Stefan Zweig
Tradução de Lya Luft e Pedro Süssekind
Mal se atrevia a olhar-se no espelho, temendo a desconfiança em seu próprio olhar; mas era preciso averiguar se nada em suas roupas revelava, pela desarrumação, a paixão daquelas horas. Então vinham ainda as últimas palavras, inutilmente apaziguadoras, que, de nervosa, ela mal ouvia, e aquele segundo à escuta atrás da porta para ver se ninguém subia ou descia pela escada. Mas o medo já esperava do lado de fora, impaciente por agarrá-la, e inibia tão imperiosamente o pulsar de seu coração que descia ofegante os poucos degraus até sentir faltarem-lhe as forças que reunira nervosamente.
Por um minuto ficou assim, parada, de olhos fechados, respirando avidamente o frescor penumbroso do patamar. Então uma porta bateu num andar superior, ela se retesou, assustada, e, fechando melhor involuntariamente com as mãos o denso véu, desceu correndo os últimos degraus. Agora restava a ameaça daquele terrível e derradeiro instante, o horror de sair de um portão estranho para a rua, talvez enfrentando a pergunta importuna de algum conhecido que passava querendo saber de onde ela vinha, e a perturbação e o perigo de uma mentira: ela baixou a cabeça como o saltador que toma impulso, e correu com súbita determinação para o portão entreaberto. Lá se chocou duramente com uma mulher que obviamente queria entrar.
Perdão disse, constrangida, esforçando-se por passar depressa. Mas a criatura fechou-lhe o caminho da porta, encarando-a zangada e ao mesmo tempo com franco
sarcasmo:
Finalmente consegui pegar você! berrou ela sem se importar, com voz grosseira. Naturalmente uma dessas que se dizem decentes! Não se contenta com um homem só e o dinheiro dele e todas essas coisas; precisa roubar também o amante de uma pobre moça...
Pelo amor de Deus... o que é que a senhora... a senhora está enganada... gaguejou Irene com uma desajeitada tentativa de escapar, mas a criatura fechava a porta com seu corpo maciço, gritando-lhe na cara em tom estridente:
Não, não estou enganada... conheço você... esteve com meu namorado Eduard... agora finalmente eu a peguei, agora sei por que ultimamente ele tem tão pouco tempo para mim... Por sua causa, então... sua ordinária!
Pelo amor de Deus interrompeu Irene, tentando apaziguá-la , não grite desse jeito.
E involuntariamente voltou para o vestíbulo. A mulher a encarava ironicamente. Aquele medo trêmulo, aquele visível desamparo parecia de alguma forma fazer-lhe bem, pois agora examinava sua vítima com um sorriso confiante e de zombeteira satisfação. Sua voz ficou mais calma e quase bonachona na sua vulgaridade.
Então são assim as mulheres casadas, as nobres, as finas, que vão roubar os homens das outras. Com véu, naturalmente, com véu para depois poderem bancar as mulheres decentes...
O que... o que quer de mim? Se nem a conheço... Tenho de ir agora...
Tem de ir... sim, claro... para junto do senhor seu marido... bancar a fina dama na sua sala aquecida, e deixar que as criadas lhe tirem as roupas... Mas se a gente está batendo as botas de fome, damas finas como você não se interessam por esse tipo de coisa... E ainda roubam a última coisa que temos, essas damas decentes...
Irene endireitou-se e, seguindo um instinto vago, meteu a mão na bolsinha e pegou todas as notas que pôde apanhar.
Tome aqui... mas agora me deixe... nunca mais volto aqui... Juro.
A criatura pegou o dinheiro com um olhar mau.
Vagabunda murmurou.
Irene estremeceu ouvindo a palavra, mas viu que a outra liberava a porta e precipitou-se para fora, ofegante e atordoada, como um suicida saltando de uma torre. Enquanto ela se afastava correndo, os rostos que passavam lhe pareciam máscaras contorcidas; abriu caminho com dificuldade até um táxi estacionado na esquina. Jogou-se no banco do carro como um saco informe, sentia-se rígida e imóvel interiormente; e, quando o motorista perguntou à passageira esquisita para onde queria ir, ela o fitou por um momento sem entender, até que seu cérebro abalado pôde finalmente assimilar as palavras dele.
Para a estação sul disse então, rapidamente, e, com a súbita idéia de que aquela criatura a podia estar seguindo, acrescentou: Depressa, depressa, ande depressa!
Só durante o trajeto ela realmente sentiu o quanto aquele encontro atingira seu coração. Apalpou as próprias mãos, duras e frias como coisas mortas penduradas em seu corpo, e de repente começou a tremer tanto que chegava a sacudir-se. Algo amargo rastejava pela sua garganta acima, sentiu náuseas e ao mesmo tempo uma raiva obtusa e insensata querendo rasgar seu peito lá bem no fundo, como numa câimbra. Quis gritar ou bater com os punhos, libertar-se do horror daquela lembrança que se prendera em seu cérebro como gancho, aquele rosto desfeito com o riso sarcástico, aquele ar de vulgaridade que vinha com o hálito mau da proletária, a boca ordinária que cuspira cheia de ódio palavras vulgares na sua cara, e o punho erguido, vermelho, com o qual a ameaçara.
A sensação de náusea foi ficando cada vez mais intensa, o balanço do carro em disparada jogava-a de um lado para outro, quis pedir ao motorista que fosse um pouco mais devagar, quando lhe ocorreu, em tempo, que talvez não tivesse mais dinheiro suficiente, pois dera todas as notas à chantagista. Fez rapidamente sinal de parada e, com o motorista novamente espantado, desembarcou. Por sorte,o dinheiro que tinha sobrado dera para pagar a corrida até ali. Mas então se viu num bairro desconhecido, numa multidão de pessoas ocupadas que a magoavam fisicamente a cada palavra e olhar. E seus joelhos frouxos de medo a levavam com dificuldade, mas ela precisava ir para casa e, reunindo toda a sua energia, avançou de ruela em ruela com um esforço sobre-humano, como se chapinhasse num lodaçal ou na neve alta. Finalmente chegou em casa e subiu as escadas com uma pressa nervosa que logo controlou para que sua agitação não chamasse a atenção de ninguém.
Só agora, quando a criada lhe tirava o manto e quando ouviu no quarto ao lado seu filhinho brincando com a irmã menor, e seu olhar apaziguado abrangeu seus objetos, sua posse e seu abrigo, ela recuperou a aparência externa de controle, enquanto por baixo a onda de excitação ainda rolava dolorosamente no peito tenso. Tirou o véu, alisou o rosto com a determinação de parecer inocente e entrou na sala de jantar, onde o marido lia o jornal diante da mesa posta para a refeição da noite.
Atrasada, atrasada, querida Irene saudou ele com uma branda censura, levantou-se e beijou-a no rosto, o que lhe causou uma penosa sensação de vergonha. Sentaram-se à mesa e, indiferente, mal se desligando do jornal, ele perguntou:
Onde andou tanto tempo?
Eu estava... estava... com Amélia... que tinha coisas a fazer... e eu fui com ela completou Irene, já irada pela maneira impensada com que mentira. Normalmente sempre se prevenia com alguma mentira cuidadosamente arquitetada que desafiasse todas as possibilidades de verificação, mas naquele dia o medo a fizera esquecer isso, forçando-a a uma improvisação desajeitada. E, de repente, pensou, e se o marido telefonasse para conferir, como vira acontecer numa peça de teatro a que assistira recentemente?
Mas o que foi?... Você parece tão nervosa... e por que não tira o chapéu? perguntou o marido. Ela sobressaltou-se, mais uma vez flagrada em seu constrangimento, levantou-se depressa, foi até o quarto para tirar o chapéu, e no espelho fitou seus próprios olhos inquietos até parecerem outra vez firmes e seguros. Depois voltou à sala de jantar.
A empregada veio com a refeição, e foi mais uma noite como todas as outras, talvez um pouco mais calada e menos animada do que habitualmente, uma noite com conversas pobres, cansadas, muitas vezes trôpegas. Os pensamentos dela retornavam incessantemente pelo caminho e sempre se assustavam quando chegavam àqueles minutos na horrenda presença da chantagista: ela erguia o olhar para sentir-se abrigada, tocava com ele ternamente cada um dos objetos espalhados pela sala segundo sua lembrança e importância, e uma leve tranqüilidade retornava. E o relógio na parede, varando o silêncio com seu confortável passo de aço, devolveu imperceptivelmente ao coração dela algo de seu próprio ritmo regular, seguro e despreocupado.
***
Na manhã seguinte, quando o marido estava no escritório e as crianças tinham ido passear, e ela finalmente ficou a sós consigo mesma, aquele encontro pavoroso, visto em retrospectiva na clara luz da manhã, perdeu muito do que tinha de assustador. Irene recordou que seu véu era muito denso e que aquela criatura não devia ter distinguido bem suas feições, nem as reconheceria.
Ponderou com calma todas as medidas a tomar para prevenir-se. De modo algum voltaria a procurar o amante na casa dele e com isso certamente removia-se a mais provável causa de nova surpresa. Portanto, restava apenas o perigo de reencontrar a criatura por acaso, mas mesmo isso era improvável, pois partira de carro e a outra não a poderia ter seguido. Ela não sabia o nome nem o endereço de Irene e não havia por que temer qualquer outro modo de identificação, uma vez que seu rosto permanecera indistinto. Mas mesmo para esse caso extremo Irene estava preparada. Então, já livre do torno do medo que a apertara, decidiu que simplesmente manteria a calma, negando tudo, protestando friamente que era um engano, e, como era quase impossível obter prova daquela visita, eventualmente poderia acusar a criatura de chantagista.
Não era em vão que Irene era esposa de um dos mais famosos defensores do distrito; conhecia o suficiente das conversas dele com os colegas para saber que chantagens somente podiam ser eliminadas com atitude imediata e grande sangue-frio, porque cada hesitação, cada demonstração de inquietação por parte do perseguido apenas aumentaria a superioridade do adversário.
A primeira medida foi uma breve carta ao amante dizendo que não poderia ir ao seu encontro no outro dia, à hora marcada, nem nos dias seguintes. Relendo o bilhete em que pela primeira vez disfarçou sua letra, achou-o um tanto frio, e já queria substituir as palavras casuais por outras mais íntimas, quando se lembrou do dia anterior e da raiva a que inconscientemente atribuía à frieza daquelas linhas. Seu orgulho estava instigado pela penosa revelação de ter substituído nas graças do amante uma antecessora tão indigna e ordinária, e, analisando com raiva as palavras que escrevera, alegrou-se, vingativa, com a maneira fria com que de certa forma conferia às suas visitas uma espécie de aura de humor condescendente.
Conhecera o rapaz, um pianista famoso, num círculo ainda limitado, em uma reunião à noite, e pouco depois, sem querer direito e quase sem entender, tornara-se sua amante. Nada em seu sangue na verdade desejara o dele, nada sensual e pouca coisa emocional a ligara ao corpo dele: ela se entregara sem precisar dele, sem o desejar intensamente, por uma certa preguiça de resistir-lhe à vontade, e uma espécie de curiosidade inquieta. Nada nela, nem seu sangue plenamente satisfeito com a felicidade conjugal, nem a sensação tão freqüente em mulheres de que seus interesses emocionais estão morrendo à míngua, fizera-a sentir necessidade de um amante; ela era perfeitamente feliz junto de seu marido rico, intelectualmente superior a ela, com os dois filhos, aninhada e contente na calmaria de sua existência confortável. Mas existe um relaxamento da atmosfera que torna as pessoas tão sensuais quanto o calor ou a tempestade, um equilíbrio de felicidade que é mais excitante do que a desgraça, e para muitas mulheres a ausência de desejos é tão funesta quanto uma insatisfação duradoura é funesta pela falta de esperança. A saciedade não excita menos do que a fome, e a sua vida segura e protegida a deixava curiosa por aventuras. Em parte alguma de sua vida havia resistências.
Onde quer que pusesse a mão, pegava em algo macio; estava cercada de cuidados, carinho, amor morno e respeito doméstico, e, sem adivinhar que essa existência comedida nunca é determinada por coisas exteriores, mas é sempre, apenas, reflexo de um isolamento interior, ela de alguma forma sentia que esse conforto lhe roubava algo da vida real.
Agora que se aproximava dos trinta anos, voltavam a despertar seus vagos sonhos de mocinha com o grande amor e o êxtase da emoção, adormecidos pelo amigável apaziguamento dos primeiros anos de casada e pelo alegre encantamento da maternidade, e, como qualquer mulher, ela se julgava capaz de uma grande paixão sem a coragem de a experimentar, nem de pagar pela aventura seu verdadeiro preço, o perigo. Quando, num desses momentos de uma satisfação que ela própria não conseguia aumentar, aquele jovem se aproximara dela com desejo intenso e indisfarçado e, rodeado pelo romantismo da arte, entrara no seu mundo burguês, onde habitualmente os homens festejavam a "bela mulher" que ela era apenas com brincadeiras sem graça e pequenas coqueterias, sem jamais desejarem a sério a fêmea que havia nela, pela primeira vez desde seus tempos de mocinha Irene se sentiu intimamente excitada.
Talvez nada a atraísse na maneira dele além de uma sombra de melancolia que pairava sobre seu rosto quem sabe um pouco interessante demais,e daquela postura melancólica com a qual ele atacava um (bem ensaiado) impromptu. Para ela, que se sentia rodeada apenas de pessoas saciadas e burguesas, havia nessa tristeza uma antevisão do mundo mais elevado que aparecia colorido nos livros e que se movia, romântico, nas peças de teatro, e involuntariamente ela se debruçou sobre a beirada de seus sentimentos cotidianos para contemplá-lo. Um elogio talvez mais ardente do que seria adequado, num segundo de arrebatamento, fez com que ele erguesse os olhos do piano para a mulher e já esse primeiro olhar a assediou.
Ela assustou-se e sentiu ao mesmo tempo a sensualidade de todo o medo: um diálogo, no qual tudo parecia iluminado e aquecido por chamas subterrâneas, ocupou e excitou muito a sua curiosidade já animada, tanto que não fugiu de outro encontro num concerto público. Depois viram-se mais vezes, e em breve não era apenas por acaso. A vaidade por sentir que ela, até ali dando pouco valor a seus próprios julgamentos musicais, e com razão negando qualquer importância ao seu senso artístico, pudesse ser a que compreendia e aconselhava o verdadeiro artista o que ele afirmou várias vezes fez com que poucas semanas depois ela confiasse precipitadamente na sugestão dele de querer tocar sua mais nova composição para ela, e só para ela, em sua própria casa promessa que talvez na intenção dele fosse mais ou menos sincera, mas que sucumbiu entre os beijos e por fim na surpresa da entrega dela.
Sua primeira sensação foi de susto com aquela inesperada mudança para o sensual, o calafrio misterioso que envolvia essa relação logo se rompeu, e a culpa por aquele adultério não-desejado só se acalmou em parte pela vaidade que lhe fazia cócegas, porque pela primeira vez, como pensava, por decisão própria, desafiava o mundo burguês em que vivia. O calafrio de sua primeira ação má, que nos primeiros dias a assustava, transformou sua vaidade em orgulho. Mas também essas excitações misteriosas só eram plenas nos primeiros momentos. No fundo, seu instinto se revoltava contra aquele homem e sobretudo contra o novo que havia nele, o diferente, aquilo que na verdade seduzira a sua curiosidade. A extravagância das roupas, o jeito cigano de sua moradia, sua vida financeira desregrada sempre oscilando entre esbanjamento e constrangimento eram antipáticos aos seus sentimentos burgueses; como a maioria das mulheres, ela queria o artista de um modo muito romântico, de longe, num convívio muito cortês, um cintilante animal de rapina, mas atrás das grades de ferro da moral. A paixão que a embriagava quando ele estava tocando inquietava-a quando ele estava fisicamente perto; na verdade ela não queria esses abraços súbitos e imperiosos, cuja desconsideração egoísta sem querer comparava com o ardor do marido, que depois de todos aqueles anos ainda era tímido e cheio de veneração. Mas agora que a traição fora cometida sempre voltava a ele, nem feliz nem decepcionada, mas por certa sensação de dever e pela indolência do hábito. Era uma dessas mulheres, comuns mesmo entre as levianas e até as prostitutas, cuja concepção burguesa de vida é tão forte que até no adultério colocam uma ordem, e no excesso uma espécie de domesticidade, buscando revestir os mais estranhos sentimentos com a máscara paciente do cotidiano. Em poucas semanas ela colocou seu jovem amante num lugar ordenado de sua vida, destinou-lhe como a seus sogros um dia da semana, e com essa nova relação não renunciava a nada de sua ordem antiga, apenas acrescentava algo à sua vida. Em breve esse amante já não alterava o confortável mecanismo de sua existência, tornando-se uma excrescência da sua equilibrada felicidade, como um terceiro filho ou um automóvel, e em breve a aventura lhe pareceu tão banal quanto um prazer permitido. Mas da primeira vez em que teve de pagar pela aventura o seu verdadeiro preço, o perigo, começou a calcular de maneira mesquinha o seu valor. Mimada pelo destino, acarinhada pela família, quase sem ter o que desejar por causa das condições financeiras favoráveis, o primeiro desconforto já parecia excessivo à sua sensibilidade. Imediatamente recusou-se a ceder algo de sua despreocupação espiritual, e na verdade estava disposta a sacrificar, sem refletir, o amante à comodidade.
A resposta dele, uma carta assustada, nervosa e repleta de hesitações, que um mensageiro trouxera na mesma tarde, uma carta que suplicava, perturbada, queixava-se e acusava, abalou outra vez sua decisão de terminar com a aventura, pois a avidez dele lisonjeava sua vaidade, o desespero dele a deixava encantada. O amante insistia em pelo menos um breve encontro para tentar esclarecer sua culpa caso a tivesse ofendido sem saber, e esse novo jogo fez com que quisesse continuar fazendo-se de ofendida, tornando-se ainda mais desejável pela recusa. Agora estava mergulhada em algo excitante, e isso, como a todas as pessoas interiormente frias, fazia-lhe bem, essa sensação de estar rodeada pelo incêndio da paixão, mas sem arder. Então convidou-o a uma confeitaria, da qual de repente se lembrou, pois quando mocinha tivera lá um encontro com um ator, encontro que agora lhe parecia infantil por ter sido tão respeitoso e superficial. Estranho, sorriu de si para si, que o romantismo começasse a florir de novo em sua vida agora, depois de ter murchado em todos os anos de seu casamento. E já quase se alegrava intimamente pelo encontro com aquela mulher vulgar do dia anterior, que lhe causara de novo uma emoção real, tão forte e estimulante que seus nervos habitualmente relaxados ainda vibravam subterraneamente.
Desta vez pegou um vestido escuro e pouco chamativo e outro chapéu, para confundir a memória da criatura, caso a encontrasse. Tinha o véu preparado para dissimular-se, mas num súbito ímpeto desafiador deixou-o de lado. Acaso ela, uma mulher respeitada, deveria ter medo de sair à rua por receio de uma pessoa que nem conhecia? E já ao medo do perigo se misturava uma instigante, estranha atração, um prazer belicoso e perigosamente excitante parecido com o de quem sente nos dedos a fria lâmina de um punhal ou fita a boca do cano de um revólver em cujo ventre negro se instalou a morte, comprimida.
Nesse calafrio de aventura havia algo inusitado em sua vida protegida que a atraía como num jogo, uma sensação que agora esticava maravilhosamente seus nervos, fazendo correr faíscas elétricas em seu sangue. Um medo breve perpassou-a só no primeiro momento em que saiu à rua; um calafrio nervoso e gelado como quando colocamos a ponta do pé na água para ver sua temperatura antes de nos entregarmos às ondas. Mas esse frio a atingiu apenas um momento; depois, de repente, rumorejava nela uma rara alegria de viver, o prazer de estar caminhando com um passo firme, elástico e tenso que nem conhecia. Quase lhe deu pena que a confeitaria ficasse tão perto, pois agora a vontade era prosseguir ritmicamente na magnética e misteriosa sensação de aventura.
Mas o tempo que destinara àquele encontro era curto, e uma agradável impressão de segurança lhe dizia que o amante já esperava por ela. Estava sentado a um canto quando ela entrou, e levantou-se de um salto, com uma excitação que lhe foi a um tempo agradável e penosa. Teve de pedir-lhe que falasse mais baixo, tão ardentemente brotava do tumulto da excitação dele um redemoinho de perguntas e acusações. Sem mencionar o verdadeiro motivo de sua ausência, ela brincou com alusões que o instigaram ainda mais por serem imprecisas. Desta vez permaneceu inalcançável aos desejos dele, e hesitou até mesmo em fazer-lhe promessas, porque sentia o quanto o instigavam essa recusa e fuga repentinas... E quando depois de meia hora de diálogo acalorado, ela o deixou sem pelo menos lhe dar ou prometer alguma carícia, ardia internamente numa sensação muito singular, que só conhecera em mocinha.
Era como se uma chamazinha crepitando brilhasse bem no fundo e só aguardasse o vento soprar para o fogo se fechar sobre sua cabeça. Levava consigo, ao passar rapidamente, cada olhar que lhe lançavam na ruela, e o inesperado sucesso representado por muitos desses apelos masculinos de repente atiçou de tal maneira a curiosidade por seu próprio rosto que parou diante do espelho da vitrine de uma florista para contemplar sua própria beleza na moldura de rosas vermelhas e violetas cintilantes de orvalho. Encarou-se com olhar faiscante, leve e jovem, uma boca sensualmente entreaberta sorria-lhe satisfeita, e sentia o corpo alado quando continuou a andar; o anseio por algo que lhe descarregasse a tensão física, dança ou tumulto, desfez o ritmo habitualmente comedido de seu caminhar, e só a contragosto escutou da igreja de São Miguel, pela qual passava rapidamente, o toque da hora chamando-a para casa, para o seu estreito mundo ordenado.
Desde seus dias de jovenzinha não se sentia tão leve, sentidos tão agitados, pois nem os primeiros dias do casamento nem os abraços do amante tinham espicaçado tanto seu corpo, e era intolerável a idéia de já agora desperdiçar em horas regradas toda essa singular leveza, essa doce embriaguez do sangue. Parou mais uma vez, hesitante, na frente de sua casa, respirando com peito amplo esse ar quente, a perturbação dessa hora, para sentir bem fundo no coração essa última onda de aventura, que já morria.
Então alguém lhe tocou o ombro. Ela se virou.
O que... o que é que você quer outra vez? gaguejou mortalmente assustada, pois de repente via aquele rosto odiado, e assustou-se ainda mais ouvindo-se dizer aquelas palavras funestas. Tomara o propósito de não reconhecer mais aquela mulher se alguma vez se encontrassem, de negar tudo, enfrentando cara a cara a chantagista...
E agora era tarde demais.
Estou esperando há meia hora, senhora Wagner.
Irene estremeceu ouvindo o seu nome. A criatura sabia seu nome, seu endereço. Agora tudo estava perdido, entregue sem salvação nas mãos da outra. Tinha nos lábios as palavras cuidadosamente preparadas e calculadas, mas sua língua estava paralisada e sem forças para emitir um som.
Faz meia hora que estou esperando, senhora Wagner.
A criatura repetiu as palavras, ameaçadoras como uma acusação.
O que quer... o que quer de mim...
A senhora sabe, senhora Wagner. Irene estremeceu de novo ouvindo seu nome. Sabe muito bem por que estou aqui.
Eu nunca mais me encontrei com ele... agora me deixe... nunca mais o verei... nunca...
A criatura esperou calmamente, até que, nervosa, Irene não conseguiu mais falar. Então disse, grosseira como se falasse com um subalterno:
Não minta! Eu a segui até a confeitaria... e, vendo Irene recuar, acrescentou, sarcástica: Afinal eu não tenho compromissos. Fui despedida da loja por falta de trabalho, segundo disseram, e porque os tempos estão ruins. Bom, então gente como nós aproveita para também passear um pouco... como as mulheres decentes.
Disse isso com uma maldade fria que perfurou o coração de Irene. Ela se sentia desamparada diante da brutalidade dessa pessoa vulgar, e sentia cada vez mais medo de que a criatura falasse alto e seu marido passasse por ali, pois então tudo estaria perdido. Rapidamente apalpou dentro do seu regalo, abriu a bolsa de prata e tirou todo o dinheiro que seus dedos conseguiram agarrar.
Meteu-o com nojo na mão insolente que já se estendia devagar, certa do lucro.
Mas dessa vez a mão insolente não se recolheu assim que sentiu o dinheiro, humilde como da outra vez, mas ficou hirta no ar, aberta como garras.
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