 1965, por imposição do regime, passaram a existir apenas dois partidos reconhecidos institucionalmente: a situacionista Aliança Renovadora Nacional (Arena) e a oposição "construtiva" e moderada do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que viria a ser calada com cassações de políticos e outros mecanismos, sempre que se excedesse aos olhos dos governantes.

Fora do campo institucional, vários grupos procuravam combater a ditadura e organizar os movimentos populares: da Ação Popular (AP), nascida do cristianismo católico, depois convertida ao maoísmo, passando pelo moderado e cada vez mais dividido PCB, que apoiava o MDB, e estava cindido pelo guevarismo de diversas dissidências, as quais valorizavam a necessidade de iniciar a revolução pela guerrilha rural — caso típico da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que promoveram o seqüestro do embaixador norte-americano; até outras organizações que pegaram em armas na resistência à ditadura, como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), dentre tantas que enfatizavam a necessidade da ação revolucionária imediata.

A contestação radical à ordem estabelecida no pós-64 não se restringia às organizações de esquerda; difundia-se socialmente na música popular, no cinema, no teatro, nas artes plásticas e na literatura. O romance Quarup, de Antonio Callado, talvez seja o exemplo mais representativo da utopia revolucionária do período, no qual se valorizava acima de tudo a ação organizada das pessoas para mudar a história.

Filmes como Terra em transe, de Glauber Rocha, e Os fuzis, de Ruy Guerra, dentre outros do Cinema Novo; peças encenadas pelo Teatro de Arena e pelo Oficina; canções como Terra plana e Para não dizer que não falei das flores (Caminhando), de Geraldo Vandré, Roda e Procissão, de Gilberto Gil, Viola enluarada, dos irmãos Valle, Soy loco por ti, América, de Capinam e Gil, e outras de compositores como Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento e seus parceiros; as exposições de artes plásticas, como a Nova Objetividade Brasileira, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; enfim, inúmeras manifestações culturais, diferenciadamente, entre 1964 e 1968, cantavam em verso e prosa a esperada "revolução brasileira" — com base principalmente na ação das massas populares, em cujas lutas a intelectualidade de esquerda estaria organicamente engajada. Na década de 1960, a utopia que ganhava corações e mentes era a revolução (não a democracia ou a cidadania, como hoje), tanto que o próprio golpe designou-se como "revolução de 1964".

Uma série de grupos guerrilheiros surgiria a partir de 1964, em meio ao refluxo dos movimentos populares, desmantelados pela repressão — que também golpeava duramente as organizações de esquerda, as quais se encontravam em pleno processo de "autocrítica", como se dizia na época. Sua principal fonte de recrutamento de militantes estava no meio estudantil, berço do único movimento de massas que se rearticulou nacionalmente nos primeiros anos do pós-64, lançando-se em significativos protestos de rua, especialmente em 1968.

As organizações guerrilheiras tinham divergências entre si: acerca do caráter da revolução brasileira (para algumas, a revolução seria nacional e democrática, numa primeira etapa; para outras, ela já teria caráter imediatamente socialista); sobre as formas de luta revolucionária mais adequadas para chegar ao poder (a via guerrilheira mais ou menos nos moldes cubanos; o cerco das cidades pelo campo, de inspiração maoísta; a insurreição popular etc.); bem como sobre o tipo de organização política a ser construída — discutia-se muito a necessidade ou não de um partido nos moldes leninistas da III Internacional.

Por outro lado, as organizações armadas também apresentavam aspectos em comum, tais como: a prioridade revolucionária da ação armada, contra o suposto imobilismo de partidos como o PCB; a interpretação da economia brasileira como vivendo um processo irreversível de estagnação — o desenvolvimento das forças produtivas estaria bloqueado sob o capitalismo, que aliaria indissoluvelmente os interesses dos imperialistas, dos latifundiários e da burguesia brasileira, garantidos pelas forças militares. Só um governo popular, ou mesmo socialista, possibilitaria a retomada do desenvolvimento. Como decorrência desse tipo de análise, estariam dadas as condições objetivas para a revolução, faltando apenas as subjetivas, que seriam forjadas por uma vanguarda revolucionária decidida a agir de armas na mão, criando condições para deflagrar a guerrilha a partir do campo — local mais adequado para as atividades revolucionárias, por sofrer a fundo a espoliação e a miséria e por apresentar maiores dificuldades para os órgãos repressivos.

A fim de iniciar a guerrilha rural, seria necessário conseguir armamentos e dinheiro. Daí vários grupos terem empreendido ações urbanas, por exemplo, assaltos a bancos e roubos de armas. Como a ditadura ia aperfeiçoando seu aparelho repressivo, efetuando prisões, seguidas de infindáveis torturas, algumas organizações resolveram promover seqüestros de diplomatas — o primeiro deles foi o do embaixador norte-americano — para forçar a libertação de presos políticos e divulgar a luta armada. Assim, em 1970, foram realizados com êxito outros três seqüestros: em março, com a ajuda de dois grupos menores, a VPR seqüestrou o cônsul japonês em São Paulo, logrando libertar cinco presos; em junho foi a vez do embaixador da Alemanha Ocidental, que a VPR e a ALN trocaram por 40 detidos; finalmente, em dezembro, a VPR capturou o embaixador suíço, conseguindo livrar 70 prisioneiros, após cerca de 40 dias de tensas negociações, com o veto da ditadura a vários nomes da lista inicialmente apresentada. O desgaste dessa ação, associado à fraqueza orgânica do que restava da esquerda armada, destroçada pela repressão, colocou um ponto final nos seqüestros.

Apesar de uma ou outra operação guerrilheira bem-sucedida, os militares desmantelaram rapidamente as organizações armadas, especialmente entre 1969 e 1971, não hesitando em assassinar e torturar seus inimigos, que não conseguiram deflagrar a guerrilha rural. Apenas o PCdoB, crítico das ações urbanas, conseguiu lançar a guerrilha, na região do Araguaia, no sul do Pará. De 1972 a 1974, houve encarniçada luta, que culminou com a derrota dos guerrilheiros, quase todos mortos em combate ou assassinados depois de capturados, sem que se tenha notícia oficial, até hoje, do paradeiro de seus corpos.

A ditadura civil-militar manteria o poder durante 20 anos. As esquerdas enganaram-se ao supor que o golpe implicaria a estagnação econômica. Ao contrário, representando as classes dominantes e setores das classes médias, os governos autoritários promoveram a chamada "modernização conservadora". Houve crescimento rápido das forças produtivas, acompanhado da concentração de riquezas, do aumento da distância entre os mais ricos e os mais pobres, bem como do cerceamento às liberdades democráticas. O regime buscava sua legitimação política com base nos êxitos econômicos, sustentados por maciços empréstimos internacionais, geradores da imensa dívida externa na qual estamos atolados até os dias de hoje.

 

1969: mergulho no pesadelo

O ano de 1969 [...] teve início sob o signo da repressão: em 13 de dezembro de 1968, o regime civil-militar baixara o Ato Institucional número 5 (AI-5), conhecido como "o golpe dentro do golpe". Com ele, os setores militares mais direitistas — que haviam patrocinado uma série de atentados com autoria oculta, sobretudo em 1968 — lograram oficializar o terrorismo de Estado, que passaria a deixar de lado quaisquer pruridos liberais, até meados dos anos 70. Agravava-se o caráter ditatorial do governo, que colocou em recesso o Congresso Nacional e as Assembléias Legislativas estaduais, passando a ter plenos poderes para: cassar mandatos eletivos, suspender direitos políticos dos cidadãos, demitir ou aposentar juízes e outros funcionários públicos, suspender o habeas-corpus em crimes contra a segurança nacional, legislar por decreto, julgar crimes políticos em tribunais militares, dentre outras medidas autoritárias. Paralelamente, nos porões do regime, generalizava-se o uso da tortura, do assassinato e de outros desmandos. Tudo em nome da "segurança nacional", indispensável para o "desenvolvimento" da economia, do posteriormente denominado "milagre brasileiro".

Com o AI-5 foram presos, cassados, torturados ou forçados ao exílio inúmeros estudantes, intelectuais, políticos e outros oposicionistas. O regime instituiu rígida censura a todos os meios de comunicação, colocando um fim à agitação política e cultural do período. Por algum tempo, não seria tolerada qualquer oposição ao governo, sequer a do moderado MDB. Era a época do slogan oficial "Brasil, ame-o ou deixe-o".

Nessas circunstâncias, as organizações que já vinham realizando algumas ações armadas ao longo de 1968 — como a ALN e a VPR — concluíram que estavam no caminho certo, e intensificaram suas atividades em 1969. Outros grupos também passaram a não ver outro modo de combater a ditadura, a não ser pela via das armas. Com exceção do PCB, do PCdoB, da AP e dos pequenos agrupamentos trotskistas, ocorreu o que Jacob Gorender chamou de "imersão geral na luta armada", promovida por mais de uma dezena de organizações, como a Ala Vermelha, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT), a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR), o Partido Operário Comunista (POC), dentre tantas outras.

Paralelamente à escalada das ações armadas, a ditadura ia aperfeiçoando seu aparelho repressivo: além dos já existentes Departamentos Estaduais de Ordem Política e Social (DEOPS), criou em junho de 1969, extra-oficialmente, a Operação Bandeirante (Oban), organismo especializado no "combate à subversão" por todos os meios, inclusive a tortura sistemática. Em setembro de 1970, a Oban integrou-se ao organismo oficial, recém-criado pelo Exército, conhecido como DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna). A Marinha tinha seu órgão de "inteligência" e repressão política, o Centro de Informações da Marinha (Cenimar), correspondente ao Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (CISA), e ao Centro de Informações do Exército (CIE).

Em agosto de 1969, o presidente-general Costa e Silva sofreu uma trombose — da qual viria a morrer — e precisou ser afastado da presidência. A ditadura estava diante de novo impasse: dar ou não posse ao vice, Pedro Aleixo, moderado e civil. Com o Congresso ainda fechado (só reabriria, depois de devidamente expurgado, para "eleger" o presidente Médici, que governaria a partir de 1970, nos piores tempos da repressão), os militares resolveram que Costa e Silva seria substituído por uma Junta, composta pelos três ministros militares em exercício: Lyra Tavares, Augusto Rademaker Grünewald e Márcio de Souza e Mello. Enquanto isso, intensificavam-se as prisões e torturas de militantes de esquerda.

O quadro era esse quando a direção do MR-8 — nova sigla assumida pela até então Dissidência Estudantil do PCB na Guanabara (Di-GB), que liderara os concorridos protestos e passeatas de 1968 no Rio de Janeiro — resolveu seqüestrar o embaixador norte-americano, para denunciar publicamente a ditadura e libertar presos políticos. Pediu e recebeu ajuda da ALN paulista, grupo com mais experiência militar. Em 4 de setembro, data escolhida a dedo, em plena Semana da Pátria, o embaixador foi seqüestrado por um comando composto por Virgílio Gomes da Silva (o Jonas, comandante da operação), Manoel Cyrillo de Oliveira, Paulo de Tarso Venceslau — todos da ALN —, além dos membros do MR-8: Franklin Martins (idealizador do seqüestro e autor da carta-manifesto divulgada pelos guerrilheiros), Cláudio Torres, Cid Benjamim, João Lopes Salgado, Sérgio Torres, Sebastião Rios e Vera Sílvia Magalhães. Os integrantes da operação — com exceção de Paulo de Tarso, Sérgio Torres, Sebastião Rios e Vera Sílvia — ficaram escondidos com o embaixador numa casa da rua Barão de Petrópolis, no bairro do Rio Comprido, onde também estavam Fernando Gabeira, jornalista ligado ao segundo escalão do MR-8, que alugara a casa, e Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, principal dirigente da ALN, depois de Carlos Marighella.

Pressionada pelo governo norte-americano, a junta militar liberou 15 prisioneiros políticos, que receberiam a pena de banimento do território nacional. Em troca, o embaixador foi solto, em 7 de setembro de 1969, a contragosto de bolsões militares de extrema direita, que chegaram a tomar uma rádio, para divulgar seu inconformismo com a escalada "terrorista".

Imediatamente, o regime colocou em vigor nova Lei de Segurança Nacional, ainda mais dura. Também impôs uma Constituição, em outubro, que "emendava" a de 1967, legalizando as arbitrariedades da ditadura. A maioria dos integrantes do seqüestro foi presa em seguida, passando por suplícios inimagináveis nas mãos dos torturadores.

Numa emboscada em São Paulo, em novembro de 1969, foi assassinado Carlos Marighella — o principal líder da guerrilha, depois de ter rompido com o Partido Comunista, pelo qual havia sido deputado constituinte em 1946. Era o início do fim da esquerda armada. Fechava-se tragicamente para os guerrilheiros o ano em que o país mergulhou nas trevas do obscurantismo político, cuja sobrevivência seria garantida nos anos seguintes pela força e pelo "milagre econômico".

 

Rebeldes em 68

 

Legado rebelde de 68

Elias Fajardo

 

Quase 40 anos depois, porque alguém ainda escreveria sobre as revoltas de 1968? Diante do livro 1968 ­ O ano que abalou o mundo (e da própria realidade), esta dúvida se dissipa. Na verdade, 1968 é aqui e agora e os motins nos subúrbios parisienses, que se espalham como as chamas dos carros queimados pelos imigrantes pobres, chamados de 'escória' pelo ministro do Interior francês, mostram que onde há fumaça há fogo. E os estudantes latino-americanos protestando contra a visita de George W. Bush ao continente também indicam que o ano, como disse Zuenir Ventura, não vai mesmo terminar.

Em 1968 tudo começou na França porque os universitários de Nanterre queriam dormitórios mistos para moças e rapazes; em 2005, perseguidos pela polícia, dois africanos esconderam-se numa estação de energia e morreram eletrocutados. Os jovens da periferia parisiense transformaram em manifestações a sua revolta.

Os motivos iniciais são diversos e os tempos também. Não se pode dizer que o mundo vai explodir de novo exigindo a proibição das proibições, conseguindo juntar no mesmo saco radicais, feministas, gays, artistas, professores.

Hoje o buraco é mais embaixo - o século XXI convive com egoísmo generalizado, ceticismo, informação em demasia e algumas esperanças, mas quase tudo o que agora vivemos tem a ver com o que ocorreu em 1968.

 

Ápice da ideologia do 'sou contra'

O jornalista americano Mark Kurlansky defende a idéia de que em 68 os manifestantes tinham em comum apenas seu desejo de se rebelar, 'suas idéias de como fazer isso, uma sensação de alienação da ordem estabelecida e um profundo desagrado pelo autoritarismo'. Onde havia comunismo, abaixo o comunismo, onde havia capitalismo, idem e assim por diante. Hoje, as pessoas quase sempre estão dispostas a aceitar qualquer 'ismo', desde que lhes garanta o emprego, coisa que, na época, parecia impensável, pois um emprego estabelecido era o que de mais careta (e portanto rejeitável) podia existir para um jovem.

Robert Kennedy, citado no livro, disse que 'cada vez que um homem protesta contra a injustiça, transmite uma minúscula onda de esperança e, cruzando-se com outras vindas de um milhão de centros de energia e ousadia, essas ondas formam uma corrente que pode derrubar as mais poderosas muralhas da opressão e da resistência'.

Bob não é um revolucionário exemplar, mas o que ele diz tem a ver com a necessidade de transformar o mundo, a grande utopia levantada pelos acontecimentos de 68.

Os jovens de então (e alguns rebeldes não tão jovens, como o filósofo Marcuse, que até costumava rir do slogan 'o poder da flor') queriam mudar tudo e acabaram mudando a si mesmos. E acrescentando fatos, ritos, lições e perspectivas a uma enorme corrente, vinda de tempos imemoriais, que faz com que as estruturas se modifiquem, apesar dos obstáculos colocados diante delas.

Um dos personagens principais do livro é a guerra do Vietnã, na qual morriam por ano mais de dez mil soldados (números bem maiores do que os atuais mortos na Guerra do Iraque). Ela provocou o protesto dos jovens que não queriam alistar-se, de intelectuais e artistas e de todos os que percebiam que os Estados Unidos tinham se metido num beco sem saída, no qual a nação mais poderosa do mundo acabou derrotada por vietcongues magros com precário equipamento bélico. O comandante vietnamita Ho Chi Min contava com suas forças armadas e com 'as pessoas progressistas, nos EUA, que calorosamente apoiaram nossa luta'. O movimento americano contra a guerra usou não só as táticas não-violentas do reverendo Martin Luther King como a luta aberta com paus, pedras, coquetéis molotov. E inventou formas mais sutis, como o sit in , em que milhares de pessoas simplesmente se sentavam no meio da rua ou na entrada dos prédios públicos. Ou até o 'fumo de protesto', em que os manifestantes iam para a Tompkins Square Park, em Nova York, e fumavam maconha, o que, aliás, já vinham fazendo em lugares públicos e privados.

 

Paris, mas também Havana e Saigon

A arma mais poderosa foi a mídia. 'Somos um moderno grupo revolucionário', dizia o ativista americano Abbie Hoffman, 'dirigido para a estação de TV, não para a fábrica'. Pela primeira vez, um conflito mundial era transmitido ao vivo e as imagens violentas, ainda não encaradas como algo banal, provocavam indignação crescente. Os líderes sabiam disto e passaram a usar a TV como aliada. Sabiam também que cada excesso do outro lado podia ser capitalizado. Quando Ronald Reagan se tornou governador da Califórnia, além de cortar as verbas para saúde e educação, iniciou uma política de brutalizar manifestantes. Assim, jovens brancos começaram a ser tratados pela polícia da maneira brutal com que os negros vinham sendo tratados há séculos. Isto aumentou a revolta, que se espalhou pelo mundo, e incluiu não só aspectos diretamente políticos, mas também sexo, drogas e rock n'roll.

Allen Ginsberg, o poeta judeu budista, viajava pregando sua revolução lisérgica - fumou maconha na frente do venerável Ezra Pound, em Roma e, na URSS, ao pregar o homossexualismo e as drogas, deixou perplexo o jovem rebelde Yevtushenko.

Tendo como ponto de partida uma pesquisa de qualidade, enfocando principalmente os EUA, mas dedicando-se também a Europa, Cuba, África e Europeu Oriental, Kurlansky valoriza as histórias, os 'causos' de correspondentes de guerra, ativistas, políticos, artistas. E o faz não para endeusar lideranças, mas para humanizar seu relato, tornando mais próxima e compreensível uma época tão louca.

Ele explora também as contradições que os movimentos provocaram. Na Polônia, por exemplo, os estudantes xingavam de fascistas as tropas de choque compostas por operários, aos quais fora dito que os manifestantes eram garotos privilegiados, que moravam nos melhores apartamentos e viajavam para Paris, o que, de certa forma, era verdade. E, no Brasil, os estudantes de classe média gritavam para os operários - 'Não fique aí parado, você é explorado'. Em ambos os casos, seus interlocutores não lhes deram ouvidos.

No livro '1968 - O ano que abalou o mundo', o pesquisador Mark Kurlansky revive detalhadamente toda a história política e cultural desses doze meses cruciais para a sociedade contemporânea. Foi uma época de mudanças extremas, onde tudo - música, política, cinema, comportamento, economia, imprensa - foi posto abaixo para ser reconstruído de maneiras absolutamente novas. Da invasão da Checoslováquia à queda de Nixon, Kurlansky analisa o dia-a-dia desse ano fervilhante e turbulento através de uma perspectiva global e um texto atraente. Dando a entender que seria um ano bem ordenado, 1968 começou numa segunda-feira. O Papa Paulo VI declarou que aquele 1º de janeiro seria um dia de paz, motivando uma trégua na Guerra do Vietnã. Ao mesmo tempo, a manchete da primeira página do jornal The New York Times dizia - "O mundo dá adeus a um ano violento". Tudo isso, no entanto, não passava de um alarme falso. A verdade é que nunca houve ano mais atribulado do que 1968; a guerra tornou-se mais terrível do que nunca, Martin Luther King e Robert Kennedy foram assassinados, a Convenção Nacional Democrata de Chicago resultou em tumultos generalizados, o Festival de Cannes e a Bienal de Veneza foram fechados, a União Soviética começou a ruir, o concurso de Miss América foi interrompido por manifestações feministas. O que mais impressiona durante a leitura de '1968 - O ano que abalou o mundo' é o fato de, num planeta ainda distante daquilo que ficou conhecido como "globalização", ter ocorrido o que o autor considera uma "combustão espontânea de espíritos rebeldes no mundo inteiro"; habitantes dos mais diversos lugares se rebelaram em torno de diferentes questões, tendo como objetivo comum a necessidade de derrubar a ordem estabelecida. Nada foi planejado ou organizado; simplesmente aconteceu.

 

Correio da Bahia  /  Data:27/11/2005

 

A década que mudou o mundo

 

Cinco publicações abordam os explosivos anos 60 no Brasil e no exterior - Paulo Sales

`1968 - O ano que abalou o mundo´, de Mark Kurlansky, enfoca um período de manifestações ruidosas de ideologias opostas, como as que aconteceram em Paris.

O mundo pegou fogo no final dos anos 60. Ideologias diametralmente opostas digladiavam entre si, provocando embates teóricos e corporais com alto poder de combustão. Costumes seculares eram subvertidos por uma nova ordem comportamental, levando filhos a repelir o legado dos pais. Na França, barricadas no Quartier Latin opunham estudantes e policiais, num episódio que entrou para a história com a alcunha de Maio 68. Nos EUA, a juventude e a opinião pública começavam a se chocar com as mortes (e os excessos bélicos) dos seus soldados na Guerra do Vietnã. No Brasil, a ditadura militar recrudescia com a promulgação do Ato Institucional nº 5, que legitimou a brutalidade fardada e sua predileção por investigações à base de choques elétricos, paus-de-arara e suicídios forjados.

Passados quase 40 anos, com parte da poeira já devidamente assentada, o período é reconstituído em quatro livros e uma revista recém-colocados nas livrarias, a maioria abordando o caos brasileiro ocultado sob a égide da Ordem e do Progresso. São eles: Memórias do esquecimento, de Flávio Tavares, Quando alegre partiste, de Moacir Japiassu, Náufrago da utopia, de Celso Lungaretti, e a nova edição da revista Leituras Contemporâneas, com o título Os dias mal-ditos - 40 anos de um golpe militar no Brasil.

Mas o principal lançamento praticamente não cita os conflitos ambientados no Brasil. 1968 - O ano que abalou o mundo, do jornalista norte-americano Mark Kurlansky, transporta o leitor para um período singular da história contemporânea. Num momento em que Paris é assolada por violentos distúrbios promovidos por jovens imigrantes da periferia, numa manifestação de ira aparentemente sem causa definida, vale a pena entender as causas que motivaram a revolta de 37 anos atrás, promovida por estudantes, intelectuais, trabalhadores e mais centenas de pessoas de ocupação desconhecida no seio da Cidade-Luz.

Mas 1968 não se limita à França. Ele reconstitui episódios fundamentais do ano que não terminou, como diria Zuenir Ventura. Incluindo os assassinatos do ativista negro Martin Luther King e do senador democrata Robert Kennedy nos EUA, a Primavera de Praga promovida na Tchecoslováquia pelo presidente Alexander Dubcek e as rebeliões que brotaram quase simultaneamente em lugares como Roma, Berlim, Varsóvia, Tóquio e Cidade do México. O autor contrapõe a esses fatos políticos os movimentos culturais e artísticos, que também passavam por um período de efervescência: a psicodelia hippie, o auge dos Beatles e o teatro de vanguarda, entre outros.

Anos de chumbo - O que mais chama a atenção nos livros sobre a ditadura militar no Brasil é a existência de um olhar de quem realmente esteve no olho do furacão durante os anos de chumbo. Colunista político do jornal Última hora, Flávio Tavares foi preso e torturado pela polícia política em 1968. Ele foi um dos 15 prisioneiros libertados em troca do embaixador norte-americano Charles Elbrick, seqüestrado pelo grupo de guerrilheiros que tinha o hoje deputado federal Fernando Gabeira entre seus integrantes. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2000, Memórias do esquecimento (agora relançado em edição revista e ampliada) relembra os momentos dramáticos vividos por Flávio e o grupo de ativistas do qual fez parte.

Celso Lungaretti também exorciza suas reminiscências do inferno em Náufrago da utopia. Dirigente de uma organização guerrilheira durante a ditadura, ele tinha apenas 18 anos quando foi preso e violentamente torturado. Ficou marcado por mais de 30 anos como delator, por ter teoricamente dedurado seus companheiros. Mais do que um acerto de contas com o próprio passado, o livro é um importante documento sobre os temerários recrutamentos de estudantes secundaristas por movimentos de luta armada. Quando, após um treinamento incipiente, eram jogados aos leões. Muitos morreram nos combates, outros ficaram com seqüelas físicas e psicológicas.

Mesmo sem ter se embrenhado tão profundamente nas profundezas dos porões militares, o escritor paraibano Moacir Japiassu viveu intensamente o período em sua atuação como jornalista - numa época em que ser jornalista era flertar com o perigo. Em Quando alegre partiste ele recorre à ficção para falar da realidade dos profissionais de imprensa envolvidos, em maior ou menor medida, com o combate à ditadura e a divulgação de suas atrocidades. Publicação da Asbec em parceria com as Faculdades Jorge Amado, a revista Leituras Contemporâneas reúne em seu segundo volume diversos ensaios sobre diferentes aspectos da ditadura militar. Os dias malditos -40 anos de um golpe militar no Brasil é fruto de um simpósio realizado entre os dias 30 de março e 10 de abril de 2004.

Todas essas publicações têm o mérito inquestionável de contribuir, de diferentes formas, para a compreensão de um período sombrio da nossa história. E, no caso de 1968 - O ano que abalou o mundo, de um período que fez o planeta mudar mais do que em toda a década anterior. 

 

Preço = R$ 61,00

1968 - O ANO QUE ABALOU O MUNDO

Tradutor:  COUTINHO, SONIA 

Autor:  KURLANSKY, MARK

Editora: JOSE OLYMPIO

Assunto: HISTORIA GERAL

 

Jornal do Brasil  / Data: 26/11/2005

 

 

O ano que ousou dizer não ao não

 

Livro sobre 68 presta serviço às gerações que não participaram ou não foram contemporâneas desse tempo especial  - Bruno Liberati

O que esperar de um sujeito que escreveu a História do bacalhau? Uma versão no mínimo palatável dos acontecimentos, quaisquer que sejam eles. Isso, o jornalista Mark Kurlansky faz muito bem em seu livro 1968 – O ano que abalou o mundo. A primeira leitura pode levar à suspeita de que ele escreveu visando o público americano. Porém, essa impressão diminui, diante da imensidão de fatos que aborda. E, justiça seja feita, Kurlansky não ficou apenas nas cercanias do seu umbigo. Ao reconstruir com maestria o complexo painel dessa época turbulenta, prestou um serviço às gerações que não participaram ou não foram contemporâneas dos eventos que tornaram esse ano especialíssimo: marco de ruptura com um mundo que parece pertencer a uma outra galáxia.

O autor fez um retrato bem documentado dos 12 meses que assistiram a uma multiplicidade de eventos que abalaram quase que simultaneamente países díspares como EUA, Alemanha, a então Checoslovaquia, Polônia, México, Japão, Canadá, Egito, Espanha, Israel, Itália, China, Vietnã, Nigéria e Biafra. Seu mérito foi mergulhar nas águas turvas das situações específicas dos países envolvidos no redemoinho dessa época e tornar isso interessante para o leitor dos nossos dias. Há que se considerar que alguém que teve sua vida próxima desses eventos está hoje com uma idade acima dos 50 anos. Embora não tenha conseguido fazer uma uma obra definitiva sobre o período, Kurlansky chegou perto de uma versão satisfatória ao mapear e fazer um emocionado relato que consegue nos transportar para o meio dos conflitos, sem ser nostálgico.

Por essas e outras, seu livro se constitui num ótimo roteiro para tentar entender esse ano que se transformou num mito da rebeldia juvenil. Considere-se que a tarefa não foi nada fácil. Mas, com muita coragem, humor e pretensão, enfrentou o desafio de narrar um movimento que ousou não silenciar, diante dos erros do mundo. Acompanhou a rebelião que unia diferentes grupos de acordo com realidades de cada país onde explodia e se traduzia em alianças que se dissolviam no ar e táticas sopradas ao vento do momento. Cuja meta parecia ser o de questionar as autoridades, contestar as instituições, revolucionar a cultura e a civilização.

Kurlansky apresenta um texto ágil, que vai entrelaçando as ações desses jovens petulantes que diziam só se conhecer pela TV, como afirmou o irônico Daniel Cohn-Bendit em seu inseparável megafone. Que questionavam as verdades estabelecidas, ao mesmo tempo em que derrubavam prateleiras, ocupavam universidades, organizavam sit-ins (protestos sentados) em frente a tropas policiais ou paravam tanques com flores Uma agitação que se inspirou, entre outros, num filósofo como Herbert Marcuse, que algumas lideranças confessaram não entender e achavam até chato. O autor mostra que não foi um ano apenas conturbado e crítico em que foram assassinados Martin Luther King e Robert Kennedy, mas que inventou uma nova cultura além das palavras de ordem. O que ele não cita é o seu lado negativo ao importar um negócio da China que se chamava "autocrítica", instrumento "dialético" usado para silenciar oposições internas em movimentos subterrâneos. Micro-poderes, diria Foucault, um dos que marcharam com os jovens por Paris e que Kurlansky esqueceu. Uma Paris onde o autor observa que nunca se praticou tanto o esporte da conversação.

Enquanto isso, na Califórnia, muitos procuravam as chaves das portas da percepção "viajando", ouvindo música psicodélica ou de protesto em alto volume: Joan Baez, Joni Mitchell, Cream, Jefferson Airplane, Gratefull Dead, Jim Morrison, Country Joe and the Fish, entre outros. Jovens que no início criticaram o uso das guitarras elétricas por Bob Dylan, mas acabaram seduzidos pelas distorções desse instrumento e beijaram os céus com Jimmi Hendrix, que já tinha incendiado sua Fender no festival de Monterrey em 67, deixando o público de queixo caído. Essa talvez pode ser uma das mais graves omissões do livro.

Enquanto isso, atletas negros eram punidos por erguer o punho cerrado em homenagem aos Black Panthers, nas Olimpíadas do México, pouco tempo depois do massacre de estudantes pelas forças policiais de Díaz Ordaz. No território das artes pictóricas, criou-se espaço para o grafismo combatente dos affiches feitos com a técnica de silk screen que, com muita ironia, invadiram os muros das cidades junto com frases antológicas dos chamados grafites, tais como "Decreto um permanente estado de felicidade", "Seja realista, peça o impossível", "A imaginação no poder" ou "Virgindade dá câncer". Foi a época do mimeógrafo, com seus estênceis complicados de manusear, que produziam os panfletos que informavam o cardápio da desordem do dia. O mundo da literatura também produzia seus frutos e engajamentos: de Norman Mailer, Arthur Miller, William Burroughs ao roteirista Terry Southern. Época da famosa revista Ramparts, porta voz das interpretações da nova esquerda (New left). Peturbações também incomodaram a Feira do Livro de Frankfurt. A salinha escura do cinema de repente se acendeu e assistiu ao fenômeno do cineclubismo, não citado por Kurlansky. Por outro lado, o Festival de Cannes foi fechado pelos cineastas Godard e Truffaut, entre outros.

Vamos às teses: o autor atribui a criação do fenômeno 68 a alguns fatores. O exemplo dos movimento americano pelos direitos civis, uma geração que se sentia distante dos seus pais e mestres, e não tolerava a idéia de autoridade, a TV ainda não domesticada, e o catalisador da época, a odiada Guerra do Vietnã, estopim usado para detonar vários movimentos. Uma das teses mais discutíveis é a de que talvez 68 não existisse se os governos não tivessem uma atitude repressiva. Outra é que naquele ano se iniciou, depois da invasão da Checolosváquia, a erosão da URSS. Um outro poderia dizer isso em relação ao dia em que Lenin morreu e Trotski perdeu o comando para Stalin, ou mesmo quando este último fez um pacto com Hitler. A erosão de um sistema às vezes está em lugares estranhos. Mas o autor tem razão num aspecto: em 68 houve o desencanto da militância comunista, quando as tropas russas acabaram com a "Primavera de Praga".

Fica como falha a omissão de acontecimentos de certas zonas periféricas, como a América Latina, onde, na década de 60, enquanto o mundo "curtia o seu barato", um surto de ditaduras estimuladas pelo Tio Sam se espalhava, o que levou a revolta estudantil a tomar caminhos radicais. O jornalista não fala, do mesmo modo, no misterioso projeto Camelot, que fez uma "inteligente" pesquisa de opinião onde traçava o perfil político das áreas a serem dominadas e que foi denunciado em 65 pelos próprios jornais americanos.

Um ano tão mal comportado, que criticou o personalismo, deveria receber tratamento mais iconoclasta. Talvez ver 68 dentro de um processo de "contestação" que se inicia no fim dos anos 50, quando houve a explosão teen-age, a chamada "juventude transviada" que desdenhava os mais velhos como "quadrados" e quebrava cinemas ao som do rock'n'roll. Apontar o momento em que o império americano se afirmava culturalmente, mostrando que era um aparente "Tigre de Papel", como brinca uma personagem no filme A Chinesa, de Godard. Do jeito que Kurlansky tratou esse ano, 68 parece um coquetel molotov que cai no colo do leitor. Outra crítica também se faz necessária: a carência de imagens num ano em que ela foi tão decisiva.

Dizer que 68 foi ruim porque não venceu nenhuma batalha, e as estruturas permaneceram apesar dos abalos, seria reduzir suas conquistas. Kurlansky acerta ao mostrar que alguns homens caíram logo depois, como De Gaulle, e essa voragem originou uma revolução que afetou o comportamento e a cultura das gerações que vieram surfar nas ondas futuras. Uma coisa é certa: não se pode sair por aí comparando o ativismo de 68 ao movimento atual que incendeia as periferias de Paris. A revolta dos "filhos dos banlieues" é efeito tardio da colonização que agora toma o território dos bairros do ex-colonizador ao ritmo do gangstra rap.

A rapaziada deve ter percebido que a visibilidade da mídia só viria com demonstrações violentas. Podem até usar uma velha tática: chamá-los de "escória" é bom motivo para botar mais fogo nos automóveis, que mostra que os "podres poderes da direita" esqueceram há muito tempo as lições de 68.

O Globo  / Data: 12/11/2005