quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Os clássicos

Como é Que os Clássicos Viram Clássicos?

O economista e escritor Celso Furtado, criador da Sudene, e educador Anísio Teixeira

O economista e escritor Celso Furtado, criador da Sudene, e o educador Anísio Teixeira

Roberto Pereira Silva *

Especial para Nós – Fora dos Eixos

Em janeiro de 1959, vinha a público Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado. Passados cinquenta anos, a obra tornada clássica ganha sua primeira edição comemorativa. Organizado pela viúva do autor, Rosa Freire d'Aguiar Furtado e com introdução de Luis Felipe de Alencastro, o conjunto reúne a fortuna crítica que se seguiu ao aparecimento da obra.

Verdadeiros documentos que reconstituem a biografia do livro, testemunho de sua recepção no Brasil e no exterior, esse conjunto de resenhas e introduções ao livro ajuda a reconstruir a consolidação de Formação Econômica do Brasil, como um dos mais importantes livros de história econômica já escritos.

Além disso, tais textos permitem captar a estranheza que a obra causou para intelectuais de diferentes formações teóricas à época de sua publicação. Por se tratar hoje de um livro clássico, nós leitores modernos por vezes nos esquecemos do senso de novidade que esteve por trás da recepção do livro nos meios brasileiros e internacionais.

CARACTERÍSTICAS DO CLÁSSICO

Aliás, como Ítalo Calvino dizia: uma das características de um clássico é sua possibilidade de infinitas e sempre renovadas leituras. Embora tenha tido um reconhecimento rápido, de pronto sendo considerado um livro indispensável e ímpar na historiografia econômica brasileira, recebeu críticas diversas, indicativas também dos impasses sociais e intelectuais do Brasil.

Celso Furtado, autor do clássico Formação Econômica do Brasil

Celso Furtado, autor do clássico Formação Econômica do Brasil

E essa é uma chave importante para retomarmos o cinqüentenário do livro, escapando do merecido teor laudatório das análises contemporâneas e tentando retraçar o caminho para a consolidação desta obra clássica. Tanto mais importante, se nessa empreitada conseguirmos relacionar as diversas resenhas com os contextos mais amplos da vida intelectual brasileira e das reflexões teóricas sobre o desenvolvimento econômico a nível mundial.

Das primeiras resenhas à biblioteca básica brasileira
O momento de publicação de Formação Econômica do Brasil marca o entrecruzamento de tendências distintas no pensamento brasileiro. De um lado, temos a maturidade dos autores dos ensaios sobre a formação do Brasil. Iniciado nos anos de 1930, com Casa-grande e Senzala, Raízes do Brasil, e, na década seguinte, Formação do Brasil Contemporâneo, nesse momento o ensaísmo se consolidou como a forma básica para se pensar o Brasil, tendo como principal disciplina a história.

IMIGRAÇÃO PARA OS CENTROS URBANOS

Celso Furtado, um intelectual que repensou o Brasil

Celso Furtado, um intelectual que repensou o Brasil

De outro lado, a passagem para os anos 60 assiste um período de grandes mudanças. O Plano de Metas, a imigração para os centros urbanos, a ocupação do Oeste e do Norte do Brasil. Era uma nova etapa do capitalismo introduzindo o Brasil nas linhas de consumo modernas, com eletrodomésticos, carros, produtos de consumo industrializados.

O Estado, sob o signo do planejamento econômico, passou a valorizar o saber técnico, a economia e a engenharia assumiram papel importante na administração pública, suplantando o bacharelismo do passado. No plano das idéias, esse período foi marcado por novas balizas de conhecimento, universitário e técnico-científico, competindo com a consolidação das ciências sociais no ensino acadêmico.

O livro de Celso Furtado dá testemunho desse entrecruzamento de tendências, e procura compreender o alcance e os limites das transformações do presente, sob o ponto de vista histórico. Mas de uma história filtrada pela economia, história que busca responder as questões propostas pelo processo e pela reflexão sobre o desenvolvimento econômico.

A vida e a obra de Celso Furtado vira cinebiografia

A vida e a obra de Celso Furtado vira cinebiografia

Essas duas linhas gerais, o saber técnico legitimado pelo progresso econômico e as interrogação ao passado irão polarizar as opiniões sobre "Formação Econômica do Brasil", nas resenhas publicadas entre 1959 e 1963, apontando tanto as precariedades da obra de historiador, quanto as armadilhas da teoria econômica.

"ECONOMIA ORTODOXA E ECONOMIA MARXISTA"

A primeira resenha apareceu três meses depois da publicação, na pena de Nelson Werneck Sodré, historiador marxista ligado ao ISEB. Interpreta a obra como pertencente à "economia ortodoxa", em contraposição à economia marxista. Reconhece em formação um "livro de fôlego, visão de conjunto, em que o autor dá o melhor de seus conhecimentos".

Entretanto, aponta dois defeitos: "Celso Furtado sabe muito, mas não sabe transmitir o que sabe" e, numa crítica típica desse período em que o foco das interpretações era a volta ao passado, Werneck Sodré censura o autor em que "fazendo história, não domina as fontes e revela mesmo desprezo por elas".

Uma das dezenas de obras do Celso Furtado

Uma das dezenas de obras do Celso Furtado

No mês seguinte, a resenha de outro marxista, Renato Guimarães censura o economicismo de Celso Furtado. Reprovação que o próprio autor reconhece contraditória: "não deixará por isso de parecer algo paradoxal que, ao tentarmos a crítica marxista desta última obra de Celso Furtado sejamos forçados a censurá-la justamente pelo excessivo 'economicismo' do historiador que lá encontramos".

Além disso, em alguns momentos Guimarães aponta as esquivas do autor. Tratando do capital estrangeiro nas etapas colonial e imperial, sob o comando do capital holandês, português e inglês, não diz nada sobre essa questão no século XX, sob o signo do imperialismo norte-americano: "bastou que entrasse em cena o imperialismo norte-americano para que o Sr. Furtado perdesse completamente a loquacidade".

TRABALHO ASSALARIADO

O mesmo se poderia dizer da questão do proletariado: Celso Furtado analisa a transição para o trabalho assalariado e a industrialização do Centro-Sul, mas nada diz sobre o proletariado urbano como força social. Como pontos positivos, a análise da inflação feita ao final do livro, a qual o aspecto político e social envolvido na política econômica, uma vez que a inflação é um conflito distributivo e as medidas de estabilização favorecem alguns grupos em detrimento de outros.

Em julho, o engenheiro Paulo Sá, criador da ABNT, faz uma apreciação do livro e da profissão de economista que dá bem o tom desse novo momento de planejamento econômico e saber técnico que chegava ao Brasil. Para ele, a onipresença da poesia na vida cultural brasileira dos séculos passados foi suplantada, nesse período de modernização, pela economia: "Como havia 'poetas', há hoje 'economistas'. Tropeça-se neles em todos os grupos de rua, em todos os vãos de jornais ou revistas, tão graves quanto efêmeras". Celso Furtado é uma exceção entre esse grupo, pois alia à profundidade das leituras a reflexão e o conhecimento do país.

Gilberto Freyre, "maturidade dos autores de ensaio"

Gilberto Freyre, "maturidade dos autores de ensaio"

Duas resenhas surgiram de autores ligados à Universidade de São Paulo e que se tornaram membros do grupo de estudos conhecido como Seminário Marx, Paul Singer e Fernando Novais. Para o primeiro, "a importância do livro decorre, porém, não apenas de seu tema, mas principalmente do método empregado".

É no método que concentra a avaliação e a crítica, afirmando que este é falho quando contraposto à realidade. Entretanto, "mesmo as partes mais prejudicadas pelo método empregado são preciosas, pois assinalam falhas — a nosso ver sérias — da própria ciência econômica como ela é praticada até hoje".

ECONOMIA CAFEEIRA

Fernando Novais destaca a importância da análise dos fluxos de renda associados aos diversos produtos de exportação e o rompimento desse processo com o advento do trabalho assalariado na economia cafeeira que internaliza o processo de acumulação. A crítica recai também no método, tendo como base a economia marxista.

Para o autor, a análise da transição para o trabalho assalariado perde a questão central, a saber, "as etapas da instauração das condições capitalistas de produção no Brasil", o que, na verdade, constitui "as determinações mais internas do processo histórico".

Já em 1963, quatro anos após a publicação, o livro passa a ser editado na biblioteca básica brasileira, projeto editorial da Universidade de Brasília, ao lado de autores como Capistrano de Abreu, Joaquim Nabuco, Fernando de Azevedo e dois clássicos da geração de 1930, Sergio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. A introdução ao livro é assinada pelo historiador mineiro e professor de história econômica geral e do Brasil, Francisco Iglésisas.

Ítalo Calvino, "possibilidade infinita do clássico".

Ítalo Calvino, "possibilidade infinita do clássico".

Trata-se de um texto fundamental, pois avalia a formação econômica do Brasil dentro da historiografia econômica brasileira e equaciona os principais problemas e sucessos da obra em perspectiva histórica.

HISTÓRIA E ECONOMIA

Já de saída coloca o livro entre os clássicos da historiografia econômica, ao lado de Simonsen e Caio Prado Jr, sem ser um prolongamento destes, mas "executado em perspectivas próprias". As relações entre história e economia são equacionadas, respondendo a algumas críticas que vimos acima: "Formação econômica do Brasil é livro de história escrito sob a perspectiva do economista".

A falta de citações de trabalhos de história longe de mostrar deficiência do autor mostra os defeitos da historiografia brasileira, a baixa qualidade das pesquisas empíricas e a arbitrariedade das interpretações de conjunto. De forma que "a omissão referida não deixa, de certo modo, de reverter em benefício do autor".

Destarte, o que pareceu a alguns economicismo e a outros falta de domínio das fontes históricas, nada mais é que uma das maiores riquezas da obra, o que lhe garante o lugar de destaque pela rara qualidade de nossa produção. Pois somente o uso consciencioso das ciências sociais pode orientar a reconstrução histórica em busca de suas linhas gerais.

É a teoria econômica e social presente no livro que irá conduzir a leitura histórica de Celso Furtado. A erudição histórica do autor é patente, a despeito da omissão de referências, e o método do autor se constrói na distinção entre processos e eventos, nos quais os primeiros dão o tom geral do livro, subordinando os segundo, que pressupõe conhecidos do leitor.

Daí a impressão meio abstrata do livro, fruto do despojamento do que não é essencial para a compreensão do processo. Entre as faltas do livro, a única apontada pelo autor é a não menção ao imperialismo norte-americano, a exemplo da crítica de Renato Guimarães.

Assim, as resenhas abordaram a obra sob o ponto de vista dos aspectos teóricos, na relação entre teoria econômica e história, ora sublinhando os excessos da primeira, ora acentuando as debilidades aparentes da segunda. Temas ausentes foram sempre marcados como faltas, ausência de referencias como despreparo. No entanto, a explicação de fundo, estrutural do livro, demorou um pouco mais para ser percebida.

Fernando Novais, "importância da análise dos fluxos de renda"

Fernando Novais, "importância da análise dos fluxos de renda"

Isso decorre, nos parece, não só do ineditismo do livro, como da falta de um corpo de obras econômicas e históricas que pudessem servir de referência e termos de comparação à Formação Econômica do Brasil. Na ausência de trabalhos que examinassem os conteúdos e as hipóteses, a crítica só poderia recair sobre questões de método.

De clássico da historiografia brasileira à obra-prima da teoria do desenvolvimento econômico

A recepção no exterior se deu de forma diferente. "Formação Econômica do Brasil" foi logo reconhecido como um exemplo ímpar no campo da teoria do desenvolvimento econômico. A obra foi interrogada em sua relação com as ciências sociais, sobretudo as relações entre história e economia e no âmbito das diversas teorias do desenvolvimento econômico. A mudança de perspectiva é grande.

Além disso, a perspectiva histórica e comparativa foi assinalada em todos os textos, destacando-se a comparação entre as diferenças de desenvolvimento do Brasil e dos Estados Unidos no século XIX. Se no Brasil, a obra teve um caráter de acerto de contas com a herança do passado, exigia ou justificava a intervenção estatal, e se inseria no esforço de consolidação das ciências sociais no país, já no exterior foi um aporte fundamental para se equacionar o alcance das teorias econômicas.

Allen Lester e Gladys: "Análisa o crescimento e os processos econômicos do Brasil"

Allen Lester e Gladys: "Análisa o crescimento e os processos econômicos do Brasil"

FORMAÇÃO DE CAPITAL NO BRASIL
Segundo o economista americano Allen Lester (1960) o livro "analisa o crescimento e os processos econômicos do Brasil como país subdesenvolvido"; seu principal interesse para o economista de língua inglesa está "na avaliação da influência de fatores — políticos, sociais, geográficos, fiscais, monetários, entre outros — sobre o crescimento econômico e a formação de capital no Brasil".

Além disso, os "economistas de países mais desenvolvidos" devem considerar a insistência político-econômica "de países subdesenvolvidos" em buscar o desenvolvimento através de crescimento rápido e uso de "métodos considerados não ortodoxos".

Já o brasilianista Warren Dean chama a atenção para a impossibilidade do desenvolvimento econômico enquanto baseado no trabalho escravo. Essa seria a tese principal de Furtado, desenvolvida a partir da transição para o trabalho assalariado e da multiplicação da renda oriunda do consumo.

Assim, "o estágio crucial do desenvolvimento" se dá com a formação do mercado interno. Já o interesse para os "economistas e historiadores americanos" decorre de Formação os colocar em contato com "teorias que lidam com estagnação, fenômeno sobre o qual eles têm pouco conhecimento de primeira mão".

Ignacy Sachs, na introdução à edição polonesa de 1967, faz uma exposição do conjunto da obra de Celso Furtado até aquele momento. Nesta, podemos perceber "o ponto de vista de um economista interessado na problemática socioeconômica do desenvolvimento"; ou seja, "não do ponto de vista de um historiador econômico, e sim como um economista que faz determinadas perguntas ao material histórico". Em outras palavras, a importância metodológica se encontra "na junção de história econômica com a teoria do desenvolvimento".

Capa de um dos livros de Celso Furtado

Capa de um dos livros de Celso Furtado

Uma reflexão teórica amadurecida sobre as relações entre economia e história foi empreendida no prefácio à edição italiana de 1970, de autoria do historiador Ruggiero Romano. Para ele, "poucos livros como este de Celso Furtado abordam — e resolvem — o problema das relações entre história e economia".

Resolve, porque o autor "bem sabe que o verdadeiro problema da interdisciplinaridade é o da real integração entre elas; é o do enriquecimento da problemática de uma com a problemática que subentende a outra; é o de conseguir moderar (ou exacerbar vantagens e desvantagens de uma e outra". Pois que a relação entre as disciplinas se torna frutífera quando é claro o que a história pode oferecer à economia e vice-versa. A primeira, "pode dar uma lição de particularismo, de tipificação", para contrabalançar a busca de leis uniformes no tempo e no espaço que caracteriza a economia.

Para o historiador italiano a consciência dessa problemática, aliada ao domínio tanto da teoria econômica quando da história, produziu o resultado ímpar desse livro. Ao entender que a realidade brasileira poderia ser explicada pelo desenvolvimento da economia desde suas origens, Celso Furtado não só reconstrói a "série de elementos constitutivos das diferentes economias brasileiras nos diversos momentos históricos e nos diversos espaços geográficos".

LIÇÃO DA HISTÓRIA ECONÔMICA

Isto já não sendo pouco, o autor consegue recompor os "elementos e apresenta(r) os mecanismos em pleno funcionamento". Esta a lição de história econômica de Celso Furtado: não se trata da economia na história, mas de entender a economia no que tem de histórico e de acontecimental.

"Vai-se alem do acontecimento, dos acontecimentos só quando, como acontece nesse livro, se consegue mostrar um mecanismo, suas engrenagens, seus ritmos particulares, suas fricções, suas lentidões, suas acelerações, suas fraquezas, suas capacidades de resistência".

Daí resulta também a riqueza do conceito de subdesenvolvimento. Não é um estágio, mas uma especificidade histórica, particular, que não pode encontrar um modelo de transformação no desenvolvimento europeu, porque este também é histórico, particular e único em suas conjunturas e possibilidades.

Um último aspecto da recepção externa do livro é o debate quantitativo, relativo aos números e às fontes que Celso Furtado utilizou e as críticas que seu livro suscitou ainda nos anos 1970. É o que encontramos no debate sobre os rendimentos e as classes sociais envolvidas na economia açucareira, realizado pelo historiador francês especialista no comércio atlântico na Idade Moderna, Frédéric Mauro.

TEORIA DA DEPENDÊNCIA
O caráter de balanço de conclusões, também caracteriza a resenha do

Nelson Werneck Sodré:"Livro de fôlego, mas..."

Nelson Werneck Sodré:"Livro de fôlego, mas..."

economista americano especialista em economia brasileira, Werner Baer (1974). Trata-se para o autor, de "um dos grandes livros tanto da literatura das ciências sociais brasileiras quanto da literatura do desenvolvimento em geral".

"Ensaio interpretativo sobre a evolução econômica do Brasil", o livro não pode ser avaliado segundo os padrões monográficos, à época praticamente inexistes, diga-se de passagem. Daí que "a maioria dos ataques dirigiu-se a detalhes, mas nunca conseguiu destruir o valor intrínseco da obra". Ressalta na obra a discussão sobre que viria a ser chamado teoria da dependência; fazendo jus aos múltiplos fatores sociais, políticos, institucionais e econômicos que Celso Furtado leva em consideração em sua análise.

A consagração da "Formação Econômica do Brasil"
Esses alguns testemunhos da recepção de "Formação Econômica do Brasil". As resenhas e apresentações à obra se tornaram cada vez mais desnecessárias com o passar do tempo. Índice, sem dúvida, da penetração e aceitação do livro como uma fonte de interlocução.

Mas o que pudemos perceber desse longo percurso são as múltiplas leituras que a obra ofereceu e ainda oferece para nós cinqüenta anos após sua publicação.

Por fim, se tentamos mostrar um pouco da impressão dos contemporâneos sobre "Formação Econômica do Brasil", podemos finalizar mostrando um pouco também de como Celso Furtado era visto, alguns anos após a publicação e antes de ser exilado pelo Golpe Militar que o incluiu na primeira lista de cassação. O testemunho é de Franciso Iglésisas no texto já mencionado:

Francisco Iglésias

Francisco Iglésias

"Celso Furtado é hoje figura convocada obrigatoriamente de todos os pontos do país, sobretudo pelos moços, [...] bem como pelas associações de classe de todos os níveis, oficiais ou não, que desejam ouvir-lhe a palavra. Seus discursos e conferências, relatórios e entrevistas se multiplicam, sempre recebidos com interesse e proveito. Pela primeira vez no Brasil um economista se tornou figura popular, sem que cortejasse a opinião com linguagem política: mantendo sempre o tom do técnico, sem exibicionismo pedante nem tom de quem faz campanha eleitoral. Celso Furtado sabe falar, encontrando sempre a fórmula exata para a idéia exata. É que ele vive o que faz, com a fé por vezes rígida que encontramos nos homens do Nordeste, batidos e sofridos como sente até em suas expressões fisionômicas".

* Roberto Pereira Silva é bacharel em história pela FFLCH-USP, mestrando em história econômica no Instituto de Economia da Unicamp.

Serviço
Resenha de: "FURTADO, CELSO. Formação econômica do Brasil. Edição comemorativa: 50 anos; organização Rosa Freire d'Aguiar Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Benjamin Moser fala sobre Clarice,

27/11/2009 - 13h42

Autor de "Clarice," diz ter um compromisso pessoal com a cultura brasileira

PAULA DUME
colaboração para a Livraria da Folha

Eleito o livro do mês na amazon.com e escolhido como um dos cem livros do ano pelo The New York Times, "Clarice," (Cosac Naify, 2009), a biografia de Clarice Lispector (1920-1977), do norte-americano Benjamin Moser, foi publicada nos Estados Unidos em agosto de 2009, com o título "Why This World: A Biography of Clarice Lispector" ("Por que Este Mundo: Uma Biografia de Clarice Lispector"), e lançado na última semana no Brasil, com tradução de José Geraldo Couto.

Texano de Houston, Moser, que fala seis línguas, queria aprender chinês até descobrir que não levava muito jeito para os ideogramas. Acabou matriculando-se em um curso de português. Conheceu Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, até se deparar no terceiro semestre do curso com "A Hora da Estrela", de Clarice. Logo na primeira página, reconheceu o talento e assumiu o encantamento pela autora.

Em 2005, quando soube da homenagem a ela na Flip, ele embarcou para o Brasil no dia seguinte. Desde então, se dedicou a ela e ao mundo dela. "Essa foi a minha grande ilusão, fazendo o livro da Clarice para trazê-la para fora", disse.

Monte sua biblioteca sobre Clarice Lispector

Tessa Posthuma de Boer/Divulgação
O autor Benjamin Moser levou cinco anos entre escrita e pesquisa para finalizar a obra; descobriu até o tipo sanguíneo da escritora
O autor Benjamin Moser levou cinco anos entre escrita e pesquisa para finalizar a obra; descobriu até o tipo sanguíneo da escritora

Em entrevista à Livraria da Folha, Moser esmiuçou sua paixão e admiração pela escritora considerada "bruxa", a carga que Clarice carregava por conta de não salvar a mãe da doença, adquirida durante a violência dos pogroms (que assolaram a Ucrânia na virada da década de 1910 para 1920), o peso dessa falha ecoando em sua vida e obra por meio de temas herméticos e existenciais, entre outros assuntos.

O colunista da "Harper's Magazine" e colaborador do "The New York Review of Books" assumiu ter um compromisso um pouco pessoal com a cultura brasileira. "O Brasil não precisa de mim para saber quem é Clarice. Mas, o mundo, às vezes, precisa de gente que traduza, que interprete, porque senão a cultura brasileira fica por aqui e as coisas que o Brasil produz, que são muito valiosas também para o mundo, não saem", afirmou.

*

Livraria da Folha - Lê-se o título como "Clarice vírgula". É uma espécie de vocativo? Gostaria que você falasse sobre isso.
Benjamin Moser - Em "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", Clarice começa com uma vírgula, e o livro termina com dois pontos. É uma homenagem a ela. A vírgula é porque a gente nunca vai esgotar a Clarice. Eu posso ficar mais de cinco anos fazendo isso, não vou chegar ao fim. Cada vez que pego o livro dela, reparo numa frase, numa coisa, é uma riqueza inesgotável, é um privilégio ficar todo esse tempo com ela. Foi uma das experiências que eu mais apreciei na minha vida. Eu posso falar dela o dia inteiro.

Livraria da Folha - Na introdução, você descreve quando Clarice retorna do Rio de Janeiro para a Itália, em 1946, e depois o contato e a sensação dela diante da esfinge, no Egito. Por que você escolheu 1946 para iniciar o livro?
Moser - Eu estava querendo que Clarice saísse pelo mundo. Aqui todo mundo já sabe quem é. A jovem Clarice de 20 e poucos anos vai viajar e não tem medo. Ela tem essa virada desafiadora, como a esfinge. Gostei da imagem das duas esfinges se olhando desse jeito. As duas misteriosas.

Livraria da Folha - Quanto tempo você levou entre a pesquisa e a escrita?
Moser - Isso é uma coisa um pouco complicada. Você escreve ao mesmo tempo que está pesquisando. No meu caso, eu estava escrevendo enquanto pesquisava. A cada dia você vai aprendendo mais, é um processo. O livro levou cinco anos. Eu diria que fiquei dois anos e meio na pesquisa e outros dois e meio na escrita. Só que enquanto eu escrevia, também estava fazendo pesquisa.

Livraria da Folha - O que mais lhe chamou a atenção durante a pesquisa?
Moser - Acho que foi a viagem à Ucrânia, a descoberta do que havia passado lá, e a descoberta desse passado tão sangrento. Vendo a foto dessa senhora bonita, loira, no Rio de Janeiro, você nunca pensaria que ela viria de uma miséria dessas. Não podemos compreender o que é isso. Ela vinha de uma miséria absoluta.

Livraria da Folha - Você ficou impressionado com Clarice?
Moser - Fiquei deslumbrado logo na primeira página. É um amor. Quando você ama uma pessoa, muitas vezes, só vendo do outro lado do quarto, do restaurante, só vendo a pessoa. Foi por aí. Eu não esperava isso. Eu estava fazendo um curso para aprender uma língua que você nunca sabe se vai ser útil, e essa foi a grande descoberta. E foi a partir de Clarice também que eu descobri não só ela, mas a raiz dela. O que me levou pelo Brasil inteiro. Eu fiquei apaixonado por ela e queria saber mais. Quando você faz uma coisa dessas, você também tem que esboçar o mundo ao redor dela. Acontece que a Clarice, embora não fosse de ficar em mesa de café, como foi o caso de muitos escritores homens, ela tinha uma convivência muito importante com outros escritores como Fernando Sabino e Rubem Braga, e com outras figuras da cultura brasileira como Maria Bethânia, Chico Buarque e Caetano Veloso. É uma turma muito representativa do que era esse país e ainda é. Dizer que você pode conhecer o Brasil por uma brasileira soa um pouco complicado, de certa maneira. Tudo isso faz parte do mundo da Clarice e tudo isso ficava me empolgando, porque você acha que você está entrando por uma porta e está entrando em uma mansão. Você está entrando num quartinho que é Clarice, não que Clarice seja um quartinho, ela também é uma mansão. É um luxo poder ficar estudando muito tempo este mundo.

Livraria da Folha - No livro, há dois capítulos chamados "O Ovo É Branco Mesmo" e "Galinha ao Molho Pardo" que fazem referências ao conto "O Ovo e a Galinha" e ao romance infantojuvenil "A Vida Íntima de Laura". Esses elementos acabaram influenciando a escolha desses títulos? Durante a sua pesquisa, você localizou os agentes suicidas que Clarice fala no conto na escrita e na própria vida dela?
Moser - O ovo é o começo da galinha, e a galinha ao molho pardo é o final, é o que fica da galinha. Ela cresceu no Recife com galinhas e tem fascínio por galinhas. Tem muita galinha na obra dela. É uma coisa que para mim tem vários lados. Eu acho que a primeira é a maternidade que é uma questão central para a Clarice. A figura da galinha morta remonta à mãe dela que foi martirizada pela violência anti-semita da Rússia, antes de ela nascer. Tem um lado de ela escrever muito sobre pinto e ovo, isso é uma coisa mais fofa. O outro lado, essa coisa da galinha ao molho pardo, demonstra o lado violento da Clarice, uma coisa muito forte que eu acho que vários críticos têm falado. Eu acho que quem se aproximou da Clarice sempre fica muito chocado com isso, porque não é uma violência da televisão e do cinema. É uma violência muito mais forte do que a explosão, o carro ou a polícia. Quem já leu "A Paixão Segundo G.H." não esquece mais. É uma violência universal, é o fato de o mundo estar aqui totalmente à toa e não ter lógica para isso. Essa questão do ovo e da galinha ao molho pardo também recorre muito a essa receita, um pouco nojenta, cozinhando o animal, o próprio sangue e as pessoas comendo com arroz bem solto.

Livraria da Folha - Tanto que ela fala que se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com o seu sangue...
Moser - Isso. Muita gente está sendo comida, inclusive a própria família dela. Os pais dela foram martirizados e perseguidos. Mas, ao mesmo tempo, a moralidade da Clarice não é uma moralidade vegetariana. Eu sou vegetariano, mas é uma opção pessoal. Eu não acho que não comendo galinha vou salvar o mundo, é uma coisa estética minha. Ela rejeita isso totalmente, reconhece a violência do mundo e não tenta fugir dela. Essa violência é o que muitas vezes choca as pessoas.

Livraria da Folha - Ela disse que temos que respeitar a violência.
Moser - Tem que respeitar. É uma coisa muito importante na Clarice. Uma das características mais importantes, para mim talvez a mais importante na parte filosófica, é a moralidade do mundo. Não tem nada que nós, seres humanos, podemos fazer para mudar o mundo. É uma coisa que ela aprendeu muito jovem, quando ela nasce para salvar a mãe e não salva. Não tem jeito para o mundo, embora na obra dela, ela evolui muito nisso e vai tentar fazer uma coisa bem pequena dela mesmo: falar do indivíduo, da pessoa, da alma, dessas questões que atormentam a todos nós sem que tenha uma solução. A moralidade não tem mal, é uma invenção humana para nos sossegar, mas não existe mesmo.

Livraria da Folha - Aliás, ela fala bastante em invenção nas obras, até invenção de si própria.
Moser - Ela fala que a primeira escolha do ser humano é a escolha da própria máscara. 'Como eu vou estar no mundo, quem que eu vou ser?'. Isso é uma coisa que ela nunca resolve. De um lado, ela quer ser uma dona de casa, ela é um pouco careta, um pouco correta.

Livraria da Folha - Como as personagens Teresa Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares, se bem que a Ilka existiu realmente. Ela fala como as moças tem que se comportar e se embelezar, por exemplo.
Moser - Sim, ela dá até receita de maionese. Tem um lado de Clarice importantíssimo. Ela era de fato mãe, dona de casa, diplomata e jornalista. Ela tem uma vida muito normal, em muitos sentidos. Mas a normalidade dela coexistia com uma genialidade artística que nem sempre combinava com a preparação da maquiagem e dessas coisas. É por isso que a Clarice fascina a gente, eu acho, porque ela tem de tudo. Ela não escolheu uma máscara e foi por aí. Ela estava se inventando sempre pela escrita também.

Livraria da Folha - Clarice fala que as pessoas tem que ter firmeza para encarar a vida. Na escrita, ela sempre faz alguns alertas. Por que?
Moser - Porque ela precisava de coragem. Ela foi uma mulher corajosa. Não só de enfrentar o dia a dia que todos nós temos que enfrentar, mas a coragem da Clarice é esse confronto que ela trava ainda menina, aos nove anos, quando a mãe dela morre. Ela já está desafiando Deus e o mundo inteiro. E isso precisava de uma coragem danada. É isso que talvez não temos. Eu não tenho coragem de enfrentar Deus todo dia. Tenho meu trabalho, tenho que levar roupa para a lavanderia, fazer comida, as coisas que temos que fazer. Ela, ao lado disso, fascina as pessoas justamente porque ela fez coisas tão corajosas que pouquíssima gente consegue fazer. Então, a gente a vê fazendo, com um pouco de admiração.

Livraria da Folha - Em "O Búfalo", ela não nomeia, apenas cita "a mulher", durante o conto inteiro, assim como no livro infantil "A Mulher que Matou os Peixes". Como era a relação da Clarice entre o sujeito indeterminado no feminino, com a mulher sendo universalizada, e a mulher sendo determinada em outras obras?
Moser - Eu diria que a mulher nomeada não faz diferença, é uma escolha estética. A mulher de "O Búfalo" vai para o zoológico e a Ana ao Jardim Botânico para enfrentar justamente essa vida que não tem nome, essa vida animal, a vida do búfalo e da vitória-régia. É essa vida que está dentro de todos nós, uma vida que não tem nome, que não tem sexo, que não tem nacionalidade e linguagem. Nessa vida anônima, o símbolo maior é justamente a barata. Porque a mulher G.H. é uma mulher à toa, também não é nomeada. Não sei o que seria o G. Ela é a barata. Diante dela tem o mesmo sangue, a mesma matéria viva que tem na barata. É uma coisa muito incômoda para a gente pensar que somos tão à toa quanto a barata, mas somos, isso é o que Clarice nos ensina.

Livraria da Folha - Clarice diz que a esfinge não a decifrou e ela não decifrou a esfinge. Gostaria de saber se você foi decifrado por Clarice e se ela o decifrou.
Moser - Ela me decifrou por inteiro, ela conhece a gente, isso não tem dúvida. Se eu a decifrei? Eu acho que eu fiz o que eu pretendia fazer nesta obra que era conviver com ela e entender certas coisas que eu não entendia sobre ela, sobre a vida dela, de onde vinha. Lendo-a, a gente fica com curiosidade de saber quem é essa mulher. Agora eu sei muitíssima coisa sobre Clarice. Eu sei o tipo de sangue dela. É B+. Eu não sei o meu, sabe? Muita coisa eu sei sobre ela, quem ler o livro vai saber também. Tem de fato muito mistério em Clarice.

Livraria da Folha - E ela fala que o mistério dela é não ter mistério.
Moser - Não tem, mas no caso dela é o mistério da criação, o mistério de uma grande artista, de um talento do tamanho que ela teve. Eu acho que isso sempre vai ficar misterioso.

"Clarice,"
Autor: Benjamin Moser
Editora: Cosac Naify
Páginas: 648
Quanto: R$ 79,00

Sempre Clarice

Para ler-Clarice,-de Benjamin Moser

QUARTA-FEIRA, 2 DE DEZEMBRO DE 2009

"Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano.E solitário."(Clarice Lispector)


Clarice Lispector(1920-1977),permanece e permanecerá como uma estrela de alta excelência que paira sobre
a literatura brasileira não como anjo benfasejo,mas como gênio tutelar galgado(como Machado e Guimarães Rosa)a alturas quase inacessecíveis,dada a qualidade de sua escrita,a raridade de sua interpretação do ser humano.Clarice,que em vida esteve longe de ser a unanimidade de hoje,colecionando invejosos que desdenhavam de sua literatura,tida como hermética,exercício de narcisismo,entre outras "preciosidades",sofreu na pele a incompreensão de muito de seus contemporâneos.Tida como "meio doida"até,a escritora ficou anos em um limbo-reconhecida como uma escritora de escritores,mas enlameada por rótulos que a desqualificavam.
O que esses críticos pedestres/pedantes não entenderam(ou não quiseram entender),é que Clarice não buscava histórias,enredos,dizer o óbvio.O que Clarice sempre buscou foi o outro lado da anedota,do real,esse lado que ,sendo pouco iluminado,muitas vezes esmaecido,escuro,é pouco explorado,procurado e compreendido.
O americano Benjamin Moser,depois de estudar literatura brasileira na Universidade Brown,apaixonou-se pela literatura de Clarice,o que o levou a cinco anos de pesquisas para escrever a considero a melhor biografia da escritora até hoje.
Analisando a vida de Clarice através de três vórtices-A morte da mãe,Mania,de sífilis(anos após ter sido violentada em um progrom na Ucrânia),seu amor frustrado pelo escritor gay Lúcio Cardoso e sua perseguição quase obsessiva pelo sentido da vida-o que passa pelo gnosticismo judeu.
Moser enfatiza que a literatura de Clarice ,não somente busca sempre evadir-se de qualquer enredo horizontal,mas vai muito além,ao querer responder à pergunta-O que é o ser?Pergunta clássica da filosofia
do século XX,principalmente na obra magistral de Martin Heidegger,da literatura de Kafka(outro judeu genial e porque não,atormentado),e da psicologia de Jung.Clarice encara essa dura missão-a de investigar o ser no mais recôndito de nós,em nossas contradições inerentes,nossos medos ancestrais,nosso paradoxo de seres mortais procurando por um possível Deus que nos console dos horrores da existência.
Clarice,que sempre viveu em profunda angústia existencial,evidencia o poder da literatura de ir além do que nos foi dado como sendo o real,de mergulhar(sabendo das possíveis consequências)no inconsciente para pelo menos tentar algum arremedo de resposta.
Moser nos dá uma Clarice de perto,muito de perto.Não o mito,a esfinge do Leme,aquela pessoa que de tão rara,era até antipática(para alguns bossais).Emerge do livro,uma Clarice palpável,sem mistificações.
Para os especialistas em Clarice e para todos aqueles que a amam,um maravilhoso presente de Natal.
Clarice,que (para mim)é com Virginia Woolf uma das duas maiores escritoras do século XX,ainda será analisada,outros tentarão decifra-la(em vão talvez),mas Moser abriu uma grande picada no estudo da vida da escritora.Vale a pena  le-lo.
Trecho-"A escritora francesa Heléne Cixous declarou que Clarice era o que Kafka teria sido se fosse mulher,ou 'se Rilke fosse uma judia brasileira nascida na Ucrânia.Se Rimbaud fosse mãe,se tivesse chegado aos cinquenta.Se Heidegger tivesse deixado de ser alemão."
Uma leitura inprescindível aos que amam e admiram Clarice.

Clarice,-de Benjamin Moser,Editora CosacNaif,2009,648 páginas.
 
http://minhaliteraturaagora.blogspot.com/2009/12/para-ler-clarice-de-benjamin-moser.html

Ainda Clarice

Clarice Lispector, o sol escuro do Brasil

The New York Times
Tomás Eloy Martinez
Há pouco mais de meio século, a força de transformação da literatura da América Latina assombrava os países centrais, que haviam alcançado a modernidade graças ao desenvolvimento de suas indústrias, suas descobertas tecnológicas, suas redes de comunicação, seus trens e aviões. Mas sua linguagem e sua capacidade de narrar a sociedade estavam apergaminhadas, cansadas, e supriam a falta de ideias e sangue novos com jogos teóricos que não levavam a lugar nenhum. Na América Latina, o afã de criar esse mundo novo expresso pela revolução cubana parece ter se concentrado na literatura.

Clarice Lispector, em foto de 1976

  • Folha Imagem
Enquanto os países do Rio da Prata, México e Colômbia respiravam a plenos pulmões os novos ares, o gigante Brasil mantinha-se impermeável a tudo o que não vinha de si mesmo. O Brasil mudava de pele, mas se alimentava de sua própria música e de sua própria herança literária. Certa vez perguntaram a João Gilberto por que ele fazia tão poucos shows no estrangeiro, onde sua música tinha um sucesso clamoroso. 

"Para quê?", respondeu. "No Brasil meu público é tão numeroso como no resto do mundo e, além disso, ele me escuta com mais felicidade".

Em meados do século 20, o grande nome da literatura brasileira continuava sendo o de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), que escreveu uma sucessão de obras mestras mediante o simples recurso de observar atentamente a paisagem interior dos pensamentos e dos sentimentos para contá-los de uma maneira incomum, inesperada. Um de seus maiores herdeiros é João Guimarães Rosa, que impressiona mais do que tudo por seu virtuosismo verbal e pelo ouvido finíssimo com que capta a música das vozes do sertão, no nordeste profundo de seu gigantesco país.

Entretanto, a única filha direta e legítima de Machado de Assis é Clarice Lispector, cuja obra misteriosa começa a difundir-se nos Estados Unidos com tanto ímpeto quanto a de Roberto Bolaño. O chileno foi consagrado pela revista The New Yorker, e o influente The New York Review of Books rendeu tributo a Lispector com um ensaio extenso de Lorrie Moore, a jovem deusa do minimalismo.

Moore adverte que a fama magnética de Lispector se deve em parte aos estudos sobre sua obra reunidos por Hélène Cixous, a quem as universidades francesas devem o apogeu dos estudos sobre a mulher. Na França, recorda Cixous, a extraordinária abstração da prosa de Lispector fez com que a vissem como uma filósofa. Quando ela assistiu a um encontro de teóricos sobre sua obra, abandonou a sala na metade da homenagem, dizendo que não entendia uma só palavra do jargão.

Uma das primeiras vezes que se ouviu falar de Lispector em Buenos Aires foi no final dos anos 70, quando circulou a lenda de que ela havia se queimado viva em sua casa no Rio de Janeiro.

Em 1969 o mítico editor argentino Paco Porrúa havia publicado na editora Sudamericana alguns de seus livros: os romances "A Maçã no Escuro", "A Paixão Segundo G.H." e "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", assim como os admiráveis contos de "Laços de Família". Lispector rompia com todas as convenções da arte de narrar e arrancava de cada palavra um tremor secreto, enigmático. Suas revelações eram como as de um teólogo oriental participando de uma dança ritual africana.

Quando a lemos, deslumbrados, na revista "Primera Plana", pensamos que era imperativo viajar para o Rio de Janeiro para decifrar seus segredos. Sara Porrúa, que na época era mulher de Paco, quis ser a primeira nessa busca.

As primeiras notícias que enviou dissipavam a fábula de que Lispector fora queimada viva. Sua cama havia se incendiado acidentalmente quando dormiu com um cigarro aceso. Mas a haviam resgatado a tempo. Sua estranha beleza tártara (os olhos amendoados e rasgados, as maçãs do rosto salientes, a constante expressão de angústia de seu rosto) havia desaparecido quando queimou o lado direito do corpo, imobilizando-lhe o braço. Nada, entretanto, apagava sua paixão por narrar o mundo.

Sara a encontrou mais algumas vezes e, com sua imagem intensa, inesquecível, perdeu-se nas selvas da Guatemala e transformou-se em personagem de Cortázar.

Dar uma ideia de sua imaginação só é possível através de algumas citações. O começo do romance "Uma Aprendizagem..." (1969) é uma frase que vem do nada. A porta de entrada desse livro é uma vírgula: ", estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava o serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos...".

Antes desse comentário doméstico e trivial, Lispector surpreendeu o leitor com uma advertência que é também uma afirmação de seu ser:

"Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte que eu. C.L."

E no final de "Água Viva", ergue a voz: "Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto".

Seu desmedido desafio à morte impregna muitas das crônicas reunidas em "Revelación del Mundo", que incluem todas as que escreveu para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Outras, inéditas, serão publicadas no ano que vem em espanhol sob o título de "Descubrimientos".

Lispector continua sendo um enigma velado que assombra em cada frase, em cada desvio da vida. Morreu aos 57 anos de um câncer nos ovários, depois de ter passado os últimos anos fechada na solidão de sua casa do Leme, perto das areias de Copacabana.

Seu autorretrato cabe em uma frase: "Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa".

Tradução: Eloise De Vylder

Tomás Eloy Martínez

Tomás Eloy Martínez

Analista político e escritor, o argentino Tomás Eloy Martínez é autor de livros como "Vôo da Rainha" e "O Cantor de Tango".

 

Sobre Clarice Lispector

Clarice, a Rosetta de Ben

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão

Benjamin, ou Ben Moser, tem 33 anos, alto, simpático, jeitão desengonçado. Fala feito um condenado em seis, sete, não sei quantas línguas, entre elas o inglês (materna), o francês, tão bem quanto o inglês, alemão, holandês, italiano, português, espanhol, hebraico. Vamos parar por aqui. Ele traduz de todas estas línguas e "se ficar seis meses na Tailândia vou falar tailandês fluente". Brilhante à primeira vista, a uma segunda também.

Este poliglotismo esta em parte no DNA de uma avó judia acadêmica, filha de rabino que se casou com um brasileiro e um avô alemão. Ele cresceu em Houston, onde a mãe tinha uma livraria e até hoje é a Madame Cultura da cidade. Todas as noites recebe em casa ou na livraria.

"Se você é intelectual, escritor ou jornalista e passar por Houston, vai ser difícil escapar da minha mãe". Ele gosta dela e de Houston.

Estudou na França, depois na universidade Brown, nos Estados Unidos, sobre América Latina.

Marcha à ré. O avô dele, que casou com a judia acadêmica, filha de rabino, no começo do século 20, foi para o México, logo depois da revolução, e roubou preciosos manuscritos do século 16 do museu do México.

Se deu mal. Foi preso e banido para Portugal. A notícia chegou ao Recife onde descobriram que ele já era casado e tinha um filho. O casamento foi anulado, mas a avó se interessou pela história dos judeus no Recife. Anos mais tarde, quando estudou América Latina na Universidade Brown, Ben aprendeu português, passou seis meses no Brasil e foi fisgado pelo país.

Ben foi editor da Knopf em Nova York, decidiu ser escritor, hoje é também crítico e ensaísta. Publica uma coluna mensal sobre livros na revista Harpers, contribui regularmente para a New York Review of Books e faz matérias de viagens para a Condé Nast.

O interesse pela literatura brasileira começou pela poesia de Gregório de Mattos, passou pelos poetas mineiros da Inconfidência, depois Lúcio Cardoso, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, mas quem pegou Ben foi Clarice Lispector. O interesse surgiu, em parte, pelas histórias da avó sobre os judeus do Recife.

Logo no primeiro livro, Ben caiu no mistério de Clarice. Judia, refugiada da Ucrânia, de onde chegou com menos de um ano de idade, e a vida inteira teve um sotaque estranho que o fonólogo Pedro Bloch corrigiu mas que ela fez questão de descorrigir : "Não gosto de perder minhas características".

Ben investiu cinco anos da vida em Clarice. Leu e releu, falou com a família e centenas de outros brasileiros e estrangeiros que conheceram e estudaram Clarice.

Este poliglota, capaz de ver numa palavra dois, três, quatro significados e interpretações, sentiu-se capaz de decifrar talvez a melhor, com certeza a mais linda e misteriosa escritora brasileira, conhecida como a Esfinge.

Gregory Rabassa, o melhor dos tradutores do espanhol e do português, ficou embasbacado quando encontrou Clarice Lispector que "parecia Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf".

Foi comparada a Kafka, Rimbaud, Rilke, mas dizia "sou tão misteriosa que eu mesmo não me entendo" e ficava chocada com as comparações. Em Paris, saiu frustrada de um debate sobre a obra dela. Não entendeu nada do que diziam os geniais acadêmicos. Foi para casa, devorou uma galinha, escreveu um conto.

"Meu mistério é que não tenho mistério" é outra autodefinição que enriquece os segredos de Clarice. Em Nova York, Fernando Sabino falava nela sem parar e criticava meu pobre conhecimento sobre Clarice. Os dois tiveram uma longa paixão platônica e uma rica correspondência.

A irresistível biografia escrita por Benjamin Moser (Why this World, Oxford University Press), que recebeu ótimas criticas nos Estados Unidos, ilumina o mistério Clarice Lispector, tanto o literário quando o pessoal. Ele - e ela - hoje estão no circuito universitário americano, nas rádios, jornais e programas culturais. Será um bestseller como Paulo Coelho? Com certeza, não. Vai ser a mais lida das nossas escritoras gracas ao Ben? Provável, se ainda não é.

Benjamin esta semana sentou na cadeira onde durante quatro anos sentou Paulo Francis, responsável pela última frase do livro, o perfeito epitáfio de Clarice, segundo Benjamin: "Ela se tornou a própria ficção".

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Poemas de Brecht

Sempre atuais... Brecht é atemporal!!!!!

 

"OS DIAS DA COMUNA"

Bertold Brecht

Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram

Suas leis, para nos escravizarem.

As leis não mais serão respeitadas

Considerando que não queremos mais ser escravos.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e com canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

 

Consideramos que ficaremos famintos

Se suportarmos que continuem nos roubando

Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças

Que nos separam deste bom pão que nos falta.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos, de agora em diante

Temeremos mais a miséria que a morte.

 

Considerando que existem grandes mansões

Enquanto os senhores nos deixam sem teto

Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos

Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos, de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

 

Considerando que está sobrando carvão

Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão

Nós decidimos que vamos toma-lo

Considerando que ele nos aquecerá

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos, de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

 

Considerando que para os senhores não é possível

Nos pagarem um salário justo

Tomaremos nós mesmos as fábricas

Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria que a morte.

 

Considerando que o que o governo nos promete

Está muito longe de nos inspirar confiança

Nós decidimos tomar o poder

Para podermos levar uma vida melhor.

Considerando: vocês escutam os canhões

Outra linguagem não conseguem compreender

Deveremos então, sim, isso valerá a pena

Apontar os canhões contra os senhores!

 

Os que lutam
"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."

O Analfabeto Político
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem
das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo
 
 

Nada é impossível de Mudar
"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."

Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."
 

 SOBRE A VIOLÊNCIA
A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contem
Ninguém chama de violento.

A tempestade que faz dobrar as betulas
É tida como violenta
E a tempestade que faz dobrar
Os dorsos dos operários na rua?

 

DAS ELEGIAS DE BUCKOW
Viesse um vento
Eu poderia alcar vela.
Faltasse vela
Faria uma de pano e pau. FERRO
No sonho esta noite
Vi um grande temporal.
Ele atingiu os andaimes
Curvou a viga
A feita de ferro.
Mas o que era de madeira
Dobrou-se e ficou.

SE FÔSSEMOS INFINITOS
Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.

QUEM SE DEFENDE
Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legitima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.


 PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia varias vezes destruída--
Quem a reconstruiu tanta vezes? Em que casas
Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que
a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma esta cheia de arcos do triunfo
Quem os ergueu? Sobre quem
Triumfaram os Cesares? A decantada Bizancio
Tinha somente palácios para os seus habitantes? Mesmo
na lendária Atlântida
Os que se afogavam gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu alem dele?

Cada pagina uma vitoria.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões. 


EU SEMPRE PENSEI
E eu sempre pensei: as mais simples palavras
Devem bastar. Quando eu disser como é
O coração de cada um ficara dilacerado.
Que sucumbiras se não te defenderes
Isso logo veras.

 

O NECESSITO DE PEDRA TUMULAR
Não necessito de pedra tumular, mas
Se necessitarem de uma para mim
Gostaria que nela estivesse:
Ele fez sugestões
Nós as aceitamos.
Por tal inscrição
Estaríamos todos honrados.

LENDO HORACIO
Mesmo o diluvio
Não durou eternamente.
Veio o momento em que
As águas negras baixaram.
Sim, mas quão poucos
Sobreviveram!

EPITÁFIO PARA GORKI
Aqui jaz
O enviado dos bairros da miséria
O que descreveu os atormentadores do povo
E aqueles que os combateram
O que foi educado nas ruas
O de baixa extração
Que ajudou a abolir o sistema de Alto a Baixo
O mestre do povo
Que aprendeu com o povo.

NA MORTE DE UM COMBATENTE DA PAZ
À memória de Carl von Ossietzky
Aquele que não cedeu
Foi abatido
O que foi abatido
Não cedeu.
A boca do que preveniu
Está cheia de terra.
A aventura sangrenta
Começa.
O túmulo do amigo da paz
É pisoteado por batalhões.
Então a luta foi em vão?
Quando é abatido o que não lutou só
O inimigo
Ainda não venceu.

A MÁSCARA DO MAL
Em minha  parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado
Copreensivo observo

As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mal

REFLETINDO SOBRE O INFERNO
Refletindo, ouço dizer, sobre o inferno
Meu irmão Shelley achou ser ele um lugar
Mais ou menos semelhante a Londres. Eu
Que não vivo em Londres, mas em Los Angeles
Acho, refletindo sobre o inferno, que ele deve
Assemelhar-se mais ainda a Los Angeles.

Também no inferno
Existem, não tenho dúvidas, esses jardins luxuriantes
Com as flores grandes como árvores, que naturalmente fenecem

Sem demora, se não são molhadas com água muito cara.
E mercados de frutas
Com verdadeiros montes de frutos,no entanto
Sem cheiro nem sabor.E intermináveis filas de carros
Mais leves que suas próprias sombras,mais rápidos
Que pensamentos tolos,autómoveis reluzentes,nos quais

Gente rosada,vindo de lugar nenhum,vai a nenhum lugar.
E casas construídas para pessoas felizes,portanto vazias
Mesmo quando habitadas.
Também as casas do inferno não são todas feias
Mas a preocupacão de serem lançados na rua
Consome os moradortes das mansões nao menos que
Os moradores do barracos.
 

NA GUERRA MUITAS COISAS CRESCERÃO
Ficarão maiores
As propriedades dos que possuem
E a miséria dos que não possuem
As falas do guia*
E o silêncio dos guiados.

* FührerCOMO BEM SEI
Como bem sei
Os impuros viajam para o inferno
Através do céu inteiro.
São levados em carruagens transparentes:
Isto embaixo de vocês, lhe dizem
É o céu.
Eu sei que lhes dizem isso
Pois imagino
Que justamente entre eles
Há muitos que não o reconheceriam, pois eles
Precisamente
Imaginavam-no mais radiante

JAMAIS TE AMEI TANTO
Jamais te amei tanto, ma soeur
Como ao te deixar naquele pôr do sol
O bosque me engoliu, o bosque azul, ma soeur
Sobre o qual sempre ficavam as estrelas pálidas
No Oeste.
Eu ri bem pouco, não ri, ma soeur
Eu que brincava ao encontro do destino negro -
Enquanto os rostos atrás de mim lentamente
Iam desaparecendo no anoitecer do bosque azul.
Tudo foi belo nessa tarde única, ma soeur
Jamais igual, antes ou depois -
É verdade que me ficaram apenas os pássaros
Que à noite sentem fome no negro céu.

A MINHA MÃE
Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores
nascem, borboletas esvoejam por cima...

Ela, leve, não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!
 

TAMBÉM O CÉU
Também o céu às vezes desmorona
E as estrelas caem sobre a terra
Esmagando-a com todos nós.
Isto pode ser amanhã.

O NASCIDO DEPOIS
Eu confesso: eu
Não tenho esperança.
Os cegos falam de uma saída. Eu Vejo.
Após os erros terem sido usados
Como última companhia, à nossa frente
Senta-se o Nada.

EPÍSTOLA SOBRE O SUICÍDIO
Matar-se
É coisa banal.
Pode-se conversar com a lavadeira sobre isso.
Discutir com um amigo os prós e os contras.
Um certo pathos, que atrai
Deve ser evitado.
Embora isto não precise absolutamente ser um dogma.
Mas melhor me parece, porém
Uma pequena mentira como de costume:
Você está cheio de trocar a roupa de cama, ou melhor
Ainda:
Sua mulher foi infiel
(Isto funciona com aqueles que ficam surpresos com essas coisas
E não é muito impressionante)
De qualquer modo
Não deve parecer
Que a pessoa dava
Importância demais a si mesmo

UM HOMEM PESSIMISTA
Um homem pessimista
É tolerante.
Ele sabe deixar a fina cortesia desmanchar-se na língua
Quando um homem não espanca uma mulher
E o sacrifício de uma mulher que prepara café para seu amado
Com pernas brancas sob a camisa -
Isto o comove.
Os remorsos de um homem que
Vendeu o amigo
Abalam-no, a ele que conhece a frieza do mundo
E como é sábio
Falar alto e convencido
No meio da noite.
 

SOUBE
Soube que
Nas praças dizem de mim que durmo mal
Meus inimigos, dizem, já estão assentando casa
Minhas mulheres põem seus vestidos bons
Em minha ante-sala esperam pessoas
Conhecidas como amigas dos infelizes.
Logo
Ouvirão que não como mais
Mas uso novos ternos
Mas o pior é: eu mesmo
Observo que me tornei
Mais duro com as pessoas.

QUEM NÃO SABE DE AJUDA
Como pode a voz que vem das casas
Ser a da justiça
Se os pátios estão desabrigados?
Como pode não ser um embusteiro aquele que
Ensina os famintos outras coisas
Que não a maneira de abolir a fome?
Quem não dá o pão ao faminto
Quer a violência
Quem na canoa não tem
Lugar para os que se afogam
Não tem compaixão.
Quem não sabe de ajuda
Que cale.
 

ACREDITE APENAS
Acredite apenas no que seus olhos vêem e seus ouvidos
Ouvem!
Também não acredite no que seus olhos vêem e seus
Ouvidos ouvem!
Saiba também que não crer algo significa algo crer!


COM CUIDADO EXAMINO
Com cuidado examino
Meu plano: ele é
Grande, ele é
Irrealizável.
 

OS ESPERANÇOSOS
Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Lhes devolvam algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!

NO SEGUNDO ANO DE MINHA FUGA
No segundo ano de minha fuga
Li em um jornal, em língua estrangeira
Que eu havia perdido minha cidadania.
Não fiquei triste nem alegre
Ao ver meu nome entre muitos outros
Bons e maus.
A sina dos que fugiam não me pareceu pior
Do que a sina dos que ficavam.
 

PARA LER DE MANHÃ E À NOITE
Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.

DE QUE SERVE A BONDADE
1
De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?
De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
2
Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor: que a torne supérflua!
Em vez de serem apenas livres, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.

A Cruz de Giz
Eu sou uma criada. Eu tive um romance
Com um homem que era da SA.
Um dia, antes de ir
Ele me mostrou, sorrindo, como fazem
Para pegar os insatisfeitos.
Com um giz tirado do bolso do casaco
Ele fez uma pequena cruz na palma da mão.
Ele contou que assim, e vestido à paisana
anda pelas repartições do trabalho
Onde os empregados fazem fila e xingam
E xinga junto com eles, e fazendo isso
Em sinal de aprovação e solidariedade
um tapinha nas costas do homem que xinga
E este, marcado com a cruz branca
é apanhado pela SA. Nós rimos com isso.
Andei com ele um ano, então descobri
Que ele havia retirado dinheiro
Da minha caderneta de poupança.
Havia dito que a guardaria para mim
Pois os tempos eram incertos.
Quando lhe tomei satisfações, ele jurou
Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso
Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.
Eu corri, aterrorizada. Em casa
Olhei minhas costas no espelho, para ver
Se não havia uma cruz branca.

As margens
Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem

O Vosso tanque General, é um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito-
Sabe pensar