sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Livro de Stefan Zweig

 
MEDO E OUTRAS HISTÓRIAS
Stefan Zweig
Tradução de Lya Luft e Pedro Süssekind
 
QUANDO DESCIA AS escadas do apartamento de seu amante, Irene foi outra vez dominada por um medo insensato. De súbito um círculo negro zunia diante de seus olhos, os joelhos congelaram-se numa paralisia horrenda, ela teve de agarrar-se rapidamente no corrimão para não cair para a frente. Não era a primeira vez que ousava aquela visita perigosa, esse calafrio repentino não lhe era estranho; apesar de tentar resistir interiormente, a cada volta para casa ela era vítima desses inexplicáveis ataques de um medo insensato e ridículo. Vir para aqueles encontros era muito mais fácil. Mandava o carro parar na esquina, corria depressa, e sem erguer os olhos, aqueles poucos passos até o portão da casa, e subia rapidamente os degraus sabendo que ele já esperava lá dentro, atrás da porta que se abria depressa, e esse primeiro medo, no qual também ardia a impaciência, desfazia-se ardente no abraço que a saudava. Quando era o caso de voltar para casa, porém, subia como um calafrio esse horror misterioso, confusamente mesclado com o calafrio da culpa e aquela fantasia louca de que todo olhar estranho na rua haveria de ler nela de onde vinha, reagindo com um sorriso atrevido à sua perturbação. Até os últimos minutos perto dele eram envenenados pela crescente inquietação desse pressentimento; quando ia partir, suas mãos tremiam de pressa nervosa, escutava distraída as palavras dele, defendendo-se precipitadamente dos restos da paixão dele; sair, sair era o que tudo nela queria, sair do quarto dele, da casa, da aventura, voltando para o seu calmo mundo burguês.

Mal se atrevia a olhar-se no espelho, temendo a desconfiança em seu próprio olhar; mas era preciso averiguar se nada em suas roupas revelava, pela desarrumação, a paixão daquelas horas. Então vinham ainda as últimas palavras, inutilmente apaziguadoras, que, de nervosa, ela mal ouvia, e aquele segundo à escuta atrás da porta para ver se ninguém subia ou descia pela escada. Mas o medo já esperava do lado de fora, impaciente por agarrá-la, e inibia tão imperiosamente o pulsar de seu coração que descia ofegante os poucos degraus até sentir faltarem-lhe as forças que reunira nervosamente.

Por um minuto ficou assim, parada, de olhos fechados, respirando avidamente o frescor penumbroso do patamar. Então uma porta bateu num andar superior, ela se retesou, assustada, e, fechando melhor involuntariamente com as mãos o denso véu, desceu correndo os últimos degraus. Agora restava a ameaça daquele terrível e derradeiro instante, o horror de sair de um portão estranho para a rua, talvez enfrentando a pergunta importuna de algum conhecido que passava querendo saber de onde ela vinha, e a perturbação e o perigo de uma mentira: ela baixou a cabeça como o saltador que toma impulso, e correu com súbita determinação para o portão entreaberto. Lá se chocou duramente com uma mulher que obviamente queria entrar.

– Perdão – disse, constrangida, esforçando-se por passar depressa. Mas a criatura fechou-lhe o caminho da porta, encarando-a zangada e ao mesmo tempo com franco
sarcasmo:

– Finalmente consegui pegar você! – berrou ela sem se importar, com voz grosseira. – Naturalmente uma dessas que se dizem decentes! Não se contenta com um homem só e o dinheiro dele e todas essas coisas; precisa roubar também o amante de uma pobre moça...

– Pelo amor de Deus... o que é que a senhora... a senhora está enganada... – gaguejou Irene com uma desajeitada tentativa de escapar, mas a criatura fechava a porta com seu corpo maciço, gritando-lhe na cara em tom estridente:

– Não, não estou enganada... conheço você... esteve com meu namorado Eduard... agora finalmente eu a peguei, agora sei por que ultimamente ele tem tão pouco tempo para mim... Por sua causa, então... sua ordinária!

– Pelo amor de Deus – interrompeu Irene, tentando apaziguá-la –, não grite desse jeito.

E involuntariamente voltou para o vestíbulo. A mulher a encarava ironicamente. Aquele medo trêmulo, aquele visível desamparo parecia de alguma forma fazer-lhe bem, pois agora examinava sua vítima com um sorriso confiante e de zombeteira satisfação. Sua voz ficou mais calma e quase bonachona na sua vulgaridade.

– Então são assim as mulheres casadas, as nobres, as finas, que vão roubar os homens das outras. Com véu, naturalmente, com véu para depois poderem bancar as mulheres decentes...

– O que... o que quer de mim? Se nem a conheço... Tenho de ir agora...

– Tem de ir... sim, claro... para junto do senhor seu marido... bancar a fina dama na sua sala aquecida, e deixar que as criadas lhe tirem as roupas... Mas se a gente está batendo as botas de fome, damas finas como você não se interessam por esse tipo de coisa... E ainda roubam a última coisa que temos, essas damas decentes...

Irene endireitou-se e, seguindo um instinto vago, meteu a mão na bolsinha e pegou todas as notas que pôde apanhar.

– Tome aqui... mas agora me deixe... nunca mais volto aqui... Juro.

A criatura pegou o dinheiro com um olhar mau.

– Vagabunda – murmurou.

Irene estremeceu ouvindo a palavra, mas viu que a outra liberava a porta e precipitou-se para fora, ofegante e atordoada, como um suicida saltando de uma torre. Enquanto ela se afastava correndo, os rostos que passavam lhe pareciam máscaras contorcidas; abriu caminho com dificuldade até um táxi estacionado na esquina. Jogou-se no banco do carro como um saco informe, sentia-se rígida e imóvel interiormente; e, quando o motorista perguntou à passageira esquisita para onde queria ir, ela o fitou por um momento sem entender, até que seu cérebro abalado pôde finalmente assimilar as palavras dele.

– Para a estação sul – disse então, rapidamente, e, com a súbita idéia de que aquela criatura a podia estar seguindo, acrescentou: – Depressa, depressa, ande depressa!

Só durante o trajeto ela realmente sentiu o quanto aquele encontro atingira seu coração. Apalpou as próprias mãos, duras e frias como coisas mortas penduradas em seu corpo, e de repente começou a tremer tanto que chegava a sacudir-se. Algo amargo rastejava pela sua garganta acima, sentiu náuseas e ao mesmo tempo uma raiva obtusa e insensata querendo rasgar seu peito lá bem no fundo, como numa câimbra. Quis gritar ou bater com os punhos, libertar-se do horror daquela lembrança que se prendera em seu cérebro como gancho, aquele rosto desfeito com o riso sarcástico, aquele ar de vulgaridade que vinha com o hálito mau da proletária, a boca ordinária que cuspira cheia de ódio palavras vulgares na sua cara, e o punho erguido, vermelho, com o qual a ameaçara.

A sensação de náusea foi ficando cada vez mais intensa, o balanço do carro em disparada jogava-a de um lado para outro, quis pedir ao motorista que fosse um pouco mais devagar, quando lhe ocorreu, em tempo, que talvez não tivesse mais dinheiro suficiente, pois dera todas as notas à chantagista. Fez rapidamente sinal de parada e, com o motorista novamente espantado, desembarcou. Por sorte,o dinheiro que tinha sobrado dera para pagar a corrida até ali. Mas então se viu num bairro desconhecido, numa multidão de pessoas ocupadas que a magoavam fisicamente a cada palavra e olhar. E seus joelhos frouxos de medo a levavam com dificuldade, mas ela precisava ir para casa e, reunindo toda a sua energia, avançou de ruela em ruela com um esforço sobre-humano, como se chapinhasse num lodaçal ou na neve alta. Finalmente chegou em casa e subiu as escadas com uma pressa nervosa que logo controlou para que sua agitação não chamasse a atenção de ninguém.

Só agora, quando a criada lhe tirava o manto e quando ouviu no quarto ao lado seu filhinho brincando com a irmã menor, e seu olhar apaziguado abrangeu seus objetos, sua posse e seu abrigo, ela recuperou a aparência externa de controle, enquanto por baixo a onda de excitação ainda rolava dolorosamente no peito tenso. Tirou o véu, alisou o rosto com a determinação de parecer inocente e entrou na sala de jantar, onde o marido lia o jornal diante da mesa posta para a refeição da noite.

– Atrasada, atrasada, querida Irene – saudou ele com uma branda censura, levantou-se e beijou-a no rosto, o que lhe causou uma penosa sensação de vergonha. Sentaram-se à mesa e, indiferente, mal se desligando do jornal, ele perguntou:

– Onde andou tanto tempo?

– Eu estava... estava... com Amélia... que tinha coisas a fazer... e eu fui com ela – completou Irene, já irada pela maneira impensada com que mentira. Normalmente sempre se prevenia com alguma mentira cuidadosamente arquitetada que desafiasse todas as possibilidades de verificação, mas naquele dia o medo a fizera esquecer isso, forçando-a a uma improvisação desajeitada. E, de repente, pensou, e se o marido telefonasse para conferir, como vira acontecer numa peça de teatro a que assistira recentemente?

– Mas o que foi?... Você parece tão nervosa... e por que não tira o chapéu? – perguntou o marido. Ela sobressaltou-se, mais uma vez flagrada em seu constrangimento, levantou-se depressa, foi até o quarto para tirar o chapéu, e no espelho fitou seus próprios olhos inquietos até parecerem outra vez firmes e seguros. Depois voltou à sala de jantar.

A empregada veio com a refeição, e foi mais uma noite como todas as outras, talvez um pouco mais calada e menos animada do que habitualmente, uma noite com conversas pobres, cansadas, muitas vezes trôpegas. Os pensamentos dela retornavam incessantemente pelo caminho e sempre se assustavam quando chegavam àqueles minutos na horrenda presença da chantagista: ela erguia o olhar para sentir-se abrigada, tocava com ele ternamente cada um dos objetos espalhados pela sala segundo sua lembrança e importância, e uma leve tranqüilidade retornava. E o relógio na parede, varando o silêncio com seu confortável passo de aço, devolveu imperceptivelmente ao coração dela algo de seu próprio ritmo regular, seguro e despreocupado.

***

Na manhã seguinte, quando o marido estava no escritório e as crianças tinham ido passear, e ela finalmente ficou a sós consigo mesma, aquele encontro pavoroso, visto em retrospectiva na clara luz da manhã, perdeu muito do que tinha de assustador. Irene recordou que seu véu era muito denso e que aquela criatura não devia ter distinguido bem suas feições, nem as reconheceria.

Ponderou com calma todas as medidas a tomar para prevenir-se. De modo algum voltaria a procurar o amante na casa dele – e com isso certamente removia-se a mais provável causa de nova surpresa. Portanto, restava apenas o perigo de reencontrar a criatura por acaso, mas mesmo isso era improvável, pois partira de carro e a outra não a poderia ter seguido. Ela não sabia o nome nem o endereço de Irene e não havia por que temer qualquer outro modo de identificação, uma vez que seu rosto permanecera indistinto. Mas mesmo para esse caso extremo Irene estava preparada. Então, já livre do torno do medo que a apertara, decidiu que simplesmente manteria a calma, negando tudo, protestando friamente que era um engano, e, como era quase impossível obter prova daquela visita, eventualmente poderia acusar a criatura de chantagista.
Não era em vão que Irene era esposa de um dos mais famosos defensores do distrito; conhecia o suficiente das conversas dele com os colegas para saber que chantagens somente podiam ser eliminadas com atitude imediata e grande sangue-frio, porque cada hesitação, cada demonstração de inquietação por parte do perseguido apenas aumentaria a superioridade do adversário.

A primeira medida foi uma breve carta ao amante dizendo que não poderia ir ao seu encontro no outro dia, à hora marcada, nem nos dias seguintes. Relendo o bilhete em que pela primeira vez disfarçou sua letra, achou-o um tanto frio, e já queria substituir as palavras casuais por outras mais íntimas, quando se lembrou do dia anterior e da raiva a que inconscientemente atribuía à frieza daquelas linhas. Seu orgulho estava instigado pela penosa revelação de ter substituído nas graças do amante uma antecessora tão indigna e ordinária, e, analisando com raiva as palavras que escrevera, alegrou-se, vingativa, com a maneira fria com que de certa forma conferia às suas visitas uma espécie de aura de humor condescendente.

Conhecera o rapaz, um pianista famoso, num círculo ainda limitado, em uma reunião à noite, e pouco depois, sem querer direito e quase sem entender, tornara-se sua amante. Nada em seu sangue na verdade desejara o dele, nada sensual e pouca coisa emocional a ligara ao corpo dele: ela se entregara sem precisar dele, sem o desejar intensamente, por uma certa preguiça de resistir-lhe à vontade, e uma espécie de curiosidade inquieta. Nada nela, nem seu sangue plenamente satisfeito com a felicidade conjugal, nem a sensação tão freqüente em mulheres de que seus interesses emocionais estão morrendo à míngua, fizera-a sentir necessidade de um amante; ela era perfeitamente feliz junto de seu marido rico, intelectualmente superior a ela, com os dois filhos, aninhada e contente na calmaria de sua existência confortável. Mas existe um relaxamento da atmosfera que torna as pessoas tão sensuais quanto o calor ou a tempestade, um equilíbrio de felicidade que é mais excitante do que a desgraça, e para muitas mulheres a ausência de desejos é tão funesta quanto uma insatisfação duradoura é funesta pela falta de esperança. A saciedade não excita menos do que a fome, e a sua vida segura e protegida a deixava curiosa por aventuras. Em parte alguma de sua vida havia resistências.

Onde quer que pusesse a mão, pegava em algo macio; estava cercada de cuidados, carinho, amor morno e respeito doméstico, e, sem adivinhar que essa existência comedida nunca é determinada por coisas exteriores, mas é sempre, apenas, reflexo de um isolamento interior, ela de alguma forma sentia que esse conforto lhe roubava algo da vida real.

Agora que se aproximava dos trinta anos, voltavam a despertar seus vagos sonhos de mocinha com o grande amor e o êxtase da emoção, adormecidos pelo amigável apaziguamento dos primeiros anos de casada e pelo alegre encantamento da maternidade, e, como qualquer mulher, ela se julgava capaz de uma grande paixão sem a coragem de a experimentar, nem de pagar pela aventura seu verdadeiro preço, o perigo. Quando, num desses momentos de uma satisfação que ela própria não conseguia aumentar, aquele jovem se aproximara dela com desejo intenso e indisfarçado e, rodeado pelo romantismo da arte, entrara no seu mundo burguês, onde habitualmente os homens festejavam a "bela mulher" que ela era apenas com brincadeiras sem graça e pequenas coqueterias, sem jamais desejarem a sério a fêmea que havia nela, pela primeira vez desde seus tempos de mocinha Irene se sentiu intimamente excitada.

Talvez nada a atraísse na maneira dele além de uma sombra de melancolia que pairava sobre seu rosto quem sabe um pouco interessante demais,e daquela postura melancólica com a qual ele atacava um (bem ensaiado) impromptu. Para ela, que se sentia rodeada apenas de pessoas saciadas e burguesas, havia nessa tristeza uma antevisão do mundo mais elevado que aparecia colorido nos livros e que se movia, romântico, nas peças de teatro, e involuntariamente ela se debruçou sobre a beirada de seus sentimentos cotidianos para contemplá-lo. Um elogio talvez mais ardente do que seria adequado, num segundo de arrebatamento, fez com que ele erguesse os olhos do piano para a mulher e já esse primeiro olhar a assediou.

Ela assustou-se e sentiu ao mesmo tempo a sensualidade de todo o medo: um diálogo, no qual tudo parecia iluminado e aquecido por chamas subterrâneas, ocupou e excitou muito a sua curiosidade já animada, tanto que não fugiu de outro encontro num concerto público. Depois viram-se mais vezes, e em breve não era apenas por acaso. A vaidade por sentir que ela, até ali dando pouco valor a seus próprios julgamentos musicais, e com razão negando qualquer importância ao seu senso artístico, pudesse ser a que compreendia e aconselhava o verdadeiro artista – o que ele afirmou várias vezes – fez com que poucas semanas depois ela confiasse precipitadamente na sugestão dele de querer tocar sua mais nova composição para ela, e só para ela, em sua própria casa – promessa que talvez na intenção dele fosse mais ou menos sincera, mas que sucumbiu entre os beijos e por fim na surpresa da entrega dela.

Sua primeira sensação foi de susto com aquela inesperada mudança para o sensual, o calafrio misterioso que envolvia essa relação logo se rompeu, e a culpa por aquele adultério não-desejado só se acalmou em parte pela vaidade que lhe fazia cócegas, porque pela primeira vez, como pensava, por decisão própria, desafiava o mundo burguês em que vivia. O calafrio de sua primeira ação má, que nos primeiros dias a assustava, transformou sua vaidade em orgulho. Mas também essas excitações misteriosas só eram plenas nos primeiros momentos. No fundo, seu instinto se revoltava contra aquele homem e sobretudo contra o novo que havia nele, o diferente, aquilo que na verdade seduzira a sua curiosidade. A extravagância das roupas, o jeito cigano de sua moradia, sua vida financeira desregrada sempre oscilando entre esbanjamento e constrangimento eram antipáticos aos seus sentimentos burgueses; como a maioria das mulheres, ela queria o artista de um modo muito romântico, de longe, num convívio muito cortês, um cintilante animal de rapina, mas atrás das grades de ferro da moral. A paixão que a embriagava quando ele estava tocando inquietava-a quando ele estava fisicamente perto; na verdade ela não queria esses abraços súbitos e imperiosos, cuja desconsideração egoísta sem querer comparava com o ardor do marido, que depois de todos aqueles anos ainda era tímido e cheio de veneração. Mas agora que a traição fora cometida sempre voltava a ele, nem feliz nem decepcionada, mas por certa sensação de dever e pela indolência do hábito. Era uma dessas mulheres, comuns mesmo entre as levianas e até as prostitutas, cuja concepção burguesa de vida é tão forte que até no adultério colocam uma ordem, e no excesso uma espécie de domesticidade, buscando revestir os mais estranhos sentimentos com a máscara paciente do cotidiano. Em poucas semanas ela colocou seu jovem amante num lugar ordenado de sua vida, destinou-lhe como a seus sogros um dia da semana, e com essa nova relação não renunciava a nada de sua ordem antiga, apenas acrescentava algo à sua vida. Em breve esse amante já não alterava o confortável mecanismo de sua existência, tornando-se uma excrescência da sua equilibrada felicidade, como um terceiro filho ou um automóvel, e em breve a aventura lhe pareceu tão banal quanto um prazer permitido. Mas da primeira vez em que teve de pagar pela aventura o seu verdadeiro preço, o perigo, começou a calcular de maneira mesquinha o seu valor. Mimada pelo destino, acarinhada pela família, quase sem ter o que desejar por causa das condições financeiras favoráveis, o primeiro desconforto já parecia excessivo à sua sensibilidade. Imediatamente recusou-se a ceder algo de sua despreocupação espiritual, e na verdade estava disposta a sacrificar, sem refletir, o amante à comodidade.

A resposta dele, uma carta assustada, nervosa e repleta de hesitações, que um mensageiro trouxera na mesma tarde, uma carta que suplicava, perturbada, queixava-se e acusava, abalou outra vez sua decisão de terminar com a aventura, pois a avidez dele lisonjeava sua vaidade, o desespero dele a deixava encantada. O amante insistia em pelo menos um breve encontro para tentar esclarecer sua culpa caso a tivesse ofendido sem saber, e esse novo jogo fez com que quisesse continuar fazendo-se de ofendida, tornando-se ainda mais desejável pela recusa. Agora estava mergulhada em algo excitante, e isso, como a todas as pessoas interiormente frias, fazia-lhe bem, essa sensação de estar rodeada pelo incêndio da paixão, mas sem arder. Então convidou-o a uma confeitaria, da qual de repente se lembrou, pois quando mocinha tivera lá um encontro com um ator, encontro que agora lhe parecia infantil por ter sido tão respeitoso e superficial. Estranho, sorriu de si para si, que o romantismo começasse a florir de novo em sua vida agora, depois de ter murchado em todos os anos de seu casamento. E já quase se alegrava intimamente pelo encontro com aquela mulher vulgar do dia anterior, que lhe causara de novo uma emoção real, tão forte e estimulante que seus nervos habitualmente relaxados ainda vibravam subterraneamente.

Desta vez pegou um vestido escuro e pouco chamativo e outro chapéu, para confundir a memória da criatura, caso a encontrasse. Tinha o véu preparado para dissimular-se, mas num súbito ímpeto desafiador deixou-o de lado. Acaso ela, uma mulher respeitada, deveria ter medo de sair à rua por receio de uma pessoa que nem conhecia? E já ao medo do perigo se misturava uma instigante, estranha atração, um prazer belicoso e perigosamente excitante parecido com o de quem sente nos dedos a fria lâmina de um punhal ou fita a boca do cano de um revólver em cujo ventre negro se instalou a morte, comprimida.

Nesse calafrio de aventura havia algo inusitado em sua vida protegida que a atraía como num jogo, uma sensação que agora esticava maravilhosamente seus nervos, fazendo correr faíscas elétricas em seu sangue. Um medo breve perpassou-a só no primeiro momento em que saiu à rua; um calafrio nervoso e gelado como quando colocamos a ponta do pé na água para ver sua temperatura antes de nos entregarmos às ondas. Mas esse frio a atingiu apenas um momento; depois, de repente, rumorejava nela uma rara alegria de viver, o prazer de estar caminhando com um passo firme, elástico e tenso que nem conhecia. Quase lhe deu pena que a confeitaria ficasse tão perto, pois agora a vontade era prosseguir ritmicamente na magnética e misteriosa sensação de aventura.

Mas o tempo que destinara àquele encontro era curto, e uma agradável impressão de segurança lhe dizia que o amante já esperava por ela. Estava sentado a um canto quando ela entrou, e levantou-se de um salto, com uma excitação que lhe foi a um tempo agradável e penosa. Teve de pedir-lhe que falasse mais baixo, tão ardentemente brotava do tumulto da excitação dele um redemoinho de perguntas e acusações. Sem mencionar o verdadeiro motivo de sua ausência, ela brincou com alusões que o instigaram ainda mais por serem imprecisas. Desta vez permaneceu inalcançável aos desejos dele, e hesitou até mesmo em fazer-lhe promessas, porque sentia o quanto o instigavam essa recusa e fuga repentinas... E quando depois de meia hora de diálogo acalorado, ela o deixou sem pelo menos lhe dar ou prometer alguma carícia, ardia internamente numa sensação muito singular, que só conhecera em mocinha.

Era como se uma chamazinha crepitando brilhasse bem no fundo e só aguardasse o vento soprar para o fogo se fechar sobre sua cabeça. Levava consigo, ao passar rapidamente, cada olhar que lhe lançavam na ruela, e o inesperado sucesso representado por muitos desses apelos masculinos de repente atiçou de tal maneira a curiosidade por seu próprio rosto que parou diante do espelho da vitrine de uma florista para contemplar sua própria beleza na moldura de rosas vermelhas e violetas cintilantes de orvalho. Encarou-se com olhar faiscante, leve e jovem, uma boca sensualmente entreaberta sorria-lhe satisfeita, e sentia o corpo alado quando continuou a andar; o anseio por algo que lhe descarregasse a tensão física, dança ou tumulto, desfez o ritmo habitualmente comedido de seu caminhar, e só a contragosto escutou da igreja de São Miguel, pela qual passava rapidamente, o toque da hora chamando-a para casa, para o seu estreito mundo ordenado.

Desde seus dias de jovenzinha não se sentia tão leve, sentidos tão agitados, pois nem os primeiros dias do casamento nem os abraços do amante tinham espicaçado tanto seu corpo, e era intolerável a idéia de já agora desperdiçar em horas regradas toda essa singular leveza, essa doce embriaguez do sangue. Parou mais uma vez, hesitante, na frente de sua casa, respirando com peito amplo esse ar quente, a perturbação dessa hora, para sentir bem fundo no coração essa última onda de aventura, que já morria.

Então alguém lhe tocou o ombro. Ela se virou.

– O que... o que é que você quer outra vez? – gaguejou mortalmente assustada, pois de repente via aquele rosto odiado, e assustou-se ainda mais ouvindo-se dizer aquelas palavras funestas. Tomara o propósito de não reconhecer mais aquela mulher se alguma vez se encontrassem, de negar tudo, enfrentando cara a cara a chantagista...

E agora era tarde demais.

– Estou esperando há meia hora, senhora Wagner.

Irene estremeceu ouvindo o seu nome. A criatura sabia seu nome, seu endereço. Agora tudo estava perdido, entregue sem salvação nas mãos da outra. Tinha nos lábios as palavras cuidadosamente preparadas e calculadas, mas sua língua estava paralisada e sem forças para emitir um som.

– Faz meia hora que estou esperando, senhora Wagner.

A criatura repetiu as palavras, ameaçadoras como uma acusação.

– O que quer... o que quer de mim...

– A senhora sabe, senhora Wagner. – Irene estremeceu de novo ouvindo seu nome. – Sabe muito bem por que estou aqui.

– Eu nunca mais me encontrei com ele... agora me deixe... nunca mais o verei... nunca...

A criatura esperou calmamente, até que, nervosa, Irene não conseguiu mais falar. Então disse, grosseira como se falasse com um subalterno:

– Não minta! Eu a segui até a confeitaria... – e, vendo Irene recuar, acrescentou, sarcástica: – Afinal eu não tenho compromissos. Fui despedida da loja por falta de trabalho, segundo disseram, e porque os tempos estão ruins. Bom, então gente como nós aproveita para também passear um pouco... como as mulheres decentes.

Disse isso com uma maldade fria que perfurou o coração de Irene. Ela se sentia desamparada diante da brutalidade dessa pessoa vulgar, e sentia cada vez mais medo de que a criatura falasse alto e seu marido passasse por ali, pois então tudo estaria perdido. Rapidamente apalpou dentro do seu regalo, abriu a bolsa de prata e tirou todo o dinheiro que seus dedos conseguiram agarrar.

Meteu-o com nojo na mão insolente que já se estendia devagar, certa do lucro.
Mas dessa vez a mão insolente não se recolheu assim que sentiu o dinheiro, humilde como da outra vez, mas ficou hirta no ar, aberta como garras.

domingo, 11 de outubro de 2009

O Homem Cordial

Considerações sobre O Homem Cordial, de Sérgio Buarque de Holanda e A Teoria do Medalhão, de Machado de Assis

Éder Silveira*

E esta é a pior hipocrisia que entre eles encontrei: que também

os que mandam simulam as virtudes dos que servem.

"Eu sirvo, tu serves, ele serve"- assim reza, aqui também, a

hipocrisia dos dominantes – e ai, quando o primeiro

senhor é somente o primeiro servidor.

Friedrich Nietzsche (2000: 205)

Resumo
Neste artigo busca-se problematizar alguns aspectos atinentes a duas construções de identidade do ser brasileiro, através de um estudo comparativo entre a concepção de "Medalhão", expressa no conto do escritor carioca Machado de Assis (1839-1908), A Teoria do Medalhão, e aquela de "Homem Cordial", desenvolvido pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) na obra Raízes do Brasil.
Palavras-chave: Literatura brasileira, historiografia brasileira, identidade nacional.

A busca da psique

Dado enfatizado por diversos comentadores [1] da obra do historiador paulista Sérgio Buarque de Holanda: um dos principais objetivos de Raízes do Brasil era delinear uma 'psicologia' do povo brasileiro, em algumas de suas principais nuances. Da mesma forma, Machado de Assis, em vários momentos de sua obra, recorreu à sensibilidade de zonas mais sombrias da cultura brasileira para detectar sentimentos e formas da "psique" do brasileiro. Acaso de encontro entre a história do Brasil e sua literatura em diferentes gerações? Parece a constatação, em diferentes tempos, de uma certa ética que se forma na maneira de ser destas gentes debaixo da linha do Equador. Não um acaso histórico; ocaso civilizatório, talvez.

Controvertido e polêmico conceito, a noção de homem cordial merece, de antemão, esclarecimentos. Mas antes, lançar-se-á mão de uma parábola. Diz-se que um velho funcionário público carioca, ante a mínima menção à literatura brasileira, teimosamente afirmava a superioridade de Lima Barreto sobre Machado de Assis. Acintosamente desafiava quem dissesse o contrário, disparando que somente um débil, um estúpido, não reconheceria a superioridade de Lima sobre Machado, o qual cobria de impropérios, bem como aquele que ousasse defendê-lo, por mais discreta que fosse essa defesa. Os anos passaram, o funcionário público cada vez mais se indispunha com as pessoas que o rodeavam e cada vez mais se isolava. Diz-se que as suas últimas palavras, à beira da morte, doente e cansado, foram uma espécie de murmúrio, dizendo algo como: que Lima é maior que Machado; ninguém duvida,... no entanto, não li nenhum dos dois... (MERQUIOR.1990: 343)

Essa negação a priori e radical da noção de Homem Cordial creio partir de uma postura similar à do rabugento funcionário público quanto à dicotomia Machado/Lima. Se por bom tempo os ensaístas brasileiros, principalmente a "geração" de 1930, foram tomados como "criadores de mitos", verifica-se que o os anos 90, com a quebra dos paradigmas rigidamente científicos, fez com que a academia passasse a olhar com mais simpatia para a intuição e brilho das análises desses ensaístas. Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Paulo Prado, para citar apenas alguns, são todos atualmente relidos, no mais das vezes com um olhar mais generoso do que o de outrora, quando uma geração de intelectuais radicados majoritariamente na USP [2] buscou "enterrar" esses autores, alguns com mais intensidade (G. Freyre, Paulo Prado), outros com certos cuidados (Sérgio Buarque).

Mas, buscando entrar na discussão mais diretamente, onde está o cerne da noção de homem cordial? Sérgio Buarque afirma de antemão, buscando evitar más compreensões: a referida "cordialidade" não se trata, necessariamente, de um referência direta ao significado literal da expressão. Na realidade, ao referir-se à cordialidade, Sérgio Buarque busca enfatizar uma característica marcante do modo de ser do brasileiro, segundo sua lupa: a dificuldade de cumprir os ritos sociais que sejam rigidamente formais e não pessoais e afetivos e de separar, a partir de uma racionalização destes espaços, o público e o privado. Mais do que uma espécie de indivíduo, a cordialidade perpassa, em maior ou menor escala, a todos os atores sociais no Brasil. Afirma Buarque de Holanda:

A lhaneza no trato, a hospitalidade, e generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar "boas maneiras", civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo – ela pode exprimir-se em mandamentos e sentenças.(HOLANDA. 1999: 141)

Consiste, então, a cordialidade dos gestos largos, deste espírito aparentemente folgazão, que têm como marca o uso exagerado dos diminutivos, visando, justamente, a quebra da formalidade da relação que deve estar se estabelecendo, para que esta passe a se tornar uma relação de "amigos", para que passe a imperar a máxima, dito popular que se torna regra de conduta e 'verdade' sociológica: "Aos inimigos, a lei; aos amigos, tudo!" (DAMATTA.1997: 24) Quer dizer, é preciso dominar as regras do trânsito facilitado pelas esferas do poder, que se estabelecem, por laços pessoais, em microrelações que se desdobram ad infinitum. Uma vez quebrada a formalidade, a relação assume sua proximidade e dá vazão aos necessários desdobramentos de uma relação de "amigos". Por isso, por exemplo, pôde assinalar Buarque de Holanda o fato de pertencer "À mesma ordem de manifestações certamente a tendência para a omissão do nome de família no tratamento social." (HOLANDA. 1999)

Logo, pode-se dizer que toda esta parafernália de sentidos, de aparências e de minúcias presentes diariamente nas relações pessoais/públicas, trata-se apenas de aparente gentileza e afetuosidade, sendo, efetivamente, uma cápsula protetora, uma estratégia tanto de ascensão quando de "sobrevivência" em sociedade. Todas essas questões acerca da cordialidade explicitam a essência, da cordialidade; uma norma de conduta estruturante, sendo que não há um homem cordial, pois, em maior ou menor escala, todos brasileiros são cordiais.

Tal forma de identidade faz com que Sérgio veja este indivíduo como uma figura diluída na massa. Buscar-se-á em Nietzsche, seguindo a pista deixada pelo próprio Sérgio, a caracterização desse indivíduo. Ao afirmar que: "Mais antigo é o prazer pelo rebanho do que o prazer pelo eu; e, enquanto a boa consciência se chama rebanho, somente a má consciência diz: 'Eu'."(NIETZSCHE. 2000: 86) Quer dizer, esta crítica ao ideal cristão do amor ao próximo é também uma crítica à forma através da qual manifesta-se a individualidade, pois, como afirma Ernani Chaves, "evidencia-se portanto, para Nietzsche, a ambivalência do 'amor ao próximo', na medida em que ele nada mais seria, em princípio, do que a forma socialmente aceitável para que o "eu" pudesse se manifestar." (CHAVES. 2000: 54) Assim, este homem cujos movimentos na sociedade estão condicionados a relações sobre as quais ele deixa de ter pleno controle, pois são partilhadas, meticulosamente tramadas como os laços de uma rede, faz com que ele se desindividualize, passando a não ser socialmente um, mas vários, pois todas as suas relações são definidas a partir de trocas e de susceptibilidades que não podem ser feridas. Talvez por isso, no Brasil, como já acentuou Da Matta, seja impossível negar uma gentileza a um 'amigo'.

Por essa impossibilidade de afirmar-se por suas próprias forças como indivíduo, passa, em meio a esta teia de relações "a viver nos outros" (HOLANDA. 2000: 147). Noção esta que têm outras implicações, como o gosto pelo perdulário, pelo saber meramente "bacharelesco" e de adorno, povoado pelas máximas e frases de efeito, em uma relação "esquizofrênica", que em muito remete ao conto d'O Espelho, de Machado de Assis, em que, sem sua trupe de bajuladores, o velho alferes não podia se reconhecer, não podia ver sua imagem refletida no espelho, pois ela existia apenas na medida em que era sustentada pela horda que o rodeava. Ou seja, voltando a Nietzsche "Não vos suportais a vós mesmos e não vos amais bastante: então, quereis induzir o próximo a amar-vos, para vos dourardes com seu erro."(NIETZSCHE. 2000: 87)

Culto aos símbolos e estratégias

Para compreender-se melhor os aspectos referentes às estratégias de ascensão social permeadas pela cordialidade, buscar-se-á introduzir na discussão o conto de Machado de Assis. Em "A Teoria do Medalhão", presente na coletânea de contos Papéis Avulsos, lançada em outubro de 1882, Machado de Assis imagina um diálogo entre pai e filho, no dia do aniversário deste último, que estaria completando 21 anos. Desta forma, o primeiro ponto sobre o qual busca-se lançar luzes é a idéia de rito de passagem. Assim como o personagem-autor de O Ateneu, que, na primeira frase do referido romance assevera: "Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta."(POMPÉIA. 1997:11). Assim, Pompéia marca o sentimento da passagem do protegido mundo do interior dos sobrados para o mundo exterior, onde o menino de onze anos precisaria de coragem para enfrentar todas as agruras que o destino certamente este lhe reservaria.

O conto machadiano, por seu turno, retrata o momento do ingresso do filho na maioridade, para o qual o pai busca dar-lhe os conselhos certos, estimando que este possa vencer na vida, com galhardia e rasgo. Mas vê-se no conto de Machado de Assis, em uma sutileza, a marca das águas que se dividem neste momento de passagem ao mundo dos "homens". Ante um comentário do pai, em tom memorial, em que frisa lembrar-se bem do dia em que o filho nasceu, e hoje o vê homem feito, de "bigodes e namoros", o filho replica com um tratamento um tanto açucarado: "papai...." sendo que o pai lhe responde imediatamente: "Não te ponhas com denguices e falemos como dous amigos sérios."(ASSIS. 1997: 65) Além disto acentuar a importância dada pelo progenitor ao assunto, mostra que esta conversa era, como tanto ouve-se no dia-a-dia, nas máximas populares, de homem para homem. É mister observar que o tom das intervenções de Janjão, a partir deste momento se altera. Passa a tratar sempre seu pai como "Senhor".

Passa então a se desenrolar a conversa. O pai passa a examinar o que possivelmente o futuro reserva ao filho. Vislumbra uma série de possibilidades de carreira profissional, todas abertas diante do rebento: "Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti." Mesmo percebendo que várias são as possibilidades de carreira que o filho dispõe, o único desejo verdadeiro do pai é que este se "faça grande e ilustre" ou, pelo menos "notável". Aspira que o filho se erga "acima da obscuridade comum." (ASSIS. 1997: 65) A questão centra-se não em vocações, mas em posição social.

A crítica endereçada por Machado de Assis nesta passagem deixou poucos homens públicos do Séc. XIX impunes. O bacharelismo [3] grassava nos mais variados campos da vida social brasileira, onde raramente alguém seguia uma carreira de acordo com sua formação acadêmica. O título era uma chave, que além de servir para abrir as portas para a ascensão social, era usada largamente para compor a figura do medalhão. Como assevera Sérgio Buarque de Holanda, visando pontuar a presença de resquícios senhoriais nesta valorização do título: "Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais, como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza."(HOLANDA. 1999: 83). Além disso, é preciosa a interpretação de Buarque de Holanda do fato acusado por Machado de Assis em Teoria do Medalhão, quando o historiador paulista afirma que

...as atividades profissionais são, aqui, meros acidentes na vida dos indivíduos, ao oposto do que sucede entre outros povos, onde as próprias palavras que indicam semelhantes atividades podem adquirir acento quase religioso. Ainda hoje são raros, no Brasil, os médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, professores, funcionários, que se limitem a ser homens de sua profissão. (HOLANDA. 1999: 156)

Sendo o sonho do pai ver o filho tornar-se aquilo que não foi, ele passa a aconselhá-lo passo a passo sobre as minúcias desta fórmula mágica: como tornar-se um medalhão. O fato de ser uma conversa de pai para filho remete, imediatamente, para um momento de Raízes do Brasil, em que Sérgio Buarque menciona a dificuldade de romper-se com a imbricação entre público e privado no Brasil atendo-se a comentários sobre a educação dos filhos. Afirma o historiador paulista que esse tipo ambiente familiar, pintado com tanta maestria por Machado de Assis, voltado para a criação de um microcosmo ao mesmo tempo superprotetor e deformador de personalidades, acaba circunscrevendo "os horizontes da criança dentro da paisagem doméstica", formando assim uma verdadeira escola de "inadaptados e até de psicopatas"(HOLANDA. 1999: 145)

A primeira prevenção do pai é afastar o filho das idéias e de toda e qualquer manifestação de originalidade. Diante da afirmação peremptória do pai de que deveria sofrear com todas as forças as 'idéias', o filho expõe sua aflição, pois esta parece-lhe uma tarefa difícil. Mas o pai tranqüiliza-o, há uma forma de deter a erupção das idéias: matá-las. Para isto, o filho deve "lançar mão de um regímen debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. "(ASSIS. 1997: 68) Sugere-lhe, igualmente, embrenhar-se caminhando entre as pessoas, para que possa saber como todos pensam. Porém, adverte para que se afaste da solidão, que é solo fértil para o aparecimento das idéias, bem como das livrarias. Porém, quanto a estas, há exceções. Passagens por livrarias podem ser importantes para a formação do medalhão, porém nunca "às ocultas", mas sempre "às escâncaras"(ASSIS. 1997: 68). Pois o objetivo destas idas, eventuais e espalhafatosas, não é a busca pelos livros, mas sim uma conversa, deve ir...

...ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer cousa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores das belas crônicas de Mazade; 75 por cento destes estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. (ASSIS. 1997: 69)

Ou seja, eis aí a caracterização do típico bacharel que ocupará cargos como funcionário público, visto em Raízes do Brasil por Sérgio Buarque com muitos dos traços os quais o pai roga ao filho. Agarrados ao símbolo, ao título que confere distinção, raramente passaram estes letrados de ventrílocos. "ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organização e coisas práticas" afirma Buarque de Holanda, "os nossos homens de idéias eram, em geral, homens de palavras e livros; não saíam de si mesmos..." (HOLANDA. 1999: 163) Eram os beletristas, portadores de títulos que nada além de posição social lhe conferiam, pois, certificavam um conhecimento que não era real, antes fruto de um amor bizantino aos livros, que eram pouco mais que um adorno nas paredes dos sobrados.

Existe também nestas passagens da "Teoria do Medalhão uma crítica endereçada por Machado de Assis, sempre de forma sutil, ao personalismo dos polemistas da época, alguns dos quais, ainda que em vão, buscaram desafiá-lo. Roberto Ventura, em Estilo Tropical, ao analisar a polêmica entre Silvio Romero e Machado de Assis, verificou que, a partir de 1875, Machado passa a progressivamente se afastar da crítica literária, evitado envolver-se em disputas. Todavia, a ponderação de Ventura torna-se ainda mais atraente na medida em que este ventila a possibilidade de, por um lado Machado de Assis realmente estar assumindo uma posição blasé em relação à bile e ao personalismo de contumazes polemistas, como Silvio Romero e, por outro, buscando "evitar inimizades que pudessem dificultar sua ascensão social e literária", além de, é claro, refletir-se em um já bastante acentuado ceticismo de sua parte quanto às possibilidades e à eficácia da intervenção social e cultural.(VENTURA. 2000: 105)

Ironia e chalaça

Justamente sobre o humor reside uma das mais pungentes recomendações expressas pelo pai zeloso a seu filho, para que este seja mestre em pensar o pensado, em repetir com garbo o ululante, enfim, para que se torne um medalhão: os cuidados com o riso. O filho, preocupado com qual deveria ser a sua atitude ante a vida e diante das pessoas que o rodeiam, pergunta ao pai:

Também ao riso?
Como ao riso?
- Ficar sério, muito sério...
- Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico." (ASSIS: 1997: 74)

Porém eis aí um dado importante a ser realçado. Diante do impasse do filho sobre o riso, o pai imediatamente afirma que ele não precisa ser grave a todo momento, porém chama-lhe atenção para um cuidado importante que o filho deve ter ao rir. Que este riso venha aberto, espontâneo e despreocupado, que venha sob forma de chalaça, "a nossa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus..." O filho poderia, seguramente, lançar mão dela, mas nunca da ironia [4] , desta ele deveria se afastar sem pestanejar, pois a ironia, "esse movimento ao canto da boca, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados." (ASSIS. 1997: 74)

Ou seja, deve ser o Medalhão, como descrito por Machado de Assis, cordial. Deve saber habilmente ser bem quisto por aqueles que o rodeiam, homem de inteligência tacanha, não agredindo ninguém por suas idéias, não mantendo nenhuma posição política firme, nem mesmo uma posição filosófica, aliás, da filosofia interessava apenas os discursos metafísicos e incorpóreos, sem preocupações verdadeiras e palpáveis, além de suas próprias estratégias e relações para que possa ter uma profissão para a velhice. (ASSIS. 1997: 63)

Porém, a esta altura da argumentação, cumpre diferenciar pontualmente os conceitos com os quais se joga. Como afirmado acima, deve o medalhão, segundo Machado de Assis, saber com precisão usar da simpatia e da cordialidade, da "nossa" chalaça amiga, quer dizer, usar-se habilmente da cordialidade, inata ao 'caráter' nacional. É interessante perceber como este 'diálogo-receita' se trata da exposição minuciosa pelo pai de uma estratégia de ascensão social recomendada ao filho, que, como é possível perceber, imbrica-se e principalmente alimenta-se deste escudo socialmente aceito no Brasil e próprio, segundo o autor de Raízes do Brasil, aos brasileiros: a cordialidade, ou lançando mão de uma expressão de Antônio Candido, da "mentalidade cordial"; que se trata de uma forma espontânea de manifestação própria ao temperamento do brasileiro, mui habilmente canalizada pelo progenitor para servir como veículo de navegação social no conto machadiano. A espontaneidade da cordialidade é explicitada por Sérgio Buarque quando este afirma que:

Ela (a polidez) pode iludir na aparência – e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no "homem cordial" : é a forma natural e viva que se converteu em fórmula. Além disso, a polidez é, de algum modo, organização de defesa ante a sociedade.(HOLANDA. 1999: 147)

Como a leitura paralela de Machado de Assis e Sérgio Buarque aponta, este jogo de sociabilidade têm suas regras, forma uma espécie de circulo vicioso. Em Raízes do Brasil, seu autor busca, dado o olhar negativo que lança sobre estes fenômenos, propor uma saída para este dilema, a qual interessará, a seguir, ser compreendida, "temperando" a discussão com alguns diálogos políticos presentes em Machado de Assis.

A moral das senzalas e a razão utópica

Dado pouco enfatizado sobre Raízes do Brasil, obscurecido em grande parte pela análise tipológica weberiana [5] , é o apelo político que fecha a obra, em tom quase didático, buscando alinhar os próximos passos em busca de um saneamento deste personalismo e desta falta de ordenação e racionalização quanto à gestão da res publica, que não consegue desligar-se destes vícios senhoriais, frutos, na análise de Buarque de Holanda, dos resquícios daquilo que ele irá chamar de moral das senzalas, que consiste em uma avaliação do quanto a formação, ao longo da maior parte da História do Brasil, de uma sociedade patriarcal e escravocrata foi contaminada por um sem número de vícios.

Sinuosa até na violência, negadora das virtudes sociais, contemporizadora e narcotizante de qualquer energia realmente produtiva, a "moral das senzalas" veio a imperar na administração, na economia e nas crenças religiosas dos homens do tempo. A própria criação do mundo teria sido entendida por eles como uma espécie de abandono, um languescimento de Deus. (HOLANDA. 1999: 62)

São estas marcas profundas de segregação e do fortalecimento do desprezo ao trabalho manual no imaginário nacional que se convertem no dilema apontado por Buarque de Holanda. Arrastando-se desde o começo da formação do Brasil, esta instituição tratou de contaminar sobremaneira a forma mentis nacional, viciando-a de uma forma tal em preconceitos e à uma ética peculiar. Nesta relação entre os proprietários de escravos e seus cativos, não há necessariamente uma vitória por parte dos senhores, uma vez que saem desta relação impuros, pois o mundo que criaram pela dominação também os dominou, tornando-os uma casta de inadaptados aos novos processos sociais, como o da urbanização rápida e progressiva, que acabou rendendo-lhes a imagem que os eternizou na arte, a do sinhozinho boçal que sobrevive apenas pela força dos seus jagunços e de suas sórdidas jogadas políticas.

Obviamente não há, em nenhum momento, a pretensão de afirmar nem mesmo sugerir que sejam os índios e negros os culpados por esta 'moral', contaminando os senhores de engenho luso-descedentes. A rigor, e esta afirmação pode ser buscada em Sérgio Buarque, foram estes antigos senhores de engenho carrascos e vítimas de uma lógica que lhes é mais própria do que aos demais povos, pois "é curioso notar como algumas características ordinariamente atribuídas aos nossos indígenas e que os fazem menos compatíveis com a condição servil – sua 'ociosidade', sua aversão a todo esforço disciplinado, sua 'imprevidência', sua 'intemperança'", antes de serem características próprias aos povos indígenas, "ajustam-se de forma bem precisa aos tradicionais padrões de vida das classes nobres." (HOLANDA. 1999: 62)

Ante a constatação da sociedade brasileira posta nestes termos, vítima de uma estrutura arcaica, que segundo Sérgio Buarque é a culpa maior de sua "insuficiente modernidade", busca o autor uma saída para esta situação, vista por ele na radical ruptura com a tradição [6] . Se o núcleo da tese de Sérgio Buarque está justamente na argumentação deste de que a maior parte dos problemas nacionais assenta-se nos resquícios senhoriais e nas antigas tradições luso-brasileiras que em grande parte ainda imperam na organização e imbricação do público e do privado, como busca Sérgio Buarque romper com esta lógica, no fechamento de Raízes do Brasil? Segundo o autor:

Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, antes as leis da Cidade. Há neste fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo e não uma depuração sucessiva, uma espiritualização de formas mais naturais e rudimentares, uma procissão de hipóstases, pra falar como na filosofia alexandrina.(HOLANDA. 1999: 141)

Seria este o ideal de construção da República, a partir da idéia de que se deveria respeitar os limites entre o público e o privado, racionalizando assim as atividades administrativas da máquina burocrática. Entretanto, o fato com o qual Buarque de Holanda se depara no Brasil é com um languescimento das formas institucionais, que não chega a separar de forma estanque, na prática, o público do privado, sendo, justamente, a esta frouxidão dos laços institucionais que se dirige sua crítica à lógica que organiza as relações entre as esferas pública e privada. Uma vez que a imbricação entre elas seja total e/ou ao menos crescente, passam a dominar as relações pessoais, o cumpadrio, o "jeitinho" e a troca de favorecimentos, tornando impossível a realização do processo de racionalização que deveria dar origem ao Estado de Direitos, ao invés do Estado de Privilégios. No entanto, parece importante apontar para o caráter híbrido deste Estado; nominalmente, secular, racionalizado e de Direito, todavia, formando um sistema entendido pelo autor como imperfeito, onde, pelas suas ranhuras, escorrem privilégios e vantagens para os grupos que se colocam estrategicamente em relação a este.

Sérgio Buarque de Holanda constata nossa incapacidade de fazer uma ruptura radical, afirmando que não desejamos "o prestígio de país conquistador e detestamos notoriamente as soluções violentas", po isso buscamos "ser o povo mais brando e o mais comportado do mundo." (HOLANDA. 1999: 177) Nossas saídas políticas são pacíficas, negociadas, sendo, para Sérgio Buarque de Holanda, a abolição da escravatura a nossa única revolução social, sabidamente mansa e calma. Se isto tem certa positividade, pois nos leva, por exemplo, a ser um dos primeiros países a abolir a pena de morte na legislação, ainda que já estivesse havia muito abolida na prática, por outro lado, possui um aspecto entendido por Sérgio Buarque como perverso, uma vez que essa feição do nosso aparelhamento político "se empenha em desarmar todas as expressões menos harmônicas de nossa sociedade, em negar toda a espontaneidade nacional." (HOLANDA. 1999: 177)

Como afirma Mozart Linhares da Silva, "o que está em jogo, na visão de Buarque, assim como em grande parte de nossa historiografia, é a mística da modernidade inacabada, agrilhoada por uma tradição que pode ser reportada ao escolasticismo lusitano que condicionou a intelligentsia colonizadora a partir da segunda metade do século XVI." (SILVA. 2000: 123) Ou seja, Sérgio Buarque entende que a nossa "insuficiente modernidade", fruto da colonização lusa, uma vez que, para ele, Portugal, quando do descobrimento não havia ingressado na modernidade, gerou um "atraso" civilizatório que deveria ser reparado. A saída para que se repare este "mal" seria, na visão de Sérgio Buarque de Holanda, a racionalização do Estado e da vida política em geral.

Neste ponto, ainda é preciso ter cuidado, pois a racionalização deste Estado, como a quer Sérgio Buarque de Holanda em Nossa Revolução, último capítulo de Raízes do Brasil, deve ser cautelosa, uma vez que o autor nos previne sobre as saídas caudilhescas, tipicamente latino americanas. Estar-se-ia, assim, substituindo uma forma de personalismo político por outra. Ponderação que se entende tranqüilamente levando em conta o período em que Sérgio Buarque de Holanda escreve Raízes do Brasil: os anos 30, em meio às turbulências da subida de Vargas ao poder. Nas palavras de Buarque de Holanda, seria preciso vencer-se, definitivamente a "antítese liberalismo-caudilhismo", sendo que, para o autor:

Essa vitória nunca se consumará enquanto não se liquidem, por sua vez, os fundamentos personalistas e, por menos que o pareçam, aristocráticos, onde ainda assenta nossa vida social. Se o processo revolucionário a que vamos assistindo, e cujas etapas mais importantes foram sugeridas nestas páginas, tem um significado claro, será este o da dissolução lenta, posto que irrevogável, das sobrevivências arcaicas, que o nosso estatuto de país independente até hoje não conseguiu extirpar. Em palavras mais precisas, somente através de um processo semelhante teremos finalmente revogada a velha ordem colonial e patriarcal, com todas as conseqüências morais, sociais e políticas que ela acarretou e continua a acarretar.(HOLANDA. 1999: 180)
Em grande parte parece que, movido por sua estada na Alemanha e sua ligação às teorizações de mestres alemães como Max Weber e Georg Simmel, Sérgio Buarque de Holanda se frusta ao perceber o quanto o Brasil ainda era tributário de uma estrutura de fundo "sumamente arcaico", em grande parte ainda regida pelos mesmos senhores de engenho de quatrocentos anos de história, ainda que se apresentassem em outros trajes e termos. Continuava a imperar a mesma moleza, a mesma "suavidade dengosa e açucarada", que, segundo o autor "invade, desde cedo, todas as esferas da vida colonial" (HOLANDA. 1999: 61). Esta frustração de Buarque de Holanda aparece em passagens como esta, onde assevera que:

Na verdade, a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós. Só assimilamos efetivamente esses princípios até onde coincidiram com a negação pura e simples de uma autoridade incômoda, confirmando nosso instintivo horror às hierarquias e permitindo tratar com familiaridade os governantes. A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal entendido.(grifo meu) (HOLANDA. 1999: 160)

Na realidade, se a constatação do problema feita por Sérgio Buarque de Holanda é primorosa, a permanência de ranços relativos ao patrimonialismo e a imbricação entre o público e o privado demonstra que a sua utopia racionalista segue em aberto, uma vez que parece posto com clareza que, adentrando o Século XXI, a forma mentis brasileira permanece, em espírito, marcada pela cordialidade e pelo jeitinho como, por exemplo, buscaram sistematicamente demonstrar os estudos do antropólogo Roberto Da Matta [7] . Esta cordialidade, estruturante das relações de sociabilidade dos brasileiros, esta forma de identidade nacional vista como arrevesada por Sérgio Buarque e esta falta de uma separação do público e do privado que tanto prejudicam a política e a vida nacional sejam algo impossível de extirpar, justamente por pertencerem a uma lógica civilizatória diferente. Dadas as devidas proporções e ponderações, o Brasil não "racionalizou-se totalmente", estando, para usar uma expressão do crítico literário indo-britânico Homi Bhabha em uma "região liminar", neste "espaço intersticial entre identificações fixas" que, ainda segundo este autor "abre a possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem uma hierarquia suposta ou imposta." (BHABHA. 1998: 22)

O sutil pessimismo com que Sérgio Buarque de Holanda observava a vida política nacional parece ter se confirmado. A "Nossa Revolução", como chamava Sérgio Buarque o processo crescente de racionalização do Estado e de transformações sociais que o autor identificava a partir da Abolição da Escravatura parece ter se estendido, usando palavras suas, apenas até o "epidérmico", não movendo, como gostaria, as estruturas mais profundas da sociedade. Os brasileiros continuam 'cordiais'. Da mesma forma, em outros termos e movidos por outros símbolos, continuam os medalhões descritos por Machado de Assis à proa de nossa história. Desde aquele diálogo entre pai e filho, parecem ainda vagar pelo ar as palavras finais do progenitor a Janjão: "Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe, de Machiavelli."

Considerações Finais

Buscando colocar vis a vis a palavra do historiador Sérgio Buarque de Holanda com a do escritor Machado de Assis, tentou-se, ao longo deste artigo, mostrar como se usa, segundo a leitura machadiana, o medalhão da carapaça que é a cordialidade, é ardil importante, próprio dos brasileiros, segundo Buarque de Holanda, para sobre ela construir sua estratégia de navegação social.

Tratou-se de uma tentativa de propor o diálogo entre a história e a literatura, na verdade, entre a análise psicológica de Sérgio Buarque com o impiedoso retrato pintado por Machado de Assis. Diálogo este que, dado o espaço de tempo entre o nascimento de Machado de Assis, 1839 e a morte de Buarque de Holanda, 1982, a seu jeito, antes de buscar inferir uma imutabilidade ontológica dos brasileiros, buscou deixar uma pista para a leitura da permanência de uma estrutura mental de longa duração, bem como uma rede de sociabilidade que seguem presentes no Brasil.


* Historiador. eder@viavale.com.br


Notas:
1 DeDECCA, Edgar Salvadori. Teoria e Método Históricos em Raízes do Brasil. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Leituras Cruzadas. Porto Alegre: Editora da Universidade, 2000. P. 169 a 190. REIS, José Carlos. Sérgio Buarque de Holanda. A Superação das Raízes Ibéricas. In: As Identidades do Brasil, De Varnhagen a FHC. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1999, entre outros.
2 Ainda que Sérgio Buarque lecionasse na USP e fosse um intelectual que mantinha uma atitude militante, ainda que não no campo marxista, há indicações de um semi-ostracismo do mestre. Ver: VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto. O Xará de Apipucos. Um ensaio sobre Gilberto Freyre. São Paulo: Casa Amarela, 2000.
[3] Gilberto Freyre analisa a figura do Bacharel no Brasil com vagar em Sobrados e Mucambos, mais especificamente no capítulo entitulado Ascensão do Bacharel e do Mulato, onde busca investigar as implicações deste título em uma sociedade (o Brasil do Segundo Reinado), que chegou a chamar de Reinado dos Bacharéis. Ver: FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos. São Paulo: Record, 2000.
[4] Para uma análise mais sistemática sobre o papel do humour em Machado de Assis, ver: MOOG, Vianna. Heróis da Decadência. Petrônio, Cervantes e Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.
[5] É importante salientar que, mesmo sendo tido como dado por boa parte dos comentadores de Raízes do Brasil sua forte vinculação aos modelos teóricos weberianos, há autores que discordam desta postura, como Maria Odila Leite da Silva Dias e Raymundo Faoro, colocando em xeque análises como a de José Carlos Reis e Edgar De Decca.
[6] Ver: SILVA, Mozart Linhares. A modernidade Luso Brasileira, entre o Logos e o Mithos. Revista Ágora, Departamento de História e Geografia da Universidade de Santa Cruz do Sul. V. 6, Nº 1, Jan/Jun. 2000.
[7] Ver Carnavais, Malandros e Heróis, A Casa e a Rua, O Que Faz o Brasil brasil, entre outros.
Referências Bibliográficas.
ASSIS, Machado de. A Teoria do Medalhão. In: Papéis Avulsos I. São Paulo: Globo, 1997.
­­­­­________________ . O Espelho. In: Contos. Porto Alegre: L&PM, 1998
BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Editora UFMG: Belo Horizonte, 1998.
CHAVES, Ernani. Nietzsche e Raízes do Brasil. In: Revista Cult, agosto de 2000.
Da MATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis. São Paulo: Rocco, 1998.
________________. Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social. Rocco: São Paulo, 1982.
DeDECCA, Edgar Salvadori. Teoria e Método Históricos em Raízes do Brasil. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Leituras Cruzadas. Editora da Universidade: Porto Alegre, 2000.
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Introdução à Raízes do Brasil In: Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Agillar, 2000.
GLEDSON, John. A História do Brasil em Papéis Avulsos, de Machado de Assis. In: A História Contada. CHALHOU, Sidney e Leonardo Affonso de M. Pereira (org.). São Paulo: Nova Fronteira, 1998.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
MERQUIOR, José Guilherme. Crítica. São Paulo: Nova Fronteira, 1990.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Civilização Brasileira, 2000.
REIS, José Carlos. As Identidades do Brasil, de Varnhagen a FHC. Editora da FGV: Rio de Janeiros, 1999.
SILVA, Mozart Linhares da. A Modernidade Luso Brasileira, entre o Logos e o Mithos. In: Revista Ágora, no prelo. Texto cedido pelo autor.
SKIDMORE, Thomas. O Brasil Visto de Fora. Paz e Terra: São Paulo: 1996.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Genocídios

PURIFICAR E DESTRUIR

Jacques Sémelin

Este livro, excepcional em todos os pontos, é fruto de muitos anos de trabalho no âmbito de um programa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, o CNRS. Ele propõe um enfoque fortemente transdisciplinar e comparativo, tentando "pensar" os processos de violência que desembocaram em massacres e genocídios da época moderna. Como tais crimes em massa foram possíveis? Quais manipulações da linguagem e dos espíritos intervieram para preparar a "passagem ao ato", sobretudo com a elaboração prévia de um imaginário e de justificativas? Como se articula e alucina a mecânica do assassínio?

O autor baseou fundamentalmente sua investigação em vários exemplos: a Shoah judaica da Segunda Guerra Mundial, as limpezas étnicas da ex-Iugoslávia, o genocídio da população tutsi de Ruanda e, ainda, os genocídios armênio e cambojano. Devido à amplitude da documentação utilizada, à riqueza das referências bibliográficas e à exigência permanente da análise, este livro é, ao mesmo tempo, vertiginoso e sem equivalente. Nunca, sem dúvida, se havia abordado de tão perto esse enigma insondável, esse "buraco negro" diante do qual a compreensão humana titubeia.

Sobre o autor:

Jacques Sémelin é professor do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po.) de Paris e diretor de pesquisa do Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais (CERI/CNRS). Trabalha há vários anos a questão das violências extremas e dos assassinatos em massa, assunto em que se tornou uma autoridade, inclusive fora da França.
Também dirige o projeto internacional de uma enciclopédia dos massacres e genocídios.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Escola de Frankfurt - Século XX

A Escola de Frankfurt
Por Antônio Rogério da Silva

A Escola de Frankfurt surgiu da iniciativa de um grupo de pensadores alemães formarem o Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, em 1923. O objetivo desse instituto era proceder a um exame crítico da sociedade, em geral, e em seus aspectos econômicos, culturais e de produção de conhecimento, a partir de uma perspectiva marxista renovada, isto é sem estar presa, ao historicismo ou ao materialismo. Essa escola foi fundada em uma época de grandes transformações da política germânica, que vinha de uma derrota arrasadora na I Grande Guerra (1914-1918). Durante o período da efêmera experiência liberal da chamada República de Weimar (1919-1933), o Instituto de Pesquisa Social pôde permanecer vinculado à Universidade de Frankfurt, mas depois de Adolf Hitler (1889-1945) ter assumido o posto de chanceler, em 1933, o departamento sofreu várias mudanças, fixando-se primeiro em Genebra (Suíça), depois Paris (França) e finalmente Nova York (EUA), onde permaneceu até o final da II Guerra Mundial (1939-1945).
Os principais membros da Escola de Frankfurt foram Walter Benjamin (1892-1940); Max Horkheimer (1895-1973); Herbert Marcuse (1898-1979) e Theodor W. Adorno (1903-1969). Depois da reconstrução da Universidade de Frankfurt e do retorno do Instituto de Pesquisa Social à cidade, formou-se uma segunda geração de teóricos, dos quais se destacam Karl-Otto Apel e Jürgen Habermas. Walter Benjamin foi um crítico de arte que procurou analisar as condições técnicas por detrás da produção artística. Foi um dos primeiros intelectuais de formação acadêmica a tratar do cinema como modelo do novo paradigma de arte reprodutível que veio a dominar a cultura durante todo o século XX. Suicidou-se com 48 anos ao ver fracassada a sua tentativa de atravessar a fronteira da França com a Espanha, quando buscava asilo contra a perseguição política e étnica, promovida pelos nazistas. Por conta disso, sua obra maior ficou toda fragmentada - como Paris, Capital do século XIX, restando apenas alguns artigos e ensaios que pôde concluir - por exemplo, A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade (1936).
Benjamin detectou com precisão a transformação que o conceito de arte estava passando no início do século XX, com o advento das técnicas de reprodução mais avançadas. Pouco a pouco, a obra de arte veio perdendo a aura de objeto único acessível a uma minoria que exigia um ritual de aproximação próprio, para se tornar em um veículo de propaganda ideológico cuja autenticidade depende agora do meio político ao qual se vincula.
A fim de estudar a obra de arte na época das técnicas de reprodução, é preciso levar na maior conta esse conjunto de relações. Elas colocam em evidência um fato verdadeiramente decisivo e o qual vemos aqui aparecer pela primeira vez na história do mundo: a emancipação da obra de arte com relação à existência parasitária que lhe era imposta pelo seu papel ritualístico. Reproduzem-se cada vez mais obras de arte, que foram feitas justamente para serem reproduzidas. (...) Mas, desde que o critério de autenticidade não é mais aplicável à produção artística, toda a função da arte fica subvertida. Em lugar de se basear sobre o ritual, ela se funda, doravante, sobre uma forma de praxis: a política (BENJAMIN, W. A Obra de Arte na Época de suas Técnicas de Reprodução, IV, p. 11).
Para atender as exigências do gosto da massa a arte moderna passa a assumir novos valores, como o de quantidade no lugar da qualidade. A importância cada vez mais crescente das massas e do proletariado exigiu dos regimes totalitários à direita e à esquerda a estetização da política e o uso político da obra de arte. Fenômenos observados nas campanhas eleitorais e em estílos artísticos como o futurismo fascista e o realismo social dos comunistas. O conceito de massa desenvolvido por Benjamin foi aplicado por Adorno e Horkheimer em sua crítica à situação paradoxal a qual o Esclarecimento havia chegado.
(...) O indivíduo, sobre o qual a sociedade se apoiava, trazia em si mesmo sua mácula; em sua aparente liberdade, ele era o produto de sua aparelhagem econômica e social. O poder recorria às relações de poder dominantes quando solicitava o juízo das pessoas a elas submetidas. Ao mesmo tempo, a sociedade burguesa também desenvolveu, em seu processo, o indivíduo. Contra a vontade de seus senhores, a técnica transformou os homens de crianças em pessoas. Mas cada um desses progressos da individuação se fez à custa da individualidade em cujo nome tinha lugar, e deles nada sobrou senão a decisão de perseguir apenas fins privados. O burguês cuja vida se divide entre o negócio e a vida privada (...), rompido consigo e com todos, já é virtualmente o nazista que ao mesmo tempo se deixa entusiasmar e se põe a praguejar, ou o habitante das grandes cidades de hoje, que só pode conceber a amizade como social contact, como contato social de pessoas que não se tocam intimamente. É só por isso que a indústria cultural pode maltratar com tanto sucesso a individualidade, porque nela sempre se reproduziu a fragilidade da sociedade (HORKHEIMER, M. & ADORNO, Th. "A Indústria Cultural", in Dialética do Esclarecimento, pp.145-146).
A atomização do indivíduo foi o resultado extremado do desenvolvimento da industria cultural, em sua vinculação aos ideais liberais. Esse foi o diagnóstico fornecido por Adorno e Horkheimer tendo em vista a avalanche de bens de consumo oferecidos ao grande público e o condicionamento do comportamento das massas, padronizado pela publicidade, logo após o fim da II Guerra Mundial. Quatro décadas depois, Jürgen Habermas detectou que esse processo de atomização decorria da concepção filosófica, metafísica, que desde Descartes punha o indivíduo como um ente solitário a descobrir o mundo, sem no entanto ter como perceber no outro um semelhante com o qual a sua subjetividade tem de defrontar-se. O choque dos mundos criados por cada um dos indivíduos não encontra solução sob essa tradição solipsista da metafísica. Assim o paradigma tradicional que separa o sujeito do objeto, sendo o outro um objeto para o sujeito, não pode resolver o problema das relações intersubjetivas que caracterizam o convívio social. Por conta disso, o isolamento proverbial do filósofo metafísico transpôs para os indivíduos de uma sociedade moldada dessa forma o afastamento gradativo dos indivíduos, entendidos, agora, ao pé da letra, como átomos, indivisíveis (1).
A primeira geração de Frankfurt ainda manteve-se presa ao paradigma "sujeito-objeto". A crítica da razão instrumentalizada - essa que procura meios para atingir determinados fins -, feita por Adorno e Horkheimer teve como única alternativa, proceder à uma dialética negativa do esclarecimento, concluindo por uma postura irracional frente à visão pessimista do futuro da racionalidade. Herbert Marcuse depositou suas esperanças ainda em uma nova esquerda - formada agora, não por trabalhadores, ou representantes destes, mas por estudantes e grupos postos à margem da sociedade -, que fosse capaz de realizar a mudança radical em direção a tão prometida utopia. Uma sociedade comunal que tem por pressuposto uma natureza humana totalmente maleável.
Marcuse ainda acreditava em obras tais como Eros e Civilização (1955) e O Homem Unidimensional (1964) que uma teoria e uma razão renovada seriam capazes de preparar as gerações para a ação radical. E mesmo depois das consequências frustrantes das Revoltas Estudantis de 1968, esse otimismo repetia-se em Contra-Revolução e Revolta (1973). Dentro do projeto de emancipação do esclarecimento Marcuse insistia:
Preparar o terreno para esse desenvolvimento ainda faz da emancipação da consciência a tarefa primordial. Sem isso, toda a emancipação dos sentidos, todo ativismo radical, permanece cego, frustrado em seus intentos. A prática política ainda depende da teoria (só o Establishment [Situação] pode passar sem ela!): da educação, persuasão - e Razão.
(...) Devem ser desenvolvidas estratégias que se adaptem ao combate à contra-revolução. O desfecho depende, em grande medida, da capacidade da jovem geração - não para "cair fora" e não para se acomodar, mas para aprender como reagrupar-se após a derrota, como desenvolver, com a nova sensibilidade, uma nova racionalidade, para suportar o longo processo de educação - o indispensável requisito prévio da transição para a ação política em grande escala. Pois a próxima revolução será uma preocupação de gerações e "a crise final do capitalismo" poderar levar o melhor de um século (MARCUSE, H. Contra-Revolução e Revolta, 4, pp. 128-129).
A Guinada da Segunda Geração
Durante a II Guerra Mundial, a Escola de Frankfurt esteve radicada em Nova York. Nesse período, Marcuse trabalhou no Departamento de Serviços Estratégicos, colaborando no esforço de guerra para preparação de uma análise do regime nazista. Em 1950, quando o instituto retornou à Alemanha, Marcuse permaneceu nos Estados Unidos, ocupando cargos acadêmicos em diversas universidades, com em San Diego, em 1965. Contudo, não deixou de fazer palestras na Universidade de Frankfurt, em 1966, contra a Guerra do Vietnã. Sua pregação dos dois lados do Atlântico fez dele o principal filósofo a influenciar diretamente o Movimento Estudantil de 1968.
Nessa época, já começava a se formar uma nova geração de pensadores políticos em Frankfurt. Em 1962, Habermas, que fora assistente de Adorno entre 1956 a 1959, obteve seu doutorado com a publicação da tese Mudança Estrutural da Esfera Pública. Até que Apel viesse a ingressar em Frankfurt, como catedrático em filosofia, em 1972, o interesse de Habermas esteve voltado para discussão da relação entre conhecimento científico e interesse, técnica e ideologia. Destacam-se desse período o artigo "Técnica e Ciência como Ideologia" (1968) e o livro Conhecimento e Interesse (1968), obras que, como as anteriores, procuravam resolver o problema do conhecimento em uma teoria crítica da sociedade, através de uma clarificação dos métodos, nos moldes conceituais de uma filosofia da consciência tradicional (2).
Karl-Otto Apel tornou-se doutor em filosofia pela Universidade de Bonn, em 1950. Depois de ter alcançado o título de Livre Docente, na Universidade de Mainz, em 1961, foi catedrático em diversos centros acadêmicos alemães, até chegar a Frankfurt. Suas obras iniciais estavam voltadas para uma crítica da hermenêutica e do uso pragmático da linguagem, isto é à compreensão de todos os enunciados da língua como atos de fala que exercem uma ação no mundo. Em 1973, Apel publicou o artigo "O A priori da Comunidade de Comunicação" - incluído na coletânea Transformação da Filosofia -, onde lançou as bases de um novo paradigma pragmático para filosofia. Apel examinou em detalhes os problemas de fundamentação das ciências e das éticas que se baseavam no método solipsista da modernidade que esbarrava no princípio de Hume que impede a postulação de normas ou leis da natureza a partir da observação da regularidade de um fato. Ou seja, o fato de um acontecimento ser assim, não quer dizer que este deva ser assim, a famosa falácia naturalista. De modo que, da descrição, não seria possível propor nenhuma norma prescritiva. Para evitar tais dificuldades, Apel procurou adotar uma estratégia que evitasse os problemas do isolamento de sujeito e objeto, colocando o fato da comunicação estar na base de todo discurso científico e que para uma norma ser considerada válida, seria necessário, além da livre aceitação de um acordo, mas os esclarecimentos que devem atendem às exigências de justificação dos ouvintes que participam da conversação.
Desde então, procedeu a segunda geração de Frankfurt a uma guinada pragmática da argumentação, que contou com o apoio de Habermas. Ambos, Habermas e Apel trataram de delinear um novo conceito de racionalidade que tinha agora a comunicação como sua forma de sustentação. O discurso teórico, não mais dependeria apenas de pressupostos sintáticos e semânticos - se uma proposição bem formulada tinha um valor de verdade -, mas sobretudo de uma compreensão intersubjetiva que precisa atender às condições pragmáticas do discurso prático, onde para ser bem sucedido a mensagem tem de ser compreendida pelo seu receptor. Uma nova concepção de verdade surgiu daí com o conceito de consenso argumentado que esteve no centro de uma promissora Ética do Discurso.
Contudo, mesmo a nova racionalidade comunicativa, embora estivesse livre dos problemas de objetivação e de valores intersubjetivos que não podiam ser satisfeitos pelo paradigma anterior de sujeito e objeto, por estar ligada viceralmente a uma comunidade de falantes, a teoria do agir comunicativo permaneceu originariamente presa a formulações idealizantes. Por conta disso, tem problemas de aplicação de suas hipóteses em contextos concretos de conflito permanente de interesses, onde raramente se aplicam os pressupostos pragmáticos da comunicação. Apel teve consciência disto, já no início dessa guinada.
A fundamentação de uma ética da comunicação que foi desenvolvida até aqui, parte de pressupostos idealizados. Ela considera, em princípio, não tanto a circunstância de que, na institucionalização da discussão moral, não são consideradas apenas dificuldades intelectuais, mas o fato de que esta institucionalização deve ser concretizada numa situação historicamente concreta, que já está sempre condicionada por conflitos de interesses. Ela não considera, por exemplo, a circunstância que, mesmo aqueles que adquiriram a plena compreensão do princípio moral, ainda não podem, sem mais, tornar-se membros de uma ilimitada comunidade de parceiros de comunicação com iguais membros, mas permanecem vinculados à sua real posição e situação social. Por este vínculo real eles são condenados a assumirem uma responsabilidade moral específica, que não pode ser definida pelo princípio formal da "trans-subjetividade", no sentido da comunidade de argumentação (...) (APEL, K-O. O A Priori da Comunidade de Comunicação, in Estudos de Moral Moderna, seção 2, § 2.3.5, p. 152).
O problema de como aplicar as normas do discurso argumentativo ao contexto concreto do mundo da vida impediu que a Ética do Discurso não passasse de mais uma teoria contemporânea promissora. O fato de não considerar a situação moral específica de cada participante que tem de tomar suas decisões sob as pressões do tempo e assumirem as suas consequências trouxe de volta o cetismo irracionalista que atingiu o existencialismo e colocou a Ética do Discurso como, entre tantas, mais uma proposta de princípios reguladores para questões ligadas ao cotidiano de cada um.
Notas
1. Veja HABERMAS, J. Pensamento Pós-Metafísico, I, 3, seção III, pp. 48- 53.
2. Veja HABERMAS, J. "Um Perfil Filosófico-Político", in Novos Estudos CEBRAP, nº 18, p. 75.

Bibliografia
APEL, K-O. Estudos de Moral Moderna; trad. Benno Dischinger. - Petrópolis: Vozes, 1994.
BENJAMIN, W., et al. Textos Escolhidos; trad. José L. Grünnewald et al. - São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores)
BLACKBURN, S. Dicionário Oxford de Filosofia; trad. Desidério Murcho et al.. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
HABERMAS, J. Pensamento Pós-Metafísico; trad. Flávio B. Siebeneichler. - Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.
_________. A Constelação Pós-Nacional; trad. Márcio Seligmann-Silva. - São Paulo: Littera Mundi, 2001.
HORKHEIMER, M. & ADORNO, Th. W. Dialética do Esclarecimento; trad. Guido A. de Almeida. - Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
MACINTYRE, A. As Idéias de Marcuse; trad. Jamir Martins. - São Paulo: Cultrix, 1973.
MARCUSE, H. Contra-Revolução e Revolta; trad. Álvaro Cabral. - Rio de Janeiro: Zahar, 1973.